As últimas
chuvas de balas pluviométricas que inundaram o Estado do Rio de Janeiro,
provocando afogamentos fatais, numa enchente histórica de água e sangue copiosamente
jorrados dos morros até o asfalto, reconfirmou que, todas as instituições do
Estado nacional governam através da violência do pelourinho simbólico, bordado,
costurado e estampado como emblema nas fardas da PM carioca, onde se lê as
iniciais GRP (Guarda Real
Portuguesa); são esses militares que asseguram a presença do espírito
escravagista presente em todas as instituições nacionais; principalmente no sistema educacional tupiniquim.
Esse fato,
se fez notório quando o extermínio dos povos indígenas e o genocídio do Povo
Negro no Brasil, foram definitivamente transformados em datas festivas; tanto
no sistema de ensino particular como no ensino público; assim como transformou
em comemoração, o assassinado, o aniversário e a ressureição do Cristo na terra;
resignificando[1] o
instrumento de sua tortura; a cruz do calvário; como instrumento de culto e adoração.
Hoje,
olhamos para as efemérides, essas datas comemorativas promovidas pelo sistema
educacional, essa instituição racista, machista e misógino em que o ensino se
transformou, e percebemos a banalização do mal promovida pelo terrorismo estatal,
quando legitimamos tais datas ao comemorá-las; são festividades com as quais os
nossos colonizadores promovem a nossa robotização a cada dia, acoplada com a
homilia do medo da vida em liberdade.
Nosso
pelourinho de cada dia que nos dói hoje, é exaustivamente exposto e apresentado
para além dos livros didáticos; exibidos também nos programas televisivos,
jornais e propagandas; atualizando seu status a cada start. Dessa forma, para
cada preto, se reserva 80 propagandas racistas, 80 assédios morais e 80 balas de
fuzis; e cada 23 minutos do dia se transformam em 23 funerais a noite.
Tudo isso é
registrado em B.O. policial, depois
de ter sido registrado nos cadernos de ocorrência da escola e nos diários dos docentes
das Unidades Educacionais existentes nas redes de ensino, a fim de atender ao famigerado
Estado nacional; e finalmente então, tudo o que foi registrado nas páginas dos livros
didáticos, e em cada propaganda comercial, atende momentaneamente a voracidade da sana insana do descontrolado desejo de controle
total das senzalas contemporâneas e das plantations
de shoppings instaladas em todas as urbes
et orbi, que emprega neguin para
servir a alucinada produção desses tempos modernos nada fraternos.
Tudo isso,
escrito e reescrito no quadro branco
da educação neocolonial instituída pelo Estado nacional, onde os estudantes e
formandos são subalternizados, passiva e ativamente, e depois, escravizados como
servos eternos.
As águas
desse dilúvio sangrento, que provocam diuturnamente uma escaldante cachoeira,
que jorra do morro até o asfalto a noite inteira, geram uma enxurrada que arrasta reptilianamente
a ética, o respeito e o bom senso, junto com os paus e as pedras no fim do caminho; além dos tiros,
porradas, bombas que vem junto com o gás lacrimogênio, proporcionando aos
transeuntes, aos partícipes e ao público em geral, a monótona oportunidade de se
verem na tela da TV, sendo exibidos nos noticiários diários que mostram as passeatas
em prol da paz sem voz, ao vivo e em
preto e branco, destacadas sobre o vermelho-sangue da bandeira brasileira ao
fundo, enquanto ela é içada, ao som do hino nacional entoado em cada pátio, desde
o jardim de infância até o ensino medieval, como atração única e principal,
enquanto os diretores eleitos de cada Unidade Escolar lavam suas mãos; uns com
água, outros com o sangue do próprio irmão.
Dessa
forma, a fantasia folclórica grafada nos livros didáticos e dramatizada nas
festas estudantis, encenando, desde o dilúvio, até a abolição da escravidão, que
são confeccionadas por um escrivão sem melanina nem tesão, mostra o malandro moleque
saci se livrando de um pau-de-arara, exibindo na página ao lado a inocente Alice branca,
com seu lindo coelhinho branco, brincando catolicamente durante as emocionantes
comemorações da páscoa, enquanto a arca de Noé afunda num Rio de sangue negro,
sobre as águas de março, em pleno mês de Janeiro. É assim que termina a colação
de grau e a formatura dos alunos que fizeram da memorização, a sua única lição, e depois foram servir ao exército e a nação, dando 80 tiros na cabeça do próprio irmão.
Mas os outros
alunos pretos formados como o coração, sem a tal da memorização, sabem que não poderão carregar
seu diploma no peito; como João, o aluno formado, premiado e eleito primeiro da
classe; ele há se se cuidar, para não tomar tiro no peito ao cruzar a esquina
da vida, depois de ter pedido emprego ao doutor Armando; aquele Sinhô, que assinou como engenheiro todos os desenhos feitos por João o ano inteiro, quando ele era só um simples técnico de
edificação, mas empregado como padeiro, na confeitaria do sinhô Armando, fazendo e servindo
degustação.
Até então,
ele, João, só desenhava pé de feijão
e era muito elogiado por seu pai, que hoje é só mais um negro fujão da justiça
branca, depois de ter sido marcado, pela cor de sua tez, como freguês, para
entrar no negreiro desse Estado mercador de carne preta, a carne mais barata do
planeta.
Esse mesmo
João, que pensava ser um escolhido
por ter a mesma religião do patrão, e ter se formado pastor na igreja desse
sinhô. Perdeu, João, perdeu. Hoje, João toma muita água-que-passarinho-não-bebe para lavar mente, e esquecer que seu sangue
é bom para colorir o pelourinho público com mais de 80 tons de sua diversidade
preta e quase-preta. Já que hoje não existe mais as chibatadas, só 80 tiros;
nem existe mais a carta de alforria, só carteira assinada; desde que sua
formatura e seu diploma possa lhe conceder a vez servil, sem voz.
Mas ele, como
bicho preto que não pode entrar na arca, também não conseguiu rir do Rio de sangue negro,
como riu Alice branca brincando de enlouquecer, após entrar na toca do felpudo coelho
branco. Portanto, esse negro, que não sabe onde está, e nem sabe de onde veio, também
não faz ideia para onde vai, depois de ter sido diplomado e formado pela
academia neocolonial contemporânea através da pedagogia da infâmia.
Mas o
importante é que ele tem um lindo e vistoso terço, e além de beber Coca-Cola e comer no Mc Donald, esse João Ninguém também vê novelas e
noticiários; e imagina um dia poder passear pelo deserto do Saara, montado num
dromedário, visitando pirâmides e cumprimentando faraós; tudo isso sem perder o
horário de trabalho, e a chance de servir ao White empresário.
[1]
Ressignificação aqui é diferente de recontextualização, já que o primeiro
coloca um novo significado em um determinado conceito e o segundo transforma o
conceito sem que ele perca o seu significado. Ou seja, você não esquece o
significado real do dito conceito, mais coloca o mesmo num patamar diferenciado
a que pertencia.

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