Alguns acadêmicos historiadores, e
historiadores acadêmicos, sustentam a tese de que vivemos numa pós-colonialidade, ignorando solenemente
o fato de que hoje vivemos de fato num
sistema colonial refinado em seu mais alto grau, uma vez que a modernidade e o colonialismo
são dois lados da mesma moeda dessa contemporaneidade que foi inventada pela
elite europoide e imposta através da violência da colonização arrogante e
sanguinária e do mercado infame[1] que instituiu a divisão racial do
trabalho e de salários, da produção cultural e de conhecimento, criando um
padrão de poder e uma razão universal que exclui as epistemologias daquilo que
não é espelho[2].
Uma vez negado o outro e ao seu
saber, esse padrão representativo assimilado, transforma tudo ao seu redor em
sua imagem e semelhança[3],
introjetando seus princípios como regras fazendo uso da educação, da mídia e da
força militar como instrumentos de pacificação, correção e coerção, além de todos os meios necessários[4] para efetivar tal processo estuprador
de humanidades.
A educação nossa de cada dia que
nos dão hoje, tem funcionado como um dos instrumentos mais eficazes usados
nesse processo violador que foi inaugurado no Brasil colônia pelos jesuítas
franceses, cujos padres introjetaram em nossas artérias coronárias e cerebrais,[5] o Deus
da cultura europoide, através do processo de assimilação[6] e de cooptação. Desse modo, por mais
que se denuncie e se desconstrua o engodo colonial, a colonização mental
assegurada pela ideia de um Deus europoide, permanece arraigada nos
descendentes de escravizados no Brasil, se tornando assim, um dos instrumentos
mais poderosos de controle na implementação da servidão contemporânea nesse
sistema de escravização moderna, uma vez que é passado de geração a geração
pelo próprio escravizado, e perpetuamente reforçado pelo sistema educacional,
político e midiático tupiniquim laico-oficial.
Hoje, é público e notório que, toda
a desordem existente na Urbi Et Orbi
provém unicamente dessa ordem estabelecida, que se revela como um fenômeno
entrópico jacente. Fenômeno esse que se despe desavergonhadamente, de forma
explícita e patética, vil e vulgar, a cada momento, nos micros e macrocosmo dessa
sociedade, tal como qualquer violência de cada dia que se mostra banalizada e cultuada
pela hipocrisia sincera dessa sociedade honestamente cínica, espelhada pela
educação laico-colonial pós-moderna.
Dessa maneira, como produtos expostos
nas vitrines sociais exibindo tarja preta em horário nobre, com validade e código
de barras de valores monorracial, a criança é publicamente exposta e manipulada
pela escola europoide num perverso bulliyng
pedagógico desde o ensino infantil até
a academia, que realiza com esmero sua formatura, onde ele, enfim, se torna um
legítimo multiplicador do efeito zumbi, e dessa forma, como
professor, de oprimido a opresso, passa a ser um multiplicador de zumbis hollywoodianos; e na medida em
que o seu reflexo for hierarquicamente contemplado por suas vítimas discentes,
devido ao desempenho indecente de seu papel
social, vai ocorrendo o processo de
fabricação de Medusas reprodutoras de
efeito-zumbis em série, consequente dessa virulenta e prostituída pedagogia serial killer dos Tempos Modernos[7]
professada por nossa progressista escola
laico-colonial fundamentada pela
eugenia evangélico-empresarial.
Destarte, tais valores enviesados
trazidos pelos bem polidos espelhos eurocêntricos, travestidos de terno,
gravata, camisa de seda e bravatas, repetem simbolicamente o ato de presentear povos
autóctones em terras exóticas; e como num moto-perpétuo, retroalimentam esse
público que se acha povo, sem que os mesmos percebam nesse vil processo, a
presença do touro de Dusirís[8] seguindo
o cortejo dessa fúnebre procissão, que tem a frente o lendário Cavaleiro montado em seu Cavalo de Tróia, fazendo do norte a direção.
A extrema violência desse episódio do
Rei Dusirís me veio de assalto à cabeça, quando fui interpelado
para explicar os motivos de estar realizando um churrasco pedagógico, perante uma direção democraticamente eleita
no Instituto de Educação Clélia Nanci; localizado na cidade de são Gonçalo, Rio
de Janeiro; poucos meses logo após um desgastante pleito onde o corpo docente e
discente se se uniu, desdobrando-se para garantir o processo e o senso de
coletividade que elegeu esses novos gestores
da coisa pública; tendo nos unido dessa maneira, no propósito de melhorar a
comunidade escolar e fortalecer o protagonismo e a autonomia do sujeito no
processo formativo de sua cidadania.
Nesta cena explícita de violência
simbólica, podemos enfim observar que quando o discurso e a prática se
desencontram, a práxis acaba sendo o reflexo desse espelho de hipocrisias
sinceras que ordenam a desordem provocada pela própria ordem que a produz, ao
se perder em meio às contradições entre o propor e o impor de uma democratura macarthista post adoc[9]
nesse Consenso de Washington[10]
Educativo.
Portanto, podemos logicamente
afirmar que, existe muito mais entre os pratos de churrascos servidos na escola
pela generosidade de uma direção popular e os pratos de churrascos produzidos
politicamente durante uma atividade pedagógica que propõe o diálogo entre as
epistemologias invizibilizadas, negadas e renegadas produzidas pelos
subalternizados, do que imagina a nossa vã filosofia[11]
do pater elegem quam ipse tulisti si[12]
desde os diversos Muros de escolas aos Muros de Berlim.
[1]
Assim era denominado o Tráfico de negros africanos através do Atlântico.
[2]
Alusão não somente a cultura europoide greco-romana, mas também ao fato deles
considerarem o negro e o indígena como não humano por trocarem ouro por um
pedaço de espelho. Desse modo, pelos valores diferentes conferidos a objetos
culturais diferentes, foram considerados destituídos de razão.
[3]
Referência ao fundo messiânico onde essa
narrativa inicialmente se sustentou e tem se mantido.
[4]
Referência a notória frase proferida por Malcon X para salientar a dicotomia
entre o discurso e a práxis. Ou seja, o padrão de poder estabelecido naturaliza
a sua prática enquanto na contramão uma contra-narrativa nesse sentido é
criminalizada e exterminada de forma vil.
[5]
Pela emoção e pela dor, num processo de recompensas e punições.
[6]
Processo de dominação criado pelos franceses.
[7]
Alusão ao filme de Charlie Chaplin com o mesmo nome.
[8]
Dusirís era um Rei extremamente cruel que sacrificava os estrangeiros que
chegava as suas terras colocando-os no interior de um touro de bronze e sobre
uma fogueira, literalmente fritando-os até a morte.
[9] No
sentido causal de uma consequência; ex. se depois
da tempestade vem a bonança, então a tempestade é necessária ao bom
andamento de um bom termo.
[10]
Este consenso formulou uma bula para o 3º mundo.
[11]
Referência a contradição de, a escola professar iminentemente os filósofos
masculinos, sendo filosofia feminina como o próprio nome infere. Ou seja, ficam
evidente e inevitável os conflitos gerados pela utilização dos conceitos
eurocêntricos e pelas práticas colônias, justamente usadas por quem se diz pelo
diálogo e pela construção coletiva na formação do indivíduo como sujeito
protagonista de sua história.
[12] “sofre a lei que tu mesmo elaboraste”

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