Rompendo o silêncio histórico do povo melaninoso, protagonizando o outro ponto de vista de uma outra história que se evita ser contada, afrocentrizando o olhar paradigmático sobre a cultura oficialmente formatada, patenteada e legítimada como única.
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segunda-feira, 28 de maio de 2012
O corpo fala II...!!!
Aquilo que os europeus chamavam de pregar a justiça de Deus aos povos bárbaros; ou seja, povos não europeus; nos dias de hoje o dicionário denomina como genocídio. Atos comuns dessa missão europeia, como assassinatos em massa, tortura, estupro e sequestro, agora é academicamente chamado de 2ª diáspora africana, pelos intelectuais renomados.
As diversas comunidades africanas violentadas, depois de manipuladas a venderem seus próprios irmãos como escravos, foram colocadas juntas e denominadas de acordo com a região em que foram caçados, antes de transportados para as Américas. A nação Gêge, os Nagôs, enfim, os povos de cultura Iorubá desembarcaram no nordeste brasileiro, enquanto os povos de origem bantu, desembarcaram no sudeste.
A cultura iorubana é extremamente visual, se traduzindo através de suas roupas coloridíssimas, sua arte, escultura, por seus orixás, etc. Enquanto os bantus tem sua cultura baseada exclusivamente na oralidade e na corporeidade, traduzida por suas danças rituais, sua música e suas histórias.
Não foi por acaso que a Capoeira, assim como o Samba teve seu berço no Rio de Janeiro e o candomblé na Bahia. Mais quando se fala em negritude a primeira lembrança que se tem, limita-se a religião de comunidades que representam cerca de 20% dos povos da África das regiões onde reina a crença nos Orixás.
É justamente através da evocação desse pensamento que as religiões ocidentais, em especial as neo-evangélicas, tentam desqualificar os povos classificados por eles de povos bárbaros, usando como outrora, a bíblia. Assim, qualquer violência contra a população melanodérmica passa a ser sagradamente justificada e naturalmente aceita pela sociedade passiva e pela sociedade dominante que estruturam nossa cultura de massa, e por aqueles que se veem privilegiados pela perversidade desse contexto.
No Rio antigo, capoeiristas como Prata Preta e Manduca da praia estavam enfrentando a polícia enquanto ainda não se falava em M. Pastinha e muito menos em M. Bimba que surgiriam no cenário na década de trinta, no governo do ditador Vargas, quando Besouro de Mangangá já havia se tornado lenda. O tráfico interno de peças (escravizados) no Brazil passou a ser fato comum, com a interferência inglesa no comércio de gente, portanto, a Umbanda se fez presente no Rio Janeiro através dessa assimilação Ioruba-Bantu.
A população melanodérmica do Rio de Janeiro, assim como seus antepassados, os imigrantes nus, que trouxeram sua história no corpo e no coração, transformando sua essência em capoeira que terminava com Samba e Sorriso; hoje faz seu corpo falar funk e sua boca entoar Rap, traduzindo sua herança que não se calou pela coerção da escrita eugênica tupiniquim. Portanto, sua essência é passível de ser desqualificada pela aristocracia reinante, descendentes da princesa portuguesa e donos da terra invadida e apropriada indebitamente; que hoje expulsam os Negros classificando-os como invasores.
Assim, nosso governo oficializa o gueto, legitimando os preconceitos e o racismo institucionalizando-os, após a "histórica" justificativa religiosa e a legitimação da mídia, o 4º poder. Como dizia (Franz) Kafka: "Primeiro matamos a sua história, depois impingimos a nossa mentira".
“... A história se repete, mas a força deixa a história mal contada”... Mesmo Rui Barbosa tendo tentado apagar a memória dessa população marginalizada, o Brasil continua sendo o maior detentor de documentos que fariam da história da África uma história mais completa. Mas o receio da oligarquia e dos religiosos de reconhecer publicamente o negro como o arquiteto e engenheiro das Américas, fez preferir transformá-lo numa dogmática ameaça psicológica virtual permanente, já que essa atitude se mostrou comercialmente mais lucrativa, além de garantir que as relações de poder permaneçam hierarquicamente estáticas.
Assim a escravidão mental, perpetrada pelas Tecnologias de informação e comunicação através da mídia, tornou-se a principal aliada na manutenção dessa condição sine qua non, para a manutenção do escravismo contemporâneo.
