Dia 24 de junho foi aniversário
do Almirante negro. Ali na Pequena África, no morro da Conceição,
mais precisamente na rua jogo de bola, está localizada a casa em que João
Cândido e seus companheiros planejaram a execução da Revolta da Chibata.
Revolta essa em que mais de mil e duzentos marinheiros foram presos, torturados
e assassinados.
Eles foram encarcerados na ilha das
cobras, e mesmo em face das mais cruéis torturas e indescritíveis barbáries,
nenhum deles jamais entregou os líderes da revolta. A maioria desses
marinheiros eram grumetes. Ou seja, tinham entre 13 e 14 anos de idade. Todos
foram chacinados pela marinha do brasiu, pelo Estado brasileiro. Assinalando
que foram duas revoltas; só que a segunda, foi perversamente forjada pela marinha,
para que houvesse justificativas e fossem legitimadas as atrocidades
definitivas, já que o Estado profundo não poderia aceitar a derrota na primeira
revolta desses homens pretos considerados de categoria derradeira.
Neste período, em 1910, o Brasil teve
seu primeiro e único presidente da república negro; e este nada fez pelos
marinheiros, salvo promessas. Somente a igreja da irmandade dos pretos
efetivamente fez algo a respeito, tomando a iniciativa de arrecadar fundos para
pagar a defesa desses marinheiros, cujo advogado em questão, foi Evaristo da
Veiga.
Do outro lado do morro da Conceição,
vemos o armazém André Rebouças, que recebia as mercadorias dos
navios e distribuía através de barcos em direção a Pedra do Sal; esse
abolicionista e renomado engenheiro internacional, libertou centenas de
escravizados, uma vez que só aceitava a empreender quaisquer obras no Brasil se
a mão-de-obra fosse liberta. Ele era um grande festeiro, e em sua casa sempre
havia um arrasta-pé; só que ele nunca dançava com ninguém, só assistia, sentado
em sua cadeira, os convivas se divertindo. Até que um belo dia, a princesa
Isabel apareceu em sua festa e o convidou para dançar; foi aí então que
descobriram que ele, André Rebouças, era um excelente pé-de-valsa; dançava como
ninguém ali até então presente. Foi então que desvendaram o mistério;
descobriram que, em certa feita, muito tempo atrás, ele tinha sido recusado por
uma dama a qual convidara para dançar; desde então, nunca mais se aventurou a
convidar quaisquer outras damas, só as assistia dançando.
Daí, em diante, após esse episódio com
a princesa Isabel, todas as convivas queriam dançar com Rebouças, que por sua
vez, elegantemente recusava, alegando que, quem dançou com uma princesa não
poderia bailar com plebeias.
Mais adiante, temos a Pça dos
Estivadores, próximo à casa de oração dos Malês, foi também o cenário de um
triste episódio para aqueles que buscam a liberdade e a dignidade humana; pois
por ela passaram acorrentados, a caminho do exílio, os escravizados que se
revoltaram contra a sua condição na cidade do Rio de Janeiro em 1838. Esses
escravizados eram remanescentes da revolta dos malês acontecida três anos antes
na cidade de Salvador, mais precisamente em 1935. Após esse evento Black Revolt
soteropolitano de 1935, os brancos passaram a temer todos os escravizados de
origem muçulmana; dessa forma, eles foram entregues a coroa. Ou seja, vieram
para a cidade do Rio de Janeiro, local onde houve a segunda revolta dos Malês;
fato este que não se encontra citado em livros, assim como se encontra nada
sobre a segunda Revolta da Chibata tramada e arquitetada como armadilha para os
marujos negros, para que esses marinheiros servissem de exemplo para àqueles
que ousassem pensar em liberdade e dignidade.
No século XIX as ruas do Rio de Janeiro
tinham donos, e os donos das ruas eram as Tias
e os Capoeiras. As Tias, porque elas
eram os canais de informações mais precisas que qualquer internet contemporânea
e nada efetivamente acontecia sem as articulações das pretas velhas; e os
Capoeiras, porque quem quisesse fazer qualquer coisa nas ruas, tinham que
passar primeiro por eles. Portanto, nada, nem as eleições aconteciam e nem
candidatos algum poderiam concorrer ao pleito sem a permissão dos Capoeiras.
Portanto, as Tias e os Capoeiras detinham o poder nas ruas do século XIX, até
que a república desse o golpe no imperador, dando então início ao genocídio do
povo preto, que continua em curso até os dias atuais. Desde então, os donos da
rua estrategicamente se "recolheram".
Por isso teimosamente, a Pequena África
volta, tendo suas ruas como testemunha viva da história, insistindo mesmo
que Veículos Leves sobre Trilhos, Metrôs e
Portos maravilhas tenham tentado com veemência enterrar sua história, ela cada
vez mais persiste em se desvelar, revelando os túmulos dos ancestrais, que se
manifestam também através dos sons dos antepassados e das músicas batucadas e
rítmicas cantadas por esse povo heroico, com seu brado retumbante, que pode ser
ouvido até pelos ouvidos moucos, e vistos até pelos que se fazem de cegos, provocando
a mudez dissimulada da mídia e da atual sociedade de mentalidade escravocrata.
Pisar nesse chão sem saudar a sagrada superfície
de Gaya que generosamente recebe e abriga todo o corpo, toda alma e espírito
contido no abraço de seus braços, seria um lamentável equívoco. Portanto, celebremos
com danças, folias e folguedos esse vasto amplexo de alegrias transformadoras
do choro em música... Sawabona...!!!

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