
Um cara
castrado, fantasiado com as roupas emprestadas pelo Estado, usando esse temido uniforme
de caçador de escravizado, empregado pelo sistema nervoso da Matrix mundial; através
de um contundente monólogo; monólogo este proferido com o prestimoso auxílio de
um soco inglês, numa cessão intensiva de disparos ininterruptos de golpes, tendo
esse bélico objeto envolto com 365 opiniões de um playboy burguês, oriundo de
um território português; dessa maneira peremptória, esse representante do
Estado oficialmente me explicou, esclarecendo
os motivos pelo qual Leonardo[1]; o
apolíneo artista da rede globo residente no Leblon; este sim, poderia dá Vinte;
mas que eu, esse neguinho artista, grafiteiro, morador de um morro sem nome e sem
pedigree, mesmo hospedado num hotel de luxo no Arpoador, não poderia nunca dar dois, sem antes e depois, provar o peso
da mão do poder medieval do Estado de terror Nacional.
Em meio a esse
episódio de cada dia que me dói hoje, lembrei de um outro cara que conheci na
adolescência; ele se chamava Bezerra[2];
que não era o De Menezes, mas sim, Da Silva; ele que também fazia parte da gentalha
nascida na mesma Senzala onde hoje se encontra o teatro Escala; foi ele que me
explicou numa canção, o estado crítico dessa situação.
Foi aí que
cai em mim, depois de cair no chão atingido por mais um golpe de supetão, após ser acertado em cheio na outra santa face[3],
gerando aquela bela confusão cotidiana, digna de luz, câmera e ação, enquanto
Leonardo, dando vinte, tranquilamente assistia a tudo pela tela do seu ostentoso celular, os detalhes dessa minha espetacular
participação que terminaria numa cela de um batalhão, encetando assim uma bela história que, provavelmente
lhe daria o Oscar pela autenticidade e verossimilhança de melhor atuação, numa
futura série global inspirada no sangue Real que escorria desse preto corpo estendido
no chão, devido a essa cinematográfica ação onde mais de 80 balas perdidas se
encontraram, quando disparadas por esse militar que usa seu soldo para comprar
tênis adidas, beber Coca-Cola e brincar de porteiro na escola dessa negra vida
que poder ser escravizada, vendida ou perdida,
enquanto a sorte dessa mesma vida é exibida como atração principal, gerando a
adrenalina que vicia e entorpece o coração, produzindo dessa forma, a devida emoção
contratada por esse consumidor, que sempre tem razão ao exigir de seus atores-produtos,
uma autêntica atuação.
Um outro
cara que eu conheci, durante a minha infância na escola dominical jesuíta, me
havia ensinado a oferecer a outra face;
mas foi pela TV; minha escola de Ensino
À Distância; que aprendi com a arte de Leonardo que poderia dar dois;
e finalmente, na minha última lição na Escola da Vida: aprendi que as cores da
Capela Sistina foram manufaturadas com os elementos tirados das lágrimas do elemento padrão[4], com o sangue vertidos de seus pés, de
suas mãos e de seu coração, durante as ações policiais cotidianas aonde as
balas perdidas sempre se acham, ao encontrarem pelas ruas da cidade, um corpo
negro.
Dessa forma,
como um grande atractor, as balas são espontaneamente disparadas diretamente na
alma do cidadão de cor, a fim de estimular a sua dor, fazendo crescer o ibope[5]
com a ajuda do Bope[6] e
do telespectador que ama a emoção romantizada pelo ardor do sofrimento daquele
que não é o seu espelho.
Dessa maneira,
a TV lucra, os empresários lucram e o Estado lucra nessa democracia racial
perpetrada pelo Estado Nacional, seja através da escola ou da homilia religiosa
que transformam infantes santos em adultizados pecadores, transmutando essa temida e estigmatizada pessoa preta numa querida gente branca[7],
para que ela tenha a possibilidade de fugir da dor encetada no calabouço Estatal que cozinha sua carne
preta no calor da contemporânea fogueira
santa, religiosamente medieval, e logo após ter seu corpo preto pornograficamente
exposto em fotos de jornais e revistas, como manchete do dia, satisfazendo assim,
as fantasias desses clientes, consumistas desse Mercado Infame[8] que
exibe diuturnamente, como um obsceno e doentio estímulo do imaginário
escravagista, o retrato em Preto e Branco dos corpos de homens e mulheres estripados
e estuprados, por possuírem a carne mais barata do Planeta: a Carne Preta.
[1] Referência
a Leonardo da Vinci
[2] Referência
ade Bezerra de Menezes, espírito que se comunicava com o médium Chico Xavier e
ao sambista e pagodeiro carioca Bezerra da Silva.
[3] Alusão
a passagem bíblica onde Jesus falava sobre “oferecer a outra face”.
[4] No
jargão o policial o termo “elemento padrão” é usado para se referir e
identificar uma pessoa de cor negra.
[5] Instituto
Brasileiro de Opinião Pública e Estatística.
[6] Batalhão
de Operações Especiais, nome dado ao esquadrão da morte da polícia militar do
Estado do Rio de Janeiro.
[7] Referência
ao filme e Série televisiva “Cara gente branca”
[8] Referência
ao tráfico negreiro e ao comércio de escravizados africanos.
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