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quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Filosofia Africana e o Princípio De Estranhar o Comum e Tornar Comum o Que é Estranho...

Há muito mais entre o Ordinário e o Extraordinário do que imagina a nossa vã filosofia, como sempre tem mostrado, de forma prosaica, qualquer Arco-da-Velha que se mostra após as tempestades, mesmo sem exibir seu começo ou o seu fim. O exercício de olhar e ver, divisando um e outro, já é em si, um processo Extraordinário. Nesse processo cabe a analogia daquele peixe que mergulha em pleno ar, e percebe nesse deliberado ato, a existência de um novo e desconhecido mundo. Dessa forma, o fantástico, o maravilhoso e os milagres saem do terreno exótico para o mar do prosaico.

As miríades desse processo, com seus incontáveis e luminosos tons expostos pelo ar, podem até sufocar o desavisado peixe urbano que nem percebe a mudança de forma do oxigênio, tal como o processo da água que se transforma em gelo; mas é um processo natural, que segue seu curso da mesma forma que o rio segue seu caminho em direção ao mar; diferente a cada momento, mas que se mostra simultaneamente de forma coletiva e individual. 

Sair da superfície profunda dessa escuridão da alma, para perceber além do Ordinário senso da vala comum a qual o indivíduo diuturnamente é submetido pelos pseudos controladores dos destinos alheios, é um processo simplesmente Extraordinário; e esse processo se resume em perceber que ter Força é diferente de possuir Poder. Ou seja, a mão que possui o Controle não são as mesmas mãos que possuem as Pilhas; e é nesse hiato que o Ying e Yang se harmonizam com a canção cósmica do universo. Dessa forma, a simplicidade se torna tudo o que há de mais Extraordinário e belo nesse incrível processo.

Portanto, há muito mais entre o Extraordinário e o Ordinário que imagina essa nossa vã filosofia que necessita deixar toda a sua pesada carga, durante a travessia por debaixo desse Arco-da-velha que aponta por sobre esse rio de coisas que correm em direção ao mar da vida, e levar somente a fraterna simplicidade como óbolo para o irmão Carontes.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Carta Aberta à Branquitude


Cara pessoa branca, caso deixasse de escrever esta carta, estaria lhe concedendo a carta branca para continuar a sua saga de desumanizar o outro que não combina com o seu querer eurocentrado; por esse motivo, essa carta não está em branco.

Certamente você deve desconhecer que entre a escravização dos Povos Negros e a atual existência dos sem tetos e da abundante mendicância pelas ruas da cidade, existe uma relação estreita que se encontra justamente no processo da banalização desse mal apresentado em ambos os fatos; episódios estes que foram e são socialmente aceitos por pessoas de bem[1] como você.

As vezes vejo docentes, discentes e  pessoas de bem que parecem se surpreende com a passividade de outrora,  daquelas pessoas que foram sequestradas em África, diante da crueldade  do cativeiro do regime escravagista, todas as vezes que se folheiam, passando as vistas por revistas e pelas comprometidas páginas dos livros didáticos, que propagandeavam, e ainda propagandeiam, referindo-se a escravização das pessoas negras como se fosse um mero fato acontecido num passado distante na história da humanidade.

São esses mesmos docentes, discentes e pessoas de bem que hoje tentam evitar olhar diretamente nos olhos dos pedintes e dos maltrapilhos que lhes encaram com aquele olhar profundo que imputa um misto de remorso e de repulsa; o mesmo olhar que outrora mostrava os escravizados supliciados à sociedade do Brazil colônia medieval da citada época.

Esse sentimento contraditório suscitado, jacente de uma suposta empatia que camufla um profundo desdém; contradição nascida em meio a um surto momentâneo de humanidade imiscuída à pseudo intelectualidade egocentrada, mostra-se como um escatológico resultado fruto de nosso Medieval Tempo Moderno[2], invariavelmente advindo de uma inteligência alijada por completo da sabedoria; que desnuda o que há por detrás das máscaras sociais. Tal paradoxo expõe impiedosamente a banalização desse mal[3] de cada dia que nos dói hoje, de forma simplesmente escandalosa, indolente, arrogante e indecente.

Mas este fato enunciado que é exaustivamente anunciado, além de denunciado onde quer que se vá; de tão banalizado; já foi devidamente assimilado e introjetado, de modo a fazer parte definitiva da paisagem que compõe essa natureza morta que fora perversamente pintada com o vermelho que copiosamente jorra às claras da carne preta, em todas às escuras esquinas da vida desse planeta, além dos noticiários matinais, dos convescotes[4] semanais, na mesa posta para um simples café de todas as manhãs, até as frugais conversas em um pomposo jantar de gala servido na Casagrande que ladeia as atuais Senzalas.

A atração principal desse circo de horrores, erigido pela inteligência colonial da europa medieval, tinha como objetivo incutir o hábito de apreciar e deliciosamente degustar o sofrimento do outro; sofrimento este que vinha talhado com as fortes cores do vermelho e do preto[5]; cores que especialmente provocavam e provocam a adrenalina, que fazia, e ainda faz irromper um rio de dopamina; é como assistir os segundos que antecedem ao final da vida de uma joaninha indefesa, que esvoaça por sobre o espinho de uma perfumosa rosa, num lindo dia de sol, ante seu voraz e cruel predador.  

A visão dessa cena de horror parece fazer levar a branquitude valorizar sua própria vida; e para que ela possa se sentir agradecida por esta mesma vida, que por hora ainda lhe pertence, a branquitude vê a necessidade de possuir a vida de cor alheia, para poder repetir ad infinitun esse mórbido espetáculo que acaba se tornando um círculo vicioso. E como espectador dependente alquímico que de fato se tornou; como qualquer outra espécie de dependência, ela, a branquitude necessita de tratamento. Para iniciar esse tratamento, o viciado precisa dar o primeiro passo, que é o de identificar tal anomalia; e os passos seguintes, que seria o de arrependimento, culpabilidade e sucessivamente o de procurar pelo antídoto que o leve a cura, até passar definitivamente, passo-a-passo, a poder combater tal doença um dia de cada vez.

Mas tal processo, em cada uma de suas etapas, é algo absoluta e profundamente doloroso, além de envolver uma complexidade do tamanho de sua simplicidade; por isso, nem todos desejam a cura, visto que a saída do vício implicaria em deixar sua zona de conforto. Nesse caso, lhe parece bem mais convidativo, conveniente e atraente, além de satisfazer seus caprichos a cada sessão que proporcionada pelo horário nobre que o representa com todas as pompas e circunstâncias, permanecer onde suas taras e fantasias possam lhe servir de anestésico a tal grotesca realidade sensual.

Talvez você não esteja sabendo, cara pessoa branca, que esse ato terrorista antropofágico de assimilar a força do adversário devorando seu medo até a morte, foi inaugurado pelo egocentrismo, depois de creditada e apresentada como uma prática de invenção selvícola, para que pudesse justificar uma civilidade europoide pretensamente evoluída; sendo rotulada como tal, com o intuito de amenizar as funestas consequências quando, se por acaso, viesse o mesmo opressor a olhar no fundo dos olhos do supliciado e a culpa repentinamente lhe assaltasse o ser. 

Dessa maneira, a mesma ação que outrora fora direcionada exclusivamente contra o corpo preto, hoje evoluiu, sendo também dirigida para além da carne: para o nível psicológico, filosófico e espiritual; sendo meticulosamente adornada com uma nova, vistosa e difícil nomenclatura, depois de intelectualizada e inserida pelas bulas Papais[6]médicas e científicas[1] no glossário do bem viver do cidadão de bens.

Dessa forma, banaliza-se o mal, mesmo que a razão tente em vão amenizar a dor que se faz presente no fundo do coração; dor essa, que insiste em provocar, e até mesmo expor, o resquício dessa renitente emoção que lhes aponta no cerne do ser. Mesmo que seres portentosos como você, como portador da razão eurocêntrica tente com sua justificativa manufaturada e fabricada por uma inteligência desprovida de sabedoria, eliminar a parte emotiva que ainda lhes fazem pulsar a alma esterilizada, fazendo-os lembrar do resquício de sua humanidade. 

É notório perceber que é para evitar essa dolorosa lembrança, que vocês contraditoriamente se juntem a seus iguais; contraditório porque a coletividade é justamente uma qualidade humana o opressor abomina, tem ojeriza e procuram peremptoriamente eliminar, a partir da prática do genocídio há muito perpetrado contra os povos que produziram tal princípio a fim de eliminar o bem pela raiz.

