Salve,
salve meu povo, Eu Sou Rael
Rasta, tenho 58 anos de idade e 45 de Capoeira, e estou chegando na área, pra
falar sobre um pedacinho dos séculos de existência dessa belíssima Arte Marcial
brasileira, que é a Capoeira.
Bem, a
gente considera e define como Arte marcial, toda forma de luta que serviu para
defender um povo da opressão e da vilania praticada pelos homens “poderosos” que dominaram toda a nossa
história; nesse caso, estamos falando especificamente do abuso sofrido pelos
Povos africanos; nossos antepassados. Ou seja, estou falando dos nossos
tataravôs, tataravós e até bisavós, que foram escravizados de forma estúpida e cruel
bem aqui, no Brasil.
Então, não
dá para falar de Capoeira, sem falar de África; e sendo assim, a gente precisa
saber que esse misterioso continente, chamado de África, depois de ter sido invadido
e colonizado pelos europeus, atualmente está dividido em 56 países; e dos 5.000
idiomas existente no mundo, mais de 2.500 estão presentes justamente neste
continente.
As linhas
que organizam a divisão desse continente em países, são válidas somente para os
políticos e para quem aprende geografia na escola, porque os próprios africanos
não consideram essa divisão, como sendo a sua realidade.
Desse modo,
cada povo, tem a sua cultura distinta que os caracterizam e os definem enquanto
povo. O tronco linguístico e a cultura predominante no continente africano, vem
da tradição Bantu, que é a raiz principal que define majoritariamente o povo
africano.
Para se ter
uma ideia aproximada dessa proporção, podemos comparar a quantidade de falantes
da língua espanhola falada aqui, no continente Sul americano, com o idioma
brasileiro falado somente no Brasil.
No caso da civilização
bantu, os principais valores que caracterizam essa cultura, é justamente o
valor da linguagem do corpo, e da fala propriamente dita. Ou seja, qualquer
ritual realizado nessa sociedade, envolve a música e a dança; portanto, a
musicalidade, oralidade e a corporeidade sempre foram inseparáveis nas práticas
desenvolvidas nessa sociedade.
Até então, as
características desses valores, diferenciavam, distinguindo essa cultura das
outras culturas existentes em todo continente; podemos comparar, no caso, com a
cultura dos povos gêges, nagôs e Iorubas, por exemplo, que tinham as suas
características culturais evidenciadas pala expressão da sua arte, tal como suas
belíssimas esculturas, pinturas exuberantes, os seus artesanatos e os coloridos
de suas indumentárias que saltavam aos olhos blasés dos europeus.
Foi
justamente aqui, no solo brasileiro, que essas culturas vieram a dialogar entre
si, depois que esses povos foram violentamente sequestrados dentro de seus
próprios lares, sendo compulsoriamente misturados durante essa fantasmagórica
viagem realizada nas profundezas abissais dos porões dos tumbeiros; os navios
negreiros.
Foi no
pequeno e tenebroso espaço daquele fedido e nauseante porão, que essas culturas
se tornaram irmãs, já que, todos que ali se encontravam, além de terem perdido
as suas casas, suas terras, suas roupas, suas crenças e até os seus nomes; haviam
perdido também, os seus pais e seus os filhos, suas esposas e seus maridos, irmãos
e irmãs, transformaram-se assim, em malungos.
Ou seja, em companheiros.
Dessa
forma, milhões de milhares de cidadãos bantos aportaram na cidade do Rio de
Janeiro e na cidade do Recife; enquanto os povos iorubas, gêges e nagôs
desembarcaram em salvador e São Luís do Maranhão.
Portanto, foi
quando esses grupamentos bantus aqui se descobriram, cada com as respectivas suas
práticas, que surgiu essa arte marcial, nascida na cidade imperial do Rio de
janeiro e também em Recife, por conta da sua musicalidade, da oralidade e
corporeidade que unia culturalmente os bantos presente nessas áreas, que toda a
cultura negra pode ser preservada, somando todas as suas diversidades,
multiplicidades e versatilidade, numa miscelânea cultural tupiniquim jamais
vista em qualquer parte do mundo, originada justamente nesse grande encontro.
Foi dessa
maneira que se deu a resistência da cultura negra no Brasil, que fez da
capoeira, o maior e único partido político brasileiro das ruas cariocas, lugar aonde
os capoeiristas e a tias reinaram absolutos até o final do século XIX, enquanto
os nobres se refugiavam em seus salões de festas para não se misturarem com
aquela negrada, que fazia do Rio de Janeiro, uma Pequena África.
Foi após o
primeiro golpe de estado, que foi a instauração dessa nossa República Brasileira
que perdura até os dias de hoje, que os capoeiristas passaram a ser perseguidos
justamente por quem eles haviam colocado no poder.
Dessa
forma, a partir de 1890, a capoeira, e os capoeiristas, foram ferozmente
caçados um a um, sendo a maioria deles presos e exilados. Deste modo, por conta
da perversa opressão policial, na cidade de Recife, por lá, a capoeira de ontem
se transformou no frevo de hoje.
E no Brasil,
a capoeira conseguiu ser aceita e oficializada por conta do Mestre Bimba, que
adicionou a disciplina militar a capoeira, retirando toda a malandragem e
estratégia característica da capoeira ancestral, implantando nessa Arte da Guerra,
a predominância do conceito esportivo como valor fundamental.
Foi esse fato
que colocou a fama da Bahia como berço da luta
regional, que foi esse esporte-jogo-luta surgida da capoeira de Angola, trazendo
então, esse novo jeito de se jogar, que conhecemos hoje como capoeira regional; e foi a partir desse
fato, que a prática da capoeira passou a ser aceita no Brasil.
Podemos
considerar essa estratégia usada pelo Mestre Bimba, como um verdadeiro Golpe de
Mestre, porque ele conseguiu fazer exatamente o que os fundadores da Capoeira ancestral
fizeram para sobrevivência da luta: ou seja, do mesmo modo que os nossos
ancestrais ocultaram essa luta disfarçando atrás de uma dança; o Mestre Bimba
também conseguiu ocultar a luta da capoeira disfarçando atrás de um esporte (essa é uma premissa que só os graduados poderão
entender; ou não...). Bem, mas esse assunto sobre Capoeira regional e
Capoeira de Angola é uma conversa pra outra hora, pois a capoeira sempre foi
uma só.
A questão a
ser considerada agora, e que nós, capoeiristas, chegamos com a capoeira, a fim
de conquistar o direito da igualdade de justiça entre os povos. Por isso,
fizemos e fazemos uso da Capoeira, como meio para chegar a esse objetivo fraterno de equidade ao qual todos nós, somos dignos e merecedores, independe de qualquer condição
social, cor de pele ou religião.
São
justamente esses valores africanos que, ainda hoje continuam em jogo, no centro
dessa sociedade, que faz uso das máscaras e dos papeis sociais, para discursar sobre
a democracia de uma enganosa igualdade, aonde o povo é divido em minorias de um lado, e uma maioria nanica de outro.
Yê, galo
cantô...!!
yê, vamos
embora camará...!!
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