Tudo aquilo
que percebemos através dos sentidos, são como as incríveis e fugazes imagens
formadas e transformadas pelas mágicas nuvens andantes sobre o infinito azul do
céu anil; essas mesmas imagens estão numa contínua metamorfose em consequência
das intempéries que as arrastam ao sabor do vento norte que continuamente
rodopiam ao redor.
Da mesma maneira
como que esse curioso e contínuo processo pode ser verificado cotidianamente
sobre essa bela tela azul celeste, os nossos sentidos, principalmente a visão e
audição, estão sempre a construir paulatinos cenários nos quais vivemos cada um
de nossos momentos que formam o nosso agora, de maneira que, sempre encaramos
esse momento único como se o vislumbramos fosse exclusivamente o que existe de
real e de verdadeiro, o que de fato o é. Mas a questão é que, paradoxalmente,
sempre fugimos desse verdadeiro momento que compõe o nosso Agora todas as vezes
que o linearizamos ao tentar buscar fora dele, o futuro dele mesmo, ou tentamos
retornar ao momento anterior ao próprio, focando nessa mesma tela deslocada do Agora que é exibida pelos sentidos que
formatam nossos pensamentos, nos fazendo viajar no tempo.
Dessa forma,
absolutamente tudo o que vemos, consideramos como verdadeiro e real, sem
perceber que tais imagens nada mais são do que sutis armadilhas construídas e
organizadas por esses mesmos sentidos físicos que roteirizam o espetáculo do
palco da nossa vida, nos roubando o presente, o nosso agora; são esses
pensamentos que sempre gritam as palavras de ordem de lá detrás das coxias,
proclamando veementemente que o show tem que continuar.
Metaforicamente,
cada nuvem Gestalt que se apresenta ao nosso olhar, imediatamente torna-se
um elemento construcional dessa realidade imagética formada por dualidades,
representadas pelo passado e pelo futuro, que se antagonizam, quando essa mesma
imagem representativa passa a existir como objeto de resistência e de luta
entre iguais, produzindo assim, o conceito da existência de um outro.
Destarte, o
signo das imagens formatadas pelas metafóricas nuvens passageiras, acabam por
se transformarem em simbólicos literais dos relógios devoradores de tempo que
comandam os famigerados calendários administradores das horas, dos dias, meses
e anos de nossa vida, definitivamente nos instituindo enquanto seres
escravizados pelo signo desse Cronos, que rapta a nossa consciência, formatando
a masmorra que enclausura a nossa imaginação ao reproduzir os pensamentos fixos
que procura por um futuro que jamais chegará. Nesse ínterim, essa mente Medusa
nos arrasta pesadamente nos atrelando a carruagem do passado com a qual
passamos a desfilar pelas ruas desse nosso tempo sem tempo, congelando o tempo
presente de se viver, na medida em que os repetidos pensamentos padronizados
vão sendo ininterruptamente reproduzidos em série, de forma exaustiva, projetados
a partir do altar imagético que sustenta a matriz dos Tempos Modernos,
nos transformando num Agente terceirizado de Sísifo.
Os antigos
contos de fadas narram perfeitamente os meandros desse processo quando falam da
artimanha usada na apropriação do colossal poder daquele gigantesco touro
bravio que facilmente foi dominado, domesticado e tolhido após um simples e
suave gesto, bastando somente agitar alguns centímetros de um maleável pedaço
de tecido colorido as suas vistas. De maneira análoga, as Tecnologias de
Informações e Comunicações simbolicamente se tornaram esse rubro véu de fino
algodão agitado no ar, que hipnotizou completamente o nosso olhar, ao
desenvolver a sutil função da metafórica bandeira-guia dessa massa que segue a
pomposa projeção produzida com sedutoras imagens de cidades futuristas, como
uma Shangri-Lá, Atlântida, Lemúria ou uma Terra Prometida qualquer, a caminho
de seu devido aprisco. Essas imagens habilmente camuflam as masmorras e as
grades do pasto que jaz no entorno dessa grande massa; mas paradoxalmente, elas
podem facilmente se desmanchar no ar, como nuvem no avião, se alguém dela se
aproximar o bastante, pois de perto, não suportariam quaisquer exames a luz do
discernimento.
O misterioso
caminho para sair dessa distopia se inicia com a percepção da Gestalt que
formata o dualismo criado na construcionalidade na imagem dessa Matrix, que nos
é apresentada por nossos próprios sentidos que freneticamente se agitam, como a
presença daquele singelo pano vermelho movimentado frente ao Touro Valente. Uma nova
forma de percepção inevitavelmente nos leva a ter ciência de que, quem oferece
a ilusão torna-se o mestre das massas, e quem se interpõe ou interfere na visão
desse fictício Paraíso, invariavelmente terá o mesmo destino do companheiro de Barrabás.
Revivendo a
mesma situação suscitada por Salomão e Pilatos,
esse é o momento onde se escolhe entre ingressar na Escola de Mistérios em
busca do olhar interior, ou permanecer na ilusão criada pelos sentidos, servindo
como alimento a esse Grande Irmão que
em troca, concede todas as realidades virtualizadas e pós-verdades
manufaturadas à gosto, servidas nesse eterno Banquete oferecido pela Matrix; este processo de busca e descobertas
é um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para toda humanidade, já
que, só mudando o homem é que se muda o mundo.

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