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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Sobre o Lugar de Fala e o Lugar da Fala

O idioma de um povo estrutura todo o seu proceder, seu modo de pensar, sua cognição e sua afetividade. O vernáculo dita a desdita e o porvir nos destinos de uma nação. Exemplo fragrante desse curioso processo pode ser observado no idioma brasileiro classificado como português, mas que se apresenta como língua própria de uma nação formada pela diversidade de troncos linguísticos variados, com variedades e variações que se encontram numa unidade contida nas cores melanodérmicas e ameríndias, que superaram toda insidia trazida pela idade das trevas medievais.

Um exemplo singular que ilustra esse quadro é a palavra escravo, ostensivamente usada pelos historiadores no lugar da palavra Escravizado, cujo adjetivo tem a força de causar o poderoso efeito de ocultar um mundo de perversidades, crimes, humilhações e torturas de um povo, vista que tal palavra confere uma essência própria do ser e não uma condição imposta, coisificando dessa maneira o indivíduo, que de sujeito plural representante de um povo, se vê reduzido a um mero instrumento de um destino trágico. Esse perverso expediente retira toda a carga de responsabilidade criminal e criminosa da possibilidade de uma jurisprudência ou algo semelhante quando se trata de justiça, já que o cumprimento da lei depende de quem ocupa o poder.

Dessa forma, os redatores oficiais, que reescreveram a versão da história dominante fazendo da mesma um pedante editorial, têm sido extremamente caprichosos ao se esmerar na missão de se revestir como advogados, juízes e executores, fazendo uso de gongorismos, de pompas e circunstâncias para envernizar, representar e apresentar essa conjuntura escravagista como democrática.

O lugar de fala ocupado pela representatividade desses inquisidores togados, travestidos de terno, gravata e colarinho, usando a fala como uma poderosa arma permanentemente engatilhada na cara melanodérmica, ocupando os corações e mentes anoréxicas de si mesmo.

Soltar a voz gritando para si mesmo e aos sete ventos o verbo que vivifica, é a forma de se desvencilhar da armadilha produzida pela palavra bélica; que arma essa armadilha que fere, tortura e mata a semente que da alma, tirando-lhe o dom de ser criadora e criatura. Sendo assim, ocupar o lugar da fala usando o verbo criador não como sabotador de si mesmo ou como auto destrutor, Essa postura faz retornar o equilíbrio entre o que se faz e o que se fala, trazendo a harmonia que faz a vontade de liberdade ser maior que o medo do chicote.

Portando, usar a fala como látego, como navalha ou como semente criadora, nunca é uma opção, é sempre uma escolha. Então falemos a língua do silêncio como primeiro idioma, a fim de ouvir todas as respostas a quaisquer dúvidas provocadas pela armadilha da palavra-joio. Esse é o lugar a ser devidamente ocupado, no tempo-espaço, do ser enquanto verbo que se fez carne.

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