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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Quando as Rosas Calam e os Espinhos Falam...

Era uma vez, uma elegante Flor de lótus, que vivia só em seu canto, toda vestida de branco, guardando seu profundo silêncio em meio a um lacônico lamaçal que grassava ao redor, cercando-a por todos os lados, transformando a sua brancura, que reluzia ao fundo daquele escuro e lúgrube ambiente, fazendo parecer uma concorrente, participante de um possível show de talentos assistido por uma ruidosa plateia escatológica, composto por um fétido júri de esterco.

E assim, o tempo voa, enquanto as carruagens passam e os cães ladram; até que um certo dia, da suavidade de sua quietude, lá do fundo desse atoleiro fétido de estrume, ela enfim, lentamente dirige o seu olhar para o alto; e de repente; uma epifania sobreveio às escuras meninas azuis de seus brancos olhos, que miravam o seu oposto; e essa Flor, enxergando iridescentemente, repentinamente transformou-se num magnífico e reluzente Girassol, vestido unicamente com uma fulgurante e majestosa cor dourada. Deste modo, daquele ponto fixo do olhar de sua existência, lá do seu profundo Silêncio, essa intensa e cintilante claridade se fez.

Esse Girassol, agora circulando nesse novo Tempo de sua divinal postura fixa de Lótus, como um fractal, refletia sobre si mesmo abundantes miríades de matizes luminescentes, que surfava sobre os raios solares diurnos e noturnos, de cada eterno agora que se apresentava no seu sempre.

Deste modo, nesse intenso e renovado ânimo varonil, durante a sucessão dos incontáveis dias e anos que se seguiram, surfava essa bela flor sobre os intensos raios solares de equinócios a solstícios, além de todas as fases lunares, até as flamejantes energias do Cósmico Sol Central. Ao final desses eternos ciclos; nas linhas sinuosas que formaram o seu majestoso caule verde, que seguia inconteste em direção aos caminhos iluminados pelo Sol, surgiram estranhas protuberâncias, que progressivamente, se transformaram em assustadores e pontiagudos espinhos, descortinando assim, um novo e misterioso cenário aberto. Foi então que o Girassol, surpreendentemente se descobriu como uma magnífica Rosa resplandecente, sendo mais uma Flor habitante da Floresta Cósmica, que agora ternamente lhe abraçava.

Mas, junto a esse delicado abraço, também percebeu nessa espantosa e gloriosa paisagem, os agudos espinhos abrolhados que já lhe sangrava o coração, perfurando cada memória a todo amplexo, fazendo com que as mesmas vertessem copiosamente através das veias abertas em seus verdes caules, agora, já completamente avermelhados. Então, pode enfim se dar conta de que, foram essas memórias derramadas, a principal responsável pelo despertar de todas as lembranças adormecidas, trazidas do profundo escuro ancestral, há muito sepultado no denso lodaçal.

Dessa maneira; quão flechas sublimes lançadas de longe, como trovões anunciadores de pesadas tempestades; os raios solares antes, agradavelmente candentes, agora, transpassava-lhe cada pétala como pontas agudas, profunda e lentamente cravados na tenra carne fetal.

Foi quando, num átimo, o seu ponto de vista foi transportado, para um outro ponto, e de uma nova vista, enfim, ela pode olhar e ver, testemunhando a iluminação desse Girassol; que antes, vestia branco e depois passou a trajar dourado; observando por fim, a epifania da antiga Flor de Lótus surgida do barro, descobrindo a Luz do seu próprio Sol.

Observou que nenhum dos caminhos do Sol não eram retos, pois sinuosamente eles se configuravam como uma ascendente espiral infinita, descortinando os recônditos da da sua escuridão, desde as entranhas da Lama até a fonte da própria Luz, seguindo o mesmo percurso da lagarta, que ficou sem caminho para continuar. Então, magicamente, de pequenina semente que fora, abrolhou-se em flor, desabrochando-se em mil pétalas, brancas, rosas e douradas, ao transformar-se numa gótica rosácea, de uma arquitetura viva e divinal, passando a adornar as vidraças dos seculares Templos e modernas Catedrais.

Hoje, o colorido desses vitrais, que refletem o seu intenso brilho sobre os fervorosos e alheios olhares, de fiéis e neófitos respectivamente, perde os seus maviosos tons diante do barulhento escuro da alma, pulsante naqueles que contemplam distraidamente esse belo altar, sem, no entanto, apontar esse mesmo olhar para o seu santuário interior, em direção ao próprio alto.

Portanto, para atravessar as floridas e aromáticas cercas do belo átrio que contorna a nossa alma, é necessário passar pela inefável dor dos espinhos; conhecendo assim, no desconforto desse lapidar, a estrada que nos conduz do carbono ao diamante; para enfim, sermos capazes de refletir no olhar, todos os matizes iridescentes que brotam dessas tempestades, que generosamente regam as nossas sementes encravadas ao longo do caminho; até que descubramos que, na gênese do nosso Éden, o fato da serpente criar asas e a lagarta alçar o seu admirável voo, são tão imprescindíveis e tão belo, quanto a lama carecer da generosidade das chuvas para fazer florir, trazendo o encanto da primavera no encontro entre Borboletas e a Serpentes... 

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