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sábado, 12 de março de 2016

BRANCOPIA

As desditas ditadas pelas queridas pessoas brancas, são fragilmente fundamentadas por extremas contradições, cunhando as hipóteses surreais que criam e cultivam emoções, permitindo o livre comércio de controle dessas mesmas emoções, com o intuito claro de conter e dominar o indivíduo, levando-o a cometer as ações mais estapafúrdias possíveis e inimagináveis, dentro desse processo de produção da cultura de massa que formata o inconsciente coletivo e conduz as histerias coletivas que desumaniza o sujeito, não enquanto indivíduo, mas enquanto ser humano.

Para ilustrar essa afirmativa, dentre os muitos exemplos em nossa história, vou recorrer ao exemplo de John Newton; este branco senhor inglês, que durante o século XVIII fez sua modesta fortuna através da prática do infame comércio[1], e que como capitão de navio negreiro, fez inúmeras viagens e incursões a costa africana sequestrando e vendendo pessoas cor de noite.

John Newton, típico homem branco, esposo, pai de filhos, temente a Deus, e que, ao final de sua carreira de crimes contra as pessoas cor de noite, tornou-se pastor protestante, arrependendo-se de seus pecados para alcançar o reino dos céus. Era um fervoroso fiel, daqueles que não teria nenhum problema de, a exemplo de Jacó, cortar a garganta de seu filho, se dissessem a ele que esse insano ato era uma ordem divina. Pois, assim era John John[2], um sequestrador, torturador e assassino que usou sua vida para enriquecer a si e aos futuros capitalistas que inauguravam a era das atrocidades com nome próprio.

Este ilustre desconhecido capitão de navio negreiro passaria despercebido, se não fosse um dos mais famoso anônimos cor de noite a lhe conferir o sucesso que hoje seu nome possui nos anais da história.

O hábito de escrever diferenciava John Newton dos outros torturadores, já que não se atinha somente ao diário de bordo, mas também escrevia muitas cartas a sua família relatando o cotidiano de um capitão de navio negreiro, além de também escrever poesias.

Pois bem, este branco senhor, assassino e sequestrador, após virar pastor e se arrepender de causar tanta dor, entregando sua vida ao senhor, se aposentou de sua vida de torturador de pessoas de cor.
Mas, durante este processo, uma das letras de um de seus poemas chegou as mãos de um preto sacrificado por seu ardor de branco senhor; assim foi que essa letra se musicou, através da escala escrava[3], hoje conhecemos umas das mais belas músicas elaboradas por um dos componentes do povo cor de noite que conhecemos.

Estamos falando da prece de John, enquanto pastor, que se tornou uma canção; e como toda a prece na voz de quaisquer pessoas cor da noite de origem bantu se transforma em música; hoje entoamos o Amazing Grace.


Os norte-americanos que se bronzeiam enquanto exigem que as pessoas cor de noite embranqueçam, também cantam esta canção; os que se acham brancos e lutam pela paz matando até um incapaz, também entoam essa canção; os quase-brancos e quase-pretos também se emocionam ao ouvir, e tentar caminhar e cantar[4] seguindo a canção.

Enfim, o compositor é conhecido, mas o autor da música, sendo da cor de noite... Ou seja, um ser coletivo, seu nome é povo, é gente, é ser humano. Seu sucesso só pode ser creditado e completo se for de todos. Esse indivíduo é coletivo, contrário a branquidade que necessita hierarquizar, ordenar, classificar e rotular para poder sentir-se gente.

Entre a materialidade e a espiritualidade de um povo existe muito mais do que imagina a nossa vã filosofia. Existem os rituais e processos, que vão além das hipocrisias e manipulações que cimentam as ações que permeiam a construção de verdades únicas e alternativas. E são justamente essas miríades mescladas e sutilmente transformadas em fórmulas que hoje nos gentlifica[5], padronizando nossos comportamentos, além de guiar impiedosamente nossas ações de acordo com as conveniências escravizantes. 

Para o povo cor de noite, a palavra Zumbi era usada para se referir a uma pessoa recém-desencarnada; e hoje, a branquidade, que usa a zombaria para lidar com o desconhecido enquanto se recusa a sair de sua zona de conforto, simplificando e desqualificando o que lhe é desconhecido, fez desse instituto uma forma de aferir lucros ironizando a personificação desse fato da espiritualidade africana. Ou seja, a branquitude tem feito o impossível para se apropriar de tudo que ela diz ter ojeriza; faz de tudo para possuir, principalmente aquilo que mais lhe faz falta; a própria humanidade.

