São
5 horas da manhã, assistindo os raios do sol que tenta preguiçosamente se
levantar enquanto abro a porta de casa e saio pra trabalhar; logo no portão ao chegar,
junto ao som do rangido, escuto com atenção o engatilhar de uma doze e um
estampido, vendo o dedo nervoso no gatilho, de um policial escroque atrás do
poste, e do seu comparsa com uma glock que me observam com olhos de açougueiro
no matadouro próximo ao bueiro do esgoto, anunciando seu agouro.
Após
alguns passos medidos, vigiados, tímidos e recatados na saída do lar, desço a
ladeira dando passagem na esquina a um caveirão lotado de abutres em cima;
esquivando da mira cretina, me esguio até o bar da Tia Ciata pra comprar uma bala de nata,
a fim de adocicar o correr da adrenalina trocada...
Mas
desisto quando de relance, a minha visão além do alcance, na hora exata, me
revela meia dúzia de doze P2 de 12, de costas uns para os outros, em forma de casamata;
pensei: perdi minha bala, não mais tenho essa mamata de sorrir na saída de casa
pro bar da Tia Ciata.
Finalmente
chego ao trabalho estressado, atrasado, enfezado e arrasado, pensando na volta pra casa,
toda sitiada por hienas e chacais dia e noite, noite e dia, como em qualquer
semana normal em todos os meses de todos os anos, nesse Estado Democrático de Exceção, dessa República que mata e estupra essa senzala-nação por meio da euro-educação e muito tresnoitarão sem nenhum pesar ou vacilação; e comemora com
churrasco o nosso holocausto, só no pancadão.
É
dia de festa na UPP, e a viatura, a porta voz da ditadura, que vem em toda noite escura
trazer a mensagem do amigo oculto da escravatura. Assim, toda noite é noite de natal e todo
dia é de carnaval, com direito a diabruras ou gostosuras dentro de um saco
preto cheio de balas perdidas adornadas pelas manchetes dos jornais nacionais todos
os dias normais.
E
ao final de todos os dias, de saco cheio; Negro dentro de num saco preto do
papai Noel branco blindado, para que os filhos
da branquitude possam festejar a ação
desgraça e a anunciação da morte na manjedoura, dos pretos meninos nascidos mortos
pela raça racista no alto do morro: nosso Gólgota de cada dia nos dói
hoje.
Volto
para casa contando infindáveis minutos de silêncio que faço todos os dias para cada
alma que parte proporcionando quinze minutos de fama ao capitão do mato sacana que reclama
de seu salário assassinando um novo otário: trucidando seu irmão preto sem emprego, sem
teto e sem cama, que não pôde seu sonho realizar de um grande engenheiro se
tornar.
Hoje,
ainda volto pra casa, enquanto coleciono as minhas diásporas de cada dia... Mas
amanhã, quem por mim fará um minuto de silêncio quando os sinos se
dobrarem...!??
São
17h; vejo a lua cheia se anunciar no canto do urutau, enquanto no olhar da coruja que
me previne do mal proveniente do poder sem pudor estatal, o gato branco que
cruza a esquina assassina, falando das sete vidas dessa sina minha. Sigo a sequência da visão
mostrada pela televisão e só agora compreendo o destino traçado para nossa
nação.Visão da situação: voltando à eternidade do lar...Status; start...
Ps: os sinos tocam...
Ps: os sinos tocam...

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