As desditas
ditadas pelas queridas pessoas brancas,
são fragilmente fundamentadas por extremas contradições, cunhando as hipóteses surreais
que criam e cultivam emoções, permitindo o livre comércio de controle dessas mesmas emoções, com o intuito claro de conter
e dominar o indivíduo, levando-o a cometer as ações mais estapafúrdias
possíveis e inimagináveis, dentro desse processo de produção da cultura de
massa que formata o inconsciente coletivo e conduz as histerias coletivas que
desumaniza o sujeito, não enquanto indivíduo, mas enquanto ser humano.
Para ilustrar
essa afirmativa, dentre os muitos exemplos em nossa história, vou recorrer ao exemplo de John Newton;
este branco senhor inglês, que durante o século XVIII fez sua modesta fortuna através
da prática do infame comércio[1], e
que como capitão de navio negreiro, fez inúmeras viagens e incursões a costa
africana sequestrando e vendendo pessoas
cor de noite.
John Newton,
típico homem branco, esposo, pai de filhos, temente
a Deus, e que, ao final de sua carreira de crimes contra as pessoas cor de
noite, tornou-se pastor protestante, arrependendo-se de seus pecados para
alcançar o reino dos céus. Era um fervoroso fiel, daqueles que não teria nenhum
problema de, a exemplo de Jacó, cortar a garganta de seu filho, se dissessem a
ele que esse insano ato era uma ordem divina. Pois, assim era John John[2],
um sequestrador, torturador e assassino que usou sua vida para enriquecer a si
e aos futuros capitalistas que inauguravam a era das atrocidades com nome
próprio.
Este ilustre
desconhecido capitão de navio negreiro passaria despercebido, se não fosse um
dos mais famoso anônimos cor de noite a lhe conferir o
sucesso que hoje seu nome possui nos anais da história.
O hábito de
escrever diferenciava John Newton dos outros torturadores, já que não se atinha
somente ao diário de bordo, mas também escrevia muitas cartas a sua família
relatando o cotidiano de um capitão de navio negreiro, além de também escrever
poesias.
Pois bem,
este branco senhor, assassino e sequestrador, após virar pastor e se arrepender
de causar tanta dor, entregando sua vida ao senhor, se aposentou de sua vida de
torturador de pessoas de cor.
Mas, durante este
processo, uma das letras de um de seus poemas chegou as mãos de um preto
sacrificado por seu ardor de branco senhor; assim foi que essa letra se musicou, através da escala escrava[3],
hoje conhecemos umas das mais belas músicas elaboradas por um dos componentes
do povo cor de noite que conhecemos.
Estamos falando
da prece de John, enquanto pastor, que se tornou uma canção; e como toda a prece na voz de quaisquer
pessoas cor da noite de origem bantu se transforma em música; hoje entoamos o Amazing
Grace.
Os
norte-americanos que se bronzeiam enquanto exigem que as pessoas cor de noite embranqueçam,
também cantam esta canção; os que se acham brancos e lutam pela paz matando até
um incapaz, também entoam essa canção; os quase-brancos
e quase-pretos também se emocionam ao
ouvir, e tentar caminhar e cantar[4] seguindo a canção.
Enfim, o
compositor é conhecido, mas o autor da música, sendo da cor de noite... Ou seja, um ser
coletivo, seu nome é povo, é gente, é ser humano. Seu sucesso só pode ser creditado e completo
se for de todos. Esse indivíduo é coletivo, contrário a branquidade que necessita
hierarquizar, ordenar, classificar e rotular para poder sentir-se gente.
Entre
a materialidade e a espiritualidade de um povo existe muito mais do que imagina
a nossa vã filosofia. Existem os rituais e processos, que vão além das hipocrisias e
manipulações que cimentam as ações que permeiam a construção de verdades únicas e alternativas. E são justamente essas miríades mescladas e sutilmente transformadas em fórmulas que hoje nos gentlifica[5],
padronizando nossos comportamentos, além de guiar impiedosamente nossas ações de acordo com as
conveniências escravizantes.
Para o povo cor de noite, a palavra Zumbi
era usada para se referir a uma pessoa recém-desencarnada; e hoje, a
branquidade, que usa a zombaria para lidar com o desconhecido enquanto se
recusa a sair de sua zona de conforto, simplificando e desqualificando o que
lhe é desconhecido, fez desse instituto uma forma de aferir lucros ironizando a
personificação desse fato da espiritualidade africana. Ou seja, a branquitude tem
feito o impossível para se apropriar de tudo que ela diz ter ojeriza; faz de tudo
para possuir, principalmente aquilo que mais lhe faz falta; a própria humanidade.
