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quinta-feira, 14 de maio de 2020

O Fino Véu entre a Matrix e a Gestalt

Tudo aquilo que percebemos através dos sentidos, são como as incríveis e fugazes imagens formadas e transformadas pelas mágicas nuvens andantes sobre o infinito azul do céu anil; essas mesmas imagens estão numa contínua metamorfose em consequência das intempéries que as arrastam ao sabor do vento norte que continuamente rodopiam ao redor.

Da mesma maneira como que esse curioso e contínuo processo pode ser verificado cotidianamente sobre essa bela tela azul celeste, os nossos sentidos, principalmente a visão e audição, estão sempre a construir paulatinos cenários nos quais vivemos cada um de nossos momentos que formam o nosso agora, de maneira que, sempre encaramos esse momento único como se o vislumbramos fosse exclusivamente o que existe de real e de verdadeiro, o que de fato o é. Mas a questão é que, paradoxalmente, sempre fugimos desse verdadeiro momento que compõe o nosso Agora todas as vezes que o linearizamos ao tentar buscar fora dele, o futuro dele mesmo, ou tentamos retornar ao momento anterior ao próprio, focando nessa mesma tela deslocada do Agora que é exibida pelos sentidos que formatam nossos pensamentos, nos fazendo viajar no tempo.

Dessa forma, absolutamente tudo o que vemos, consideramos como verdadeiro e real, sem perceber que tais imagens nada mais são do que sutis armadilhas construídas e organizadas por esses mesmos sentidos físicos que roteirizam o espetáculo do palco da nossa vida, nos roubando o presente, o nosso agora; são esses pensamentos que sempre gritam as palavras de ordem de lá detrás das coxias, proclamando veementemente que o show tem que continuar.

Metaforicamente, cada nuvem Gestalt que se apresenta ao nosso olhar, imediatamente torna-se um elemento construcional dessa realidade imagética formada por dualidades, representadas pelo passado e pelo futuro, que se antagonizam, quando essa mesma imagem representativa passa a existir como objeto de resistência e de luta entre iguais, produzindo assim, o conceito da existência de um outro.

Destarte, o signo das imagens formatadas pelas metafóricas nuvens passageiras, acabam por se transformarem em simbólicos literais dos relógios devoradores de tempo que comandam os famigerados calendários administradores das horas, dos dias, meses e anos de nossa vida, definitivamente nos instituindo enquanto seres escravizados pelo signo desse Cronos, que rapta a nossa consciência, formatando a masmorra que enclausura a nossa imaginação ao reproduzir os pensamentos fixos que procura por um futuro que jamais chegará. Nesse ínterim, essa mente Medusa nos arrasta pesadamente nos atrelando a carruagem do passado com a qual passamos a desfilar pelas ruas desse nosso tempo sem tempo, congelando o tempo presente de se viver, na medida em que os repetidos pensamentos padronizados vão sendo ininterruptamente reproduzidos em série, de forma exaustiva, projetados a partir do altar imagético que sustenta a matriz dos Tempos Modernos, nos transformando num Agente terceirizado de Sísifo.

Os antigos contos de fadas narram perfeitamente os meandros desse processo quando falam da artimanha usada na apropriação do colossal poder daquele gigantesco touro bravio que facilmente foi dominado, domesticado e tolhido após um simples e suave gesto, bastando somente agitar alguns centímetros de um maleável pedaço de tecido colorido as suas vistas. De maneira análoga, as Tecnologias de Informações e Comunicações simbolicamente se tornaram esse rubro véu de fino algodão agitado no ar, que hipnotizou completamente o nosso olhar, ao desenvolver a sutil função da metafórica bandeira-guia dessa massa que segue a pomposa projeção produzida com sedutoras imagens de cidades futuristas, como uma Shangri-Lá, Atlântida, Lemúria ou uma Terra Prometida qualquer, a caminho de seu devido aprisco. Essas imagens habilmente camuflam as masmorras e as grades do pasto que jaz no entorno dessa grande massa; mas paradoxalmente, elas podem facilmente se desmanchar no ar, como nuvem no avião, se alguém dela se aproximar o bastante, pois de perto, não suportariam quaisquer exames a luz do discernimento.

O misterioso caminho para sair dessa distopia se inicia com a percepção da Gestalt que formata o dualismo criado na construcionalidade na imagem dessa Matrix, que nos é apresentada por nossos próprios sentidos que freneticamente se agitam, como a presença daquele singelo pano vermelho movimentado frente ao Touro Valente. Uma nova forma de percepção inevitavelmente nos leva a ter ciência de que, quem oferece a ilusão torna-se o mestre das massas, e quem se interpõe ou interfere na visão desse fictício Paraíso, invariavelmente terá o mesmo destino do companheiro de Barrabás.


Revivendo a mesma situação suscitada por Salomão e Pilatos, esse é o momento onde se escolhe entre ingressar na Escola de Mistérios em busca do olhar interior, ou permanecer na ilusão criada pelos sentidos, servindo como alimento a esse Grande Irmão que em troca, concede todas as realidades virtualizadas e pós-verdades manufaturadas à gosto, servidas nesse eterno Banquete oferecido pela Matrix; este processo de busca e descobertas é um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para toda humanidade, já que, só mudando o homem é que se muda o mundo.

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