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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O Tempo Presente como Presente do Tempo desse Agora que é Sempre

Há momentos que se tornam imprescindível fazer-se a obrigatória leitura do livro da natureza, para que possamos receber as lições de cada dia no presente do agora.  Dessa maneira, perceberemos nos prolegómenos apresentado por quaisquer árvores encontradas no caminho, a necessidade de se buscar pela nossa consciência como único guia, já que estas mesmas árvores estão sempre a afirmar, reafirmar e confirmar que só é possível crescer holisticamente. Ou seja, ela, a árvore, não cresce só para cima, em direção ao sol, mas também para baixo, já que suas raízes precisam buscar as profundezas de Gaia a fim de também alimentar-se para além da fotossíntese; só assim o seu crescimento acontece. Dessa forma, ela nos ensina a importância de não só ver o que está exterior, mas também o que está no interior, afirmando que nem tudo é o que aparenta ser, inferindo dessa maneira que, o que está dentro é também está fora e vice-versa; e o que está em cima, também está em baixo. Dessa maneira é possível perceber que não vemos as coisas como elas são, mas sim, como nós somos.

Só será possível assimilar plenamente essa lição quando peremptoriamente cognizarmos que somos um com a natureza, já que somos parte de um todo, parte de uma mônada. Apesar dos nossos ouvidos serem constituídos por um consciente coletivo que os colocam na condição de moucos ou momentaneamente deficientes fazendo com que ouçamos sem que haja uma escuta, da mesma forma como Gaia se movimenta, a natureza está em permanente dialogia com as suas partes. É dessa maneira que os capítulos da vida podem seguir como o fluxo da água, flutuar na leveza do ar ou se aterrar nas profundezas dos inexplicáveis mistérios de Gaia.

Dessa forma, podemos afirmar que, quem não se detém para ler a natureza, certamente também não terá o que escrever sobre si mesmo, já que a inspiração fugirá de seu coração; e cada ser, tem como missão primeira, escrever o seu próprio livro da vida. Esse livro poderia ser uma epopeia repleta de poesias, um épico ou contos variados de variedades variantes. Poderia até mesmo ser um best seller ou uma obra-prima, desde que seja uma escrita junta realizada de forma conjunta.

Cada uma das folhas de papel que compõe esse livro da vida, tem sua gênese no fogo do sacrifício vivido por uma árvore, que nos revela, num generoso ato último que, o sentido da vida está justamente em reconhecer a morte como sua xifópaga. É dessa maneira que a natureza transforma, ao se transformar nesse ascendente redemoinho de ciclos fractais, como uma cascata que jorra de sua nascente, formando assim, aquele perene rio que nunca está pronto.

A exemplo das imponentes e plácidas montanhas que se elevam no azimute, devemos ser a testemunha de cada um de nossos pensamentos, sentimentos ou emoções de cada agora, a fim de alçar voo sobre quaisquer reações a cada ação praticada ou ainda por se praticar, para que esse livro não seja um mero palimpsesto subscrito por uma refazenda cultural.

Desse modo, nosso diálogo com a natureza deve sempre se dar através da estrondosa voz do silêncio, pois este a única voz que preenche qualquer vazio, para que possamos enfim, poder receber o presente que o Tempo nos oferta em cada agora na escola da vida.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

De Palmares a Hollywood

No cardápio da nutrição do Povo negro, constam alimentos como Datenas, Gugus Liberatos, Faustãos, Anas Marias Bragas e aí por diante; sem mencionar as séries, novelas e filmes hollywoodianizados que narram a sina de uma população eurodescendentes residentes da zona sul do Rio de Janeiro.

A imagem fixa desse exuberante cardápio é fornecida e abastecida pela mídia atendendo não só ao infame  mercado tupiniquim, mas também municiando o mercado branco do resto mundo, que vem vislumbrando nesse nosso Brasil varonil a imagem de uma supremacia branca que surfa com suas suntuosas pranchas sobre as ondas que acariciam as areias desde as praias do bairro do Leblon à Barra da Tijuca, ao mesmo tempo em que passa o trator sobre as comunidades da zona sul a zorna norte, transformando o sangue negro no piche que cobre essa estrada que lhes franqueiam privilégios e caprichos seculares locupletados nas  Senzalas e Plantations. Foi dessa forma que o Zumbi de Palmares de ontem se transmutou, travestindo-se e se transformando no zumbi de Hollywood de hoje, que de forma dolorosamente espalhafatosa e carnavalizada se exibe nos programas de talentos pós colonial.

Dessa maneira, nós tecno-quilombolas, nos alimentamos da dor e dos sofrimentos passados e antecipados, pomposamente ofertados por esse cardápio tentadoramente exposto, manipulado e oferecido por Troia, nessa exuberante vitrine que exibe um banquete de saborosas carniças pútridas, servidas sobre um vistoso tapete avermelhado pelas negras hemácias reais vertidas pelos atos eugênicos e genocidas garantidos por esse Estado monorracial gerido por essa elite raivosa; elite essa que o povo negro sempre elegeu e elege como seus representantes perpétuos, mesmo após sentirem-se extremamente mal ao se alimentarem de seu lixo midiático e religioso.