Nossa história está contida nos documentos sobre os cuidados da igreja e dos militares, especialmente da Marinha do Brazil. Mesmo ocultada essa história, o corpo Afro não se cala; ele que fala, que grita para não "dançar" é história viva que não se apaga, escrevendo com gestos e atos que plasmam seus caminhos nesse descaminho, sem nega-se nem enganar a si mesmo, o corpo resiste à escravidão imposta à mente pela mídia, pelo ariano que se acredita dominador e pela perversidade criminosa exercida por uma sociedade hipócrita, que se apropria e manipula a força criadora da população melanodérmica, ao mesmo tempo em que a execra. Assim nasce o paradigma da dicotomia entre discurso e prática do “Não... Nós não somos racistas...!!!
Uma pequena mostra dessa criatividade foi a invenção do linho, da cerveja, do sabonete, do café, da máquina de escrever, caneta esferográfica, o regador, a caixa de correios, o motor a combustão, o cortador de grama, o semáforo, o carimbo, a lanterna, a lixeira, o cortador de grama, o interruptor, o sapato, tábua de passar, a geladeira... Enfim, sem mencionar a agricultura, a matemática, a filosofia, a astronomia, a medicina, a metalurgia, etc. Ou seja, 90% das invenções existentes atualmente, até mesmo o princípio da informática é fruto da cultura do povo melanodérmico.
O europeu se apropriou desse conhecimento e não satisfeito, usurpou a dignidade do negro roubando-lhe sua memória. Mas a presença desse corpo através do Samba, da Capoeira, do Funk e do Rap que tanto afronta e assombra os criminosos racistas, são lembranças vivas, que não deixam essa história se apagar. Mesmo após a mídia ter imposto seu padrão de qualidade Cáucaso, ter promovido troca de valores, de cultura e religião; mesmo assim a memória corporal fala mais alto. A ancestral natureza do corpo se une ao som e ao ritmo dos tambores transpondo as barreiras ideológicas, religiosas e sociais impostas pelos descendentes dos traficantes, capatazes e senhores de escravizados.
Mas o fato desse discurso escravagista estar profundamente arraigado em muitas mentes, os conflitos de identidade e existenciais acabam fazendo parte da vida do afrodescendente; é como se ele tivesse acabado de fazer algo ilícito e sua consciência, agora caucasiana, funcionasse como o grilo falante das histórias europeias: no momento sua consciência não mais lhe pertence, embora seu corpo não tenha ainda assimilado tal informação.
Mas aquele imigrante nu deixou a sua herança; seus herdeiros a tem como um cavalo de Troia, mesmo que seu “intelecto caucasiano” lhe aponte a direção, é o corpo que domina seu movimento, sua direção. Desse modo, nosso tumbeiro se deslocou do plano físico para o psicológico, tendo consequências reais físicas, como reação a nível social, e psicológica e pessoal.
Nesse atual contexto, o sistema educacional brazilleiro ainda não deu conta de perceber e administrar esse processo epistemicida e de limpeza étnica, que iniciou-se oficialmente com a eugenia e vem se perpetrando com as tecnologias de informação e comunicação promovida pela mídia. O sistema educacional e acadêmico não desenvolveram competências administrativas e pedagógicas para quebrar essa corrente de tronos e vergonhas, a fim de destituir esse processo de eugenia ainda vigente em pleno século XXI, assim como o tráfico de gente e a escravização no antigo molde colonial.
Os sofismas que sustentam a desqualificação do afrodescendente como sujeito, fazem com que a justiça brasileira acolha estrangeiros caucasianos, como o mafioso italiano Cesare Battist, e deporte africanos que chegam ao Brasil fugindo das guerras políticas sustentadas por interesses europeus em solo africano.
No Brazil, país onde fatos sociais são transformados em fatos policiais, a justiça funciona de maneira conveniente à conjuntura escravagista reinante, formatando uma sociedade tácita que sustenta o status quo da oligarquia brazilleira. Assim como lei áurea, que foi uma lei que contribuiu enormemente para a evolução e considerável transformação nas relações de escravização brazilleira; ela permitiu que chicote do feitor desse lugar as algemas, que a senzala se transformasse cárceres inumanos e os tumbeiros em confortáveis viaturas policiais.
Assim o corpo Negro continua sendo propriedade pública, com tarja preta e prazo de validade, exposto nas prateleiras dos axiomas paradigmático sociocultural tupiniquim; Assim ele, o afrodescendente, caminha em torno de sua árvore do esquecimento num silêncio ensurdecedor incomodando bastante seus detratores. Sua boca fechada não cala a voz do seu corpo festejante de vida, observando a natureza que não se oculta diante do olhar sorridente que circula seu Pelourinho de cada dia.
