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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Da água viemos, para a água voltaremos.

Hoje, o Rio de Janeiro amanheceu amazônico; coberto por caudalosos rios flutuantes, com pássaros surfando como golfinhos sobre os vapores das fontes d’água que jorravam do alto das montanhas, inundando toda cidade e enchendo o atlântico mar; nosso grande calunga.

Eu, só rio ao imaginar um mergulho profundo do alto do Cristo até a assembleia legislativa, e em seguida nadar pelas Avenidas batizadas com nomes dissimuladamente fakes que tingem de preto e branco o asfalto vermelho de sangue preto, separando as águas doces das águas salgadas por onde adentravam os tumbeiros com afro-defuntos vivos, enquanto a cidade, lá no fundo do Rio, sem botos, golfinhos nem sereias, jazia serena no silêncio de sua tumba lacrada com sangue, suor e lágrimas, com as águas de março enchendo esse rio flutuante, que seguia seu rumo, sem deter seu fluxo diante de cada pau e de cada pedra encontrados pelo caminho dessas Avenidas Atlânticas chamada Brasil.

É assim que em todos os meses de dezembro, de cada ano novo que se segue dos janeiros de todos os novembros, o Cristo redentor construído com as pedras brancas vindas do solo Parisiense e montado na cidade de São Gonçalo, anda sobre as águas de março enquanto se empretece ao ser parido por Nossa Senhora Aparecida.

Dessa maneira, o verbo se faz carne nessa cidade antropofágica repleta de zumbis de Hollywood e de Palmares; zumbis nascidos das telas televisivas e dos livros de histórias contadas por narrativas dialéticas e retóricas. Esse diálogo faz parte de uma das histórias do inconsciente coletivo cultivado nesse labirinto de possibilidades trazidas pelas águas desse Rio que, sedento, sorri de si mesmo enquanto morre de sede em frente ao mar.

O tempo de caminhada entre a Amazônia e o Rio Janeiro passa ligeiro, pois o mesmo é contado pelos números das inúmeras gotas geometrizadas pelo tempo que circula em torno de si mesmo, ao afirmar que, se da água viemos, para a água retornaremos.

Enquanto isso, as sereias e os Delfins silenciosamente circulam sob os rios flutuantes sem serem vistos nem ouvidos, ao mesmo tempo em que, o Cristo sorrindo, abre seus braços num abraço fraterno, antes de mergulhar em sacrifício, nas profundezas desse Rio de sangue negro, afogando-se nas pretas lágrimas desse Rio Preto. Dessa forma, é revelado o porquê da quântica axioma que nos diz que,  se da água viemos e para a água que retornaremos; e no leito desse rio, nessa corredeira de sorrisos feito de salgadas lágrimas, desembocaremos enfim, no cósmico oceano universal assim que atravessarmos o interdimensional buraco negro da nossa própria consciência.

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