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sábado, 17 de setembro de 2016

A carne mais barata do planeta é a carne preta

Minha terra tem palmeiras onde um negro chorará; os escravos que aqui morrem já sofreram acolá. Nossos morros têm mais pobres, nossas ruas mais horrores, nossos órfãos tem mais ira, nessa vida de impostores...
Se sair a rua à noite só a morte encontra lá; nessa Terra tem palmeiras onde um negro chorará...

Minha terra tem impostores qu’em Vênus n’entrará, se eu sair à rua à noite mais cadáver encontra lá; nessa Terra tem palmeiras onde um negro chorará...
Me permita Deus a morte, pra que eu não volte para lá; pra qu’eu não veja esses horrores quando Iemanjá me abraçar; pra qu’inda só aviste as palmeiras sem um corpo (negro) pra velar.”
Pois é... Essa é minha terra; Terra do ouro de Mallboro1, na zona norte tem a via da morte, e a zona sul, não é só mar azul. A zona oeste é inconteste; Zona oeste é faroeste.

Na Linha Amarela o Comando é Vermelho, e na Linha Vermelha, tem os amigos dos amigos. Enquanto a Linha verde é desmatada em todas as noites em que as luzes da favela se confundem com as estrelas no negrume noturno do eclípse lunar.

As Balas encravadas nos muros e paredes são os diamantes cravejados nos anéis das madames e dos burgueses.

Rio sem brio, sem teto e com frio. Padre cacófato em cenas insanas de cismas sinistros. Rio, de braços abertos na blitz bandida civil e militar. Rio jagunço, que desarma o homem comum armando o burguês sem medo da punidade; “penas”... Pra que te quero!!!???

Rio, braços abertos para o amigo-urso. Rio branco, não da paz, mas da raça racista. Rio, vermelho de raiva e do fogo dos canos dos revólveres; do sangue que corre nas vicinais e principais.

Rio, negro, escravo de si mesmo. Morro palestino, asfalto TELa VIVa; invasão ou ocupação!!!??? Preocupação com a ação da cidadania virtual. Vivo Rio, morte carioca!! Viver sem vida, sem teto e com brio é sina na cena do carioca sem gema, mas... Às claras. Pão...!!?? Nem com açúcar... É pavê na TV a mesa com fartura de espaço vazio; vazio de vida, de respeito e dignidade. Mas todos sorriem, pois estão sendo filmados pelo “grande irmão”; por isso mostram seu sorriso vazio, contrastando com sua negra pele e saltitantes olheiras, neste Rio sem rima nem ritmo, mas com muita bossa burguesa e mulata à milanesa. Tá servido!!??

Rio que morre de raiva, a míngua enquanto a mata atlântica dança atropelada na Avenida “Brazil” por caminhões de empreiteiros contratados a peso de ouro pelo prefeito que constrói sua casa de campo na calada da noite, sobre o cedro, casa do mico-leão-dourado.

Nossa casa é o chão de estrelas, chão ocupado pela cannabis sativa, ativa e nativa que desarma o espírito e engatilha a doze na cara do cara careta. Rio 40 graus, bonito, charmoso, bombado e suado, desfilando pelo calçadão, subindo as escadarias do Christ e descendo a lapa de bondinho até o telesférico do Sugar Loaf; e cheio de graça e beleza vai gingando pela Avenida Atlântica, sob olhares ávidos de espectadores dos big brothers.

Viva... Rio! Não morra... Ainda!! Nem me mate! Pois Sou oriundo de Angola, uma favela perto da faixa de Gaza, bem longe de Xerém, onde o som dos tambores, cavaquinho, gonguês e agogôs se misturam com o som dos projeteis das PTs, em contraponto aos cantos banto do samba de mesa.

Sou um mulato-pardo-bem-pretinho-quase-negro; enfim, um empretecido, armado de violão pendurado nas costas, cavaquinho nas mãos e da palavra cantada na garganta que viaja entre os fartos lábios; espaço geográfico da antiga cantiga do capão; acompanhado de atabaque, pandeiro e berimbau. Desvio-me do capitão-do-mato; aquele homem chamado pelo editorial do jornal de “embaixador da paz”; caminho, lutando em busca da igualdade de ser gente, sendo de cor diferente.

As linhas que delimitam mapas, separando países e mundo, uso para montar meu instrumento e cantar idiomas arcanos e profanos dos arcanjos africanos, no Rio ou em Belém, em Casa Blanca ou em Dresdén.

Quanto a mim, crioulo de cara preta, sigo a palo seco pela aridez desse lotado deserto urbano; este meio-ambiente morto e enterrado pelo etnocentrismo antropofágico desumano dos que se consideram seres humanos.

Não preciso estar no mundo da lua para perceber que a terra azul se transformou num mar vermelho, sem trilha, nem rumo de retorno, para escapar do abismo interior.

Nem as lágrimas dos arrependimentos misturadas as lágrimas dos crocodilos conseguem fazer cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de viver fora desse jardim de fosseis urbanos.

Nesse Oásis de pensamentos jurássicos, extinguiu toda a sana da chama terna da vida coletiva da pequena cidade grande. Agora a aridez das emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados de Cupido ariano, fazendo os yuppes saírem das cavernas pútridas da modernidade virtual para a crueldade do mundo real, desmascarados e completamente nus.

Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar...” E assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de mão dupla transversal.

Hiroshima é aqui, Nagasak é ali, quanto ao Haiti...Não sei, morri...Sentindo o baque d’uma bala nas costas, enquanto olhava um carro alegórico atravessando a Sapucaí!!! Enquanto eu me acabava, a guerra começava... booommm!!!

Descobri tarde demais que, as antenas das Tvs irradiam pensamentos que são captados pelo bom cidadão, transmitidos em forma de risos de plásticos diversão, eram antenas protegidas pelo divino redentor de pedra, que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados, em ordem unida, a espera de uma chance de igualdade desigual.

O cristo, de costas para a periferia, e de frente para os indecentes, e que escraviza nossas vontades em seu nome, sempre observou, impassível, a crueza e o desvalor da vida vendida e iluminada por sua negra sombra de redentor.

Através das ditas antenas, podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores anunciando a aproximação de novos tumbeiros que adentram a Baía de todos os santos da Guanabara.

Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, revelando sob as águas de Março, os submersos túmulos dos amores-próprios. Assim se revela a favela da cor da tia Ciata, que arrebata Onze Praças morro acima, e depois de gentrificada, é derrubada de seu Castelo morro abaixo.

Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado, e maltratado pela estupidez racional do animal que reside na inconsciência da besta humana.

O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada explodida na face crioula escancarada, desdentada e escachada; aparecendo na foto do cartão postal, o natal tropical em pose fetal, ilustrando a campanha pelo preto aborto social.

Assim, a liberdade negra é condenada à prisão preventiva sem perdão presidencial, enquanto a felicidade preta é apreendida no corredor da morte; ambas, a liberdade e a felicidade, agonizam na fila de espera, aguardando a esperança ariana vestida de branco, enfrentar o anjo negro da morte, transformando noites de prantos em dias de santos...

1 Marca famosa de cigarro nos anos 80 em que a propaganda se passava no velho Oeste americano.


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