Para ilustrar essa perversa conjuntura, não posso deixar de citar meu embate como educador e cidadão afro-brasileiro, frente a renomada Drª Tânia Andrade Lima, arqueóloga da Universidade de São Paulo e responsável pelas escavações do Cais do Valongo, considerado o maior Porto de escravizados das Américas, a respeito das descobertas realizadas nesse local; um sítio arqueológico que traz a tona a história de nosso antepassado melanodérmico; Quando lhe questionei se a importância dessas descobertas seriam tão importante como a construção do Porto Maravilha; projeto original da prefeitura do Rio de Janeiro, e se havia um projeto similar a essa importância: ela simplesmente se calou, encerrando assim sua falação a respeito do estupendo projeto Maravilha. Ou seja, o silêncio foi uma retumbante e ensurdecedora resposta à memória de um povo: memória que a oligarquia insiste literalmente em enterrar.
Mas a violência desse ato de amordaçar, encarcerar, imobilizar e deletar à memória do corpo Afro não está sendo garantia suficiente de controlar sua subjetividade e sua vontade latente, sempre presente na mente desse sobrevivente, que traz sua história registrada na pele, que mesmo esfolada, guarda nas cicatrizes o mapa que conduz as referências de seu caminhar.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Arkhé (raízes)
Dia 25 de Maio comemoramos o
dia da África. Por que comemorar-se o dia da África? Quem levanta essa questão
da mesma forma deveria se questionar pelos motivos que leva um mozambo na sua
empreitada perene em sua tentativa frustrada de aceitação, a priorizar a etnia
monorracial dominante que lhe rechaça? Sendo eles parte do segundo país com
maior número de negros no mundo...!?? Esse mozambo gerado no não-lugar e
gestado no entre-lugar, vivendo sobre o jugo da não-identidade, tendo sido negada
sua inserção na sociedade? Tendo por esse motivo, optado compulsoriamente pela
branquitude, como única possibilidade de aceitação, renegando a negritude como auto-defesa?
Apesar de essa opção
ter se redundado em rotundo fracasso, traduzido pela miséria e desemprego, decorrente
da assunção desses valores alienígenas, ele continua a insistir
involuntariamente em ser uma peça, um objeto, um escravo de ganho. Vivendo
nessa conjuntura, destituído de sua identidade e de si mesmo, ele abraça as referências
eurocêntricas, assumindo valores, posturas e atitudes que implicam em
infindáveis conflitos físicos e psicológicos. Tendo sua identidade embotada ou
reclusa por esse processo, os conflitos se grudam nesse indivíduo, de forma
simbiótica.
O difícil e complexo
resgate dessa identidade, deve centrar-se num processo hermenêutico e
diatópico, a fim de provocar os paradigmas postos, além da necessidade da
instrumentalização e do trabalho epistemológico. Ou seja, não basta saber que
existem outros pontos de vistas, não basta a insatisfação com o que está posto,
não basta o simples querer; Só assim seria possível uma correção construtural.
Sem esse processo, desse
novo olhar, desse novo lugar, esse caminho torna-se espinhoso; o indivíduo
permanece mozambo. Nossas crianças continuaram a serem adestradas a ter medo de
suas raízes, continuarão a escarnecer e desprezar sua descendência
melanodémica. Ele esqueceu-se da existência da verdade e de sua verdade, admitindo
unicamente a verdade do outro.
Como forma de
autodefesa, ele ri de seu infortúnio, fugindo do embate, escondendo-se atrás do
próprio conflito; se desconhecendo vítima, enquanto assume a cadeira de réu.
Desse modo, ele mesmo se pune quando naturaliza sua condição de réu, na
assunção da representação construída para si.
O indivíduo tenta sem
sucesso, medir-se pela euro-imagem, tentando alcançar a igualdade através dessa
pseudossemelhança, esquecendo-se de si. Acreditando poder encaixar-se nesse
papel ditado pela constituição, ele assume a branquitude vivendo a utopia da
promessa de liberdade. Assim ele se torna uma pessoa que é muito e que tem
pouco, trocando o tempo pelo relógio, mesmo sabendo que por mais gordo que um
gato seja, ele nunca se tornará um leão. Portanto, o dia da África é o dia de revisitar
nossas origens, para que possamos ser capazes de reescrever nossa própria
história de vida.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Quando se fala na opressão dos poderosos sobre os menos poderosos, o poder da palavra é algo preponderante; usa-se o termo conquista para o domínio dos primeiros e o de invasão para os segundos. Assim nascem os heróis e os bárbaros, os anjos e os demônios, o bem e o mal.
A oligarquia cria o certo e o errado fazendo com que todos acreditem em seus sofismas, usando da retórica e do mecanismo da estrutura de dominação que lhes pertencem: as tecnologias de informação e comunicação.
A oligarquia cria o certo e o errado fazendo com que todos acreditem em seus sofismas, usando da retórica e do mecanismo da estrutura de dominação que lhes pertencem: as tecnologias de informação e comunicação.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
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