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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Tempux Edax Rerum

Nosso relógio antropofágico e suicida, é também mágico e marginal desde que esse ser chamado humano, estranho como raro animal que canta chorando, e sorri em meio a tantas lágrimas vertidas diante desse tempo que estraga todas as coisas, nesse calendário de todos os lendários santos dias do ano inteiro.

Essa máquina do tempo chamada relógio, construído por esse ser chamado humano lógico, que planejou, em sua insana sanha de controle total, o sequestro da força ativa do próprio mano, usando somente dois precisos ponteiros, parteiros de sangue, suor e de lágrimas por inteiro; fazendo qualquer neófito que outrora sorria, exercitar o cantar chorando como forma de alforria o refrão “tempux edax rerum[1]” de dezembro a janeiro depois de trabalhar todos os dias.

Esse candango matreiro, que em nosso tempo contemporâneo, trabalha no Rio de Janeiro, num teatro chamado Casagrande que tem espetáculo o ano inteiro, e que ironicamente se situa no bairro do Leblon, tendo como incômodo palco amigo, a companhia da sombra de um Quilombo ali existia num tempo bem mais antigo. Mas esse mesmo palco da vida foi cercado de bares por todos os lados, como uma ilha deserta, para que se pudesse beber fragmentos de momentos, vendo, sem enxergar, o invisível muro de lamentos construído pela morte cotidiana que separa o tempo entre a zona sul e a zona norte, para que o show pudesse continuar de forma torpe.

E dessa forma que foi se matando o Tempo, depois de transformada a morte numa forma de se ganhar a vida contando com a sorte. Esse extermínio que é editado na ordem do dia, quando cada pelotão, em ordem unida, sai as ruas e a executa , nas noites sem lua, essa carnificina meticulosamente coordenada pela desordem organizada pela ordem assassina.

Esse trabalhador, com seu excêntrico relógio eurocêntrico; ganho como presente dado por seu patrão ausente, que viaja e passeia excentricamente de andor sem um mínimo de pudor; tem licença para portar desse objeto que mata aos poucos o ser humano acorrentado a seus ponteiros de dezembro a janeiro, nos sábados, domingos e feriados de todos os dias do ano inteiro, nesse eterno Tempo presente, desde que foi inventado um passado e lhe foi prometido um futuro, tendo como trilha sonora ao fundo, o compasso surdo de um tempux edax rerum, executada por uma orquestra oculta, regida por um reptiliano maestro draco, enquanto o compasso das palmas arca o passo para o bobo da corte dançar sem açoite.

[1] O tempo que estraga todas as coisas.




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