Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo da
mulata – aurora filha do dilúvio, neta da noite. Cam está redimido! Está gorada
a praga de Noé.
– por Olavo Bilac
A educação,
ministrada pelo dominador, foi o pulo do
gato para a manutenção da violenta escravização contemporânea, já que de
forma muito inteligente, trouxe em seu bojo o princípio da Assimilação fundamentado
na religião como carro-chefe desse sistema educacional tupiniquim, fazendo com
que o chicote estalasse com mais força e potencializasse as marcas
profundamente, produzindo feridas indeléveis na alma que dilaceram no cerne
toda a carne preta desse planeta, sendo habilmente impressas no DNA das
gerações presentes e futuras, como um instrumento eficaz nesse processo de
tortura permanente banalizada pelo mal nosso de cada dia que nos dói hoje.
É dessa
forma que a ideia colonial de um deus Branco,
de barba Branca, cabelos Brancos e olhos azuis, se faz imperar
como figura dogmática absolutista a partir desse golpe mestre. Assim, a
colonização mental se efetiva e se perpetua enquanto os opressores continuam tranquilamente
a decidir racialmente os destinos de seus servos, encarcerados em sua própria
mente, nesse Tempo Moderno onde o capitalismo
cognitivo completa sua tarefa de dominação econômica e social, ditado através
do padrão racial, estabelecido pela violência da colonização.
Dessa
maneira, as dez mil religiões, dois mil e quinhentos deuses e as cento e duas
versões bíblicas existentes na atualidade que pregam a mesmíssima coisa; o amor ao próximo; se
transformaram em facções religiosas
desde que um “santo” Papa[1] da
chamada santa igreja romana, decidiu, em uma de suas bulas a qual podemos
caracterizar como uma das primeiras fake
News da história, que pessoas de pele negra haviam sido supostamente
amaldiçoados por um de seus deuses arianos de pele branca, cabelos brancos e barba branca. Dessa maneira, passaram a ensinar esse ódio seletivo
como narrativa divina, paradoxal aos mandamentos pregados por esses mesmos “históricos”
deuses-caçulas arianos-homicidas,
racistas e misóginos.
Dessa
forma, os livros didáticos inauguram a interrupção da história da humanidade
iniciando a pseudo-história greco-romana, plagiando despudoradamente as
civilizações melanodérmicas, que foram relegadas ao exotismo, ao folclore e jogadas
no campo do não-científico da vala do senso
comum.
Dessa maneira,
a civilização que desenvolveu a Matemática, Filosofia, Medicina, Astronomia, a Lógica,
a Geometria, a Métrica... Enfim, as Ciências; além de civilizar os gregos,
romanos e troianos; após essa dominação pela força bruta, deu-se início a era da razão eurocêntrica, que se
define hoje pelo patriarcalismo,
pela competição e seus extremos.
É desse
modo que assimilação, perversamente
introjetada pela Educação através dos livros didáticos, pelos meios de Comunicação
e Informação e pelos livros sagrados das Religiões, fez com que fossemos guiados
por nosso inconsciente; inconsciente este que se mostra absoluta e completamente
colonizado. O resultado disso é que nem sabemos que não sabemos o que não
sabemos e o que deixamos de saber sobre os fatos, das causas e dos motivos que nos
levaram a ser guiados unicamente pela razão padrão
eurocentrada e por como por vezes incontáveis defendermos radicalmente o
discurso que sustenta tal razão.
Para
desaprender esse nefasto aprendizado que nos ensinou destilar o ódio seletivo e o egocentrismo como modus
vivendi, será preciso exercitar diuturnamente a nossa completa deseducação, para que possamos nos esvaziar dos
conceitos enviesados e dos preconceitos estigmatizantes e finalmente será possível nos Desdogmatizar através
da predisposição de nos redescobrir e definitivamente descobrir o Brasil. Esse
é o 13º trabalho do Hércules da cor de uma noite sem Lua, que honra seus Rastas através da alteridade
espargidas por seus Dreads Loaks desde
o nascer ao pôr do Sol de todas as nossas auroras, solstícios e equinócios. Enfim, o predador e a presa se tornarão humanos.
Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo dessa Negra- Filha original da Mãe-África, neta de uma noite sem luar. Cam está revivido! Está confirmada está alma que sempre foi, será e o é. - Por Rael Rasta
[1]
Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas,
autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O
papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas
cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século
XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse
na fuga de escravos.

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