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terça-feira, 20 de outubro de 2015

CRÔNICAS NEGRAS

Hoje fui visitar a casa de meus antepassados; saindo da Terra de Araribóia atravessei as águas da Guanabara, desembarcando na grande Necrópole carioca. Quando observei, com um leve sorriso e um suspiro de alívio constatando que os comerciantes da Praça XV não vendiam mais gentes como outrora, mas sim objetos de verdade e não mais objetos humanos; Cheguei mais perto para estar certo, e poder confirmar se minha certeza era mesmo verdadeira, desviando dos negros obstáculos humanos que vertiam pelas calçadas, como objetos enfarrapados definhando a olhos vistos, remanescente do maior sequestro da história, escondidos nos mais visíveis escaninhos da memória viva.

Afinal, foram mais de dez milhões de negros sequestrados nas Áfricas e trazidos para as Américas, e seis milhões vieram para o Brasil, sendo que 60% desses seis milhões ficaram aqui no sudeste; notadamente os povos da linhagem de língua bantu. Chamo essa cidade de Necrópole porque 30 mil vidas foram ceifadas nessas chegadas e jogadas pelas valas, vielas e lixeiras espalhadas pela cidade, nestes quatro séculos do infame comércio que foi a escravização dos negros africanos, sem direito a concessão das cerimônias dos ritos de um funeral, sem o qual, acreditavam ir direto para o umbral.

Lembrei-me então de meus antepassados materno indígenas, massacrados por Estácio e Men de Sá; outro vergonhoso e irresponsável silêncio da euro-historiografia tupiniquim.
Procurei por minha casa, construída pelos meus ancestrais negros nas terras de minha mãe indígena invadidas pelos brancos, caminhando pela Rua da Harmonia (Pedro Ernesto) entre as curvas estreitas da Gamboa, Rua esta, em que o Capoeirista Prata Preta, o José Horácio, enfrentou o exército de Pereira Passos, em 1904; aquele prefeitinho que botou abaixo a casa de cada negro, expulsando a todos da cidade. Isso foi no passado, porque hoje isso não acontece mais, né!??

O curioso é que no ano seguinte, em 1905, esse mesmo prefeitinho construiu uma bela de uma mansão no Cais do Valongo, local onde os não-brancos, os bossais, eram postos à venda para servirem a degradante função de escravizado. Ou seja, objeto que anda, fala e respira.

Após visitar as lápides desterradas da Rua da Harmonia, passando pelo Valongo, procurei pelos becos e vielas da Conceição, subindo os degraus da Pedra do Sal, caminhando pela Rua jogo de bola, cheguei até o cume da Santa. Lá em cima, pude me encontrar num pequeno círculo em frente à Conceição, onde se podia ver uma pequena amostra do solo original: eram as pedras pés-de-moleque que jaziam como amostra, após o bota abaixo promovido pelo novo prefeitinho, a fim de construir o porto maravilha, como mais um monumento a branquitude; porto esse de propriedade de um conhecido megaempresário, patrão e proprietário das polícias e dos políticos de plantão, profissionais de ocasião.

Imediatamente, me veio à mente a cena de um filme chamado Contatos imediatos do 3ª grau, em que o personagem extraterrestre angustiosamente repetia esta frase: ...My home...! My home...!! My home...!!! Ao observar uma estrela no céu identificando-a como seu lar.
Ali estava um pedaço de minha casa, de minha família, de minha memória, de minha vida, rodeado por paralelepípedos made in Eike Batista.

Após observar os pedaços de meu lar naquele pequeno círculo, olhei para as casa que se encontravam ao redor e vi que continuavam as mesmas, mas agora eram casa-grande, casa-branca, casamata, casas dos descendentes dos não-pretos.

Melancolicamente desci pela Rua do Aljube, caminhando e cantando em memória de meus ancestrais, até chegar ao Paço, onde encontrei uma Negra idosa pedindo esmola; era uma preta velha baiana muito humilde, dizendo num longo lamento, que logo que tivesse dinheiro iria voltar para sua terra, pois não aguentava mais tanto sofrimento.

Tirei dez reais do bolso e lhe dei com gosto; ela, muito agradecida, disse que agora iria poder almoçar, pois não aguentava mais de tanta fome naquele lugar... Depois desse ocorrido, senti que o que fiz, não havia sido o suficiente e que poderia ter feito mais naquele momento... Mesmo não possuindo o que o dono do Porto Maravilha possui no firmamento.

Esse episódio foi um acontecimento abruptamente veloz, em meio as minhas histórias e memórias entre as lembranças perdidas na cidade negra, que não atentei para o fato de que foi a parte mais importante da saga, dessa minha caminhada pelas reminiscências dessa cidade necrópole mais linda, mais cheia de graça, a epopeia das negras e negros, dos quase-negros e quase-brancos;  que é essa cidade tumbeiro do Rio de Janeiro.

Quando o porto estiver pronto, a preta velha certamente será barrada na porta, a caminho de sua São Salvador e estaremos todos pisando, não só nos corpos de ébanos trucidados que jazem no subsolo dessa Necrópole, mas portando o peso extra de um monumento à indignidade e a soberbia. Peso colonial de um grupo feudal especializado em rapina de bens patrimoniais e espirituais da nobreza das nações negras.

Peso carregado por cada cidadã e cidadão cristão tupiniquim em suas labutas diárias, enquanto megaempresários desfrutam de seus latifúndios legalizados e com falsas firmas reconhecida pela generosa justiça greco-tupiniquim dessa cidade tumbeiro escandalosamente maravilhosa.

A preta velha perdeu sua casa e sua família, mas não sua dignidade e referências, pois sua memória vive mesmo desterrada, assim como estou circunscrito fora do círculo de pedras pés-de- moleques no cume do Morro da Conceição.

Ambos, eu e ela, alijados pela cor e exilados pela dor, caminhamos em direção contrária pelo Centro, na cidade embalada pelos ruídos do trânsito, sirenes e alarmes, entre os gritos de vendedores ambulantes. Desviando-nos da classe média apressada pós mais um dia de trabalho; partimos como notas azuis de uma canção fúnebre no cortejo do velório de uma morte anunciada.

