A diáspora africana através do Grande
Calunga, como épico exílio histórico vem aportar com seu majestoso féretro na
pós-modernidade, corroborando nosso exílio num caminho sem volta nesse
fantástico mundo contemporâneo. Esse branco monstro, mostra que suas correntes,
agora mentais, são mais fortes e resistentes que quaisquer metais existentes (menos o vil metal latente),
com sua incomparável habilidade de invisibilizar suas marcas profundamente infligidas
a seus prisioneiros e a toda a gente de melanina saliente, de forma cruelmente
deformadora, transformando-se num eficiente e desejável instrumento de fetiche do
dominatrix, tanto da vítima, quanto do racista inclemente. Hoje, como ontem, um
crime sem réu, nem juiz, só valendo o que o racista diz.
Enquanto os pretos, pobres e sem teto, são
retirados sangrando dos espaços públicos e postos ao relento por policiais
marrentos, sobre os aplausos efusivos de um público demente, os inimputáveis
juízes de plantão votam pra si, nesta mesma ocasião, seus indecentes
privilégios, tais como auxílios moradias, bolsas de estudos, como se fossem carentes, numa única seção de tédio, sem os ruídos das batidas de panelas em nenhum prédio;
seguidos de deputados e vereadores que corrigem seus salários em 150% sem que
haja nenhum grito ou lamento.
Cada preto com patrão branco deve ser considerado,
e se considerar, um escravo de ganho; caso não quebre ao menos um
dos elos da corrente que coloniza sua mente, deixando de ser incrédulo de si
mesmo como preto forro, sem ferros. Desse modo, ele vai descobrir que entre
a Autodefesa e o auto de resistência será
sempre a cor da cútis que revela a sentença.
Tolo, e de pensar estreito, é aquele preto que
procura pelo juiz branco pra suplicar por direitos. Sua educação branca o
coloca de joelhos em frente a qualquer euro-fedelho sem relho. Mais tolo
ainda é o preto juiz que advoga sob o chicote e as rédeas das brancas
leis, evocando sua autoridade através do autoritarismo racista da plutocracia fascista;
sua sentença será produto da crença encravada em sua mente colonizada.
O exílio de si mesmo, se faz com os alvos elos
fetichistas forjados pelo querer embranquecer, para humano poder voltar a ser, sem fenecer.
Ser de verdade, de carne; e a carne preta é feita de cercas por todos
os lados, sem humanidade. Somos fantasmas, ironicamente, da mesma cor que
temos em mente: a cor do branco indecente.
Dessa gaiola dos loucos, que não é para
poucos, discutimos com ardor as notícias lidas de soslaio no jornal falado do branco sinhô
sentado ao lado, classificando e elegendo fugitivos, terroristas e umbandistas; enquanto somos na real, tétricos turistas desse navio fantasma a atração principal nesse funesto paraíso
tropical, atados ao pau-de-arara estatal, olhando o sol nascer quadrado,
enquanto somos humilhados nesse palco iluminado.
O autoexílio, refletidos nas meninas (dos olhos) que nunca se despem, não
poderia se despedir de si no pelourinho dourado e iluminado como Vênus, que
adentra de forma violenta em seu ânus, fazendo de seu estupro uma oktoberfest
para diversão de qualquer pedestre; se tentar voltar-se agilmente, retornando como
uma pantera (negra) potente, e defender-se dessa cegueira numa
potente visão certeira, enquanto a TV mostra a morte do povo Bantu como fator
de grande sorte para o povo brancú, não existirá bandeira pirata que evite a
indolente postura branco-primata QUE MATA.
Nossa morte social, posta como fator normal; como nosso epistemicídio, seguido desse cruel genocídio, mostrando que
até o próprio preto, brancamente representativo, vira as costas para uma preta
morta, arrastada como nada pelas ruas amarguradas dessa cidade-túmulo; quando até a
própria morte lamenta por essa isenção, em forma de ausência da indignação,
dessa preta e dormente nação, cor de branco-excludente; agindo como os fanáticos crentes
de todas as casas grandes dessa sociedade carente de vida inteligente, que
fazem tilintar suas correntes a cada fala na tela da TV de qualquer
demente, sobre os espantosos índices da criminalidade nessa cidade inclemente.
Essa cidade-exílio, banhada por esse
gigante além-mar-túmulo de tentáculos de cor
azul-molhado, que envolvem pegajosamente os corpos melaninosos, durante o
ressequido caminho ao Gólgota da preta cútis acorrentada em sangue ao mastro do
desejo; desejo de ser humano sem engano nessa favela-negreiro,
nessa solitária cela senzala social de um Estado de exceção permanente; onde as
peles pretas são postas, fixadas e transpassadas pelas coloniais correntes em
seu lugar-tenente, estampando a frente, o verso e os lados desse negreiro, o caricato
sorriso grin do prestativo preto decente, como a
carranca escancarada do tumbeiro fantasma
que sobe as águas do Velho Chico (Rio São Francisco); nossas águas batismais nunca
serão as mesmas mais ...
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