É
necessário que reelaboremos nossas africanidades
que foi, e tem sido progressivamente embranquecidas;
e deste modo, desvirtuadas de sua senda
real de espiritualidades.
Essa é a missão primeira do Akipalo[1]
contemporâneo, que nada mais é do que um decodificador de seu tempo e espaço contínuos.
Esse
processo que por hora vivenciamos, teve seu início quando, em sua sanha
egocêntrica de controle e na voracidade insaciável pelo poder, a insipida branquitude
criou o conceito de Estado, na medida
em que traçava linhas e mapas sobre a superfície do planeta, hierarquizando
vernáculos em idiomas e dialetos, alternados por adjetivos étnicos abjetos classificados
por cores, e arrogantemente, de forma pretensiosa, outorgando a natureza o
lugar de sua subordinada, num pervertido e dissimulado exercício de mascarar e esconder,
a fim de invisibilizar uma história milenar, a história dos povos originários
do planeta terra; a história do ser humano.
Este foi o
único legado da soberba população
leucodérmica[2];
Um legado que se traduziu pelo terror perfidamente incutido nos povos originários
ao instituir o mercado infame[3] e
a escravização[4] como
juízo de valor do homem de bem. Desumanizando
deste modo, a todos que não fosse seu espelho[5], e
classificando a si mesmo como ser padrão para
se definir a existência da pessoa no contexto histórico e biológico. Assim,
todos nós somos tudo, menos gente. Gente
tem direitos de pessoa, física e jurídica. Não gente de cor, que destituída até do próprio humor, sofre a dor assimilada ao
carregar, sob chibata, o Andor de seu inquisidor.
A memória
viva da dor presente no fundo da alma escrita pelo corte profundo do chicote
certeiro, dor que hoje é decorada como homilia através das sangrentas páginas dos
pueris livros didáticos, num processo de catequese homicida Estatal, deixa nosso espírito em
carne viva, e chagas agudas que nos fazem agonizar, uma vez perpetuada por gerações.
A consequência
disso é a requintada construção de um espírito perdido, sem rumo, sem senso, nem sul[6], com sua geografia definida pelo desdém leucodérmico empedernido, quando tem sua história transformada em narrativas trágicas pelas brancas epopeias das trevas medievais em sua história humana interrompida por pseudo-gente-sanguessuga.
Portanto, qualquer intervenção nesse dolo categórico, as
Africanidades não podem ser passíveis de delimitações estabelecidas por meros mapas ou geografias acadêmicas, pois essas são Africanicidades formadas por histórias:
pelas histórias que formam o Ser e as
histórias pelas quais o ser é formado em sua caminhada dialógica e diatópica de vir-a-ser o que se é.
[1]
Contador de histórias.
[2]
Sem melanina.
[3] Tráfico
negreiro.
[4] Na
Declaração de Durban elaborada por ocasião da Conferência ocorrida em 2001 na
África do Sul; promovida pela ONU; a Escravidão,
o tráfico Negreiro e a Colonização em África foram
considerados crimes da história;
portanto, na condição de crime contra a
humanidade, foram tipificados como imprescritíveis.
[5]
Referência ao processo de apropriação cultural Greco-romana e ao epistemicídio
melanodérmico.
[6]
Referência as epistemologias do Sul abordada por Boaventura Souza Santos.

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