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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A Aldeia Global das Tribos nos Tribunais

Fardas, togas e paletós, servem para manter as velas e o curso do navio Negreiro contemporâneo de todos os dias que nos dói hoje, que trás a carga viva do engano da farsa da abolição como fato ocorrido de fato. Ele, esse navio negreiro, parte para todas as partes, saindo do brancopofágico porto de Liverpool, com seu capitão-do-mato preto a bordo portando uma bandeira branca, uma vez que este capitão foi formado pela academia ariana; academia esta frequentada pelos que buscam pelo poder e pela fama.

Dessa forma, o preto que veste paletó, toga ou farda passou a ser o real fardo do povo negro. Povo este que produz a riqueza da branquitude desde que a estética ariana passou a produzir e a criminalizar a pobreza como processo político usado como propulsão principal das instituições da colônia portuguesa como capital europeia em solo Latino-americano.

Essa fúnebre Nau errante, singrando nossa sociedade, passa pelas ruas e becos da cidade: passa todos os dias atropelando, quebrando os ossos e rasgando a pele preta sangrada pela caneta-chicote do branco sinhô do norte. Esses negreiros que hoje se movem com gasolina, óleo diesel, álcool e estriquinina, sobem e descem os morros tupiniquins, com as malas abarrotadas de corpos pretos acorrentados e ensanguentados, em cenas fortes e sem cortes, exibindo esse mórbido espetáculo que é a paga por sua diária de infames horrores, com os aplausos surdos dos expectadores, que se prostram em silêncio ensurdecedor diante dessa horrenda e alheia dor.

As medalhas que decoram coloridas fardas, as assinaturas que ornamentam os diplomas no currículo dos diplomatas e a escuridão das togas, onde é manipulada à sombra, a justiça terrena, através das leoninas leis divinas, são as sutis e fatais munições usadas pela mídia para alimentar o fogo do ego que aquece e ilustra a fronte do manipulado. Pois são justamente essas formas sinuosas das imagens sedutoras das medalhas, que tremelicam como pano de fundo os limites desenhado pelo pass-par-tous do diplomado e os traços que ornamentam as letras que assinam esses pomposos certificados, que têm moldado o caráter da pessoa de cor através da moral padronizada pela violência colonial que não é incolor.

O paletó que passou a ser pessoa; a medalha que essa pessoa transformou em sua consciência; e a escuridão da toga; que passou o kit usado na estética indutora da condição humana do ser em seu processo de vassalagem que inevitável o leva a desenvolver a Síndrome de Estocolmo Adquirida.
Vestir o véu da ilusão ofertado pelos meios de comunicação, passou a ser a principal função das pessoas de cor que se travestem com fardas, togas, paletós, e que representam os poderes constituídos dessa nação, a fim de resguardar o sutil processo dessa nova forma de escravização.

A leitura narrativa dessas togas, fardas e uniformes desenhados nos livros didáticos, são habilmente usadas por quem sabe desenhar as histórias apagadas de nossa memória; redesenhando-as, a fim de reconstruí-la usando os novíssimos mitos programados nas nossas cavernas mentais pós-modernas-coloniais.


Despertar e despir esses corpos negros, e exibir em toda a sua nudez, a incômoda verdade que essas
vistosas vestes escondem em seu falso pudor, deveria ser o escândalo nosso de cada dia, do solstícios a equinócios, rasgando uniformes escolares e militares; certificados e diplomas, além das togas dos estupradores da justiça terrena e divina; essa ato de insubordinação deveriam fazer parte do currículo oficial da história do único povo de Ébano que vive em solo nacional. Sem isso, nosso currículo é um engodo que corroí a pele negra ao passo que tenta embranquece-la, mesmo após, vampirescamente ter consumido a sua última centelha, defronte ao palácio dessa justiça portadora de múltiplas deficiências físicas, mentais e psicológicas de estimação.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Inimigo meu


Como Professor, jornalista e cineasta brasileiro, para lutar pelos pretos, tenho enfrentado o paradoxo de ter que lutar contra os pretos. Imagine só as contradições desse bizarro contexto já assinalado em meio à tempestade[1] por um de nosso mais eminente expoente do Pan-africanismo.

Este prosaico fato que ficou por muito tempo dando voltas em torno de minha cabeça, martelando meu cérebro, com insistentes interrogações paulatinas e progressivas, a partir do momento que eu decidi dar aulas, escrever, produzir roteiros e filmes abordando nossa memória e identidade, tendo como tema central, justamente a simbologia do princípio de tudo: a mulher; que é uma educadora por excelência pela própria natureza, que molda seus filhos e filhas, sua família e uma sociedade inteira.

Pois bem, o roteiro que antecedeu a toda essa saga, que narrava a influência da mídia sobre o inconsciente feminino, de uma maneira ou de outra, se estendia também a questão de gênero, pois tratava da alma do homem negro, que em primeira e última instância tem sua gênese através da mulher. Ou seja, essa influência em último caso, independe de gêneros, pois decididamente se trata de uma política de dominação mental, física e espiritual.

Analisando essa minha primeira experiência, pude observar que, de um elenco que contava com doze personagens negras e uma personagem branca, as mulheres negras se esquivavam de assumir qualquer compromisso com o trabalho em questão, enquanto mulheres brancas se disponibilizaram a realizar a empreitada em questão, no referido roteiro audiovisual.

As lições que aprendi com essa caminhada foram tão desconcertantes, que cheguei ao ponto de pensar em trabalhar com Black face para solucionar essa inusitada situação. Mas desisti da ideia; e dos nove filmes, até agora só foi possível concluir somente um, em consequência de não ter tido a oportunidade de completar o elenco necessário, com as personagens negras das histórias e documentários criados.

Observo nas escolas, nas ruas, campos e construções[2], um monte de milicos pretos marchando em indecisos cordões, filhos de (estupradas) mães pretas, mas que assassinam pretos e pretas, mostrando que sua xenofilia agora é seletiva, e fundamentada pelo auto-ódio que é cultivado e nutrido pelo povo preto a ele próprio; em especial, a mulher preta que paradoxalmente reclama de sua solidão.

Em meio a essa tempestade, percebo as matizes de nossa pretitude se fragmentar em mais setenta tons de preto em meio a esse colorismo antropofágico egocentrado, enquanto nosso povo se definha, perdendo-se em meio a seu caminho desde a Revolta dos Malês às conjurações tupiniquins.
Na conjuntura dessa nação republicana-brancopofágica, nossa história tem sido escrita e protagonizada pela branquitude que comanda desde a cabine do primeiro navio negreiro ao gabinete governamental do brancalóide eleito para a manutenção da política da acefalia total, para dirigir o único povo ainda existente em solo nacional.

Recontar a nossa história, com nossa própria voz, memória e vez, é um trabalho que requer disposição e coragem, principalmente para encarar essa elite negra cultivada pela verve brancalóide, que tem a função análoga aquele escudo tecnológico[3] projetado pelos norte-americanos. Sendo assim, em meio à tempestade dos mísseis de conhecimento, essa elite preta protege a falsa legitimidade da supremacia brancopofágica desses brancalóides que se outorgaram o título de proprietários das verdades alheias.

Todo esse sinistro cenário, que reserva a indignidade e a desumanidade a uma nação inteira; nação esta que tem as variantes, variedades e variações da cor do ébano; é de responsabilidade única do próprio negro, que teve sua memória ancestral fragmentada pela tortura, humilhação, e finalmente, deletada; ao se perder no espelho positivo de Narciso.

A falta de compromisso do negro para com o próprio negro faz dele um expectador, dono de uma passividade mórbida em relação a si mesmo; passividade que o faz divagar durante esse espetáculo de permissividade em que ele autoriza que seu destino seja traçado por outrem que não lembre a sua cor:
Eis o resultado do espetáculo das raças apresentado pela democracia monorracial tupiniquim nesses extravagantes circos egocentrado que servem o pão da ignorância meritocrática. O mesmo pão servido nos púlpitos das religiões, que não saciam a fome, mas semeiam a confusão total na mente colonial.

