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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Um Cavalheiro Negro e a Casa da Luz Vermelha...



Todas as noites, após chegar de sua labuta diária, o Cavalheiro Negro tomava seu banho, se perfumava e se arrumava com especial esmero, se preparando para adentrar aquela imponente casa vermelha, que ficava justamente no meio de seu caminho. Invadir aquele fortificado Castelo vermelho passou a ser a meta de sua vida, desde sua tenra adolescência. 

Foi uma das mais difíceis missões outorgada a esse valente guerreiro que levava seu dia-a-dia extremamente agitado, de casa para o trabalho, do trabalho para casa e vice-versa; mas mesmo assim, decidiu que essa era a sua sagrada missão, na qual a possibilidade de falha não era opção. Pois sabia muito bem de que precisava de mais alegria, de mais leveza e mais prazer em sua vida, pois via que tudo estava muito cinza naquela rotina extrema, de muitas decisões a serem tomadas a partir de muito raciocínio lógico, a fim de solucionar até mesmo os problemas triviais que se apresentavam de forma tão voluntariosa a seu pensamento lógico.

Enfim, ele precisava de uma imediata mudança em sua vida. Por isso, essa casa da luz vermelha que sempre estava em seu caminho, e que ele nunca havia parado para ao menos visitar a dita cuja, talvez por vergonha de que alguém, ou algum conhecido, pudesse falar ou pensar a seu respeito que o desagradasse ao vê-lo no interior dessa tal casa.

Decidido então, ele se preparou meticulosamente, planejando inúmeras formas, maneiras diversas, estratégias e variadas táticas para atingir seu objetivo, e todas as noites, se avizinhava do paço e tentava adentrá-lo, se vendo sempre desencorajado ao deparar-se com homens de terno escuro, engravatados e de semblantes severos, circundando, sinistramente a observá-lo, desencorajando-o dessa forma, sem que em nenhuma das vezes conseguisse lograr êxito em suas tentativas.

Passaram-se dias, meses e anos de contínuas e inúmeras tentativas frustradas que se somavam ao seu cartel de embates cotidianos. Até que certa feita, o Cavalheiro Negro decidiu que já era hora da batalha final. Após meditar por uma noite inteira, vestiu sua armadura e improvisou um ensaio geral, visualizando em seu íntimo, suas possibilidades da vitória como única meta a ser atingida; animado, partiu então em direção aquele fortificado Castelo Vermelho.

Aproximando-se do majestoso palácio, após passar pelos carrancudos homens de preto como primeiro obstáculo, percebeu outras barreiras que se apresentava a sua frente: era um longo caminho que separava a casa contornada por profundo fosso aonde jazia uma variada fauna de peçonhentos repteis e animais sanguinolentos que o aguardava, separando-o de seu objetivo. 

Após um breve interregno, ele não teve mais dúvidas; mergulhou fundo naquele misterioso lago escuro e lúgrume que refletia a sua imagem turva, revelando para si mesmo a sua face assustada, como a de um menino desorientado que se perdera dos pais em meio a multidão; nessa fração de segundos que durou mais que uma eternidade; enfrentou então, toda a sorte de ferozes ataques investido contra ele, como mordidas, arranhões e estrangulamentos que quase o fizeram se afogar.

Chegando a margem abismal do referido fosso ainda com uma réstia de ar nos pulmões, de súbito se viu cercado por homens fortemente armados que selvagemente investiram contra ele, tentando despedaça-lo com as lâminas de seus afiados punhais de pensamentos falantes. Ele lutou bravamente com o que lhe restou de ar, respondendo aos impropérios sanguinolentos que impiedosamente lhe transpassavam o ser; e finalmente, como um leão do deserto, rosnou sua sagrada vitória. Mesmo sangrando, continuou sua caminhada se arrastando com muita dificuldade em direção a fortificada porta do castelo vermelho.

Foi então que percebeu que o poderoso portal construído com milenares madeiras de lei, parecia rir de sua aproximação, zombando de sua pretensão de entrar naquele salão. Mesmo assim ele avançou, enquanto aquela poderosa porta continuava indiferente as suas persistentes investidas, permanecendo inabalavelmente impassível. Quanto mais força ele usava na luta contra o poderoso portal, mais sua peleja se mostrava inócua, e mais o portal respondia com inalterável indiferença, zombando apaticamente de seus desesperados esforços.

O castelo vermelho continuava lá, imóvel, impassível e imponente a sua frente, sem qualquer sinal de que cederia a seus intensos esforços. Até que finalmente, desistindo de lutar, ele se prostrou totalmente extenuado do combate. Rendido, entregou-se completamente, despojando-se definitivamente de todas as suas armas e da armadura com a qual havia se revestido, sentando-se a seguir diante do portal, numa humilde postura genuflexa, fechando os olhos ao mesmo tempo em que abria os braços em profundo silencio; respirou fundo; e assim se manteve por um tempo indefinido de um eterno agora; até que; repentinamente, para sua surpresa, sem que nada fizesse, o grande portal suavemente se abriu, sem esforço algum.

Enfim, ele conseguiu o que queria; adentrar ao interior do misterioso e solitário Castelo Vermelho, e cuidadosamente chegar até o centro da sala real, aonde encontrava-se assentada ao trono a autoridade fêmica suprema que agora o aquecia dadivosa com seu ar benevolente em forma de chama trina. Aproximando-se lentamente, ascendeu delicadamente a chama que jazia a sua destra, antes de tomar posse daquele lugar que agora viria definitivamente legitimar a soberania de seu mundo. Aquele espaço vazio, agora por ele ocupado, era nada mais e nada menos do que a sua própria essência interior tornada intransponível, além de fortificada e encastelada na qual ele havia transformado  seu coração.

Ao ascender sua chama a seu próprio trono, a luz finalmente se fez, devorando imediatamente toda a escuridão que havia ao seu redor, consumindo assim, todos os seus medos, dúvidas e incertezas. Agora o Cavalheiro Negro sabia que, aonde se encontrasse o seu coração, ele também se encontraria. Dessa forma, naquela casa, em chamas, totalmente nu, ele fez amor consigo mesmo, entronando seu sagrado feminino numa nupcia testemunhada pela doce lua cheia  iluminada pelo cósmico Sol Maior, legitimando dessa forma, essa união sagrada entre masculino e feminino.
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