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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O Erótico Retrato em Preto e Branco da Carne Mais barata do Planeta: a Carne Preta.


Um cara castrado, fantasiado com as roupas emprestadas pelo Estado, usando esse temido uniforme de caçador de escravizado, empregado pelo sistema nervoso da Matrix mundial; através de um contundente monólogo; monólogo este proferido com o prestimoso auxílio de um soco inglês, numa cessão intensiva de disparos ininterruptos de golpes, tendo esse bélico objeto envolto com 365 opiniões de um playboy burguês, oriundo de um território português; dessa maneira peremptória, esse representante do Estado oficialmente me explicou, esclarecendo os motivos pelo qual Leonardo[1]; o apolíneo artista da rede globo residente no Leblon; este sim, poderia Vinte; mas que eu, esse neguinho artista, grafiteiro, morador de um morro sem nome e sem pedigree, mesmo hospedado num hotel de luxo no Arpoador, não poderia nunca dar dois, sem antes e depois, provar o peso da mão do poder medieval do Estado de terror Nacional.

Em meio a esse episódio de cada dia que me dói hoje, lembrei de um outro cara que conheci na adolescência; ele se chamava Bezerra[2]; que não era o De Menezes, mas sim, Da Silva; ele que também fazia parte da gentalha nascida na mesma Senzala onde hoje se encontra o teatro Escala; foi ele que me explicou numa canção, o estado crítico dessa situação.

Foi aí que cai em mim, depois de cair no chão atingido por mais um golpe de supetão, após ser acertado em cheio na outra santa face[3], gerando aquela bela confusão cotidiana, digna de luz, câmera e ação, enquanto Leonardo, dando vinte, tranquilamente assistia a tudo pela tela do seu ostentoso celular, os detalhes dessa minha espetacular participação que terminaria numa cela de um batalhão, encetando assim uma bela história que, provavelmente lhe daria o Oscar pela autenticidade e verossimilhança de melhor atuação, numa futura série global inspirada no sangue Real que escorria desse preto corpo estendido no chão, devido a essa cinematográfica ação onde mais de 80 balas perdidas se encontraram, quando disparadas por esse militar que usa seu soldo para comprar tênis adidas, beber Coca-Cola e brincar de porteiro na escola dessa negra vida que poder ser escravizada, vendida ou perdida, enquanto a sorte dessa mesma vida é exibida como atração principal, gerando a adrenalina que vicia e entorpece o coração,  produzindo dessa forma, a devida emoção contratada por esse consumidor, que sempre tem razão ao exigir de seus atores-produtos, uma autêntica atuação.

Um outro cara que eu conheci, durante a minha infância na escola dominical jesuíta, me havia ensinado a oferecer a outra face; mas foi pela TV; minha escola de Ensino À Distância; que aprendi com a arte de Leonardo que poderia dar dois; e finalmente, na minha última lição na Escola da Vida: aprendi que as cores da Capela Sistina foram manufaturadas com os elementos  tirados das lágrimas do elemento padrão[4], com o sangue vertidos de seus pés, de suas mãos e de seu coração, durante as ações policiais cotidianas aonde as balas perdidas sempre se acham, ao encontrarem pelas ruas da cidade, um corpo negro.

Dessa forma, como um grande atractor, as balas são espontaneamente disparadas diretamente na alma do cidadão de cor, a fim de estimular a sua dor, fazendo crescer o ibope[5] com a ajuda do Bope[6] e do telespectador que ama a emoção romantizada pelo ardor do sofrimento daquele que não é o seu espelho.

Dessa maneira, a TV lucra, os empresários lucram e o Estado lucra nessa democracia racial perpetrada pelo Estado Nacional, seja através da escola ou da homilia religiosa que transformam infantes santos em adultizados pecadores, transmutando essa temida e estigmatizada pessoa preta numa querida gente branca[7], para que ela tenha a possibilidade de fugir da dor encetada no calabouço Estatal que cozinha sua carne preta no calor da contemporânea fogueira santa, religiosamente medieval, e logo após ter seu corpo preto pornograficamente exposto em fotos de jornais e revistas, como manchete do dia, satisfazendo assim, as fantasias desses clientes, consumistas desse Mercado Infame[8] que exibe diuturnamente, como um obsceno e doentio estímulo do imaginário escravagista, o retrato em Preto e Branco dos corpos de homens e mulheres estripados e estuprados, por possuírem a carne mais barata do Planeta: a Carne Preta.





[1] Referência a Leonardo da Vinci
[2] Referência ade Bezerra de Menezes, espírito que se comunicava com o médium Chico Xavier e ao sambista e pagodeiro carioca Bezerra da Silva.
[3] Alusão a passagem bíblica onde Jesus falava sobre “oferecer a outra face”.
[4] No jargão o policial o termo “elemento padrão” é usado para se referir e identificar uma pessoa de cor negra.
[5] Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística.
[6] Batalhão de Operações Especiais, nome dado ao esquadrão da morte da polícia militar do Estado do Rio de Janeiro.
[7] Referência ao filme e Série televisiva “Cara gente branca”
[8] Referência ao tráfico negreiro e ao comércio de escravizados africanos.

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