Esse preâmbulo é para lembrar que, tendo o negro, o seu próprio reflexo como inimigo, é necessário primeiro, lutar contra ele mesmo, para libertar-se das amarras mentais trançadas pela brancopofagia. Só desse modo ele vai ter condições de reconhecer seus irmãos e a si mesmo. Conhecendo-se, se libertará. Dessa maneira, o espetáculo das raças vai poder começar sem hierarquias escravagistas, impostores, dominados ou dominadores.





[1] Referência a Marcus Mosiah Garvey
[2] Referência a música de protesto de autoria de Geraldo Vandré.
[3] Projeto chamado guerra nas estrelas

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sobre a fantasia branca do racismo reverso

Não é que eu seja branquista (racista reverso), partindo do princípio que não odeio o branco, apenas tenho ojeriza do resultado de sua nefasta branquitude.

Não é que eu seja branquista, mas penso que esta seja uma atitude produtiva, pois ela vem numa mão completamente diversa daquele branco que ama a cultura negra, mas odeia o negro.

Não é que eu seja branquista, mas penso que dessa maneira, essa atitude não venha a ser uma atitude meramente contrária à política fúnebre do racismo; política esta que é dirigida a todos que tenham a cor da pele diferente do infame padrão brancopofágico.

Não é que eu seja branquista, mas posto as contradições do ser humano abrancalhado em face de sua pseudo-humanidade, ele mantém uma distância regulamentar entre seu pomposo discurso e sua fictícia prática humanitária.

Não é que eu seja branquista, mas digo pela milionésima vez que há inúmeros conhecimentos que de nós foram sequestrados e que devemos reaver em troca da cessão da humanidade que falta aos brancopofágicos, e isso só pode ser revisto através de uma troca sincera, justa, ética e respeitosa entre ambos.

Não é que eu seja branquista, mas existe a necessidade urgente de uma Reparação, a fim de que seja restabelecida a harmonia entre o povo Negro e a minoritária população brancopofágica, com a produção de uma cultura humanista, que faça com que nós nos afastemos do ser puramente animal e nos aproxime do criador de todas as coisas.


domingo, 21 de janeiro de 2018

Cem Título



Intelectualidade, evolução tecnológica ou diplomas de doutor, nunca foram sinônimos de moral não senhor, porque tudo isso pode causar muito dissabor no caminho de quem tem um mínimo de pudor. Portanto, assim como a cor dos olhos não determina o caráter da pessoa, a inteligência deve repudiar o diploma[1] como forma ou testemunha de idoneidade, na formação da sociedade.

Foi a xenofilia[2] do povo preto que fez com que o diploma fosse bem aceito como ingresso impresso de acesso prioritário a propriedade intelectual de uma verdade universal incontestável e impessoal na sociedade atual, promovendo assim, esse festival de certificado mercantil, que fez até o capitão-do-mato se definir como mandatário desse império senil, nesse banquete brancopofágico das Negras subjetividades servidas a gosto, tais como serviam nas feiras exóticas dos zoológicos humanos eurocentrados proposta pela união européia medieval, como mercado infame de padrão ISO universal.

Nesse histórico contexto desse Brasil brasileiro, criou-se para o estrangeiro um toque de berimbau chamado cavalaria[3], para apontar o canalha cor de x-9 que na esquina surgia; esse mesmo indivíduo preto que tem a crença tenaz de que a xenofilia é da cor da pomba da paz, armada de uniforme e trabuco, terno e gravata, e diploma de diplomata.