Desliguei a Televisão e meu espelho se fechou; fui dormir ouvindo o som surdo dos tambores do passado à meia-noite na soleira de minha porta. Será que os sons desses tambores me despertarão amanhã...!?? Saberei Amanhã... Somente amanhã...!!

Agora a cidade dorme e o sonho acorda o super-herói para dormir sua vida cansada de esperança; Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer..., Bem...zzz..Me...zzz...queezzz...zzzzzz...!!! Em Brasília 19 horas...!!! Plim,plim..!! Ordem e progresso..!!Brazil, zil, zil, zil...200 milhões em ação, pra frente Brazil, salve a seleção...!!Beba coca-cola!! É gooooooolll..!!! Lá em cima daquele morro passa boi passa boiada...Funk Brazzil..zzzil...zzzzil...zill..zzziillll..zzz...trararara...traa...trarara...me sentindo como herói do dia já acordo me desviando de balas perdidas, mesmo vivendo azul de fome, sem dinheiro nem pr’um cafezinho, menos ainda para pagar a passagem de ônibus para chegar ao “trampo”, sentado na calçada vejo meu vizinho chegar em casa após um dia de trabalho pra ver na TV a velha novidade outra vez, de novo, noticiando que novamente os deputados, só vão ao trabalho quando é para votar o próprio aumento salarial, como sempre aumentaram seus dividendos em modestos 500%. Meu vizinho também um grande “herói,” assistindo a tal novidade fica vermelho de raiva; só ele paga impostos, só ele paga suas contas, só ele cumpre a famigerada responsabilidade fiscal e só ele sofre arrocho salarial. 

Nosso herói, quando liga a TV fica branco ante as notícias de reformas, reuniões do COPOM, atos secretos, decretos e reedição de medidas provisórias, que de provisória só tem o nome. Como se tudo isso não bastasse, na subida do morro sempre encontra com uns pêemes que lhe deixam roxo de pancadas, só para lembrar que ele não passa de um negro qualquer. Nessas horas o verde da esperança só se faz presente na bandeira brazilleira, pois nem na rezadeira nosso herói consegue deixar de sorrir amarelo. Para ele o tempo se faz sempre cinza-escuro. Quando não está meio lusco-fusco ou cor-de-burro-quando-foge.  Mas, ele espera um dia espalhar as cinzas da desgraça, regatando o verde da esperança, trazendo de volta o vermelho fogo da paixão. Mesmo sendo preto, atingir o alvo “branco” da paz. Só assim vai ficar tudo azul, reluzindo o amarelo-ouro do fastio.

No momento sua memória deu um branco e ele vive num permanente blecaute, pois o arco-íris esvaeceu-se à sua frente até o completo delir, junto à tempestade invernal. Tá tudo escuro, claro mesmo só o irracional e irascível racismo. O pote do amarelo-ouro transforma-se em relógio-despertador, que berra alto em seus tímpanos anunciando a hora de ir trabalhar.

Tá na hora e nosso herói, um “escravo de Jó”, ter que “trampar”.   A vida de pintor de placas de sinais de trânsito não é nada fácil. Mas não é qualquer sinal, semáforo, sinaleira ou farol que o impedirá de tocar seu “Show de realidade”. Na vida desse herói cara-pintada (de palhaço), tudo acontece ao vivo e a cores, mesmo que seja em cores – mortas. Afinal, este boa-pinta é brasileiro..., Ele não “resiste” nunca, além do mais, sua pintura de guerra já não causa mais tanto frisson. Só lhe resta o vermelho da vergonha na face, que lhe desvanece o semblante, sangrando a existência na agonia da vida.

Quanto a mim, um crioulo de cara preta, sigo a palmo seco pela aridez do lotado deserto urbano, este nosso meio-ambiente morto e enterrado pelo egocentrismo antropofágico desumano do euro-humano. Olho pro céu arranhado de prédios e compreendo que não é preciso estar no mundo da lua para notar que a terra azul se transformou num mar vermelho, sem trilha ou caminho de retorno para escapar de ser engolido pelo abismo de si mesmo. Nem as lágrimas de arrependimento misturadas as de crocodilos fazem cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de viver fora desse jardim de fosseis urbanos; esse Oásis de pensamentos jurássicos que a muito extinguiu a sana da chama terna da vida de cidade grande.
Agora a aridez das emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados do turbinado Cupido, fazendo os yuppies saírem das cavernas pútridas da pós-modernidade virtual para a crueldade do mundo real, mascarados e completamente nus.

Peles negras e máscaras brancas, amarelas e vermelhas ressequidas como fetos sem afetos, após serem transformadas em fosseis, são mortas pela vida e ressuscitadas para a morte através do sangue azul e vermelho centrifugados pelo ranger de dentes, e solidificados pela palavra cuspida nas faces embrutecidas pela consternação eurocêntrica, dando o tom cinzento do crepúsculo da zona sul a zona norte.

Enquanto o sal do Sugar Loaf arde na boca do Redentor de pedra que num esforço supremo, como o abutre de Prometeu, se desgarra de seu pedestal lançando-se sobre os fósseis humanos no afã de abraçá-los uma última vez, arrancando-lhes seu sangue e quebrando seus ossos, enquanto lhes trituram as carnes num sinal derradeiro de afago e afeto. 

“Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar...” Assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de mão dupla transversal. Hiroshima é aqui, Nagasaki é ali, quanto ao Hawai e o Haiti...Não sei, morri...Sentindo o baque d’uma bala nas costas, enquanto olhava um carro alegórico atravessando a Sapucaí!!!   Enquanto eu me acabava, a guerra começava... booommm!!!

