Total de visualizações de página

Pesquisar estehttp://umbrasildecor.wordpress.com/2013/05/29/jornal-cobre-lancamento-de-escrito blog

sábado, 6 de abril de 2019

Pedagogia do Silêncio


Exercendo meu ofício de Professor no magistério público, diariamente escrevo longos textos sobre a quadro branco, extrapolando todas e quaisquer informações que poderia conter numa caneta pilot ao expor o conteúdo da disciplina lecionada; e a cada parágrafo, há uma média de oito livros como referências que fundamentam os conteúdos expostos. Sendo assim, a falação que se segue, como homilia, se estende longamente, seguida de gestos, sobre o erepitar dos braços diante do draconiano quadro branco escolar. 

Dessa maneira, tudo o que foi escrito, e tudo mais que foi falado, somam somente 20% de toda informação, do conhecimento e da lição exposta. Ou seja, a princípio não é o que é escrito, mas sim, é o que foi dito; mas na verdade, não foi realmente nem o que foi dito, mas sim, o que se encontrava contido nas entrelinhas da lição entoada por esse discurso. Mas especificamente, foi aquilo que não foi dito na suavidade do hiato entre aquele olhar, seguido da leveza dos gestos alimentadores desse estrondoso silêncio, somado a tudo mais que simultaneamente foi ensinado e aprendido dialogicamente; todo o resto, é anátema.

Esse estrondoso silêncio contido naquele grito calado na garganta no interlúdio de tantas frases feitas, tantos refrões e chavões contidos nos discursos que sustentam os currículos mínimos alimentadores do status social oficial e imagético de todos os dias, alimentando a voracidade da máquina de moer pretos e quase-pretos, existe um silêncio repousado nas entrelinhas dessas frases meticulosamente construídas e academicamente legitimadas, oficializadas e limitadas no interior das caixinhas confeccionadas pela ciência e pela religião castradora de gente de cor.

Este silêncio, que faz parte explícita dos valores da oralidade como principal linguagem da espécie humana, é o único meio que dá conta daquilo que não pode ser dito através das palavras, já que ele, o silêncio, usa o idioma singular proferido pelo formidável vernáculo do coração. Portanto, este silêncio sempre falará mais alto do que quaisquer palavras que venham a ser proferidas em seu tom maior. O silêncio pode até parecer mudo aos ouvidos moucos, mas ele nunca será surdo para os que são chamados pelos xamãs em meio a esse infame mercado[1] de peixe[2] capital.

É necessário permanecer em silêncio, similar ao processo onde semelhante cura semelhante, para ser possível escutar, e poder ouvir, a voz desse silêncio que tudo sabe e a tudo responde; já que esse silêncio está fora da linearidade do tempo e do espaço desse relógio capital que acorrenta o neófito atemporal, aprisionando-o ao tempo comercial das vicissitudes[3] do trabalho escravo contemporâneo.

Sendo assim, o silêncio jamais poderá ser escrito ou proferido, antes de ser silenciado pelo mais puro do sentimento que acalma e acalanta, calando o turbilhão de emoções suscitadas pelo mundo exterior, trazida à alma que vela por si. De todas as frases ditas e reditas, as que foram silenciadas, se calando para poder ouvir a si própria, foram ouvidas (e respondidas) por todo o universo conhecido e ainda por se conhecer. Dessa forma, silenciosamente o universo entoa sua graciosa melodia para aqueles que têm ouvidos para ouvir sua canção de redenção nesse sentencioso silencio repousado.

Essa é uma canção mágica, composta por milagrosas notas alquímicas, entoadas especialmente para curar o corpo e a alma, a mente e o coração da patologia do esquecimento do ancestral e da ancestralidade, fazendo vibrar o espírito universal do saber adormecido que faz do conteúdo das disciplinas da Biologia e da Física, da Filosofia e da Matemática, da Arte e da História, apenas um adorno que dá sentido à palavra falada. Quando o estudante consegue ouvir a canção do silêncio, ele enfim, tem um encontro maiêutico e diatópico consigo mesmo. Eis aqui a tão falada Pedagogia do Silêncio.



[1] Mercado infame é uma Referência ao mercado de tráfico negreiro.
[2] Mercado de peixe se refere a um lugar de balbúrdia, bagunça, de confusão.
[3] Referência a banalidade do mal trazido pela violência da escravidão como padrão racial que fundamenta nossa modernidade.


Nenhum comentário: