O idioma de um povo estrutura todo o
seu proceder, seu modo de pensar, sua cognição e sua afetividade. O vernáculo
dita a desdita e o porvir nos destinos de uma nação. Exemplo fragrante desse curioso
processo pode ser observado no idioma brasileiro classificado como português,
mas que se apresenta como língua própria de uma nação formada pela diversidade
de troncos linguísticos variados, com variedades e variações que se encontram
numa unidade contida nas cores melanodérmicas e ameríndias, que superaram toda
insidia trazida pela idade das trevas medievais.
Um exemplo singular que ilustra
esse quadro é a palavra escravo,
ostensivamente usada pelos historiadores no lugar da palavra Escravizado, cujo adjetivo tem a força de
causar o poderoso efeito de ocultar um mundo de perversidades, crimes,
humilhações e torturas de um povo, vista que tal palavra confere uma essência
própria do ser e não uma condição imposta, coisificando dessa maneira o
indivíduo, que de sujeito plural representante de um povo, se vê reduzido a um mero instrumento
de um destino trágico. Esse perverso expediente retira toda a carga de
responsabilidade criminal e criminosa da possibilidade de uma jurisprudência ou
algo semelhante quando se trata de justiça, já que o cumprimento da lei depende
de quem ocupa o poder.
Dessa forma, os redatores oficiais,
que reescreveram a versão da história dominante fazendo da mesma um pedante editorial,
têm sido extremamente caprichosos ao se esmerar na missão de se revestir como advogados,
juízes e executores, fazendo uso de gongorismos, de pompas e circunstâncias para
envernizar, representar e apresentar essa conjuntura escravagista como
democrática.
O lugar de fala ocupado pela
representatividade desses inquisidores togados, travestidos de terno, gravata e
colarinho, usando a fala como uma poderosa arma permanentemente engatilhada na
cara melanodérmica, ocupando os corações e mentes anoréxicas de si mesmo.
Soltar a voz gritando para si mesmo
e aos sete ventos o verbo que vivifica, é a forma de se desvencilhar da
armadilha produzida pela palavra bélica; que arma essa armadilha que fere, tortura
e mata a semente que da alma, tirando-lhe o dom de ser criadora e criatura. Sendo
assim, ocupar o lugar da fala usando o verbo criador não como sabotador de si
mesmo ou como auto destrutor, Essa postura faz retornar o equilíbrio entre o que se faz e o
que se fala, trazendo a harmonia que faz a vontade de liberdade ser maior
que o medo do chicote.
Portando, usar a fala como látego,
como navalha ou como semente criadora, nunca é uma opção, é sempre uma escolha.
Então falemos a língua do silêncio como primeiro idioma, a fim de ouvir todas as
respostas a quaisquer dúvidas provocadas pela armadilha da palavra-joio. Esse é
o lugar a ser devidamente ocupado, no tempo-espaço, do ser enquanto verbo que se fez carne.

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