... Na abafada escuridão daquele profundo porão, o tempo respirava fundo a cada ritmada pulsação do tique-taque ecoado através do tambor cravado no meu peito. Em cada coração, o tempo pulsava com as saudades passadas, equilibrada agora por um contrapeso de um futuro servido e sorvido num copo repleto com um misto de Amor, fel, medo e dor, embaralhados ao sabor do movimento cíclico das ondas e marés, a cada balanço desse navio, que jaz sobre a linha do azimute.
O eco das batidas do coração, sobressaltado diante desse desconhecido surdamente anunciado pelo escuro da garganta do Grande Calunga, era como o tinir metálico da força do tempo indivisível, medido pelo infinito invisível.
Mas a chama do meu olhar altivo humilha a tempestade, quando este mesmo olhar enxerga nas estrelas da dor nascida no atrito da batida do cruento vergalho, o estilhaçar do arquétipo de vítima tatuado na minha pele cravada de vida, expondo enfim, a consciência ocultada de si sobre si mesma.
Dessa maneira, o espelho d’água refletiu a simetria do ato atroz de cada ator e algoz, registrando sobre a superfície oceânica, o paradoxo da dialética dicotômica; e como o bumerangue que cruza o ar em direção ao alvo reverso, o movimento refletido é devolvido pelo espelho da vida. Do mesmo modo, também o chicote que cruza o ar, análogo a flecha lançada em direção ao alvo, percorre o mesmo caminho do bumerangue, como o eco responde ao grito lançado em pleno ar.
O espelho d’água, como testemunha e diáfano da vida, refletia naquele momento grave, o lapidar brutal da aspereza do carvão em atrito, sendo transmutado em radiante diamante, sobre o impiedoso balanço do vergalho, o ciclo das marés e o sangue trazido pelo infalível bumerangue como eco responsivo da inevitável visita anunciada pela Nossa Senhora da Causa e do Efeito.
Dos pérfidos e fétidos Negreiros aos luxuosos e opulentos iates que cruzam os mares da vida, os seus caminhos como correntes que ligam as origens aos seus respectivos destinos, se faz em mão dupla; visto que a estrada pela qual se vai, é também a mesma estrada utilizada para retorno, que nas voltas que o mundo dá, ele segue circulando numa infinita espiral, de tal maneira que, na qualidade de observado e observador, podemos testemunhar a nós mesmos.
Ao som dos clarins, os canhões, uma vez perfilados e apontados para o alvo, vomitam suas fumegantes balas que automaticamente se transformam em flechas-bumerangues, fuzilando o futuro, e atingindo o passado no futuro do presente. Assim, a ordem proferida pela língua transformada em arco, fazendo da palavra a sua flecha certeira, cumpre enfim a sua missão de lapidar todas as faces refletidas por esse precioso diamante negro...

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