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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Inimigo meu


Como Professor, jornalista e cineasta brasileiro, para lutar pelos pretos, tenho enfrentado o paradoxo de ter que lutar contra os pretos. Imagine só as contradições desse bizarro contexto já assinalado em meio à tempestade[1] por um de nosso mais eminente expoente do Pan-africanismo.

Este prosaico fato que ficou por muito tempo dando voltas em torno de minha cabeça, martelando meu cérebro, com insistentes interrogações paulatinas e progressivas, a partir do momento que eu decidi dar aulas, escrever, produzir roteiros e filmes abordando nossa memória e identidade, tendo como tema central, justamente a simbologia do princípio de tudo: a mulher; que é uma educadora por excelência pela própria natureza, que molda seus filhos e filhas, sua família e uma sociedade inteira.

Pois bem, o roteiro que antecedeu a toda essa saga, que narrava a influência da mídia sobre o inconsciente feminino, de uma maneira ou de outra, se estendia também a questão de gênero, pois tratava da alma do homem negro, que em primeira e última instância tem sua gênese através da mulher. Ou seja, essa influência em último caso, independe de gêneros, pois decididamente se trata de uma política de dominação mental, física e espiritual.

Analisando essa minha primeira experiência, pude observar que, de um elenco que contava com doze personagens negras e uma personagem branca, as mulheres negras se esquivavam de assumir qualquer compromisso com o trabalho em questão, enquanto mulheres brancas se disponibilizaram a realizar a empreitada em questão, no referido roteiro audiovisual.

As lições que aprendi com essa caminhada foram tão desconcertantes, que cheguei ao ponto de pensar em trabalhar com Black face para solucionar essa inusitada situação. Mas desisti da ideia; e dos nove filmes, até agora só foi possível concluir somente um, em consequência de não ter tido a oportunidade de completar o elenco necessário, com as personagens negras das histórias e documentários criados.

Observo nas escolas, nas ruas, campos e construções[2], um monte de milicos pretos marchando em indecisos cordões, filhos de (estupradas) mães pretas, mas que assassinam pretos e pretas, mostrando que sua xenofilia agora é seletiva, e fundamentada pelo auto-ódio que é cultivado e nutrido pelo povo preto a ele próprio; em especial, a mulher preta que paradoxalmente reclama de sua solidão.

Em meio a essa tempestade, percebo as matizes de nossa pretitude se fragmentar em mais setenta tons de preto em meio a esse colorismo antropofágico egocentrado, enquanto nosso povo se definha, perdendo-se em meio a seu caminho desde a Revolta dos Malês às conjurações tupiniquins.
Na conjuntura dessa nação republicana-brancopofágica, nossa história tem sido escrita e protagonizada pela branquitude que comanda desde a cabine do primeiro navio negreiro ao gabinete governamental do brancalóide eleito para a manutenção da política da acefalia total, para dirigir o único povo ainda existente em solo nacional.

Recontar a nossa história, com nossa própria voz, memória e vez, é um trabalho que requer disposição e coragem, principalmente para encarar essa elite negra cultivada pela verve brancalóide, que tem a função análoga aquele escudo tecnológico[3] projetado pelos norte-americanos. Sendo assim, em meio à tempestade dos mísseis de conhecimento, essa elite preta protege a falsa legitimidade da supremacia brancopofágica desses brancalóides que se outorgaram o título de proprietários das verdades alheias.

Todo esse sinistro cenário, que reserva a indignidade e a desumanidade a uma nação inteira; nação esta que tem as variantes, variedades e variações da cor do ébano; é de responsabilidade única do próprio negro, que teve sua memória ancestral fragmentada pela tortura, humilhação, e finalmente, deletada; ao se perder no espelho positivo de Narciso.

A falta de compromisso do negro para com o próprio negro faz dele um expectador, dono de uma passividade mórbida em relação a si mesmo; passividade que o faz divagar durante esse espetáculo de permissividade em que ele autoriza que seu destino seja traçado por outrem que não lembre a sua cor:
Eis o resultado do espetáculo das raças apresentado pela democracia monorracial tupiniquim nesses extravagantes circos egocentrado que servem o pão da ignorância meritocrática. O mesmo pão servido nos púlpitos das religiões, que não saciam a fome, mas semeiam a confusão total na mente colonial.

Esse preâmbulo é para lembrar que, tendo o negro, o seu próprio reflexo como inimigo, é necessário primeiro, lutar contra ele mesmo, para libertar-se das amarras mentais trançadas pela brancopofagia. Só desse modo ele vai ter condições de reconhecer seus irmãos e a si mesmo. Conhecendo-se, se libertará. Dessa maneira, o espetáculo das raças vai poder começar sem hierarquias escravagistas, impostores, dominados ou dominadores.





[1] Referência a Marcus Mosiah Garvey
[2] Referência a música de protesto de autoria de Geraldo Vandré.
[3] Projeto chamado guerra nas estrelas

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