Sair das cavernas de sua própria escuridão é um processo que requer, de antemão, pré-disposição, além de muita disposição, para reunir as condições mínimas efetivas diante desse atroz contexto de dominação que se apresenta de forma reptiliana no reflexo dessa história que fundamenta nossa atual conjuntura; exigindo, nessa longa jornada do herói, um permanente e constante diálogo com todas as forças visíveis e invisíveis, que regem o ávido desejo taxionômico do raciocínio humano; como vivemos num tempo em que a história é definida pelas constantes negociação das forças representativas, e representantes, que alimentam e regem o mundo das classificações e dos classificados onde esse mesmo indivíduo tenta se inserir de maneira semiótica.
Para iniciar
essa jornada, este indivíduo como atento observador, deve perceber
primeiramente que, tudo o que acontece dentro desse contexto, se encerra unicamente
para atender aos interesses oriundos do infame comércio gerado exclusivamente
por essas mesmas negociações, que criaram as ciências justamente para delimitar e legitimar as verdades e pós
verdades industrializadas e comercializadas como oráculo.
Dado esse passo
que inevitavelmente o fará ter a percepção de sua submissão a esse sistema onde
a medicina sustenta a farmácia e vice-versa, enquanto a biologia, privatizada
pelo agronegócio, sustenta o fluxo contínuo do voraz ventre dos Shoppings, que
simbolicamente representam os impávidos e poderosos gigantes de vento de Don Quixote, além de manter
vistosas as pútridas vitrines por onde escoam a beleza mimetizada pelo venenoso
padrão idiotizador e mantenedor de incontáveis hospícios, asilos, orfanatos;
promovendo as nossas tragédias sociais de cada dia que nos dói hoje; tragédias estas
que são meticulosamente pautadas pelo racismo estrutural; a constatação desse
fatos, finalmente o levará a se localizar nesse sutil e volátil contexto
paradoxal, levando-o a aceitar a si mesmo como um preto de cor negra que tenta
integrar-se numa sociedade racista, de pensamento e cultura eurocentrada.
Desse modo, se
seguira o impacto do reconhecimento da banalização do temor e da incerteza de
qualquer porvir, percebendo especificamente esse fio fornecido pelo sombrio Estado
patrocinado pela perversa e reptiliana elite. Este Fio que o conduz
magistralmente, de forma estratégica, seduzindo, cativando e dominando a sua
mente e o seu coração, da mesma forma que programada a sociedade ao transformar
suas emoções em algoritmo e vice-versa, manipulando e formatando-a de acordo
com as conveniências dessa mesma elite, estruturando assim, uma comunidade
egocêntrica ao passo que transforma seus iguais em cobaias laboratoriais,
fazendo com que esses mesmos indivíduos passem a disputar as hierarquias propositalmente
criadas a partir da oposição entre a razão e a emoção, manufaturando seus
subprodutos, frutos do macabro jardim suspenso dessa Babilônia produzida pelo
medo; esse mesmo medo usado como material do fio condutor dessa sociedade tecida
por fobias e esquizofrenias bipolares.
Quando essa
etapa da jornada chegar, a luz dessa verdade libertadora transformar-se-á num
farol em meio a essa ininterrupta tempestade de infinitas programações, sendo então
o momento em que as novas referências o permitirá iniciar o processo de auto
cura cuidando de seus próprios pares. Momento este em que, finalmente, as
articulações se darão de forma coletiva, consentindo enfim, que o abraço na
comunidade faça com que semelhante possa se curar através do
semelhante.
Esse então, será
o tão aguardado e temido bug do milênio; quando enfim, ocorrerá
a desprogramação da colonização e da escravização mental, que funciona como
moto-perpétuo, produzindo um fantasmagórico encantamento através da sedução que
arrebata o neófito assim que ele mira o fascinante alazão-de-Troia que
magicamente baila nas telas televisivas, durante as introduções das narrativas
de histórias corrompidas pela falsidade ideológica; é como se olhar fosse dirigido
a mitológica Medusa; dessa forma, a hipocrisia de capa
e espada vem camuflada em forma de príncipes e princesas brancamente
norte-americanizados a francesa, que peremptoriamente o faz seguir o canto da Sereia.
Esse bug interior será um marco na jornada
do herói que transformar-se-á em príncipe. Não naquele enfadonho
e narcísico príncipe salvador de uma meiga, carente e desprotegida princesa,
mas sim, no príncipe que primeiramente se ama antes de amar alguém,
transformando-se assim, no salvador que livrará a si mesmo do abismo.
É na alegria
dessa descoberta, desbravando a si mesmo, que se resume a simplicidade desse intrincado
processo da conquista proporcionada por essa caminhada que dá vida ao herói que
habita no interior do indivíduo que não busca a salvação nas forças externas a
si; forças essas que invariavelmente são garantidas pelo sistema que o domina, mantendo-o
cativo dele mesmo, numa condição de escravizado mental e defensor de seu
senhor.
Dessa maneira,
as princesas e príncipes negros devem se encontrar nessa caminhada, e juntos devem
atravessar uma vida de aventuras e descobertas de verdades, individuais e
coletivas, que darão sentido à vida e ao viver, fazendo com que se complementem
numa unidade coletiva, aonde a pessoa só pode ser pessoa através de
outra pessoa.
O profundo
impacto dessa caminhada se fará quando finalmente nos reconhecermos
coletivamente como parte de um processo tão significante quanto a edificação de
cada pirâmide construída no mundo, e será exatamente o mesmo profundo impacto
causado pelo advento do meteoro que provocou a extinção dos dinossauros na
terra; pois enfim, a pessoa perceberá o seu lugar no infinito desse vasto
universo que começa e termina dentro de si mesmo.
Dessa forma, as
referências e significâncias postas, como a funda de Davi, passará a ser reconhecida apenas como mais uma arma de
sedução nessa disputa entre a mente e o coração, enquanto a pretitude de
Salomão ressaltará aos olhos tal como a força de Sansão e Dalila no calor da
disputa; disputa essa que sabemos ser só mais uma atração em meio aos episódios
da epopeia dessa mesma competição. Eis então o começo do vir-à-ser como ser
humano, com o potencial de vivenciar a própria história, no reequilíbrio e na equidade
do meio como processo realizador da pessoa como pessoa.

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