Do Diário de Bitita ao diário de Anne
Frank, nas páginas desfolhadas, entre pontos, vírgulas e reticências, é
marcado o compasso do ritmo ventricular, nos passos percorridos no espaço entre
o cérebro e o coração; resultante do caminhar entre as duas vias, nas idas e vindas, no escutar, no
falar e no silenciar da ação, como reação ao ser, enquanto ser, buscando Ser.
Na filosofia melanodérmica reza que
devemos nos definir e falar por nós mesmos. Nosso diário tem se definido como uma
gigante interrogação que grita, clama e exige ser lida, mesmo nos descaminhos;
em dias de lutas e dias glórias, e principalmente após as derrotas vitoriosas entre as
magias de todas as cores que colorem os ventrículos da vida.
Entre os genocídios categóricos, promovido
pelo predador aparentemente incoerente e inocente; nas vozes que se silenciam e das vozes
silenciadas; em consequência da enviesada leitura do mundo leucodérmico sangrador
da vida corrente, existe o suicídio homicida resultante dessa luta entre a
força bélica e a força da palavra falada e escrita.
Nesse campo de batalha enxadrezado, não de
preto e branco como no diário de Anne, mas no tabloide preto e vermelho,
como no Diário de Maria Carolina; a sangrenta luta entre a arma branca e a
palavra armada, tem manchado de sangue negro as páginas da vida, ornamentando
de vermelho o branco manto da morte que a palavra tem continuamente vivificado.
Desse modo, no diário da morte, vida é sempre vírgula, nesse longo livro da
existência.
Não temos mais o livro dos Sonhos; outrora
assinalado e agora apagado; como referência, no rodapé desse livro da história
contada pelo dinheiro e confeccionada pelo capital, desde o chicote até a
caneta da pena constitucional. Após as primorosas baionetas, mantenedoras de
caprichos arrogantes e indolentes, riscarem o peito perfurando corações, a
letra morta vivificada, que fora escrita no livro da vida de quem partiu, salta
na face branca agressora, assassina e destrutora, como faca afiada da língua castrada.
Os mundos, invisíveis e visíveis, interpenetrados,
agora se chocam, num turbilhão de vozes e palavras; às vezes com pontos e
vírgulas, em exclamações sem fim, mas que não podem se calar e nem serem caladas. São
vozes que gritam no barulhento silêncio dos que se foram em consequência de irrelevantes
caprichos que só se mantiveram pela força do chicote e da caneta.
Desse diário, de capa preta com páginas
vermelhas, escorrem copiosas lágrimas de epopeias dos sacrifícios forjados para a edificação
da humanidade como ser coletivo; por isso, essa escrita é coletiva; e tudo que
escrevemos para o outro, escrevemos para nós; já que quando descrevemos o outro,
descrevemos a nós mesmos; enquanto medirmos por nosso umbigo, por umbigos alheios somos medidos nesse processo do olho por olho pelo de coração por coração em meio a esse mar revolto de letras e palavras, com seus numerosos significados sem significantes no silêncio das vozes aquietadas...


Um comentário:
Creio que o outro ainda escreve sobre nós e por nós, não ha coletividade, seguimos o script escrito em papel branco.
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