Como Professor, jornalista e
cineasta brasileiro, para lutar pelos pretos, tenho enfrentado o paradoxo de
ter que lutar contra os pretos. Imagine só as contradições desse bizarro
contexto já assinalado em meio à tempestade[1]
por um de nosso mais eminente expoente do Pan-africanismo.
Este prosaico fato que ficou por
muito tempo dando voltas em torno de minha cabeça, martelando meu cérebro, com
insistentes interrogações paulatinas e progressivas, a partir do momento que eu
decidi dar aulas, escrever, produzir roteiros e filmes abordando nossa memória
e identidade, tendo como tema central, justamente a simbologia do princípio de
tudo: a mulher; que é uma educadora
por excelência pela própria natureza, que molda seus filhos e filhas, sua família
e uma sociedade inteira.
Pois bem, o roteiro que antecedeu a
toda essa saga, que narrava a influência da mídia sobre o inconsciente
feminino, de uma maneira ou de outra, se estendia também a questão de gênero,
pois tratava da alma do homem negro, que em primeira e última instância tem sua
gênese através da mulher. Ou seja, essa influência em último caso, independe de
gêneros, pois decididamente se trata de uma política de dominação mental,
física e espiritual.
Analisando essa minha primeira
experiência, pude observar que, de um elenco que contava com doze personagens
negras e uma personagem branca, as mulheres negras se esquivavam de assumir
qualquer compromisso com o trabalho em questão, enquanto mulheres brancas se disponibilizaram
a realizar a empreitada em questão, no referido roteiro audiovisual.
As lições que aprendi com essa
caminhada foram tão desconcertantes, que cheguei ao ponto de pensar em
trabalhar com Black face para
solucionar essa inusitada situação. Mas desisti da ideia; e dos nove filmes,
até agora só foi possível concluir somente um, em consequência de não ter tido
a oportunidade de completar o elenco necessário, com as personagens negras das
histórias e documentários criados.
Observo nas escolas, nas ruas, campos e construções[2],
um monte de milicos pretos marchando em indecisos
cordões, filhos de (estupradas) mães
pretas, mas que assassinam pretos e pretas, mostrando que sua xenofilia agora é
seletiva, e fundamentada pelo auto-ódio que é cultivado e nutrido pelo povo preto
a ele próprio; em especial, a mulher preta que paradoxalmente reclama de sua
solidão.
Em meio a essa tempestade, percebo as matizes de nossa pretitude se fragmentar em mais setenta tons de preto em meio a esse
colorismo antropofágico egocentrado, enquanto
nosso povo se definha, perdendo-se em meio a seu caminho desde a Revolta dos
Malês às conjurações tupiniquins.
Na conjuntura dessa nação
republicana-brancopofágica, nossa história tem sido escrita e protagonizada
pela branquitude que comanda desde a cabine do primeiro navio negreiro ao
gabinete governamental do brancalóide eleito para a manutenção da política da
acefalia total, para dirigir o único povo ainda existente em solo nacional.
Recontar a nossa história, com
nossa própria voz, memória e vez, é um trabalho que requer disposição e coragem,
principalmente para encarar essa elite negra cultivada pela verve brancalóide, que
tem a função análoga aquele escudo
tecnológico[3]
projetado pelos norte-americanos. Sendo assim, em meio à tempestade dos mísseis de conhecimento, essa elite preta protege a
falsa legitimidade da supremacia brancopofágica desses brancalóides que se outorgaram
o título de proprietários das verdades alheias.
Todo esse sinistro cenário, que
reserva a indignidade e a desumanidade a uma nação inteira; nação esta que tem
as variantes, variedades e variações da cor do ébano; é de responsabilidade única
do próprio negro, que teve sua memória ancestral fragmentada pela tortura, humilhação,
e finalmente, deletada; ao se perder no espelho positivo de Narciso.
A falta de compromisso do negro
para com o próprio negro faz dele um expectador, dono de uma passividade
mórbida em relação a si mesmo; passividade que o faz divagar durante esse
espetáculo de permissividade em que ele autoriza que seu destino seja traçado
por outrem que não lembre a sua cor:
Eis o resultado do espetáculo das raças apresentado pela
democracia monorracial tupiniquim nesses extravagantes circos egocentrado que
servem o pão da ignorância meritocrática. O mesmo pão servido nos púlpitos das
religiões, que não saciam a fome, mas semeiam a confusão total na mente
colonial.
Esse preâmbulo é para lembrar que,
tendo o negro, o seu próprio reflexo como inimigo, é necessário primeiro, lutar
contra ele mesmo, para libertar-se das amarras mentais trançadas pela
brancopofagia. Só desse modo ele vai ter condições de reconhecer seus irmãos e
a si mesmo. Conhecendo-se, se libertará. Dessa maneira, o espetáculo das raças
vai poder começar sem hierarquias escravagistas, impostores, dominados ou
dominadores.

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