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domingo, 26 de novembro de 2017

A cor que não oferece perigo

Colorismo [1]colorido de cores espantadas de violências engolfadas, afogadas e pichadas pelo sangue azul, sobre as paredes escuras de uma história branca, numa estrada só de ida, que corre fácil sobre o fervente asfalto negro. Passeando pelas ruas durante o deserto das horas que se seguem ao ocaso, não é por acaso que as bolsas das madames são apressadamente escondidas, ante os olhos desconfiados de transeuntes assustados com a presença acusada da pele negra que caminha alhures, cuidando daquilo que há de mais humano no ser humano: seu próprio viver.

Mas as cores noturnas se mistura a pele diurnalmente solar; cútis que capta a energia do universo profundo, certamente incerto, caminhante por esta estrada de vida revivida e revolvida por cores fortes, cercada pela natureza morta dos sugadores de vidas.

Como num filme rodado em preto e branco, a modernidade vem sugando a vida preta, fazendo uso da bandeira branca para promover a paz sangrenta, pintando o asfalto negro de vermelho com o pincel retórico de um discurso capcioso, seguido pelo fraterno gesto amoroso de tilintar de armas municiadas e engatilhadas, prontas para rasgar a carne negra que energiza a vida com a cultura da brandura de almas em sintonia com as cordas[2] do universo.

O quadro negro, pintado de branco infestado de vírus, vira patologia aplicada a morte anunciada, colorindo a festa fúnebre da missa de corpos melaninosos que brilham no firmamento da escura estrada da vida.

Desse modo o perigo sempre se aproxima da vida preta, que caminha sem rumo nessa rima que se sintoniza na primazia do canto que anuncia a vida num Rap cifrado de 70 tons de preto, ameaçando esse ser humano controlado que não oferece mais risco.

Essa preta cor que ofereceu Arte e Cultura à filosofia que faz da vida a sua plenitude, jaz na cruz da soberbia europoide, covardemente exposta nos tabloides, para ilustrar as aventuras fabricadas para o pseudo-herói branco-amorfo que se alimenta do medo e do ódio cultivado pela indústria eurocêntrica do terror.

A cor que oferece o perigo e provoca tanta dor, se mostra fresca, sensual, bela e incolor, nas capas e manchetes de jornais e revistas de impuro teor, reluzindo sua cor de branco-impostor. Essa terrorista cor passeia pelas ruas e lares, escolas e igrejas; e desfilando representatividade, desnuda o seu sacralizado e divino despudor, meticulosamente descrito em cenas sacanas no jornal nacional, transformadas em cenas banais de um mal, numa anormalidade mais do que normal, marchando nas ruas, num indeciso cordão, pelas escolas, nos campos, quartéis e construções, criando a desordem instituída pela ordem que dita o progresso regredindo ao negreiro que trafega pelo mundo inteiro, vendendo carne negra a preço de ocasião, nessa eterna festa da inquisição, nesse século que anuncia a medieval maioridade brancalóide; essa cor do terror que gera a desordem suscitada pela ordem gerenciada por esse Estado de contínua dor.

  




[1] Existem mais de 70 tons de cores na pele preta, e dessa gradação foi gerada a quantidade de racismo que um negro sofre mais do outro, dependendo do tom de pele emitido por sua melanina.
[2] Alusão a Teoria das cordas, uma das teses científicas que tentam explicar a formação do universo.

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