Fardas,
togas e paletós, servem para manter as velas e o curso do navio Negreiro contemporâneo de todos os dias que nos dói
hoje, que trás a carga viva do engano da farsa da abolição como fato ocorrido
de fato. Ele, esse navio negreiro, parte para todas as partes, saindo do
brancopofágico porto de Liverpool,
com seu capitão-do-mato preto a bordo
portando uma bandeira branca, uma vez que este capitão foi formado pela
academia ariana; academia esta frequentada pelos que buscam pelo poder e pela
fama.
Dessa forma,
o preto que veste paletó, toga ou farda passou a ser o real fardo do povo
negro. Povo este que produz a riqueza da branquitude desde que a estética ariana
passou a produzir e a criminalizar a pobreza como processo político usado como propulsão
principal das instituições da colônia portuguesa como capital europeia em solo Latino-americano.
Essa
fúnebre Nau errante, singrando nossa sociedade, passa pelas ruas e becos da
cidade: passa todos os dias atropelando, quebrando os ossos e rasgando a pele
preta sangrada pela caneta-chicote do branco sinhô do norte. Esses negreiros
que hoje se movem com gasolina, óleo diesel, álcool e estriquinina, sobem e
descem os morros tupiniquins, com as malas
abarrotadas de corpos pretos acorrentados e ensanguentados, em cenas fortes e sem
cortes, exibindo esse mórbido espetáculo que é a paga por sua diária de infames
horrores, com os aplausos surdos dos expectadores, que se prostram em silêncio ensurdecedor
diante dessa horrenda e alheia dor.
As medalhas
que decoram coloridas fardas, as
assinaturas que ornamentam os diplomas
no currículo dos diplomatas e a escuridão
das togas, onde é manipulada à sombra, a justiça terrena, através das leoninas leis
divinas, são as sutis e fatais munições usadas pela mídia para alimentar o fogo
do ego que aquece e ilustra a fronte do manipulado. Pois são justamente essas formas
sinuosas das imagens sedutoras das medalhas, que tremelicam como pano de fundo os
limites desenhado pelo pass-par-tous do
diplomado e os traços que ornamentam as letras que assinam esses pomposos
certificados, que têm moldado o caráter da pessoa
de cor através da moral padronizada pela violência colonial que não é
incolor.
O paletó que
passou a ser pessoa; a medalha que essa pessoa transformou em sua consciência;
e a escuridão da toga; que passou o kit usado na estética indutora da condição
humana do ser em seu processo de vassalagem que inevitável o leva a desenvolver
a Síndrome de Estocolmo Adquirida.
Vestir o
véu da ilusão ofertado pelos meios de comunicação, passou a ser a principal função
das pessoas de cor que se travestem com fardas, togas, paletós, e que
representam os poderes constituídos dessa nação, a fim de resguardar o sutil processo
dessa nova forma de escravização.
A leitura narrativa
dessas togas, fardas e uniformes desenhados nos livros didáticos, são habilmente
usadas por quem sabe desenhar as histórias apagadas de nossa memória; redesenhando-as,
a fim de reconstruí-la usando os novíssimos mitos programados nas nossas
cavernas mentais pós-modernas-coloniais.
Despertar e
despir esses corpos negros, e exibir em toda a sua nudez, a incômoda verdade
que essas
vistosas vestes escondem em seu falso pudor, deveria ser o escândalo nosso
de cada dia, do solstícios a equinócios, rasgando uniformes escolares e
militares; certificados e diplomas, além das togas dos estupradores da justiça
terrena e divina; essa ato de insubordinação deveriam fazer parte do currículo
oficial da história do único povo de Ébano que vive em solo nacional. Sem isso,
nosso currículo é um engodo que corroí a pele negra ao passo que tenta embranquece-la,
mesmo após, vampirescamente ter consumido
a sua última centelha, defronte ao palácio dessa justiça portadora de múltiplas
deficiências físicas, mentais e psicológicas de estimação.












