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domingo, 15 de outubro de 2017

Africanidades



É necessário que reelaboremos nossas africanidades que foi, e tem sido progressivamente embranquecidas; e deste modo, desvirtuadas de sua senda real de espiritualidades. Essa é a missão primeira do Akipalo[1] contemporâneo, que nada mais é do que um decodificador de seu tempo e espaço contínuos.

Esse processo que por hora vivenciamos, teve seu início quando, em sua sanha egocêntrica de controle e na voracidade insaciável pelo poder, a insipida branquitude criou o conceito de Estado, na medida em que traçava linhas e mapas sobre a superfície do planeta, hierarquizando vernáculos em idiomas e dialetos, alternados por adjetivos étnicos abjetos classificados por cores, e arrogantemente, de forma pretensiosa, outorgando a natureza o lugar de sua subordinada, num pervertido e dissimulado exercício de mascarar e esconder, a fim de invisibilizar uma história milenar, a história dos povos originários do planeta terra; a história do ser humano.

Este foi o único legado da soberba população leucodérmica[2]; Um legado que se traduziu pelo terror perfidamente incutido nos povos originários ao instituir o mercado infame[3] e a escravização[4] como juízo de valor do homem de bem. Desumanizando deste modo, a todos que não fosse seu espelho[5], e classificando a si mesmo como ser padrão para se definir a existência da pessoa no contexto histórico e biológico. Assim, todos nós somos tudo, menos gente. Gente tem direitos de pessoa, física e jurídica. Não gente de cor, que destituída até do próprio humor, sofre a dor assimilada ao carregar, sob chibata, o Andor de seu inquisidor.

A memória viva da dor presente no fundo da alma escrita pelo corte profundo do chicote certeiro, dor que hoje é decorada como homilia através das sangrentas páginas dos pueris livros didáticos, num processo de catequese homicida Estatal, deixa nosso espírito em carne viva, e chagas agudas que nos fazem agonizar, uma vez perpetuada por gerações. 

A consequência disso é a requintada construção de um espírito perdido, sem rumo, sem senso, nem sul[6], com sua geografia definida pelo desdém leucodérmico empedernido, quando tem sua história transformada em narrativas trágicas pelas brancas epopeias das trevas medievais em sua história humana interrompida por pseudo-gente-sanguessuga.

Portanto, qualquer intervenção nesse dolo categórico, as Africanidades não podem ser passíveis de delimitações estabelecidas por meros mapas ou geografias acadêmicas, pois essas são Africanicidades formadas por histórias: pelas histórias que formam o Ser e as histórias pelas quais o ser é formado em sua caminhada dialógica e diatópica de vir-a-ser o que se é.



[1] Contador de histórias.
[2] Sem melanina.
[3] Tráfico negreiro.
[4] Na Declaração de Durban elaborada por ocasião da Conferência ocorrida em 2001 na África do Sul; promovida pela ONU; a Escravidão, o tráfico Negreiro e a Colonização em África foram considerados crimes da história; portanto, na condição de crime contra a humanidade, foram tipificados como imprescritíveis.
[5] Referência ao processo de apropriação cultural Greco-romana e ao epistemicídio melanodérmico.
[6] Referência as epistemologias do Sul abordada por Boaventura Souza Santos.

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