Enfim, foi neste cenário rico de pedintes, pleno de desgraças e abundante de desgraçados, como perfeito solo fértil, com a potencialidade extrema de se plantar e de se colher humanidades, que o eurocentrismo semeou a competição e a meritocracia como modus vivendi, a fim de manter a ecologia do empreendedorismo predador racializado, através da banalização desse mal de cada dia que nos dói hoje, ao colorir o homem bom e o homem ruim, qualificando e tipificando seus vícios e virtudes, além de rotular embalando-os em recipientes contrários, transformando assim, antídoto em veneno, além de criar regras, leis e tratados de consumo para a comercialização desse novo produto produzido pela famigerada indústria moderna desse infame mercado capitalista. 

Esse com esse infame processo que se transformou, o que outrora era ser humano, em ser consumidor, e o que era Povo transmutou-se num festivo público sempre presente nas arquibancadas desse circo montado para exibir esse novo filme antigo, mostrando a luta do homem bom contra o homem ruim, numa eterna batalha entre o Bem e o Mal. Batalha esta preparada como atração especial nesse infindável novelo humano, cujo tema exibe personagens que vampirescamente se alimentam da humanidade do incauto espectador que se imagina além da tela dessa TV que ele não vê, graças ao Grande Irmão e a sua insuperável tecnologia produtora de sentimentos perdidos nas esquinas Eldoradas dessa colônia muito amada chamada Brazil, que é formado por indústrias fascistas e poderes nazista mad in europa, exibindo a bandeira branca da paz sangrenta enquanto rasgam a bandeira pirata que exibe desavergonhadamente a caveira como Raio X da história humana desumanizada.

Dessa forma, o peso da pele branca foi colocado no prato de uma balança ao lado de um pelourinho com mais de 500 anos de sangue e carne preta triturada, misturada a infindáveis litros das lágrimas que temperaram os oceanos do mundo, enquanto os esvoaçantes cabelos loiros e os olhos azuis observavam os ossos moídos das crianças emasculadas e dos eunucos fantoches, essa balança da justiça branca se refestelou numa confortável rede, movimentando-se ao sabor das batidas do relógio da fábrica que alterna os intervalos de descanso, entre o trabalho servil e a ignorância senil da mão que segura o martelo e a foice; é nesse balançar infinito, marcado pelo intervalo das cabeças negras que rolam ante a afiada lâmina da guilhotina do carrasco e do corpo preto que sangra ao sabor do chicote do feitor, que este hiato mostra que tem a cor branca da passividade daquele opressor que se exime através do silêncio; desse silêncio nefasto que faz a vida passar em branco suave, observando as fofas nuvens brancas, de um futuro paraíso branco divino, com reluzentes deuses e anjos brancos. Ou seja, ser branco significa passar confortavelmente a vida em branco.

Dessa maneira, torna-se notório que a cor da pele traz um peso referente ao seu passado, seja como supliciado ou como algoz, pois tudo que foi vivido, e o que está sendo vivenciado pelo indivíduo enquanto sujeito, decorre desse mosaico racial divido perversamente, montado pelos privilégios e pelas desditas ditadas pela Necropolítica desse estado de arte conferido pela indolência e pela arrogância da colonização. É desse modo que, apesar da existência do racismo, tornou-se impossível detectar a existência do racista, já que a cor de sua pele lhe confere os privilégios da lei, mas nunca os rigores da justiça.

A forma de sobrevivência ditada através da violência trazida pela pseudo alforria da falsa abolição, violência esta que vem de ambos os lados, fez com que essa mesma violência quando promovida pelo grupo que tem a cor do opressor sejam eximidas de quaisquer responsabilidades. Visto ser este um crime que se iniciou com o sequestro dos Povos Africanos, há mais de quinhentos anos, percebemos que a violência do oprimido, após legalmente criminalizada pela abolição, fez com que qualquer reação promovida pelos afrodescendentes contra esse crime da história fosse devidamente enquadrado pela lei de um congresso Uni-étnico.

