Gesto nobre é digno de Rei e gesto pobre é coisa de preto. No plebiscito realizado no ano de 1993, para se escolher a forma de governo que os brasileiros desejavam para nosso país, mais de 60% votaram na monarquia. Votaram naqueles aristocratas que dilapidaram o país, que dizimaram um povo além de escravizar outro; transformando os sobreviventes desse genocídio em mortos-vivos.
Que filhos da pátria são esses que vêem na sua mãe (a mãe África) e no estupro de Lucy , genitora dos afro-brasileiros, uma vadia sem lar, reduzindo-a a uma caricatura de Geni . Porque o Brasil precisa decretar uma lei para adestrar uma consciência inexistente; a consciência da alforria, a consciência negra. Porque a vergonha de ser negro, imposta pela representação do preto-pobre-feio-burro-escravo, persiste para além dos livros didáticos, paradidáticos e midiáticos naturalizado pelo senso-comum.
Em nossa sociedade de príncipes e mendigos o preconceito não é crime, uma vez que não pode ser medido nem pesado. Nós, os assalariados, somos filhos dos escravos libertos largados pelas ruas, becos e vielas do Brasil pós-abolição. Incrivelmente tal abolição veio acompanhada, dois meses após especificamente, pela famigerada lei da terra, dando posse da mesma terra aos possuidores de rendas. Obviamente não houve nenhum crime de Racismo ou de Preconceito nessa lei, visto que em nenhum momento se mencionou alguma coisa sobre pessoas de cor; assim como a maioria esmagadora das leis brasileiras, confeccionadas especificamente para criação e manutenção de privilégios de quem já os possuem, além do achincalhamento dos despossuídos; tudo muito natural, aceitável, normal.
Por isso os Negros são os marginas, os parias, a ameaça que caminha pelas ruas escuras dessa sociedade que se protege e se exime através do sentimento do preconceito. Já que, convenientemente, tal sentimento não passível de criminalização. Portanto, conclui-se que no Brasil as leis venham especificamente para mudar o suficiente para que tudo possa continuar está. Se a mudança de paradigmas se encontra na Educação..., Que se desconfigure a educação. Afinal, é a Educação que muda a pessoa; e são as pessoas que mudam o mundo . Enquanto não se transforma essa escola-tijolo em escola-gente, continuamos a sermos humanos carentes e indecentes, afogados em normas regras, leis, bulas e fórmulas; prova de nosso estrondoso fracasso como seres humanos: Lucy Dingines com seu diploma de Hominídeo, mãe e mulher, que inspiram as Rosas Parker e Luizas Mahim, mostra o caminho do Tronco genealógico do respeito à vida, as diferenças e a si próprio como sujeito construtor da própria realidade. O tronco da mesma árvore em que o escravo circulava nove vezes para esquecer de si, de sua história como homem, passando a condição de coisa, de objeto pertencente a um infame caucasiano.
A educação pública outorgou para si o mesmo papel dessa árvore de outrora; educação eugenista, baseado no preconceito legal, normatizado e naturalizado pelo senso comum.
Luiza Mahim não foi uma princesa burguesa assim como princesa Isabel nunca foi Princesa guerreira para que pudesse libertar alguém de alguma coisa. Esse exemplo ilustra a tendenciosidade sacana da história contada pelos vencedores, donos de terras griladas, de mansões, donos do Brasil, da estatística e da opinião pública. Cuidadosamente esses “senhores” cuidaram para que fossem excluídos dessa mesma história, a participação dos verdadeiros construtores da nação: os negros e os indígenas. Assim como cuidam, através da educação e da religião, para que os mesmos continuem alijados do processo pleno de cidadania.
A Cleópatra hollywoodiana tornou-se branca de olhos azuis, além de cabelos intitulados de “bom”; a Rainha de Sabá assumiu seu branqueamento bíblico-ocidental, assim como Jesus de Nazaré; representado como um típico hippie americano, mesmo tendo nascido numa geografia de Hamas e Talibãns.
Falar de anjos loiros e rainhas brancas seria redundante numa sociedade movida pelo preconceito; afinal isso é tão natural. Somente o negro é antinatural nesse contexto canibal. A antropofagia do respeito é estado de direito, e direito adquirido não se discute, se acata. Nossa justiça se divide em Estado de Direito para uns, e Estado de Exceção para outros. O degradé melanínico aliado à condição social, tornou-se atualmente o único documento aceito como passaporte para a alforria desse estado de agonia.
Assim, quando a monarquia chegar, será possível a cada indivíduo, finalmente oficializar sua condição de Príncipe ou de Mendigo; saberemos então quem são os verdadeiros filhos da Pátria, não confundindo mais o homem honrado do contumaz canalha; já que os discursos de ambos são idênticos. A lei áurea da princesa burguesa fez da palavra liberdade um prosaico sinônimo de igualdade, que de maneira perversa, negou todos os direitos de cidadão ao “cidadão de cor”. Sem direito a vez, sem direito voto, sem direito à participação política, sem direito a terra ou exercer qualquer dos quesitos que caracterizasse o indivíduo como cidadão, ele foi libertado. Agora liberto tornou-se sinônimo de mendigo, de marginal, de refugo social.
Mas esse mesmo liberto, eternamente grato por sua nova condição, em dívida com a princesa e a monarquia pelo favor prestado, comemorava o silêncio de sua história. Mas como salvadores da pátria, os benevolentes senhores caucasianos oficializaram a liberdade da negrada, fazendo com que o trabalho escravo tornasse trabalho assalariado; agora o dono do preto passou a ser o empresário; Coisa de nossa pós-modernidade! Mas o negro continuou preto sem teto, sem terra
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