Colorismo [1]colorido
de cores espantadas de violências engolfadas, afogadas e pichadas pelo sangue
azul, sobre as paredes escuras de uma história branca, numa estrada só de ida,
que corre fácil sobre o fervente asfalto negro. Passeando pelas ruas durante o
deserto das horas que se seguem ao ocaso, não é por acaso que as bolsas das
madames são apressadamente escondidas, ante os olhos desconfiados de
transeuntes assustados com a presença acusada da pele negra que caminha
alhures, cuidando daquilo que há de mais humano no ser humano: seu próprio
viver.
Mas as cores
noturnas se mistura a pele diurnalmente solar; cútis que capta a energia do
universo profundo, certamente incerto, caminhante por esta estrada de vida
revivida e revolvida por cores fortes, cercada pela natureza morta dos
sugadores de vidas.
Como num
filme rodado em preto e branco, a modernidade vem sugando a vida preta, fazendo
uso da bandeira branca para promover a paz sangrenta, pintando o asfalto negro
de vermelho com o pincel retórico de um discurso capcioso, seguido pelo
fraterno gesto amoroso de tilintar de armas municiadas e engatilhadas, prontas
para rasgar a carne negra que energiza a vida com a cultura da brandura de
almas em sintonia com as cordas[2] do
universo.
O quadro
negro, pintado de branco infestado de vírus, vira patologia aplicada a morte
anunciada, colorindo a festa fúnebre da missa de corpos melaninosos que brilham
no firmamento da escura estrada da vida.
Desse modo
o perigo sempre se aproxima da vida preta, que caminha sem rumo nessa rima que
se sintoniza na primazia do canto que anuncia a vida num Rap cifrado de 70 tons
de preto, ameaçando esse ser humano controlado que não oferece mais risco.
Essa preta
cor que ofereceu Arte e Cultura à filosofia que faz da vida a sua plenitude,
jaz na cruz da soberbia europoide, covardemente exposta nos tabloides, para
ilustrar as aventuras fabricadas para o pseudo-herói branco-amorfo que se
alimenta do medo e do ódio cultivado pela indústria eurocêntrica do terror.
A cor que
oferece o perigo e provoca tanta dor, se mostra fresca, sensual, bela e
incolor, nas capas e manchetes de jornais e revistas de impuro teor, reluzindo
sua cor de branco-impostor. Essa terrorista cor passeia pelas ruas e lares,
escolas e igrejas; e desfilando representatividade, desnuda o seu sacralizado e
divino despudor, meticulosamente descrito em cenas sacanas no jornal nacional, transformadas
em cenas banais de um mal, numa anormalidade mais do que normal, marchando nas
ruas, num indeciso cordão, pelas escolas, nos campos, quartéis e construções,
criando a desordem instituída pela ordem que dita o progresso regredindo ao
negreiro que trafega pelo mundo inteiro, vendendo carne negra a preço de
ocasião, nessa eterna festa da inquisição, nesse século que anuncia a medieval
maioridade brancalóide; essa cor do terror que gera a desordem suscitada pela ordem gerenciada por esse Estado de contínua dor.

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