Dessa maneira, a traição, identificada pelo toque da canção do capoeira que jogava descalço na rua, em frente a estação, expondo a situação de uma xenofilia de uma única mão, exclusiva e seletiva, estimulada por esse caramunhão cor de x-9 que entregava os irmãos, e formava um esquadrão de uniforme e cassetete na mão; exercício hoje exercido por este mesmo exército, feito de participante democrático no processo obrigatório de qualquer eleição; seja para Feitor, deputado, prefeito ou vereador, e até mesmo sacristão; além de direção de escola de samba ou para qualquer empreendedor de sorriso incolor.

Para ele, o empreendedor, a palavra do momento é empoderamento; de quem para quem, dá pra se ver no sorriso branco daquele alguém, proprietário de helicóptero entorpecido de entorpecentes, além dos crentes na política da bancada santa, na bala que canta e no desfile do boi garantido do Coronel Jamanta, enquanto a família brasileira que janta, sentada a mesa da sala assistindo ao jornal nacional, se encanta com a bunda que se levanta na praia de um Rio que ri na cara do cara careta de janeiro a novembro, que trabalha pra caceta e não tem noção do significado da palavra bitcoin ou do termo cotação; só entende de treta e de boceta, além de comer com gosto o farelo servido pelo pato amarelo[4].

Portanto, essa gente carente não sabe que o diploma para prisão especial apresentado na propaganda do jornal, não significa um incentivo educacional, mas a garantia de uma fina nata da elite nacional que se prepara para entrar com infinitos recursos no tribunal, a fim de não ser prestar contas no final. Mas o povo não perde no total, pois se satisfaz com o final feliz da novela que vem após o jornal, e que vai repetir tudo de novo nas tardes da TV matinal para essa gente que sofre lavagem cerebral degustando-a como prato principal.

Agora vamos dar uma pausa para o nosso comercial, para depois retornamos com a ladainha, corrido e a chula de nosso esporte nacional que não pode mais defender o comensal de comerciais da TV nacional patrocinado pelos Death Eaters internacional.

O filme já está no fim e este final feliz foi feito pra mim; pensa o comensal de forma anormal, sentado a frente da tela, com a sequela de quem não poder distinguir o que está a frente dela como realidade paralela, salvo quando a casa dos três porquinhos aparece no programa de catástrofe encomendadas; só assim a verossimilhança lhe enche a pança com as verdades estúpidas da crueldade com diploma de imunidade.

Mas a paralisia do medo que anestesia, fez desse público, que um dia já foi povo, entrar em total afasia, repetindo o trabalho de Sísifo a cada dia, que lhe fora ordenado em nome da Ordem e Progresso do certificado manipulado pelo dono da TV que tudo vê. Só resta a religião que repete o Vade Mecun para o Deus cifrão e lidera a coalizão dos cinco poderes que tem a posse do controle remoto, mas não possuem as pilhas que pertencem a esse público que um dia já foi povo e desconhece esse processo novo.

Desse modo, o carpe diem[5] dos passarinhos que acompanharam os morcegos e acordam a noite de ponta-a-cabeça, se tornou Carpem noctem[6]. Como diria o ditado, a noite todos os gatos são pardos, desse modo, a Distopia se travestiu de Utopia abrindo o desfile das escolas da vida, para que tudo terminasse no samba do branquinho doido, sem o berimbau da capoeira marginal que agora é exibida no programa esporte total como mais uma atração matinal, sem oferecer mais perigo ao portador do diploma e certificado que garante o saber ancestral para o despossuído da melanina seminal. Esse é só mais um dia normal na cidade de Townsvilles[7].


[1] Referência a Lima Barreto.
[2] Antônimo de xenofobia.
[3] Toque de capoeira que era executado para anunciar a chegada da polícia.
[4] Referência ao movimento neoliberal da ultradireita brasileira que articulou o golpe de Estado no Brasil, financiados e liderados pelos Estados Unidos da América.
[5] Do latim “Aproveite o dia”.
[6] “Aproveite a noite”.
[7] Alusão ao desenho animado intitulado “As Meninas Super Poderosas” e sua citação final.




terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Servidão e Escravidão: Ou a porta que separa o Regime Aberto do Regime Fechado

Entre a servidão e a escravidão existem muitas correntes e cangalhas, mordaças e navalhas; existem incontáveis filhos sem mãe e esposas sem maridos; Existe muito sangue misturado com suor, e muitas lágrimas ao redor do olhar do negro que é encarado como presa, e como um prêmio, que em breve será empalhado ou na Casagrande emparedado.

