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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Diário de Bordo de um Escravizado: O Caminho da Flecha na Espiral do Círculo da Vida.

... Na abafada escuridão daquele profundo porão, o tempo respirava fundo a cada ritmada pulsação do tique-taque ecoado através do tambor cravado no meu peito. Em cada coração, o tempo pulsava com as saudades passadas, equilibrada agora por um contrapeso de um futuro servido e sorvido num copo repleto com um misto de Amor, fel, medo e dor, embaralhados ao sabor do movimento cíclico das ondas e marés, a cada balanço desse navio, que jaz sobre a linha do azimute. 

O eco das batidas do coração, sobressaltado diante desse desconhecido surdamente anunciado pelo escuro da garganta do Grande Calunga, era como o tinir metálico da força do tempo indivisível, medido pelo infinito invisível. 

Mas a chama do meu olhar altivo humilha a tempestade, quando este mesmo olhar enxerga nas estrelas da dor nascida no atrito da batida do cruento vergalho, o estilhaçar do arquétipo de vítima tatuado na minha pele cravada de vida, expondo enfim, a consciência ocultada de si sobre si mesma. 

Dessa maneira, o espelho d’água refletiu a simetria do ato atroz de cada ator e algoz, registrando sobre a superfície oceânica, o paradoxo da dialética dicotômica; e como o bumerangue que cruza o ar em direção ao alvo reverso, o movimento refletido é devolvido pelo espelho da vida. Do mesmo modo, também o chicote que cruza o ar, análogo a flecha lançada em direção ao alvo, percorre o mesmo caminho do bumerangue, como o eco responde ao grito lançado em pleno ar. 

O espelho d’água, como testemunha e diáfano da vida, refletia naquele momento grave, o lapidar brutal da aspereza do carvão em atrito, sendo transmutado em radiante diamante, sobre o impiedoso balanço do vergalho, o ciclo das marés e o sangue trazido pelo infalível bumerangue como eco responsivo da inevitável visita anunciada pela Nossa Senhora da Causa e do Efeito

Dos pérfidos e fétidos Negreiros aos luxuosos e opulentos iates que cruzam os mares da vida, os seus caminhos como correntes que ligam as origens aos seus respectivos destinos, se faz em mão dupla; visto que a estrada pela qual se vai, é também a mesma estrada utilizada para retorno, que nas voltas que o mundo dá, ele segue circulando numa infinita espiral, de tal maneira que, na qualidade de observado e observador, podemos testemunhar a nós mesmos. 


Assim, a chegada ao porto, significa a chegada ao ponto de origem de um proscrito destino prescrito, registrado e refletido pelo anverso reverso, no inverso do olho do furacão que rasga as velas da esquadra invasora. Enquanto o círculo que emoldura o leme da vida, se move ao sabor do vento trazido como presente por essa mãe natureza tão combatida pelo predador, que faz do letal progresso, seu sedutor arpoador. 

Ao som dos clarins, os canhões, uma vez perfilados e apontados para o alvo, vomitam suas fumegantes balas que automaticamente se transformam em flechas-bumerangues, fuzilando o futuro, e atingindo o passado no futuro do presente.  Assim, a ordem proferida pela língua transformada em arco, fazendo da palavra a sua flecha certeira, cumpre enfim a sua missão de lapidar todas as faces refletidas por esse precioso diamante negro...

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