Hoje, o Rio
de Janeiro amanheceu amazônico; coberto por caudalosos rios flutuantes, com
pássaros surfando como golfinhos sobre os vapores das fontes d’água que
jorravam do alto das montanhas, inundando toda cidade e enchendo o atlântico mar; nosso
grande calunga.
Eu, só rio
ao imaginar um mergulho profundo do alto do Cristo até a assembleia legislativa,
e em seguida nadar pelas Avenidas batizadas com nomes dissimuladamente fakes que tingem de preto e branco o asfalto vermelho de sangue preto, separando as águas doces das águas salgadas por onde adentravam os tumbeiros com afro-defuntos vivos, enquanto a
cidade, lá no fundo do Rio, sem botos, golfinhos nem sereias, jazia serena no
silêncio de sua tumba lacrada com sangue, suor e lágrimas, com as águas de
março enchendo esse rio flutuante, que seguia seu rumo, sem deter seu fluxo
diante de cada pau e de cada pedra encontrados pelo caminho dessas Avenidas Atlânticas chamada Brasil.
É assim que em todos os
meses de dezembro, de cada ano novo que se segue dos janeiros de todos os novembros, o Cristo redentor construído com as pedras brancas vindas do solo
Parisiense e montado na cidade de São Gonçalo, anda sobre as águas de março enquanto
se empretece ao ser parido por Nossa Senhora Aparecida.
Dessa
maneira, o verbo se faz carne nessa cidade antropofágica repleta de zumbis de
Hollywood e de Palmares; zumbis nascidos das telas televisivas e dos livros de
histórias contadas por narrativas dialéticas e retóricas. Esse diálogo faz
parte de uma das histórias do inconsciente coletivo cultivado nesse labirinto
de possibilidades trazidas pelas águas desse Rio que, sedento, sorri de si mesmo enquanto
morre de sede em frente ao mar.
O tempo de
caminhada entre a Amazônia e o Rio Janeiro passa ligeiro, pois o mesmo é
contado pelos números das inúmeras gotas geometrizadas pelo tempo que circula em torno de
si mesmo, ao afirmar que, se da água viemos, para a água retornaremos.
Enquanto
isso, as sereias e os Delfins silenciosamente circulam sob os rios flutuantes
sem serem vistos nem ouvidos, ao mesmo tempo em que, o Cristo sorrindo, abre
seus braços num abraço fraterno, antes de mergulhar em sacrifício, nas profundezas
desse Rio de sangue negro, afogando-se nas pretas lágrimas desse Rio Preto. Dessa
forma, é revelado o porquê da quântica axioma que nos diz que, se da água viemos e para a água que retornaremos; e no leito desse rio, nessa
corredeira de sorrisos feito de salgadas lágrimas, desembocaremos enfim, no cósmico oceano universal
assim que atravessarmos o interdimensional buraco negro da nossa própria consciência.

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