Na servidão, há sim a forçada construção de uma alheia nação, mas sim, sem a dor que se receia, ou a humilhação que aperta o coração, além do archote que queima a veia até do seu pequeno filhote.
O discurso do predador, dizendo que sempre existiu sinhô, fazendo de servidão, sinônimo para Escravidão, é uma ignóbil tentativa de ocultar sua infâmia, que é um crime para cem perdões, a contar do dedo de cada mão de quem não viveu nem uma vida de cão.

Entre o servo e o escravo há muito mais do que um simples escracho, há uma pele negra que, igual à noite escura, amedronta o ariano-albino incauto.  Do servo, a sua força ativa se explora todo dia; do escravo preto, sua noite se torna cem dia, pois ele só trabalha com a dor da sangria de um coração que já conheceu a alegria. A pele do escravo preto é uma bandeira que Afronta, sem levar em conta o golpe que se adianta em cada Estado que a mão levanta para que o capitalismo tome conta da liberdade que se colhe a cada exaustivo trabalho de cultivo da dignidade humana, e não de plantação do café ou da cana.

O tratamento dispensado a cada indivíduo esmagado em seu infame labor, tendo a dor de seu corpo interior e exterior como recompensa de seu sinhô, inaugurou a escravidão selecionada pela cor. Antes disso, a servidão era o mesmo que receber o divino perdão de um Deus invisível e sem coração; o trabalho dobrado era a solução.

Do trabalho escravo surgiu uma nação, hoje chamada Europeia por sua União, mas que veio mesmo do fundo da escuridão da idade das trevas, e sequestrou a razão amaldiçoando a emoção. Desde então, a definição de tudo segue um padrão, e todos os conceitos devem ser os do patrão, para que servidão possa rimar sempre com escravidão sem provocar nenhuma confusão.

Assim, o sangue que lava o chão, escorrendo pra baixo do vermelho tapetão estendido na sala, em frente à TV que exibe o jogo do melhor time, num dia de domingo, sem o jogador neguim precisar enfiar um gol na cara do empresário ariano no campeonato desse ano. Esse neguim é um servo fiel e não um escravo romulano.


Assim, a cada ano a escravidão vai se transformando, ela é transformista a cada entrevista; brinca em frente à TV, dança nos programas de auditórios e se exibe em comerciais e até nos créditos finais; aparecendo nas manchetes e sempre estampada em outdoors e capa de jornais. Por isso, hoje o escravizado se orgulha de sua escravidão, já que não sabe a diferença e nem os conceitos básicos de servidão, e nem sabe que não sabe.

Desse modo, entre sinônimos e antônimos, a memória se perder nos escaninhos dessa história com início, mas sem fim, já que as páginas desse livro são escritas pela mesma mão que ontem segurou o chicote e que hoje faz jorrar sangue da ponta da caneta prendendo qualquer fracote.

Portanto, os sujeitos dessa história estão espremidos entre os tijolos que construíram e que constroem os shoppings e arranha-céus, hospícios e cárceres das cidades que sempre cultivam suas favelas-senzalas, a fim de manter o padrão europeu de escravidão. Entre os tijolos de quaisquer construções e uma simples bandeja que serve a um capelão, não existe mais qualquer sinônimo para descrever escravidão. Desse modo, a profunda dor que rasga o corpo e traz indignidade a alma, também mata todos os dias do ano os nossos filhos e filhas, descendentes de africano, que servem de escravo em seu cotidiano a qualquer um ariano; sem saber ou por engano, ou mesmo por desconhecer determinado sinônimo.

