Dia 21 de março, o dia em que fui
parido do ventre de um navio negreiro, sobre uma fria tumba chamada Atlântico,
tendo a imensidão do vazio, o gélido vento e os afiados dentes dos tubarões brancos
como testemunhas, além do reconforto dos céus que cobria o frio de minha
profunda solidão. O batuque das águas no tumbeiro foi o compasso que acompanhou
o ritual de chegada ao mundo novo. Cheguei Sem família, sem irmão e sem amor;
só com o horror do suplício de um recomeço num deserto cheio de nada: Foi a
viagem mais longa do mundo.
Despido de tudo, só restou o
barulho do compasso no balanço das ondas que batia no casco do escuro porão do
navio negreiro: útero do novo mundo. Como todo recém-nascido que chega ao
mundo: o choro. Minhas lágrimas de corpo presente em meu próprio funeral
salgaram os oceanos do mundo, depois pude ver que eram lágrimas de milhões de
milhares de olhos negros ajuntados no branco útero do umbigo da mãe de olhos
azuis, do novo mundo novo, num pavoroso e forçado aborto em contramão.
Desde então, me deram um novo
nome, uma nova religião e uma etiqueta nova. Deslocaram-me numerosas vezes do
zoológico para as vitrines e vice-versa; fotografaram-me, me classificaram e me
deram um número de identificação. Fui devidamente catalogado como parte da
fauna do novo mundo; reprogramaram-me e me enquadraram; cultivaram-me para
produzir e reproduzir rendimentos e frutos aos proprietários de minha alma;
minha força ativa foi devidamente sequestrada, legalizada e legitimada.
Desde então, foi instituído um
dia de comemoração, para que esse evento não fosse esquecido jamais; começamos
a comemorar uma princesa branca, mantendo viva a memória de nossa dívida de
vida a qual o ventre do navio negreiro nos legou. Agradecemos a vida nascida
morta no compasso da queda d'água de nossos negros olhos que salgaram os oceanos
do mundo, transformando as profundezas abissais numa imensa cova coletiva, na
medida em que se instituía privilégios, alimentando a arrogância e a indolência
da violência e do suplício fortuito, fazendo da morte, da tortura e da
humilhação, um infame mercado legalizado gerador de regalias, frugalidades e
frivolidades; em suma; um ganha-pão honesto que conferia status e poder ao homem de bens.
Hoje mergulhei nas águas do mar
que banham os limites da cidade em que habito, após olhar indefinidamente para
o infinito horizonte na linha do azimute, procurando enxergar ao longe
algum sinal das cercanias do meu quintal ancestral. As lágrimas retornaram aos
olhos, marejando as vistas cansadas de vida e comemorações. Então me banhei na
água do mesmo sal que corroeu os ossos das peles negras de meus irmãos;
sal que agora temperavam o banquete comemorativo de vida e morte no gourmet promovido
pelo infame mercado da carne preta; quando lembrei que esse único dia do ano,
foi generosamente concedido, e
reservado internacionalmente para brindar a eliminação do racismo no novo mundo.
Mas também me lembrei de que se estávamos
no mundo novo, era porque meu antigo
mundo havia se perdido na via crúcis do trajeto transatlântico da pirataria
legalizada. Desse modo, enquanto mergulhava os tubarões brancos do oceano me mostravam seus ameaçadores dentes
afiados. Retornei célere sem conseguir ver meu antigo quintal, enquanto os tubarões brancos terrestres
calorosamente me recepcionaram com um amplo sorriso de crocodilo. Imediatamente
entendi os motivos dos dias de comemorações. Olhei saudosamente de soslaio para
o além-mar, retornando de imediato o olhar para aquele caloroso sorriso; pensei,
sem nada dizer: - Branquinho é FODA...!!
Eliminação da discriminação racial ou eliminação da raça, naquela vasta
faixa de areia ,naquele momento, era só um mero detalhe definido e decidido entre
tubarões brancos...
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