Assim como
outrora o colonialismo era sustentado pela escravização, hoje o capitalismo não
subsiste sem o racismo. Portanto, o comércio
da produção de emoções, que hoje substitui o infame comércio, se tornou a base sólida desse sistema babilônico. As
experiências midiáticas e virtuais substituem as vivências da realidade, e em vez
do cara-a-cara temos o Face (book) a Face.
Não somos
mais seres humanos de carne e ossos, mas também não somos Zumbis; somos
algarismos grafados no alto das estatísticas ornadoras de diretrizes
automatizadas, nesta frenética distopia robotizada. Isto é, vivemos uma brancopia.
Portanto, é
urgente a necessidade de se rever esse processo de mesclas entre o material e o
espiritual, e dos rituais que completam essa interação pessoal e interpessoal,
formal e informal entre o visível e o invisível, assim como entre a Utopia e a Brancopia; enfim, nos conscientizar de
que não é possível permanecer na ilusão dessa sinistra situação nesse triste e abismal CAMPO DE CONCENTRAÇÃO; porque todo prisioneiro tem seu sagrado direito assegurado de tentar a fuga deste reino fantasmagorizado de figuras brancas,
como aquele trem fantasma de um parque de diversão onde você paga para entrar e
reza para sair.
Nós, Povo cor de Noite, viemos de um reino da cor do ébano, onde a vida circulava através de todos os seres, fazendo vibrar, em harmonia com a natureza, toda a energia vital que move o universo. Mas fomos sequestrados e postos neste reino branco que cultiva a morte como símbolo de poder; cultiva a morte como mercado; cultiva a morte como negócio, cultivando a morte do ébano para sustentar contraditoriamente a vida; vida esta que na Brancopia atende pelo sinônimo de privilégio. Se não há privilégio, segundo as leis leucodérmicas, não há vida, e sem vida não há felicidade. Deste modo, trouxeram o Povo cor de noite para serem cultivados e para cultivar a felicidade Brancopolitana, regando essa cultura com muito sangue e tortura.
Nós, Povo cor de Noite, viemos de um reino da cor do ébano, onde a vida circulava através de todos os seres, fazendo vibrar, em harmonia com a natureza, toda a energia vital que move o universo. Mas fomos sequestrados e postos neste reino branco que cultiva a morte como símbolo de poder; cultiva a morte como mercado; cultiva a morte como negócio, cultivando a morte do ébano para sustentar contraditoriamente a vida; vida esta que na Brancopia atende pelo sinônimo de privilégio. Se não há privilégio, segundo as leis leucodérmicas, não há vida, e sem vida não há felicidade. Deste modo, trouxeram o Povo cor de noite para serem cultivados e para cultivar a felicidade Brancopolitana, regando essa cultura com muito sangue e tortura.
Mas a canção
está sendo entoada e o canto banto sendo ouvido; a escala escrava faz de novo ressoar as
cordas sonoras da vida que circula no cosmo, vibrando na alma negra despida de si: A
canção da alma está sendo cantada como hino de liberdade, enquanto o paletó e a gravata atirados ao acaso vão construindo a Formation[1] desse espetáculo num majestoso streap tease negro, onde nos
despimos e nos despedimos do brancopolitanismo vida remida, numa grande Formação, em busca da Redemption[2] ao som do Amazing grace
[1]
Assim era conhecido o tráfico de escravizados africanos.
[2] Referência
ao imperialismo estadunidense; John John
era o apelido carinhoso dado a John Kenedy pelos norte-americanos.
[3] A escala
pentatônica, de apenas cinco notas, era usada pelos africanos em suas canções.
[4] Referência
a música de Geraldo Vandré que foi um hino contra a ditadura militar no brazil.

Um comentário:
Penso quantos de nós realmente queremos deixar a ilusão pelo espiritual, a brancopia pelo ser verdadeiramente preto na essência, viver essa vida podre que a branquitude nos mostrou pela busca da vida que a ancestralidade nos mostra,abandonar a brancopia é compromisso com nossa história, viver se afrocentrar tem seu preço e nesse sistema é bem caro.O conhecimento não nos faz mais pretos,a produção de emoções é algo que a falta da espiritualidade e ligação ancestral nos traz, o que nos resta é voltar para casa. Deixar o Facebook e cuidar do outro cara a cara, coletivamente e com a responsabilidade nos passada pelos ancestrais conforme ficamos mais velhos, deixar o virtual para ver a dor real ver o outro preto como humano também faz parte da luta contra o racismo. A verdadeira luta só vai começar quando entendermos que esse não é nosso lugar e nos voltarmos a nossa origem no mais como diz são pérolas jogadas aos porcos.
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