Da escravidão como crime da história, até o racismo como resultado desse crime infame, é notório que sua tipificação deva ser a de Crime Continuado, e ainda, sendo este crime, um crime contra a humanidade, visto tratar-se de um crime praticado contra um determinado povo. Deve-se abolir imediata e definitivamente o famigerado engodo jurídico tipificado como injúria racial, criado exclusivamente para evitar a punição do citado crime que vem sendo o perverso racismo, para cujo dolo, ainda não existe até os dias de hoje, nenhum facínora que tenha sido enquadrado nessa lei para preto ver. Servidão pode até fazer rima com escravidão, mas para o crime e o criminoso só resta mesmo à responsabilização.

Portanto, não falemos mais da pobreza como crime, e nem da cor da pele como definidora de caráter como recomenda as narrativas contidas nos discursos da bula papal, científica e social, que transformou o deserdado num monstro ou anormal; Falemos sim, da vida humana e da dignidade de cada ser, sujeito, gente e protagonista na construção de uma nova realidade humana da idade das luzes. Desse modo, chegaremos ao único Regime que devemos aceitar: o Regime da Liberdade. 


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Banquete


Alienígenas do Mundo Negro e do povoado branco que se encontrou em tempos díspares sobre a Terra Azul partilham o mesmo estômago, mas brigam ferozmente pela comida: Essa seria a narração de uma das páginas de um livro holográfico futurista, contando como os primeiros humanos, como ancestrais da população albina, transformaram o mundo azul numa sociedade humana, antes da chegada dos segundos que, ao contrário do povo melaninoso, precisaram passar por um longo período de idade das cavernas até poder chegar a partilhar esse mundo, fazendo dele, a casa de uma grande família; seria essa a Casa da família humana, que hoje o egocentrismo ariano-meritocrático transformou no pardieiro da Casagrande.

Uma vez que os humanos portadores de melanina, e os albínicos pseudo-humanos, foram hibridizados em momento dispares; o primeiro instante da humanidade, quando fora concedido ao homem negro um gene que o distinguiu dos animais classificados como irracionais, e muito mais tarde veio o segundo momento, quando esse gene do homem preto, foi transferido aos brancalóides através do processo da mestiçagem, momento este que também lhe foi concedida uma parcela de sua melanina, a feumelanina ou falsa melanina; fato este que transformou esse pontinho azul do universo numa referência da história Sideral.

Desde que esse evento mudou os rumos do Eternal Universo, os neófitos albinos, que foram civilizados e humanizados pelos portadores da melanina, transformando-os em arianos, eles tentam usurpar seus Mestres melaninosos a partir do instante em que assimilaram suas construções saberes civilizatórios, fazendo uso desse conhecimento através do belicismo, para fundamentar assim, uma política de perversão que lhes permitiram reescrever as origens desse universo, camuflando sobre grossas e sutis camadas de vernizes, tais escritos agora lidos como versões de históricas conquistas arianas. Foi desse modo, sobre os auspícios de tais perversões reescritas, recodificadas e legitimadas através de expedientes hediondos promovidos por essa população minoritária, que se desenvolveu o dogmático processo de usurpação e sequestro da história do mundo, além de todo seu processo de construção humana.

Essa é a conjuntura que contextualiza o atual estágio humano sobre o mundo azul, onde as forças nele agora contidas, como num tabuleiro de xadrez, se confrontam em constantes negociações, para sustentar sua sobrevivência através da hierarquia ariana instalada como política que escraviza, enquanto retira a humanidade do ser enquanto ser, para que essa mesma hierarquia possa sustentar-se.
Sendo assim, a cultura negra, uma vez sendo apropriada pelos albinos, uma vez arianos, fizeram uma miscelânea a partir de uma releitura processada e recodificada ocorrida após a invasão de Alexandre em solo africano; deu-se então finalmente a visibilidade a essa pseudo-civilização ariana; civilização esta que veio a se sustentar hierarquicamente pela força e pela violência extrema a fim de impor e padronizar a sua cultura que fora religiosamente entronizada através dos sacrifícios de sangrentos suplícios, olvidando e invisibilizando dessa forma, a sua matriz geradora.

