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sexta-feira, 20 de julho de 2018

A Onda Branca do Black Friday

A forma com que hoje o mercado varejista faz uso da palavra “promoção” nos remete a mesma zombaria e escárnio com que os capitães dos navios negreiros conversavam entre si para se divertir em seus encontros nas tavernas adjacentes aos portos escravistas de Lisboa a Liverpool, da mesma forma com que os europeus, de maneira cínica e jocosa, batizavam os navios negreiros com nomes como “Liberdade”, “Boa Intenção”, “Caridade”, “brinquedo dos Meninos”, “Feliz Destino”, “Graciosa Vingança”, “Feliz Dia aos Pobrezinhos”, etecetera e tal.  Expediente também usado pelos ingleses norte-americanos, que batizam seus aviões e misses de destruição em massa com os nomes das nações indígenas que eles exterminaram, para se apropriar do Novo Mundo. Essa postura infame e naturalmente estúpida, passou a ser a conduta oficial banalizada por uma branquitude que sempre destruiu, torturou e assassinou categoricamente quem não fosse espelho.

Foi dessa maneira que a branquitude adquiriu todas as riquezas e as transferiu a seus eurodescendentes; eurodescendentes estes que, hoje negam qualquer responsabilidade na senda de sangue e de atroz, de outrora e contemporânea, do sofrimento imposto ao outro, mas que contraditoriamente, defendem com unhas e dentes o produto desse latrocínio que foi esse lamentável crime da história: o tráfico negreiro, a escravização e a colonização.

Do mesmo modo que os capitães dos navios negreiros, também os capitães-do-mato de outrora se divertiam, competindo com seus pares pelo prêmio de melhor torturador da semana; fato notório este, se percebe nos capitães-do-mato dos dias atuais, que tem destacado o policial militar por sua performance, com  homenagens e tapinhas nas costas, àqueles que mais matam crianças, adolescentes e homens negros no “desempenho da função”.

Essa banalização da violência preconizada por quem a promoveu, sofreu e tornou a exercê-la de forma monopolizadora; agora falo exatamente dos judeus financiadores da escravização africana; lamentavelmente nos mostra que o ser humano está bem distante de sua própria humanidade, já que essa infâmia se tornou a onda e o mote nas vitrines dos Shoppings Centers de norte a sul dessa grande colônia em que se transformou o mundo livre S/A. fato este que tristemente nos remete aos tempos da inquisição, aonde o povo ia para as praças para assistir aos suplícios públicos promovido pelos homens de bens. A única diferença é que hoje a tecnologia nos permite assistir essas atrocidades, sentados no conforto do lar, bebericando e saboreando um prato gourmet.

É lamentável notar que, não há diferença entre o expectador presente nas praças públicas nas trevas da idade média, e aquele que hoje se refastela na pseudo privacidade do conforto de um lar; já que ambos, o sofrimento alheio vêm para assistir e degustar, a fim de simplesmente ter um assunto qualquer, para com seu vizinho poder conversar e sentir-se como um euro cidadão civilizado, se encontrando desse modo, “atualizado”.

Portanto, é comum observar as donas de casa a comentar e compartilhar as últimas promoções do mercado; difícil é observar o compartilhar de abraços não julgados. Por isso, o Black Friday continua sendo o sucesso absoluto dos últimos 500 anos de Brazill. Para tanto, foi simplesmente só esconder a palavra “crime” e “escravidão”. Ou seja, o que os olhos não veem o coração não sente em meio a esse ensaio para a cegueira[1] onde a humanidade se tornou uma eterna estagiária no jardim de infância acompanhado por arcontes e orientadores umbrálicos do Orco.




[1] Referência ao escritor Saramago.

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