Olha só que coisa mais linda, mais cheia de graça... É essa historinha escrita na pedra da praça, na lápide de mais um herói desconhecido, sobre o envelhecido monumento dos pracinhas!!!  Foi assim que meu vizinho, finalmente um herói de verdade, decidiu acordar para livrar-nos da opressão dos poderosos. Surge então o maior de todos os heróis: não é o super-Mam, menos ainda o Chapolim Colorado, nem mesmo Charlie Chaplin. Estamos falando de um herói que reúne a força de todas as crenças, verdades verdadeiras e falsas, além de todos os dogmas e paradigmas.

Calculista como batmam, frio como o homem de gelo, nervos de aço como qualquer super, além de carregar as forças sagradas de sansão em seus longos dreads loaks. O mais importante de tudo isso, é o que faz dele um ser mais diferente que os diferentes: ele não tem medo do escuro; já que esteve no escuro e também é escuro. Ou melhor, ele é preto, é negão, um verdadeiro tição. Sim, é dele que estamos falando; do Superstição. O maior super-herói negro de todos os tempos; tão poderoso que consegue supera até mesmo a kliptonita branca, com seu super fashion dread looks. 

Ele não usa máscara, justamente para não ser reconhecido.  A combinação da brancura de seus dentes com a escuridão de sua pele provocam reações inusitadas e controversas; quando esse Ser entra numa loja de um shopping qualquer, todas as câmeras seguem seus passos; também pelas ruas, esquinas, avenidas, bancos, ônibus, e supermercados.  Além de todos os vendedores, gerentes e até mesmos clientes lhes dispensarem especial atenção, enquanto seguram com firmeza suas bolsa e carteiras além do normal.

Quando ele sai às ruas, os olhares de transeuntes, de seguranças e de policiais cravam em suas costas como lanças pontiagudas a penetrar-lhe as entranhas.  É a mesma coisa em seu trabalho, com seus vizinhos e alguns poucos amigos. Mas seus Dread’s têm resistido bravamente, provando sua força e provocando outras forças.  Assim, Todos os dias ele prova pra si e para o mundo sua competência e criatividade; todos os dias ele renasce de seu salário mínimo, todos os dias ele acorda para despertar seu sonho adormecido; todos os dias ele derrota seus pesadelos à luz do dia, mesmo que os euro-santos afirmando em suas bulas, que Afro-humanos não têm alma, outorgando assim ao euro-humano, a divina permissão do grande Deus branco para escraviza-los ao bel prazer.

Todo o mundo já aceitou e incorporou essa verdade, menos o Superstição, que continua sua luta inglória e solitária pra provar que existe e tem alma; Seja no Rio, No Brasil ou no Mundo, mesmo sendo um herói estrangeiro em sua própria casa, mesmo nascido do preto e do branco, mesmo sendo a síntese mestiça do mundo.

Pelo menos agora, com todas as câmeras em seu encalço, ele tem a oportunidade de aparecer no paredão das lamentações da vida e não ser apenas mais um reles herói desconhecido, como a macaquinha chita, coadjuvante de Tarzan junto à loira Jane, ele consegue ter seus quinze minutos de fama efêmera, justificando assim seu respeitável nome: Superstição.

Ele, um supersticioso incurável, acredita na vida, num mundo melhor, na liberdade, fraternidade e igualdade. Acredita até mesmo no direito à vida, a expressão e em poder ir e vir quando bem lhe convier. Um simplório e prosaico herói protagonista de uma cruel tragédia tupiniquim: Wall Street lhe ordena que corra, mas como um Saci ele só consegue capengar; Wall Street lhe promete saúde, mas como o Saci lhe dá seu exemplo, ele não larga seu cachimbo (de crak). Wall Street lhe cobra que pense, mas como o Pererê, ele é apenas mais um traquina, sendo apenas um mula sem cabeça.

Quando pensa, ele só consegue imaginar como fazer para conseguir o próximo almoço, lanche ou jantar. Quando corre, é porque tem um bando de policiais e/ou salteadores e cobradores a lhe acossar. Sua figura esbelta e esguia se deve a ausência de nutrientes e aos constantes exercícios de fuga do poder “constituído”.

Sua casa é a mata Atlântica; cidade-favela mad in Rio. Sua cama é feita de asfalto, seu teto é de estrelas e seu toalete é o bueiro de qualquer esquina escura ou clara, feito às claras.
Lá do alto de sua luxuosa torre gêmea, Mister gringo o embaixador, classifica nosso herói de bárbaro, de rato de esgoto, uma figura escatológica que precisa ser banida da sociedade. Mesmo já estando banido de seu lar, sendo violentado e execrado em todos os sentidos, nosso herói ainda sorri ante as câmeras de segurança e dos turistas; um sorriso negro, um sorriso amarelo, sorriso de clown frente a sorrisos de crocodilo ante repasto.

Assim como o Rio é puro riso, constituídos de gente boa, gente linda, que vive feliz da vida, com balas perdidas, estupros, assaltos e morte ao vivo e em preto e branco. Por isso viva o Rio, vamos nos divertir e aparecer nas próximas passeatas pela paz, contra a violência, pela vida, pelo meio-ambiente, etc, etc e etc. No Rio o bom de viver ao vivo é morrer on-line; é a modernidade contemporânea do século 21 chegando à selva urbana tupiniquim, através das nossas moderníssimas câmaras mortífera tecnológica digital, cortesia globalizada dos donos do mundo pós-moderno.

Mais, infelizmente as arcaicas figuras folclóricas, como nosso herói Superstição, de tão ultrapassadas fizeram com que ele se tornasse totalmente démodé; é a vida, é a evolução, é o progresso e contra a ordem e o progresso não há Superstição que resista! Será!!?? Preparem as câmeras, assistam o paredão e votem na onda que provocar o maior e mais engraçado caixote. Afinal, sem plateia não existe espetáculo e já que a vida é um palco...!!!

Ser plateia ou protagonista é uma simples questão de escolhas complexas! De máscaras ou desnudo, de preto ou de branco, de tudo isso ou nada disso, sendo ou não sendo. Localize-se em seu espaço, descobrindo seu mundo, explorando sua geografia encefálica cinzenta e coronariana, fazendo sua trilha entre as delicadas minas explosivas no terreno da vida morta que se tornou esta maravilhosa cidade-sepulcro; tumbeiro de heróis.

Resta agora um olhar perdido no horizonte a procura de algo desvairado no próprio ser: sua esperança. Esperança em algo abstrato, inexistente, que se revela metamorfoseada como nos Jardins de Tântalo[1], a visão do Paraíso, como Utopia, Nova Atlântida, Shangri-lá ou a branca Terra do Nunca. Agora tais mundos se tornaram os principais orbes do nosso sistema planetário encefálico. Nele a lua cheia de mel, temperada com açúcar feito de fel, se tornou o centro desse movimento.

... Quero meu abridor de borboletas para deixar livres as silenciosas palavras dos reinos invisíveis da natureza humana nesse fim de semana de mês de Novembro...   
Em novembro, se bem me lembro, não é mês de mamulengo; mais sim, momento de livramento da cobiça e da maldade na traição do elemento acefálico ariano que torturou, vilipendiou e se locupletou na pavimentada via da inquisição, durante as trevas dos idos anos, nas infâmias do comércio de Seres humanos; que hoje se metamorfoseia em lugar-comum no cotidiano subalternizado pelo clássico patrão-branco-urbano.

Novembro, se bem me lembro, vou siempre e logo dizendo, gritando em alto e bom som, me reconfirmando como membro da humanidade e que não me vendo a maldade de nenhum clássico ariano urbano, que a muito vem me roubando para fabricar a riqueza de sua empresa, enquanto sequestra oficialmente minha força ativa e racistiza a minha postura altiva, dizendo que sua justiça branquiça lhe permite a oitiva, inquisições e alienações da minha pessoa, coisificada a toa no branco barco que em vão destoa da morte, rumo ao enevoado, natalício e nevado norte, ditando sinistramente a minha sorte.

Novembro, se bem me lembro, todo me querendo, negramente remendo meu abadá e vou capoeirar, para nas instâncias da vida me manifestar contra os que me querem de novo sequestrar, me calar e a minha dignidade eliminar.

Novembro, se bem me lembro, trás a menarca de dias próprios para preparar a alforria de um novo ano como negro, se abolindo da brancura legislativa imperativa, da Euro-Greco-justiça, da violência da mídia e da impiedosa execução ministerial. Mesmo com as arapucas do capitão de negreiro bem protegido pelas forças do inimigo, que é nosso fogo amigo; mesmo com o capitão-do-mato em meu encalço provocando grande embaraço; mesmo com todo o silêncio imediato desse branco-povo caricato: todos os dias 20 são negros de novembro...

Mas foi em dezembro que eu conheci certo Noel... Um Noel que sempre andava na telinha de minha TV, era idoso, barbudo, cabeludo, barrigudo e andava de pijama vermelho com alguns detalhes em branco. Tinha uma cara feliz e apesar de sempre subir nos telhados de casas alheias, nunca teve dificuldade com a polícia mineira. Sempre com o saco cheio de objetos de origem desconhecida, até hoje tem espaço na mídia por muito mais de quinze minutos; eu diria uns dois ou três meses no mínimo.

Uma de suas músicas tema, falava que sempre vinha ao final de cada ano e distribuía presentinhos para ricos e pobres; que sempre deixava tais presentinhos dentro de sapatinhos.  Eu acreditei... Deixei meu sapatinho, na janela do quintal... Quando tinha mais ou menos uns seis anos de idade. O tal sapatinho meio encardido, cor de burro quando foge, meio lusco-fusco, ansioso por ser completado com o objeto do desejo inconsciente.

O fato de imaginar que algo de bom estava para acontecer, algo que seria trazido para encher minha vida de alegria e de satisfação, criou em mim uma enorme expectativa. Como a da chegada de um ente querido, do ser amado, de um amigo, como uma gestante a espera de seu bebê.  Lá estava o sapatinho sozinho numa noite escura, fria e lúgrume. Comemorando o aniversário de uma morte anunciada. Sapatinho amordaçado mudo de medo. Na imensidão escura ouvem-se apenas corujas, vira-latas e gatunos. Sapatinho abandonado, esperando, desesperado pelo alvorecer da esperança. Mas a eternidade das horas escuras que emudece, amedronta e enlouquece, resiste, insiste e se impõe à promessa do bom velhinho, transformando-o num mero clown, enganador e ilusionista. 

Hoje o sapatinho não cabe mais em meus pés, nem as promessas. Continuo a ouvir corujas, cães e gatos, esperando o alvorecer na estação da vida; Sem sapatinhos. O papai Noel este ano veio sujo, rasgado e sem dinheiro, além do saco cheio de ilusões. Na verdade seu nome nunca foi Noel, mas sim João, João ninguém da Silva; desdentado, desnutrido e desvairado. Vem largado sem verso, sem rima, sem rumo, sem lenço nem documento, pelas periferias malditas das cidades maravilhosas. Das ruas, dos Mc Donald, de bar em bar, vem catando latinhas de coca-cola, com cinco bocas, três cachorros, dois gatos e quatorze pombos para alimentar. Sua casa não tem paredes nem teto, não tem nada, nem onde se apoiar, somente um céu negro com estrelas coloridas como qualquer negro herói.

Papai Noel foi esquecido em cima de um banco sujo na Praça da Sé. Com fome e com frio em meio a uma milagrosa sobrevivência, ele tenta entender a brusca mudança de seu antigo mundo, para um mundo tão moderno. Perdidos em tais pensamentos ele adormece no gélido cimento cinza, sonhando com um céu colorido de estrelas negras. Agora ele não mais acredita em Deus nem em Diabo; desaprendeu a rezar. Conheceu Cristo ainda jovem, mas optou pelos caminhos de Buda. Só mais tarde caiu no mundo, na boemia, sambou descalço no chão de todos os santos, no terreiro da negra Ciata.

Quase canonizado pelo povo, nosso tão querido João Noel – filósofo, visionário, anarquista e alquimista, botou as barbas e as guias de molho e em fevereiro foi gastar sola de havaianas nas favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente nem com todos os guias, guizos e balangandães sua vida foi poupada, mas sua morte foi aplaudida de pé pelos miseráveis que gritavam aos berros:
- Senhor Noel, Noel de todos os santos, Noel dos Palmares, senhor do bem e do mal; é uma pena, mas... Aqui não tem natal!!!     

Hoje minha janela está vazia, nem ao menos um vaso de flores primaveris. Outrora ainda debruçava sobre o batente a espera de uma estrela cadente que me concedesse um pedido. Mas como o clown ela ria da minha pueril esperança, zombando de minhas negras lágrimas noturnas. Sapatos de clown, pantufas de bichinhos, tão engraçadas como um atropelamento coletivo de crianças sobre semáforos frente à escola da vida. 

Até hoje não sei qual tipo de veículo me mortificou, ninguém anotou a placa do dito cujo; Sobrevivi. Hoje presto atenção às placas. Palhaços não leem placas, apenas brincam de pilotar caminhão, enquanto um senhor feliz, vestido de vermelho, sobe na antena da minha, da sua, da nossa TV. Enquanto o Cristo que vela pela minha favela, reside na zona sul, é loiro e tem olho azul; cercado de antenas por todos os lados.

Sou o magrelo que mora ao lado, que não foi tão esperto para chegar mais perto, como aquele francês de Lion, o inglês de Oxford ou os santos do Vaticano. Nós, crioulos que ingerimos pão francês, mas cientes de que não seremos freguês do campus de Oxford, apesar de um dia acreditar nas promessas dos santos romanos do Vaticano. Sei que as antenas que irradiam pensamentos, cooptados e captados pelo bom cidadão, transmite formatações em forma de diversão.

Antenas protegidas pelo divino redentor de pedra, que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados, em ordem unida, a espera de uma chance de igualdade desigual.  O cristo, de costas para a periferia e de frente para os indecentes que escravizam vontades dos dementes em seu próprio nome, sempre observa impassível a crueza e o desvalio da vida vendida, iluminada por negra sombra de redentor.  Através das antenas podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores, anunciando a aproximação de novos tumbeiros que adentram a Baía de todos os santos da Guanabara.

Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, que revelam sob as águas de Março o túmulo dos amores-próprios.  Assim se desponta a favela da cor da tia Ciata que arrebata Onze Praças de morro acima, e quando esbranquiçada é derrubada de seu Castelo morro abaixo.

Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado e maltratado pela estupidez racional do animal, que reside na inconsciência da besta humana. O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada na face crioula escancarada, desdentada e escachada; no momento da foto do cartão postal do natal tropical que em pose fetal, expõe seu aborto social.

Mas sou muito feliz porque moro num país tropical, num condomínio branco, com um shopping de olhos azuis e outdoors loiros. Um país onde a justiça passa em brancas nuvens e as leis são aplicadas nos esvoaçantes cabelos lisos naturais, soltos ao vento na tela do cinema com final feliz.

A paz, a pomba, o papa são heróis de sucesso na tela da TV que não me vê; salvo aos que se branqueiam, para ter a chance de candidatarem-se à sucessão de sucessos sacramentados em atos secretos.

Meu país é cercado por arames farpados por todos os lados; torre de proteção para manter a ilusão e um grande fosso para afastar o desgosto e o “encosto”.
É um país bonito por natureza; uma beleza. Desde o lindo comercial mostrando a branquitude do carnaval até a imagem de Zumbi de Hollywood dançando break na “Terra do Nunca”.

Sou Manchester e tenho uma loirona chamada Breatney. Poderia chamar-se Solange, Cremilda ou Camélia; mas as notas azuis de meu canto são brancas, e eu sou “moreninho” e moro num país tropical abençoado por Deus. Mesmo sabendo que o amor não tem cor, sei Deus é branco... Da cor do meu amor!

As pessoas dessa maravilhosa cidade de mocinhos e bandidos, me Lembram as pessoas do lugar aonde João, meu vizinho, um herói, nasceu...
Era um lugarejo; numa cidade pequena onde não se falava em despejo nem em desterro, pois os problemas sociais se limitavam somente ao cotidiano urbano das páginas policiais.

Lá morava Joãozinho, meu vizinho; um garoto mimado e tratado com carinho, por todos que o encontrava no caminho.  Porém um dia, a caminho da escola, Joãozinho resolveu fazer o que bem lhe desse na cachola; pegou sua merenda, saiu de sua fazenda e foi ver a novidade que chegara a cidade: uma grande e linda Lan house com gosto de hambúrguer sem brasilianidade. Jogou uma maratona de jogos diferentes, tudo foi como um presente, naquele lindo dia de verão tão quente.

Dias e jogos se repetiram, como um gostoso lenitivo, para todos os dias daquele ano letivo. Se sentindo mais esperto, via TV cada vez mais de perto; percebendo os personagens como modelo de alento, João começou a ficar marrento. Mudou seu nome para Jhonny, fez penteado de renome e pra não ficar com beiço inerte, comprou chiclete no nordeste do país dos globtrotes; agora com um sorriso enigmático e amplo, só faltava agora ficar branco; mas para compensar, a lente de contato azul ficou linda pra chuchu.

Agora que, se vendendo, abandonou a escola, virando marca de produto estampado em sacola, a mesma (sacola) que transporta cola a toda hora, pro menor abandonado que implora esmola, em frente os bares onde ele mora.

De João Eversom, passou a chamar-se Jhonny Jackson; negro de nascimento, embranquecido com o tempo; tempo da TV, dos Out Doors, das capas de revistas de fofocas, das novelas, dos filmes, das Músicas-tema, dos heróis, do sucesso, dos Santos, do Deus... Agora Johnny pensa que manda e desmanda; pensa que é gente decente... Virou pastor da igreja de crente... Converte patrão, polícia e até gerente a seguir o caminho da paz branca de um Deus branco, do paraíso branco com santos brancos... O resto de si mesmo, ele deixou no quarto do despejo; não naquela acomodação da Senzala do lugarejo, mas na alcova da casa grande; mansão branca do esquecimento da identidade dos áureos tempos, para aquela outorgada no repto do momento.