Destarte, os afrodescendentes de hoje se sustentam sobre uma camada falsificada e falseada que lhes escravizam através de uma doutrina educacional e religiosa impositiva que os retém no cativeiro e os preparam para um jugo induzido como escolha própria. A expertise desse exercício reside no expediente de transformar o escravizado em seu próprio carcereiro; no prisioneiro que irá defender aguerridamente seus algozes, além de eleger e escolher instrumentos e métodos que irão melhor lhe torturar, legitimando e dando continuidade a esse interminável ciclo, que é exibido como espetáculo cotidiano nesse circo sadomasoquista em que se transformou o Mundo azul.

Afrontar as camadas manipuladoras dessa instituição Ariano-meritocrática é a maneira única de possibilidades de existência real que levará a uma independência legítima do indivíduo enquanto sujeito. Abolir esse espetáculo de horror promovido como passatempo que paralisa o relógio humano em seu solstício de consciência, seria o caminho para retomar o equinócio de uma cultura humanista, interrompida pela violência extrema do eurocentrismo, em sua saga nessa Terra que paira sobre a força sustentadora do mundo azul, nesse Universo infinito de Universos.


Os caminhos, traçados e percorridos por ambos, se encontraram há muito, na trilha da história humana. Agora, estão em via de se  ramificarem na maturidade trazida pelo tempo de vez; tempo este percebido através do amolengar dos frutos gerados pelas sementes disseminadas por essa história. O banquete está posto e será servido no equinócio de uma civilização terrena  e terráquea sedentas por equidade, e presentes a essa mesa frutificada pela visão dos olhares, sabores e sentidos trazidos pelas palavras que novamente se fazem verbo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando a Vida é Mais do que Um Filme em Preto e branco

Ainda bem que a vida não é um filme hollywoodiano com final feliz, pois se assim fosse, ela sempre teria final no final. Ou seja, acabou o filme, acabou a vida e tudo mais vai perdendo seu brilho e seu sentido, visto que seria um eterno mais do mesmo. Sendo assim, o que importa não seria o astro vivenciar todas as peripécias e perigos e no final encontrar a vitória, já que ela, a vitória, é tão certa nos finais felizes como o sol e se põe todos os dias e nasce em todas as manhãs. Poderíamos dizer que esta é uma paráfrase do poeta falando sobre a utopia; dizendo que ela, a utopia, não foi feita para ser alcançada, mas sim, para ser cotidianamente perseguida nos levando sempre em direção ao azimute.

Diferente dessa definição relativa a utopia, o filme sempre acaba, e no final, procuramos por outro filme e mais outros filmes; mas os filmes sempre vão acabar e nós vamos sempre procurar por outros filmes; por isso a vida nunca será um filme; Pois se assim fosse, a vida perderia sentido de ser vida. Então o que procuramos não é somente um final feliz, como diria o comovedor filme intitulado “a procura da felicidade”, com final feliz obviamente; visto que procuramos a felicidade não como um final, mas como um meio. Ou seja, um estado de ser e de viver permanentes.

Desse modo, temos duas escolhas: podemos viver buscando a felicidade ou ser feliz. E como qualquer criança, podemos brincar de ser feliz ou viver numa eterna busca da felicidade. Ou seja, viver o filme ou buscar pelo filme de nossa vida. Isso talvez evitasse que tomássemos atitudes insanas, como a de tentar adiantar as cenas da vida que a gente prefere não viver, e passar por esses episódios com o semblante leve de quem conhece o sensacional final desse espetáculo chamado de vida. Dessa maneira, podemos fazer um contrato conosco mesmo, de ter sempre recomeços felizes em vez de Finais Felizes.

De qualquer forma, qualquer final pode ser encarado como recomeço, se contiver a felicidade sem precisar ter motivos. Afinal, é esse sentimento que faz com que a vida tenha seu sentido de vida; já que a vida é o composto de uma endorfina quântica refinada produzida pela ausência do medo de ser feliz.

