Dessa maneira, tudo o que foi escrito,
e tudo mais que foi falado, somam somente 20% de toda informação, do
conhecimento e da lição exposta. Ou seja, a princípio não é o que é escrito, mas
sim, é o que foi dito; mas na verdade, não foi realmente nem o que foi dito, mas
sim, o que se encontrava contido nas entrelinhas da lição entoada por esse
discurso. Mas especificamente, foi aquilo que não foi dito na suavidade do hiato
entre aquele olhar, seguido da leveza dos gestos alimentadores desse estrondoso
silêncio, somado a tudo mais que simultaneamente foi ensinado e aprendido
dialogicamente; todo o resto, é anátema.
Esse estrondoso silêncio contido naquele
grito calado na garganta no interlúdio de tantas frases feitas, tantos refrões
e chavões contidos nos discursos que sustentam os currículos mínimos
alimentadores do status social oficial e imagético de todos os dias, alimentando
a voracidade da máquina de moer pretos e quase-pretos, existe um silêncio
repousado nas entrelinhas dessas frases meticulosamente construídas e
academicamente legitimadas, oficializadas e limitadas no interior das caixinhas
confeccionadas pela ciência e pela religião castradora de gente de cor.
Este silêncio, que faz parte explícita
dos valores da oralidade como principal linguagem da espécie humana, é o único
meio que dá conta daquilo que não pode ser dito através das palavras, já que ele,
o silêncio, usa o idioma singular proferido pelo formidável vernáculo do
coração. Portanto, este silêncio sempre falará mais alto do que quaisquer
palavras que venham a ser proferidas em seu tom maior. O silêncio pode até
parecer mudo aos ouvidos moucos, mas ele nunca será surdo para os que são
chamados pelos xamãs em meio a esse infame
mercado[1]
de peixe[2]
capital.
É necessário permanecer em silêncio, similar
ao processo onde semelhante cura
semelhante, para ser possível escutar, e poder ouvir, a voz desse silêncio
que tudo sabe e a tudo responde; já que esse silêncio está fora da linearidade
do tempo e do espaço desse relógio capital que acorrenta o neófito atemporal, aprisionando-o
ao tempo comercial das vicissitudes[3]
do trabalho escravo contemporâneo.
Sendo assim, o silêncio jamais poderá
ser escrito ou proferido, antes de ser silenciado pelo mais puro do sentimento
que acalma e acalanta, calando o turbilhão de emoções suscitadas pelo mundo
exterior, trazida à alma que vela por si. De todas as frases ditas e reditas,
as que foram silenciadas, se calando para poder ouvir a si própria, foram
ouvidas (e respondidas) por todo o
universo conhecido e ainda por se conhecer. Dessa
forma, silenciosamente o universo entoa sua graciosa melodia para aqueles que
têm ouvidos para ouvir sua canção de redenção nesse sentencioso silencio repousado.
[1] Mercado
infame é uma Referência ao mercado de tráfico negreiro.
[2] Mercado
de peixe se refere a um lugar de balbúrdia, bagunça, de confusão.
[3] Referência
a banalidade do mal trazido pela violência da escravidão como padrão racial que
fundamenta nossa modernidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário