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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Arkhé (raízes)



Dia 25 de Maio comemoramos o dia da África. Por que comemorar-se o dia da África? Quem levanta essa questão da mesma forma deveria se questionar pelos motivos que leva um mozambo na sua empreitada perene em sua tentativa frustrada de aceitação, a priorizar a etnia monorracial dominante que lhe rechaça? Sendo eles parte do segundo país com maior número de negros no mundo...!?? Esse mozambo gerado no não-lugar e gestado no entre-lugar, vivendo sobre o jugo da não-identidade, tendo sido negada sua inserção na sociedade? Tendo por esse motivo, optado compulsoriamente pela branquitude, como única possibilidade de aceitação, renegando a negritude como auto-defesa?
Apesar de essa opção ter se redundado em rotundo fracasso, traduzido pela miséria e desemprego, decorrente da assunção desses valores alienígenas, ele continua a insistir involuntariamente em ser uma peça, um objeto, um escravo de ganho. Vivendo nessa conjuntura, destituído de sua identidade e de si mesmo, ele abraça as referências eurocêntricas, assumindo valores, posturas e atitudes que implicam em infindáveis conflitos físicos e psicológicos. Tendo sua identidade embotada ou reclusa por esse processo, os conflitos se grudam nesse indivíduo, de forma simbiótica.
O difícil e complexo resgate dessa identidade, deve centrar-se num processo hermenêutico e diatópico, a fim de provocar os paradigmas postos, além da necessidade da instrumentalização e do trabalho epistemológico. Ou seja, não basta saber que existem outros pontos de vistas, não basta a insatisfação com o que está posto, não basta o simples querer; Só assim seria possível uma correção construtural.
Sem esse processo, desse novo olhar, desse novo lugar, esse caminho torna-se espinhoso; o indivíduo permanece mozambo. Nossas crianças continuaram a serem adestradas a ter medo de suas raízes, continuarão a escarnecer e desprezar sua descendência melanodémica. Ele esqueceu-se da existência da verdade e de sua verdade, admitindo unicamente a verdade do outro.
Como forma de autodefesa, ele ri de seu infortúnio, fugindo do embate, escondendo-se atrás do próprio conflito; se desconhecendo vítima, enquanto assume a cadeira de réu. Desse modo, ele mesmo se pune quando naturaliza sua condição de réu, na assunção da representação construída para si.
O indivíduo tenta sem sucesso, medir-se pela euro-imagem, tentando alcançar a igualdade através dessa pseudossemelhança, esquecendo-se de si. Acreditando poder encaixar-se nesse papel ditado pela constituição, ele assume a branquitude vivendo a utopia da promessa de liberdade. Assim ele se torna uma pessoa que é muito e que tem pouco, trocando o tempo pelo relógio, mesmo sabendo que por mais gordo que um gato seja, ele nunca se tornará um leão. Portanto, o dia da África é o dia de revisitar nossas origens, para que possamos ser capazes de reescrever nossa própria história de vida.

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