Transformemos nossas vidas, de um filme preto e branco, para um filme colorido, diverso e includente de outras vidas que se somam e se convertam, com seus mais de 70 tons de pretos, sobre esse planeta azul; tons tão valiosos como a cor do ouro que dorme sobre o solo verde no final do Arco-da-velha que produz e reproduz vidas variadas, variantes e vibrantes em suas sete cores. O espetáculo da vida é nosso, sem pão nem circo para quem protagoniza a si mesmo.

Por isso a vida exige que tenhamos Objetivo como primeiro e último item, para que ela possa ter sentido. Primeiro e último item porque o objetivo em si só não basta, pois no caminho em direção a esse objetivo necessitamos agir de uma forma Fluída, sem a rigidez militar da disciplina espartana, visto que a Flexibilidade vem a seguir como outro item precioso dessa busca, para que tenhamos a certeza de que os tropeços e obstáculos são problemas temporários. Isto é, o problema nunca foi realmente o problema, mas sim, a forma como se lida com tais problemas para que ele deixe de ser problema. Portanto, a Aceitação e a Adaptação a quaisquer momentos desconfortantes, farão com que as nossas forças não sejam minadas pelos dias nublados durante a rota traçada em direção ao objetivo.

Dito isso, devemos ter a percepção de que a vida, sendo feita de tempo, não há razão para se Perder Tempo com questões desgastantes e desnecessárias que não venham somar as possibilidades de se atingir o objetivo previsto; fato este que nos leva a necessidade de ter um Propósito nessa saga em busca do objetivo. Esse caminho ficará bem mais leve e agradável a partir do momento em que deixarmos cair a petulante máscara de juiz de todas as coisas, julgando a tudo e a todos, perdendo tempo e se perdendo no objetivo de vida traçado.

Portanto, a Simplicidade e a Prática aliada ao discurso, são condições sine qua non para que possamos absorver o que há de útil e descartar o que não vem a somar nessa caminhada. Certamente será necessário eliminar o sinistro monstro do Ego, que na verdade nada mais é do que aquilo que mascara o medo travado em nosso peito que nos espreita a todo o momento da vida. Dessa maneira, poderemos enfim protagonizar a nossa história de vida sem medo de ser feliz.

Assim chegaremos ao que Fanon se referia em seu livro Pele Branca Máscara Negra, que decididamente não se tratava da questão referente à Cultura Negra ou quiçá de uma suposta cultura branca; mas sim, tratava da possibilidade de se chegar a uma Cultura Humanista.

Portanto, os pontos destacados acima, como objetivo primeiro e último que condiciona a jornada humana, nada mais é do que a direção apontada para a iniciação na trilha da filosofia Ubuntu, que vem na contramão da nefasta filosofia eurocêntrica dicotomizante de verdades, quando  esta se especializa em fragmentar as mesmas verdades através do maniqueismo instituído por seus mitos fundantes, que transforma a cada Pessoa numa personagem de novela de época ao ditar seus hábitos e atitudes.

São esses mitos fundantes que vestem a humanidade, e que transforma a vida num burlesco baile a fantasia com suas desnecessárias máscaras de ocasião, numa eterna festa que sempre acaba no vazio de uma noite escura, aonde se desenrolam as cenas sinistras da saga de uma vida passada num filme em preto e branco. Quando se chega enfim, ao final do filme, já não é mais possível retomar as partes perdidas no tempo da insensatez na entropia desse tempo vivido sem propósito e objetivo. Ou seja, desprovido de sentido.


Enfim, perceberemos que tais cenas eram dirigidas por terceiros, que ditavam convenientemente as nossas atitudes e decisões em proveito próprio, ao rever o filme de nossa vida passado durante o último suspiro da passagem. Então saberemos que a vida não é um filme, mas sim, uma história; uma história que deveria ser vivida, cantada, contada e recontada de diferentes formas e vozes diversas, sendo revelada como o arco-celeste no pós-tempestade.