Pastor Johnny Jakson se elegeu, virou Santo Cristo; político destemido e temido, mora no Distrito Federal, não tem medo de polícia, de justiça ou general. Seus conterrâneos assistem na TV as notícias que estão fadigados de tanto ver; notícias de ontem, repetidas hoje com ardor por atores embranquecidos, sendo constantemente atingidos na cabeça, por disparos a queima-roupa de uma arma branca, engatilhada pelo apresentador de sorriso branco-incolor. 

Joãozinho, que quando criança brincava de polícia e bandido, um dia foi atingido e se rendeu. Pra não morrer quando adulto, ofertou sua integridade; trocando dignidade por lealdade a pensamentos a revelia de sua nostalgia vivida dentro da ontologia: Os beijos que acordavam pra verdadeira vida; viraram balas, que perdidas, abriram caminho na multidão, trazendo dos sonhos, quem já não queria acordar da ilusão comprada nos restaurantes e shoppings da esquina, a preço da ardente melanina. Balas que, atingindo seu peito, transformaram-no num Príncipe, que dorme no trono de Rei da plebe, sendo um sapo na cidade que segue. 

A visão encantada das chetas lançadas pela Princesa On-line o mantém num sonho acordado que imobiliza a sanidade da sociedade. Com sofreguidão castelos são erguidos e cada muro mantém protegido em seu íntimo o pensamento medieval, dando o aval ao preconceito consensual veiculado pela mídia digital.

A inquisição do portador de melanina descomunal torna-se fato natural na rotina estatal, que produz e entope a cadeia de marginal; Príncipes negros viram sapos sociais, registrados como persona antinatural no cartório do Crematório Central. A TV que tudo vê, é o juiz que mantém a força motriz funcionando mesmo sem raiz; o beijo da novela é a costela que produz a loiritude necessária ao Adão livre da negrura da escravidão; enquanto o livro de história já sumido na memória, leva o canto banto pra longe dos contos brancos, desaparecidos convenientemente nos escaninhos da escola.

Hoje o lugarejo transformou-se num Palácio e a academia virou uma Catedral; tudo conceitual. O negrinho Joãozinho não conseguiu o beijo de Mariazinha que procura até hoje nos programa de TV o Príncipe montado numa Harlley Davidson aparecer. Como em todos os filmes, a vida reproduzida até o fenecer, pelos vampiros, ratos, cobras e lagartos donos da TV, transformam em banzo a alegria de viver; vendendo identidades e produzindo opiniões para os portadores de melanina e emoções, misturado com pobreza e estado de exceção, furtando o sucesso do sujeito em nome da Ordem e do progresso sem respeito a qualquer processo.

Assim, sobre o embalo dos novos contos da carochinha, se engabelam cada criancinha a todo minuto, diante da telinha, sem ônus, mas com muito bônus para a justiça muquiça do estado esbranquiçado; contos inculcados pela perversidade cruel, engendrada contra a negralhada calada e amordaçada pelo irreal inventado e articulado por um mentor feudal, que desfila pelo calçadão de Ipanemas e Leblons, Caras e Cancuns, acompanhado da Sinhá e da pequena Poodle, saindo de um Spa, enquanto um homem-bomba explode um ônibus lotado em Bagdá.

O príncipe valente falando na TV a todo crente, intimidando a boa gente daquela cidade carente, diz que o inferno já está bem quente; jurando que a doação da sua terra, de sua casa, de sua gente e mais dez por cento de seu pagamento, seria a única salvação de sua alma no momento; confirmando com veemência que o corpo precisa preservar o sofrimento como lembrança desse livramento. Assim o triste ex-cravo torna-se um feliz escravo, após receber o angélico beijo traído e cuspido do cupido Greco-romano do lindo romance da novela das sete, até o osculo do final infeliz da negra meretriz.

Mesmo acordado após o beijo dado, o Príncipe continua sonhando; ele é valente. Pensa que um dia, de repente tudo vai mudar, ficar diferente; sonha que Mariazinha vai chegar e bater a sua porta, lhe dar um beijo e mostrar que não está morta, e como Romeu ele vai encontrar sua Julieta num lindo dia ensolarado pela lua de inverno, saindo definitivamente desse inferno. Então a história finalmente vai recomeçar... Era uma vez, João e Maria... As escolas então, irão adotar livros de contos pretos, os estudantes começaram a ler e os mestiços se descobrirão negros, encontrando de vez sua identidade perdida nas dependências da branquitude sagrada dos sombrios cartórios inquisitórios.

Mas por enquanto, João está tão perdido nos cômodos de seu castelo como está Maria no interior de sua floresta, estando ambos no mesmo lugar, separados por distintos momentos ausentes. Por isso, tudo aqui é singular e diferente: um país das maravilhas, onde Alice é Crioula e sua lebre reside num casebre, na comunidade de uma pobre rainha louca comandada por um esquizofrênico chapeleiro maluco, mas com muito escrúpulo. João e Maria sendo negros, só poderão se encontrar na branca Terra do Nunca, pois a bagatela que restou do continente de ébano está ausente em suas mentes topadas por entorpecentes trocados como presentes, com os povos indiferentes aos sentimentos de gente julgadas como indigentes.

Beijo negro, beijo branco; sua cor, minha cor; meu valor, seu valor; mas quem é o sofredor nesse conto incolor? O meu conto só tem cor porque o outro conto... É de terror! É necessário se contar outro conto, ontologicamente, o que é feito raramente. Egocentrismo e niilismo em antagonismo são o máximo em patetismo: Um paleopolítico chegando à lua dizendo que é dono da terra é azul, sem sair da escrotidão dos mórbidos subterrâneos de sua caverna mental, agindo premeditadamente de maneira animal. 

O osculo crioulo angelical do outro como resposta natural, tem provocado e sistematizado o estupro feudal do estado oficial, transformando anjo negro em figura bestial. Essa é a história natural ditada nas alvas folhas do diário oficial; o que ficou escrito na memória é à parte da outra história. História real de um beijo preto angelical de uma ancestral, na branca face do civilizado sexo animal; história de príncipe e de princesa, com certeza.

A história sem fim que narra o encontro no paraíso de um dolicocéfalo com um braquicéfalo, num orbe onde a aparência determina a casta como forma de madrasta; o bem e o mal com sua forma natural e o Deus e o Demônio que habita na alma de cada homem-animal: Uma cabeça de forma circular alongada e a outra, arredondada. 

Duas caixas cranianas supostamente pensantes; um príncipe e uma princesa, sem sangue azul nem realeza; mais uma saga de desnecessária tristeza, mostrando que a cor do show business, a cor da miséria, a cor da passarela, a cor da prisão, a cor do comercial, a cor do orfanato, a cor da crueldade, a cor da ingenuidade, a cor do pet shop, a cor do viramundo, a cor da joalheria, a cor da hipocrisia, a cor do condomínio, a cor da pobreza, a cor do dinheiro, a cor do preconceito, as cores das capas de revistas, a cor do lixão, a cor da escravidão e a cor da ilusão, a cor do confronto, as cores misturadas às faixas ensanguentadas nos protestos das grandes passeatas, pintadas de Vermelho nas amplas avenidas de norte a sul, nos muros brancos do mundo azul, São duas somente: A cor de a humanidade e a cor introjetada em cada mente carente de sinapse inteligente.

A geração de Johnny, nascida entre notebooks, celulares e televisores, sabe como essas parafernálias tecnológicas os distanciaram, separando-os de sua própria história, enquanto instalava uma nova fábula através do vapor etéreo da virtualidade sobre a euro tez da impunidade.

Questionar sobre passado de John ou o de sua família passou a ser um processo estranho e sem sentido, já que o mundo de sua referida geração se pauta nas informações veiculadas pela mídia, e pelo que seus amigos sabem, veiculado também pela mídia. São informações que já chegam velhas e ultrapassadas para dar lugar as velhas novas que se avizinham já indo embora.

Falar de seus antepassados, da história de vida dos que os antecederam e de como chegaram a esse momento de possibilidades, passou a ser uma missão impossível, do momento em que o cérebro dos nascidos nessa geração se foca somente no presente sem intenção, ignorando solenemente seu passado, perspectivas de futuro ou ideia de ação.

Suas mentes funcionam como um copo cheio, completo e repleto, sem possibilidades de suportar qualquer conteúdo a mais que seja, não deseja, nem quer saber de onde vem sua cerveja; como diria o provérbio africano; não se semeia em terreno alqueivado.  Assim, a vivência virtual proporcionada e facilitada pelas Tecnologias de Comunicação e Informação impedem as vivências pessoais e experiências com a realidade já em tenra idade, ao mesmo tempo em que talha a oralidade e consequentemente a linha de sua história. O ato de ouvir passou a ser démodé, ilógico e sem sentido. Em suma, uma chatice.

Se para eles as novas notícias ficam velhas no momento em que são veiculadas, o que pensar de pessoas mais experientes e impregnadas tentar falar de caminhos trilhados e de possibilidades de diferentes caminhadas. Certamente essa fala soaria como um insulto de um demente aquela pessoa antenada, atualizada e bem informada sobre os assuntos ilusórios correntes na novela das oito, noticiários e programas de auditório. 

Desse modo o ouvido de mercador ganha um novo velho significado, não de forma proposital, mais como um eficaz sistema funcional adquirido naturalmente na pós-contemporaneidade, servindo como escudo protetor na preparação da fuga pela dobra espacial (muito Kringow...!!)
As referências passam então a serem matérias recicláveis e paradoxalmente, na contramão, as representações se tornam arraigadas e permanentes.

A corrente monocultura proporcionou a escrita de uma nova história única, pautada nos caprichos do dono da fábrica de histórias únicas. Desse modo apagam-se as vergonhas do passado e todos passamos a reverenciar euro-sequestradores; invasores, torturadores e assassinos como heróis nacionais; seus nomes batizam ruas e bairros com orgulho exacerbado, repetidos com altivez em cada manchete da vez.

Antes, como escravizados, trabalhávamos a troco de nada; hoje trabalhamos a troco de quase nada, afim de que nossa servidão seja longa e feliz, visto que nossos antepassados não resistiam mais do que seis anos como força motriz e isso demandava um tráfico intenso de mais humanos como ser infeliz. Hoje o infame mercado criou mecanismo de preservação de seus escravizados, já que o envolvido no tráfico passou a ser oficialmente proibido.

Do mesmo modo que essa geração não faz a mínima ideia de sua condição de escravo de cérebro lavado, já que nasceram sobre a superproteção da família, que os mantém alijados de sua própria história para sentirem o doce da vida é bela. Nosso campo de concentração é tão bem organizado pela mídia, que religiosamente consegue adestrar todo bom cidadão; fê-lo ordeiro e feliz com a extrema habilidade de uma boa meretriz.

Quinhentos anos de história única, construída sadicamente de forma atraente, somente para manter essa nova safra de escravizados contentes. Cada programa, notícia e novela progressivamente revela sua letargia salpicada na memória imbecilizada e ilusória: Ouvidos de mercador com olhos cegos de tanto ver, são os componentes principais do kit que os protegem dos irritantes conselheiros e chatíssimos contadores de histórias, verdadeiros estressores de memórias.

Isso me faz lembrar uma história pra contar; a história da irmã de Johnny Jackson: Alice, uma meiga garotinha sucesso, negra de 18 anos; que queria ser modelo mas acabou fazendo pose de prostituta no ponto da rua 12. Como tantas outras, era uma cidadã brasileira que cursou o ensino fundamental numa escola pública, e como muitas, fez o primeiro aborto aos 13, e como as outras, abandonou a vida escolar para entregar-se a tarefa da sobrevivência do lar.

Ela carregava uma navalha na bolsa e um sedutor sorriso nos lábios. A mesma pátria que a pariu, também a estuprou, abortando em seguida sua esperança. A sarjeta era seu escritório, o perigo seu secretário e a escuridão, a testemunha de seu doloroso prazer que acreditava merecer.

Alice de cútis crioula como o noturno de seus olhos e do pixaim de seus cabelos, desfila pelas passarelas do Orco vendendo gozo a milanesa com lágrimas a tiracolo. Em sua mão direita, dinheiro vivo e na esquerda a navalha afiada; no útero, óvulos mortificados, além da epiderme marcada pelo chicote da vida vendida.  

Alice de olhos verdes, pele negra e sorriso amarelo, iluminado pelo branco do olhar sincero, queria ser estrela quando crescesse, mas... Acordou de seu sonho após ter sofrido a primeira curra após uma surra. 

Agora jaz seu eterno pesadelo, sonambulando sua performance a cada agonia copulada o dia inteiro. O branco de seus olhos se avermelha, marejando seu sorriso e entorpecendo pensamentos contornados de paúra; A esqualidez de seu andar e o vazio do olhar denuncia a ausência da pulsação vital que impulsionam a vida. Vida roubada, sangrada, estropiada, marcada a ferro e a fogo.

Vida que se foi para não mais voltar. Vida transformada, pelo coelhinho de pelúcia travestido em coelhinho da playboy; e por aquele sacana do coelhinho da páscoa,  que trocou as gostosuras pelas travessuras trocando os ovinhos de chocolate por fétidos culhões de natal. Aquele ursinho de pelúcia que outrora lhe acalentava, agora lhe enforca com mórbidos abraços de jibóia. Ele rouba seu fôlego adolescente enquanto lhe afoga no esperma da própria vida, gozando a morte até a morte.

A puta da Alice era uma cidadã latina, cujo verdadeiro nome era Maria, Maria Juana. A infeliz era diariamente crucificada a cada esquina pelo “bom cidadão”; em nome da família e dos bons costumes dogmatizados pelos fanáticos ritos religiosos.

A cada suplício o “bom cidadão” sentia-se vingado, podendo então dormir com a sensação de dever cumprido, tal qual Pôncius, o Pilatus. Mesmo que ao cair da noite, esse mesmo cidadão vá deitar-se, no sentido bíblico, com o sensual cadáver supliciado. Mesmo que se deleite raptando-lhe o orgasmo, vampirizando carícias satanizadas pelo divino-religioso; o mesmo (religioso) que durante o dia lhe desfigura a negra face com pedradas e a noite conduz a tocha que fará brilhar a contumaz fogueira da inquisição a fim de incandescer seu canal de transporte e ligação com o mundo divino: sua vagina.

Assim o santo amor que mata o sexo; origem da vida, desde a cópula sagrada dos monges aos pedófilos vaticanenses e neo-evangélicos, vem continuamente erguendo o falo da cruz e cravando violentamente no caliente corpo de Maria Juana. O sangue que jorra é virginal, quase pueril, marginal e sagrado. Alice é uma puta sagrada que foi sangrada e singrada pelo ensandecido cristão novo.

Como zumbi, Maria Juana vagava pelas ruas, praças e avenidas da cidade-tumbeiro e como oferenda, em cada encruzilhada, ela se doava como mediadora do divino prazer, prometendo seu céu a cada nubente; mesmo que a própria permanecesse definitivamente no umbral, tudo normal.

Seria culpa da puta que pariu Alice, que outrora lhe havia ofertado a um bispo em troca de alento divino e da própria subsistência? Despertando assim de seu sonho, numa eterna primeira curra? Provocando seu primeiro aborto? Despedindo-se da infância diante de um altar sagrado, tendo como testemunha uma estátua num crucifixo? Ungindo com sêmen sua puberdade?

No momento ela, Maria Juana, não pensa na culpa, nem em culpados, agora ela só pensa em acordar desse lamento para dormir seu sono sagrado, a cada dia que regurgita Alice de seu país de maravilhas, enquanto o pastor Johnny Jackson reza na cela de vida remida em sua despedida.

Não sei Quanto valeu sua melanina, ou se foi por quilo, desde o cinema até esquina, nem sei quanto agora custa essa melanina nas capas de uma revista de um global até a revista policial. Não faço ideia de quanta melanina semanal é necessária pro noticiário matinal satisfazer a gula de fantasia insaciável da burguesia, menos ainda quanto custa à melanina no pregão dessa sociedade assassina.

Não me interessa quantos milímetros cúbicos de sangue devem jorrar da carne negra torturada nos porões do congresso, nas cadeias cheias até a latrina asseada pela derme escalpelada pelo excesso de melanina, nem quanta melanina necessita a fúria uterina do Orfeu da Conceição para colorir as telenovelas de emoção.

Não faço ideia de quanta melanina deve ser escondida no cofre pra se fugir do triste destino da alforria de Pirro ao complexo de Crasso, nem quanta melanina é preciso por sobre o leito de Alice; a moça de neve, para transforma-se em estricnina, chacinando essa sina de embrião mestiço-adestrado. Só sei que essa Melanina assina seu assassínio em cada esquina... Essa sina me chacina!

- Rio my home... Rio dos home... Rio da zona... Rizoma... Quizomba... Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer..., Bem...zzz..Me...zzz...queezzz...zzzzzz...!!! Em Brasília 19 horas...!!! Plim,plim..!! Ordem e progresso..!!Brazil, zil, zil, zil...200 milhões em ação, pra frente Brazil, salve a seleção...!!Beba coca-cola!! É gooooooolll..!!! Lá em cima daquele morro passa boi passa boiada...Funk Brazzil..zzzil...zzzzil...zill..zzziillll..zzz...trararara...traa...trarara... 

- Senhor Noel, Noel de todos os santos, Noel dos Palmares, senhor do bem e do mal; é uma pena, mas aqui... Na cidade de Pretópolis, a cidade Preta, a cidade Negra, em nossa Necrópoles... Aqui não tem natal!!!     



[1] Os gregos se referiam aos Jardins de Tântalo se referiam a um lugar inexistente

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