Assim como outrora o colonialismo era sustentado pela escravização, hoje o capitalismo não subsiste sem o racismo. Portanto, o comércio da produção de emoções, que hoje substitui o infame comércio, se tornou a base sólida desse sistema babilônico. As experiências midiáticas e virtuais substituem as vivências da realidade, e em vez do cara-a-cara temos o Face (book) a Face.

Não somos mais seres humanos de carne e ossos, mas também não somos Zumbis; somos algarismos grafados no alto das estatísticas ornadoras de diretrizes automatizadas, nesta frenética distopia robotizada. Isto é, vivemos uma brancopia.


Portanto, é urgente a necessidade de se rever esse processo de mesclas entre o material e o espiritual, e dos rituais que completam essa interação pessoal e interpessoal, formal e informal entre o visível e o invisível, assim como entre a Utopia e a Brancopia; enfim, nos conscientizar de que não é possível permanecer na ilusão dessa sinistra situação nesse triste e abismal CAMPO DE CONCENTRAÇÃO; porque todo prisioneiro tem seu sagrado direito assegurado de tentar a fuga deste reino fantasmagorizado de figuras brancas, como aquele trem fantasma de um parque de diversão onde você paga para entrar e reza para sair. 

Nós, Povo cor de Noite, viemos de um reino da cor do ébano, onde a vida circulava através de todos os seres, fazendo vibrar, em harmonia com a natureza, toda a energia vital que move o universo. Mas fomos sequestrados e postos neste reino branco que cultiva a morte como símbolo de poder; cultiva a morte como mercado; cultiva a morte como negócio, cultivando a morte do ébano para sustentar contraditoriamente a vida; vida esta que na Brancopia atende pelo sinônimo de privilégio. Se não há privilégio, segundo as leis leucodérmicas, não há vida, e sem vida não há felicidade.  Deste modo, trouxeram o Povo cor de noite para serem cultivados e para cultivar a felicidade Brancopolitana, regando essa cultura com muito sangue e tortura.


Mas a canção está sendo entoada e o canto banto sendo ouvido; a escala escrava faz de novo ressoar as cordas sonoras da vida que circula no cosmo, vibrando na alma negra despida de si: A canção da alma está sendo cantada como hino de liberdade, enquanto o paletó e a gravata atirados ao acaso vão construindo a Formation[1] desse espetáculo num majestoso streap tease negro, onde nos despimos e nos despedimos do brancopolitanismo vida remida, numa grande Formação, em busca da Redemption[2] ao som do Amazing grace



[1] Alusão ao polêmico clipe musical da cantora negra afro-americana Beyonce.
[2] Título de uma canção de Bob Marley.



[1] Alusão ao polêmico clipe musical da cantora negra afro-americana Beyonce.
[2] Título de uma canção de Bob Marley.



[1] Assim era conhecido o tráfico de escravizados africanos.
[2] Referência ao imperialismo estadunidense; John John era o apelido carinhoso dado a John Kenedy pelos norte-americanos.
[3] A escala pentatônica, de apenas cinco notas, era usada pelos africanos em suas canções.
[4] Referência a música de Geraldo Vandré que foi um hino contra a ditadura militar no brazil.
[5] Vem do termo inglês gentleman.




Um comentário:

Unknown disse...

Penso quantos de nós realmente queremos deixar a ilusão pelo espiritual, a brancopia pelo ser verdadeiramente preto na essência, viver essa vida podre que a branquitude nos mostrou pela busca da vida que a ancestralidade nos mostra,abandonar a brancopia é compromisso com nossa história, viver se afrocentrar tem seu preço e nesse sistema é bem caro.O conhecimento não nos faz mais pretos,a produção de emoções é algo que a falta da espiritualidade e ligação ancestral nos traz, o que nos resta é voltar para casa. Deixar o Facebook e cuidar do outro cara a cara, coletivamente e com a responsabilidade nos passada pelos ancestrais conforme ficamos mais velhos, deixar o virtual para ver a dor real ver o outro preto como humano também faz parte da luta contra o racismo. A verdadeira luta só vai começar quando entendermos que esse não é nosso lugar e nos voltarmos a nossa origem no mais como diz são pérolas jogadas aos porcos.