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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sobre o Processo e Impacto do Reconhecimento da Pessoa Enquanto Coletividade


Sair das cavernas de sua própria escuridão é um processo que requer, de antemão, pré-disposição, além de muita disposição, para reunir as condições mínimas efetivas diante desse atroz contexto de dominação que se apresenta de forma reptiliana no reflexo dessa história que fundamenta nossa atual conjuntura; exigindo, nessa longa jornada do herói, um permanente e constante diálogo com todas as forças visíveis e invisíveis, que regem o ávido desejo taxionômico do raciocínio humano; como vivemos num tempo em que a história é definida pelas constantes negociação das forças representativas, e representantes, que alimentam e regem o mundo das classificações e dos classificados onde esse mesmo indivíduo tenta se inserir de maneira semiótica.

Para iniciar essa jornada, este indivíduo como atento observador, deve perceber primeiramente que, tudo o que acontece dentro desse contexto, se encerra unicamente para atender aos interesses oriundos do infame comércio gerado exclusivamente por essas mesmas negociações, que criaram as ciências justamente para delimitar e legitimar as verdades e pós verdades industrializadas e comercializadas como oráculo. 

Dado esse passo que inevitavelmente o fará ter a percepção de sua submissão a esse sistema onde a medicina sustenta a farmácia e vice-versa, enquanto a biologia, privatizada pelo agronegócio, sustenta o fluxo contínuo do voraz ventre dos Shoppings, que simbolicamente representam os impávidos e poderosos gigantes de vento de Don Quixote, além de manter vistosas as pútridas vitrines por onde escoam a beleza mimetizada pelo venenoso padrão idiotizador e mantenedor de incontáveis hospícios, asilos, orfanatos; promovendo as nossas tragédias sociais de cada dia que nos dói hoje; tragédias estas que são meticulosamente pautadas pelo racismo estrutural; a constatação desse fatos, finalmente o levará a se localizar nesse sutil e volátil contexto paradoxal, levando-o a aceitar a si mesmo como um preto de cor negra que tenta integrar-se numa sociedade racista, de pensamento e cultura eurocentrada. 

Desse modo, se seguira o impacto do reconhecimento da banalização do temor e da incerteza de qualquer porvir, percebendo especificamente esse fio fornecido pelo sombrio Estado patrocinado  pela perversa e reptiliana elite. Este Fio que o conduz magistralmente, de forma estratégica, seduzindo, cativando e dominando a sua mente e o seu coração, da mesma forma que programada a sociedade ao transformar suas emoções em algoritmo e vice-versa, manipulando e formatando-a de acordo com as conveniências dessa mesma elite, estruturando assim, uma comunidade egocêntrica ao passo que transforma seus iguais em cobaias laboratoriais, fazendo com que esses mesmos indivíduos passem a disputar as hierarquias propositalmente criadas a partir da oposição entre a razão e a emoção, manufaturando seus subprodutos, frutos do macabro jardim suspenso dessa Babilônia produzida pelo medo; esse mesmo medo usado como material do fio condutor dessa sociedade tecida por fobias e esquizofrenias bipolares.

Quando essa etapa da jornada chegar, a luz dessa verdade libertadora transformar-se-á num farol em meio a essa ininterrupta tempestade de infinitas programações, sendo então o momento em que as novas referências o permitirá iniciar o processo de auto cura cuidando de seus próprios pares. Momento este em que, finalmente, as articulações se darão de forma coletiva, consentindo enfim, que o abraço na comunidade faça com que semelhante possa se curar através do semelhante. 

Esse então, será o tão aguardado e temido bug do milênio; quando enfim, ocorrerá a desprogramação da colonização e da escravização mental, que funciona como moto-perpétuo, produzindo um fantasmagórico encantamento através da sedução que arrebata o neófito assim que ele mira o fascinante alazão-de-Troia que magicamente baila nas telas televisivas, durante as introduções das narrativas de histórias corrompidas pela falsidade ideológica; é como se olhar fosse dirigido a mitológica Medusa; dessa forma, a hipocrisia de capa e espada vem camuflada em forma de príncipes e princesas brancamente norte-americanizados a francesa, que peremptoriamente o faz seguir o canto da Sereia.

Esse bug interior será um marco na jornada do herói que transformar-se-á em príncipe. Não naquele enfadonho e narcísico príncipe salvador de uma meiga, carente e desprotegida princesa, mas sim, no príncipe que primeiramente se ama antes de amar alguém, transformando-se assim, no salvador que livrará a si mesmo do abismo.

É na alegria dessa descoberta, desbravando a si mesmo, que se resume a simplicidade desse intrincado processo da conquista proporcionada por essa caminhada que dá vida ao herói que habita no interior do indivíduo que não busca a salvação nas forças externas a si; forças essas que invariavelmente são garantidas pelo sistema que o domina, mantendo-o cativo dele mesmo, numa condição de escravizado mental e defensor de seu senhor.

Dessa maneira, as princesas e príncipes negros devem se encontrar nessa caminhada, e juntos devem atravessar uma vida de aventuras e descobertas de verdades, individuais e coletivas, que darão sentido à vida e ao viver, fazendo com que se complementem numa unidade coletiva, aonde a pessoa só pode ser pessoa através de outra pessoa.

O profundo impacto dessa caminhada se fará quando finalmente nos reconhecermos coletivamente como parte de um processo tão significante quanto a edificação de cada pirâmide construída no mundo, e será exatamente o mesmo profundo impacto causado pelo advento do meteoro que provocou a extinção dos dinossauros na terra; pois enfim, a pessoa perceberá o seu lugar no infinito desse vasto universo que começa e termina dentro de si mesmo.

Dessa forma, as referências e significâncias postas, como a funda de Davi, passará a ser reconhecida apenas como mais uma arma de sedução nessa disputa entre a mente e o coração, enquanto a pretitude de Salomão ressaltará aos olhos tal como a força de Sansão e Dalila no calor da disputa; disputa essa que sabemos ser só mais uma atração em meio aos episódios da epopeia dessa mesma competição. Eis então o começo do vir-à-ser como ser humano, com o potencial de vivenciar a própria história, no reequilíbrio e na equidade do meio como processo realizador da pessoa como pessoa.


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