Destarte, a banalização desse mal, fazendo parte do senso comum manipulado pela cultura de massa, transformou a população preta numa massa negra matável para a qual é dirigido o desejo de morte dessa sociedade que se tornou uma aberração cognitiva, após ter o cérebro ferido pela mídia fascista; assim como todos os meios de comunicação e informação que concorrem para a perpetuação desse crime. Dessa maneira, poderíamos fazer uma analogia com o holocausto sofrido pelos judeus e o holocausto sofrido pelo Povo Negro, e perceber a forma diferenciada como ambos são tratados pelas diversas mídias. Ou seja, um mesmo princípio com pesos distintos; enquanto se sensibiliza para o sofrimento de um, se banaliza e desumaniza o outro. Percebemos então que o direito de justiça é prerrogativa do algoz e raramente do supliciado.

Para quaisquer operadores do direito, formados e formatados pela academia eurocêntrica como você, cara pessoa branca, prosaicamente não refutam esse princípio e nem esboçam qualquer intervenção nesse estado de direito inquisitório, romano e comprometido com o que há de mais espúrio no ser humano que se dispõe de qualquer ética para permanecer em sua zona de conforto racial. Portanto, venho lhe dizer que Reparação por esse crime é o primeiro passo para uma nação legítima, pautada pela justiça e a pela inclusão dos povos que aqui habitam; sem ela, continuaremos a viver nessa idade das trevas travestida de democracia racial.

O branco que se desprover de sua branquitude; assim como a verdade se apresenta desavergonhadamente nua; tornado humano, perceberá nessa missiva um alerta fraternal e não um desafio bélico proposital. Caso contrário, verá nessa carta uma declaração de uma antiga guerra, iniciada há mais de 500 anos, mas que apenas o oponente, que era a pessoa negra, não tinha conhecimento da existência desse massacre anunciado.

Eis a bandeira preta, a bandeira pirata, içada em sua hora decisiva, para atravessar esse mar de infâmias brancopofágicas eurocentradas, anunciando a hora para os que chegaram em Navios e os que chegaram em Tumbeiros decidirem se constroem ou se destroem a vida como ele é. Está carta foi emitida de um Tumbeiro para uma Caravela expressando o desejo de realizarmos algo diferente de uma reedição das peripécias daquele mesmo grupo que resolveu que a vida seria só mais um triste episódio do Delenga Cartago como uma mórbida continuação de mais um Espetáculo das Raças.

O preto está escrito no branco, tenho dito, que de acordo com a branquitude, hoje vale o que está escrito. Portanto declaro extinta a branquidade desta data em diante, revogando quaisquer disposições em contrário, que se cumpra e se faça cumprir, guardando tudo que nela contém. 




[1] A expressão homem de bem foi criado pelos estupradores e assassinos que compunham o grupo racista norte-americano da Ku Krux Klan para se diferenciar da pessoa de pele Black.
[2] Alusão ao filme homônimo de Charles Chaplin.
[3] Alusão a Hannah Arendt.
[4][4] Era o nome dado ao piquenique realizado pelas famílias componentes da Ku Krux Klan após a realização dos linchamentos de negros afro americanos.
[5] Referência a genocídio dos Povos indígenas e dos Povos Africanos escravizados no Brasil.
[6] Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas, autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse na fuga de escravos. 




[1] Narrativas baseada no racismo científico que afirmava que os negros eram subumanos e por isso estava tudo bem tomar-lhes as terras e os corpos para o trabalho forçado.
Narrativa culturalista e as questão das civilizações adiantadas versus as atrasadas, estas últimas sendo as dos negros... Mais justificativas para dominação...
Finalmente estamos na teoria do racismo baseado em construção social, esta que estamos vivendo nos dias atuais...


sábado, 14 de abril de 2018

O Deseducar e o Desaprender Como Princípio Sabático Basilar da Decolonialidade

Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo da mulata – aurora filha do dilúvio, neta da noite. Cam está redimido! Está gorada a praga de Noé.
– por Olavo Bilac
                              

                         
A educação, ministrada pelo dominador, foi o pulo do gato para a manutenção da violenta escravização contemporânea, já que de forma muito inteligente, trouxe em seu bojo o princípio da Assimilação fundamentado na religião como carro-chefe desse sistema educacional tupiniquim, fazendo com que o chicote estalasse com mais força e potencializasse as marcas profundamente, produzindo feridas indeléveis na alma que dilaceram no cerne toda a carne preta desse planeta, sendo habilmente impressas no DNA das gerações presentes e futuras, como um instrumento eficaz nesse processo de tortura permanente banalizada pelo mal nosso de cada dia que nos dói hoje.