Portanto, nosso povo, viciado nesses alimentos, ainda após o sofrido mal-estar causado pelos mesmos, retornam diuturnamente a esse banquete que é servido em formato de rodízio ad eternum reproduzido pelas máquinas dos Tempos Modernos num processo moto-perpétuo de produção, a fim de degustar essa mesma dor que é regurgitada em forma de perenes reclamações, eternas revoltas e sentimentos sem fim de vinganças contra seu próximo que estiver mais próximo.

Dessa forma, enquanto o colonizador nos educar e nos alimentar, seremos ainda as suas ovelhas passivamente prostradas em templos religiosos e filas de espera; sem soberania, sem vida, só sobrevida; nutridos pela elite e alimentando a insana sanha dessa mesma famigerada elite.

O Zumbi contemporâneo pós escravidão, não planta mais o seu alimento; já que agora é fartamente alimentado pelas drogas da burguesia que lhe fortalece esse seu inconsciente coletivo construído para manter uma relação de dependência, tal como as núpcias de um parasita com seu hospedeiro.

Mudar um cardápio, um hábito, uma dependência, ou sair desse casulo holográfico contemporâneo, seria o mesmo que morrer para um mundo a fim de renascer para outra vida. Mas o medo da morte é um fator religioso, e no Brasil, religião, assim como política, não se discute. Por isso, o medo de transformar o Norte em Sul nos faz continuar essa nossa eterna andança de bar em bar, de religião a religião, tal como crianças assustadas; isso peremptoriamente nos faz, linearmente, negar o novo, enquanto permanecemos perdidos nessa noite escura, sem eira nem beira.

Esse processo de nos alimentar das dores e dos sofrimentos servidos pela mídia, pela religião e pela academia, faz com que o nosso deteriorado corpo-zumbi seja o repasto perfeito para essa elite hiena que se extasia ao assistir esse banquete da morte ao vivo de irmão contra irmão, nesse eterno e fúnebre fratricídio exibido como atração principal num dia de programação normal, já que ninguém se dispõe a mudar o próprio canal, mudando assim, sua realidade total. dessa forma, a nossa sobrevida é mantida ligada aos aparelhos de Tecnologias de Informação que nos faz ser mal informados e desinformados, detentores de uma vaidosa e falsa sensação de liberdade e de poder sobre aquele próximo que está longe do dinástico clube da elite nacional. Assim, antropofagicamente caminha a desumanidade.




sábado, 30 de novembro de 2019

Crônicas Negras



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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A Verdadeira História de Um Brasil Brasileiro

Lamentavelmente a história do Brasil ainda não foi escrita; e para que isso finalmente venha acontecer, o(s) historiador(es) não poderá jamais ser um fruto dessa pervertida academia colonizada e colonizadora, que se dedica com afinco, com esmero e extrema habilidade a função de legitimar essa mesma dominação que impôs um padrão de produção de conhecimento, de trabalho e de salários racializados; padrão este infligido através do crime da escravização e da violência colonial promovida pelo Estado. Nesse cruel e corrupto processo, foi criada e a nação brasileira fundamentada a partir de uma sociedade monorracial, quando na verdade, a sociedade é que nasce da nação e nunca o inverso.

Dessa maneira, o povo indígena e o povo negro alijados dessa sociedade que foi a única no mundo que importou, subvencionando imigrantes europeus a fim de embranquecer a república recém-criada na Terra da Santa Cruz, com o claro intuito de europeizar e formatar um povo brasileiro europóide.

Mas elite tupiniquim viu seu projeto de nação adernar, uma vez que o extermínio dos Povos Indígenas, a eugenia e o genocídio do Povo Negro, não foram suficientes para erradicar os genes dominantes imposto pela natureza a cada menina e menino que nesse solo nascia com melanina, frente aos genes recessivos dos degradados portugueses e imigrantes europóides.  

Foi assim que, recém libertos, em 1891 as negras e os negros pós escravizados, são juridicamente excluídos pelo Estado republicano do emprego formal, cabendo aos imigrantes europeus, até os dias de hoje, a prerrogativa de empregabilidade e o livre acesso a posse da terra. Assim funciona a nação brasileira: com diferentes povos habitantes, mas somente um deles possuindo a cidadania plena, com acesso aos benefícios e privilégios da presença do Estado de maneira positiva.

Dessa maneira, podemos inferir que a questão do negro no Brasil vai além da questão racial, visto que os sinistros fatos e as fúnebres estatísticas de ocorrências do racismo no Brasil mostram a impossibilidade do uso da letra da lei ou da falácia da igualdade racial, como recurso para a transformação de um indivíduo racista num indivíduo não racista, e menos ainda, antirracista. Portanto, a busca por uma improvável e mítica democracia racial deixou de ser prioridade para o portador de melanina; a questão do negro no Brasil, deixou de ser uma questão racial na disputa de poder; a questão do negro é uma questão nacional.

É inadmissível que o Estado nacional seja um Estado particular de uma elite monorracial que não se vê no povo, e uma vez que, tal como Narciso, ela não se enxergando no próprio povo, essa elite pouco se importa com as questões que envolve esse mesmo povo. Ela egoisticamente se volta para si mesma, desde as telas do cinema e da TV, das capas de revistas até na matinê, e o que cabe ao povo preto, além do pão e circo, restam-lhe somente as grades das cadeias e dos hospícios, o frio chão dos orfanatos e dos asilos infectados.  

Portanto, podemos dizer que as tentativas de integração do negro a essa sociedade europóide a partir das Ações Afirmativas ou da retórica da ingênua exigência de igualdade racial, é análoga a penosa missão de enxugar gelo ou encaixotar fumaça que substituí a pedra de Sísifo do lado de lá e o látego do verdugo do lado de cá, que amarra os nós construtores dessa Matrix construída pelo Grande Irmão. Sendo assim, a história do Brasil sem o negro, não passa de uma história desonesta, conveniente e covarde. Ou seja, uma tétrica história de humor branco, já que a história da “civilização” branca tem sido uma história de roubos, de mortes, de invasões, de torturas, de saques, de corrupção e assassinatos. Os museus europeus e norte-americanos trazem as provas dessa trilha de destruição deixadas pelos europeus em todos os lugares em que se fizeram presentes, enquanto as marcas e cicatrizes dessa trilha foram deixadas na alma negra em forma de medos, traumas e síndromes.

Sendo assim, a história do Brasil, quando finalmente for escrita, não será uma história de revisionismo nem de vingança, mas sim, uma história de resgate humano, num conto habitado por Reis e Rainhas, Príncipes e Princesas, Magos, Bruxas, Fadas e Feiticeiros e não por daquelas personagens confeccionadas pelo clero e queimadas na fogueira da santa inquisição e retalhadas pelos chicotes do crime da escravidão.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Da água viemos, para a água voltaremos.

Hoje, o Rio de Janeiro amanheceu amazônico; coberto por caudalosos rios flutuantes, com pássaros surfando como golfinhos sobre os vapores das fontes d’água que jorravam do alto das montanhas, inundando toda cidade e enchendo o atlântico mar; nosso grande calunga.

Eu, só rio ao imaginar um mergulho profundo do alto do Cristo até a assembleia legislativa, e em seguida nadar pelas Avenidas batizadas com nomes dissimuladamente fakes que tingem de preto e branco o asfalto vermelho de sangue preto, separando as águas doces das águas salgadas por onde adentravam os tumbeiros com afro-defuntos vivos, enquanto a cidade, lá no fundo do Rio, sem botos, golfinhos nem sereias, jazia serena no silêncio de sua tumba lacrada com sangue, suor e lágrimas, com as águas de março enchendo esse rio flutuante, que seguia seu rumo, sem deter seu fluxo diante de cada pau e de cada pedra encontrados pelo caminho dessas Avenidas Atlânticas chamada Brasil.

É assim que em todos os meses de dezembro, de cada ano novo que se segue dos janeiros de todos os novembros, o Cristo redentor construído com as pedras brancas vindas do solo Parisiense e montado na cidade de São Gonçalo, anda sobre as águas de março enquanto se empretece ao ser parido por Nossa Senhora Aparecida.

Dessa maneira, o verbo se faz carne nessa cidade antropofágica repleta de zumbis de Hollywood e de Palmares; zumbis nascidos das telas televisivas e dos livros de histórias contadas por narrativas dialéticas e retóricas. Esse diálogo faz parte de uma das histórias do inconsciente coletivo cultivado nesse labirinto de possibilidades trazidas pelas águas desse Rio que, sedento, sorri de si mesmo enquanto morre de sede em frente ao mar.

O tempo de caminhada entre a Amazônia e o Rio Janeiro passa ligeiro, pois o mesmo é contado pelos números das inúmeras gotas geometrizadas pelo tempo que circula em torno de si mesmo, ao afirmar que, se da água viemos, para a água retornaremos.

Enquanto isso, as sereias e os Delfins silenciosamente circulam sob os rios flutuantes sem serem vistos nem ouvidos, ao mesmo tempo em que, o Cristo sorrindo, abre seus braços num abraço fraterno, antes de mergulhar em sacrifício, nas profundezas desse Rio de sangue negro, afogando-se nas pretas lágrimas desse Rio Preto. Dessa forma, é revelado o porquê da quântica axioma que nos diz que,  se da água viemos e para a água que retornaremos; e no leito desse rio, nessa corredeira de sorrisos feito de salgadas lágrimas, desembocaremos enfim, no cósmico oceano universal assim que atravessarmos o interdimensional buraco negro da nossa própria consciência.