Nosso
relógio antropofágico e suicida, é também mágico e marginal desde que esse ser chamado
humano, estranho como raro animal que canta chorando, e sorri em meio a tantas
lágrimas vertidas diante desse tempo que estraga todas as
coisas, nesse calendário de todos os lendários santos dias do ano inteiro.
Essa máquina do tempo chamada relógio, construído por esse
ser chamado humano lógico, que planejou, em sua insana sanha de controle total, o
sequestro da força ativa do próprio mano, usando somente dois precisos
ponteiros, parteiros de sangue, suor e de lágrimas por inteiro; fazendo
qualquer neófito que outrora sorria, exercitar o cantar chorando como forma de
alforria o refrão “tempux edax rerum[1]” de dezembro a janeiro depois de trabalhar todos os dias.
Esse
candango matreiro, que em nosso tempo contemporâneo, trabalha no Rio de
Janeiro, num teatro chamado Casagrande que tem
espetáculo o ano inteiro, e que ironicamente se situa no bairro do Leblon, tendo como
incômodo palco amigo, a companhia da sombra de um Quilombo ali existia num tempo bem mais antigo. Mas esse mesmo palco da vida foi cercado de bares por todos os lados, como uma ilha deserta, para que
se pudesse beber fragmentos de momentos, vendo, sem enxergar, o invisível muro de lamentos
construído pela morte cotidiana que separa o tempo entre a zona sul e a zona norte,
para que o show pudesse continuar de forma torpe.
E dessa
forma que foi se matando o Tempo, depois de transformada a morte numa forma de
se ganhar a vida contando com a sorte. Esse extermínio que é editado na ordem do
dia, quando cada pelotão, em ordem unida, sai as ruas e a executa , nas noites sem lua, essa carnificina meticulosamente
coordenada pela desordem organizada pela ordem assassina.
Esse
trabalhador, com seu excêntrico relógio eurocêntrico; ganho como presente dado
por seu patrão ausente, que viaja e passeia excentricamente de andor sem um mínimo de pudor; tem licença para portar desse objeto que mata aos poucos o ser humano acorrentado a seus
ponteiros de dezembro a janeiro, nos sábados, domingos e feriados de todos os
dias do ano inteiro, nesse eterno Tempo presente, desde que foi inventado um
passado e lhe foi prometido um futuro, tendo como trilha sonora ao fundo, o compasso surdo de um tempux edax rerum, executada por uma orquestra oculta, regida por um reptiliano
maestro draco, enquanto o compasso das palmas arca o passo para o bobo da corte dançar sem açoite.
[1] O tempo que estraga todas as coisas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário