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sexta-feira, 4 de março de 2016

Sobre nosso exílio sem retorno...

A diáspora africana através do Grande Calunga, como épico exílio histórico vem aportar com seu majestoso féretro na pós-modernidade, corroborando nosso exílio num caminho sem volta nesse fantástico mundo contemporâneo. Esse branco monstro, mostra que suas correntes, agora mentais, são mais fortes e resistentes que quaisquer metais existentes (menos o vil metal latente), com sua incomparável habilidade de invisibilizar suas marcas profundamente infligidas a seus prisioneiros e a toda a gente de melanina saliente, de forma cruelmente deformadora, transformando-se num eficiente e desejável instrumento de fetiche do dominatrix, tanto da vítima, quanto do racista inclemente. Hoje, como ontem, um crime sem réu, nem juiz, só valendo o que o racista diz.

Enquanto os pretos, pobres e sem teto, são retirados sangrando dos espaços públicos e postos ao relento por policiais marrentos, sobre os aplausos efusivos de um público demente, os inimputáveis juízes de plantão votam pra si, nesta mesma ocasião, seus indecentes privilégios, tais como auxílios moradias, bolsas de estudos, como se fossem carentes, numa única seção de tédio, sem os ruídos das batidas de panelas em nenhum prédio; seguidos de deputados e vereadores que corrigem seus salários em 150% sem que haja nenhum grito ou lamento.

Cada preto com patrão branco deve ser considerado, e se considerar, um escravo de ganho; caso não quebre ao menos um dos elos da corrente que coloniza sua mente, deixando de ser incrédulo de si mesmo como preto forro, sem ferros. Desse modo, ele vai descobrir que entre a Autodefesa e o auto de resistência será sempre a cor da cútis que revela a sentença.

Tolo, e de pensar estreito, é aquele preto que procura pelo juiz branco pra suplicar por direitos. Sua educação branca o coloca de joelhos em frente a qualquer euro-fedelho sem relho. Mais tolo ainda  é o preto juiz que advoga sob o chicote e as rédeas das brancas leis, evocando sua autoridade através do autoritarismo racista da plutocracia fascista; sua sentença será produto da crença encravada em sua mente colonizada.

O exílio de si mesmo, se faz com os alvos elos fetichistas forjados pelo querer embranquecer, para humano poder voltar a ser, sem fenecer. Ser de verdade, de carne; e a carne preta é feita de cercas por todos os lados, sem humanidade. Somos fantasmas, ironicamente, da mesma cor que temos em mente: a cor do branco indecente.  

Dessa gaiola dos loucos, que não é para poucos, discutimos com ardor as notícias lidas de soslaio no jornal falado do branco sinhô sentado ao lado, classificando e elegendo fugitivos, terroristas e umbandistas; enquanto somos na real, tétricos turistas desse navio fantasma a atração principal nesse funesto paraíso tropical, atados ao pau-de-arara estatal, olhando o sol nascer quadrado, enquanto somos humilhados nesse palco iluminado.

O autoexílio, refletidos nas meninas (dos olhos) que nunca se despem, não poderia se despedir de si no pelourinho dourado e iluminado como Vênus, que adentra de forma violenta em seu ânus, fazendo de seu estupro uma oktoberfest para diversão de qualquer pedestre; se tentar voltar-se agilmente, retornando como uma pantera (negra) potente, e defender-se dessa cegueira numa potente visão certeira, enquanto a TV mostra a morte do povo Bantu como fator de grande sorte para o povo brancú, não existirá bandeira pirata que evite a indolente postura branco-primata QUE MATA.

Nossa morte social, posta como fator normal; como nosso epistemicídio, seguido desse cruel genocídio, mostrando que até o próprio preto, brancamente representativo, vira as costas para uma preta morta, arrastada como nada pelas ruas amarguradas dessa cidade-túmulo; quando até a própria morte lamenta por essa isenção, em forma de ausência da indignação, dessa preta e dormente nação, cor de branco-excludente; agindo como os fanáticos crentes de todas as casas grandes dessa sociedade carente de vida inteligente, que  fazem tilintar suas correntes a cada fala na tela da TV de qualquer demente, sobre os espantosos índices da criminalidade nessa cidade inclemente.

Essa cidade-exílio, banhada por esse gigante além-mar-túmulo de tentáculos de cor azul-molhado, que envolvem pegajosamente os corpos melaninosos, durante o ressequido caminho ao Gólgota da preta cútis acorrentada em sangue ao mastro do desejo; desejo de ser humano sem engano nessa favela-negreiro, nessa solitária cela senzala social de um Estado de exceção permanente; onde as peles pretas são postas, fixadas e transpassadas pelas coloniais correntes em seu lugar-tenente, estampando a frente, o verso e os lados desse negreiro, o caricato  sorriso grin  do prestativo preto decente, como a carranca escancarada  do tumbeiro fantasma que sobe as águas do Velho Chico (Rio São Francisco); nossas águas batismais nunca serão as mesmas mais ...
                                                                                                            




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