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domingo, 5 de junho de 2016

Da Caverna de Platão à Caverna do Dragão


Era uma vez, uma linda princesa que, enquanto esperava por seu príncipe, desembaraçava seus lindos cabelos lisos  com uma escova de ouro adornada com as mais belas pérolas do reino, enquanto do outro lado do continente, Tarzan, o rei da selva, se balançava dependurado num cipó africano, como Peter Park em sua aracnídea teia mágica, que mais parece o Peter Pan em sua eterna brincadeira... O que todos os heróis do mundo têm em comum com essas cenas...!?? A extrema brancura da tez .

Poderia citar uma extensa lista branca de heróis caras-pálidas, com valores de brancos e fazendo branquices. Mas vamos analisar mais de perto esses conceitos, princípios e definições que foram transformados em signos de representações pela magia da televisão.

Constatamos que, por ironia do destino, todos esses brancos heróis estão sempre enfrentando um vilão, aquele cara muito mal, o demônio estuprador que por coincidência é sempre personalizado por outra etnia: normalmente um negro ou indígena.

Mas, você que está lendo essa afirmativa, e que está procurando nos arcanos da memória uma forma de rebater ou desqualificar esse fato, não se culpe, já que, certamente você foi afetado pelo discurso branco de que só eles, os brancosos, são boas pessoas, são legais, fortes, bonitos e poderosos.


É obvio que é o que qualquer ser gostaria de ser, certo....!? Bom, bonito, gostoso; forte, poderoso e amado; e além de tudo, sempre do lado da “verdade” e da “justiça”. Por esse motivo, portanto é perfeitamente compreensível que o indivíduo passe a se identificar com tais personagens e com esses brancos valores repassados; já que paralelamente os vilões, são estigmatizados, a partir desses padrões estabelecidos pela promoção dessa branca propaganda sobre si mesmo, ao mesmo tempo em que desqualifica, deslegitima e calunia o que ele considera como o outro; esse mesmo outro tão falado por Sartre e que se encaixa perfeitamente em teses psicanalíticas Freudianas ou mesmo de Adler, que implicitamente já estabelecia uma psicopatologia para a pessoa de cor.

Desse modo, na lição da escola, quando falamos da história de quem construiu o Brasil, falamos sempre em terceira pessoa, quando nos referindo ao negro, já que essa identificação não nos cabe, nem qualquer carapuça correlata. Essa certeza aumenta ainda mais, se tornando convicção, principalmente quando assistimos os noticiários sangrentos, sensacionalistas e exóticos. Nós nos excluímos a partir do momento em que sentimos que essa coisa não vai pegar bem pro nosso currículo; estando em nossa zona de conforto; ser identificado como o selvagem, o gênio do mal ou qualquer marginal pré-estabelecido como tal; por isso, andamos sempre na moda, vamos ao Mc Donald’s e bebemos Coca-Cola e raramente damos esmola.


Essa não valorização de nós mesmo é o que nos impede de amar e de nos amar, de sermos humanizados e humanos de verdade; uma vez que nos tornamos meras caricaturas confeccionadas pelos trabalhadores dos estúdios da Disney. Transformaram a gente num boneco de ventríloquo personalizado, que é monitorado e tem cada movimento ditado assim o que fazemos, dirigidos e articulados pelos famosos diretores dos filmes hollywoodianos.


Nossas vivências foram midiaticamente extirpadas, depois de lobotomizados, cotidianamente temos o coração docemente arrancado para que a robotização se dê de maneira satisfatória para presa e predador. Pronto; estamos pronto para falar de nosso povo em terceira pessoa e repetir, como se fosse um mantra, o discurso brancoso, olhando o mundo sempre através das lentes do branco.

Muito bem, você acaba de ser adicionado, acionado, direcionado, norteado, selecionado e sorteado para viver feliz na Matrix da Caverna do Dragão[i], cujo final não será feliz, se a gente não descer do cavalo e tirá-lo da chuva, a fim de uma boa e longa conversa sobre Reis, rainhas e princesas de verdade; e assim, sair da caverna de Platão, para subir finalmente no palco da vida fazendo nossa própria história.






[i] Desenho animado exibido nos anos 80, cujos personagens guerreiros viviam presos num limbo; a missão deles era fugir desse lugar e para isso contava com a ajuda de um bondoso Mago, contra as armadilhas preparadas por um demoníaco Ser que queira leva-los para uma perigosa dimensão. Ao final da temporada do desenho, os fãs descobriram que os personagens, na verdade, era um grupo de amigos que havia morrido num acidente automobilístico e estavam as portas do inferno; e o bondoso Mago era o Diabo, enquanto o demoníaco ser era mesmo, seu protetor que sempre impedia que o diabo os levassem para seu reino através da sedução sobre a capa de bondade, verdade e justiça. Como nos filmes eurocentrados sempre seduzem, apresentando os heróis e heroínas brancos como defensores da justiça e da verdade.

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