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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Os Caminhos da Capoeira



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Salve, salve meu povo, Eu Sou Rael Rasta, tenho 58 anos de idade e 45 de Capoeira, e estou chegando na área, pra falar sobre um pedacinho dos séculos de existência dessa belíssima Arte Marcial brasileira, que é a Capoeira.

Bem, a gente considera e define como Arte marcial, toda forma de luta que serviu para defender um povo da opressão e da vilania praticada pelos homens “poderosos” que dominaram toda a nossa história; nesse caso, estamos falando especificamente do abuso sofrido pelos Povos africanos; nossos antepassados. Ou seja, estou falando dos nossos tataravôs, tataravós e até bisavós, que foram escravizados de forma estúpida e cruel bem aqui, no Brasil.

Então, não dá para falar de Capoeira, sem falar de África; e sendo assim, a gente precisa saber que esse misterioso continente, chamado de África, depois de ter sido invadido e colonizado pelos europeus, atualmente está dividido em 56 países; e dos 5.000 idiomas existente no mundo, mais de 2.500 estão presentes justamente neste continente.

As linhas que organizam a divisão desse continente em países, são válidas somente para os políticos e para quem aprende geografia na escola, porque os próprios africanos não consideram essa divisão, como sendo a sua realidade.

Desse modo, cada povo, tem a sua cultura distinta que os caracterizam e os definem enquanto povo. O tronco linguístico e a cultura predominante no continente africano, vem da tradição Bantu, que é a raiz principal que define majoritariamente o povo africano.

Para se ter uma ideia aproximada dessa proporção, podemos comparar a quantidade de falantes da língua espanhola falada aqui, no continente Sul americano, com o idioma brasileiro falado somente no Brasil.

No caso da civilização bantu, os principais valores que caracterizam essa cultura, é justamente o valor da linguagem do corpo, e da fala propriamente dita. Ou seja, qualquer ritual realizado nessa sociedade, envolve a música e a dança; portanto, a musicalidade, oralidade e a corporeidade sempre foram inseparáveis nas práticas desenvolvidas nessa sociedade.

Até então, as características desses valores, diferenciavam, distinguindo essa cultura das outras culturas existentes em todo continente; podemos comparar, no caso, com a cultura dos povos gêges, nagôs e Iorubas, por exemplo, que tinham as suas características culturais evidenciadas pala expressão da sua arte, tal como suas belíssimas esculturas, pinturas exuberantes, os seus artesanatos e os coloridos de suas indumentárias que saltavam aos olhos blasés dos europeus.

Foi justamente aqui, no solo brasileiro, que essas culturas vieram a dialogar entre si, depois que esses povos foram violentamente sequestrados dentro de seus próprios lares, sendo compulsoriamente misturados durante essa fantasmagórica viagem realizada nas profundezas abissais dos porões dos tumbeiros; os navios negreiros.

Foi no pequeno e tenebroso espaço daquele fedido e nauseante porão, que essas culturas se tornaram irmãs, já que, todos que ali se encontravam, além de terem perdido as suas casas, suas terras, suas roupas, suas crenças e até os seus nomes; haviam perdido também, os seus pais e seus os filhos, suas esposas e seus maridos, irmãos e irmãs, transformaram-se assim, em malungos. Ou seja, em companheiros.

Dessa forma, milhões de milhares de cidadãos bantos aportaram na cidade do Rio de Janeiro e na cidade do Recife; enquanto os povos iorubas, gêges e nagôs desembarcaram em salvador e São Luís do Maranhão.

Portanto, foi quando esses grupamentos bantus aqui se descobriram, cada com as respectivas suas práticas, que surgiu essa arte marcial, nascida na cidade imperial do Rio de janeiro e também em Recife, por conta da sua musicalidade, da oralidade e corporeidade que unia culturalmente os bantos presente nessas áreas, que toda a cultura negra pode ser preservada, somando todas as suas diversidades, multiplicidades e versatilidade, numa miscelânea cultural tupiniquim jamais vista em qualquer parte do mundo, originada justamente nesse grande encontro.

Foi dessa maneira que se deu a resistência da cultura negra no Brasil, que fez da capoeira, o maior e único partido político brasileiro das ruas cariocas, lugar aonde os capoeiristas e a tias reinaram absolutos até o final do século XIX, enquanto os nobres se refugiavam em seus salões de festas para não se misturarem com aquela negrada, que fazia do Rio de Janeiro, uma Pequena África.

Foi após o primeiro golpe de estado, que foi a instauração dessa nossa República Brasileira que perdura até os dias de hoje, que os capoeiristas passaram a ser perseguidos justamente por quem eles haviam colocado no poder.

Dessa forma, a partir de 1890, a capoeira, e os capoeiristas, foram ferozmente caçados um a um, sendo a maioria deles presos e exilados. Deste modo, por conta da perversa opressão policial, na cidade de Recife, por lá, a capoeira de ontem se transformou no frevo de hoje.

E no Brasil, a capoeira conseguiu ser aceita e oficializada por conta do Mestre Bimba, que adicionou a disciplina militar a capoeira, retirando toda a malandragem e estratégia característica da capoeira ancestral, implantando nessa Arte da Guerra, a predominância do conceito esportivo como valor fundamental.

Foi esse fato que colocou a fama da Bahia como berço da luta regional, que foi esse esporte-jogo-luta surgida da capoeira de Angola, trazendo então, esse novo jeito de se jogar, que conhecemos hoje como capoeira regional; e foi a partir desse fato, que a prática da capoeira passou a ser aceita no Brasil.

Podemos considerar essa estratégia usada pelo Mestre Bimba, como um verdadeiro Golpe de Mestre, porque ele conseguiu fazer exatamente o que os fundadores da Capoeira ancestral fizeram para sobrevivência da luta: ou seja, do mesmo modo que os nossos ancestrais ocultaram essa luta disfarçando atrás de uma dança; o Mestre Bimba também conseguiu ocultar a luta da capoeira disfarçando atrás de um esporte (essa é uma premissa que só os graduados poderão entender; ou não...). Bem, mas esse assunto sobre Capoeira regional e Capoeira de Angola é uma conversa pra outra hora, pois a capoeira sempre foi uma só.

A questão a ser considerada agora, e que nós, capoeiristas, chegamos com a capoeira, a fim de conquistar o direito da igualdade de justiça entre os povos. Por isso, fizemos e fazemos uso da Capoeira, como meio para chegar a esse objetivo fraterno de equidade ao qual todos nós, somos dignos e merecedores, independe de qualquer condição social, cor de pele ou religião.

São justamente esses valores africanos que, ainda hoje continuam em jogo, no centro dessa sociedade, que faz uso das máscaras e dos papeis sociais, para discursar sobre a democracia de uma enganosa igualdade, aonde o povo é divido em minorias de um lado, e uma maioria nanica de outro.

Yê, galo cantô...!!

yê, vamos embora camará...!!

 

 

 

  

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