É dessa forma que a ideia colonial de um deus Branco, de barba Branca, cabelos Brancos e olhos azuis, se faz imperar como figura dogmática absolutista a partir desse golpe mestre. Assim, a colonização mental se efetiva e se perpetua enquanto os opressores continuam tranquilamente a decidir racialmente os destinos de seus servos, encarcerados em sua própria mente, nesse Tempo Moderno onde o capitalismo cognitivo completa sua tarefa de dominação econômica e social, ditado através do padrão racial, estabelecido pela violência da colonização.

Dessa maneira, as dez mil religiões, dois mil e quinhentos deuses e as cento e duas versões bíblicas existentes na atualidade que pregam a mesmíssima coisa; o amor ao próximo; se transformaram em facções religiosas desde que um “santo” Papa[1] da chamada santa igreja romana, decidiu, em uma de suas bulas a qual podemos caracterizar como uma das primeiras fake News da história, que pessoas de pele negra haviam sido supostamente amaldiçoados por um de seus deuses arianos de pele branca, cabelos brancos e barba branca. Dessa maneira, passaram a ensinar esse ódio seletivo como narrativa divina, paradoxal aos mandamentos pregados por esses mesmos “históricos” deuses-caçulas arianos-homicidas, racistas e misóginos.

Dessa forma, os livros didáticos inauguram a interrupção da história da humanidade iniciando a pseudo-história greco-romana, plagiando despudoradamente as civilizações melanodérmicas, que foram relegadas ao exotismo, ao folclore e jogadas no campo do não-científico da vala do senso comum.

Dessa maneira, a civilização que desenvolveu a Matemática, Filosofia, Medicina, Astronomia, a Lógica, a Geometria, a Métrica... Enfim, as Ciências; além de civilizar os gregos, romanos e troianos; após essa dominação pela força bruta, deu-se início a era da razão eurocêntrica, que se define hoje pelo patriarcalismo, pela competição e seus extremos.

É desse modo que assimilação, perversamente introjetada pela Educação através dos livros didáticos, pelos meios de Comunicação e Informação e pelos livros sagrados das Religiões, fez com que fossemos guiados por nosso inconsciente; inconsciente este que se mostra absoluta e completamente colonizado. O resultado disso é que nem sabemos que não sabemos o que não sabemos e o que deixamos de saber sobre os fatos, das causas e dos motivos que nos levaram a ser guiados unicamente pela razão padrão eurocentrada e por como por vezes incontáveis defendermos radicalmente o discurso que sustenta tal razão.

Para desaprender esse nefasto aprendizado que nos ensinou destilar o ódio seletivo e o egocentrismo como modus vivendi, será preciso exercitar diuturnamente a nossa completa deseducação, para que possamos nos esvaziar dos conceitos enviesados e dos preconceitos estigmatizantes e finalmente será possível nos Desdogmatizar através da predisposição de nos redescobrir e definitivamente descobrir o Brasil. Esse é o 13º trabalho do Hércules da cor de uma noite sem Lua, que honra seus Rastas através da alteridade espargidas por seus Dreads Loaks desde o nascer ao pôr do Sol de todas as nossas auroras, solstícios e equinócios. Enfim, o predador e a presa se tornarão humanos.



Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo dessa Negra- Filha original da Mãe-África, neta de uma noite sem luar. Cam está revivido! Está confirmada está alma que sempre foi, será e o é. - Por Rael Rasta




[1] Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas, autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse na fuga de escravos.


domingo, 8 de abril de 2018

O Dicionário Da Morte


O idioma transforma ideias em atos através da palavra que leva a ação, e é dessa forma que a razão foi alçada a um patamar inaugurado pelo mecanismo da hierarquia vertical. Processo este que possibilitou a divisão racial do ser humano, além de estabelecer às classes sociais que eclipsam invisibilizando a questão racial, impedindo possíveis soluções desse crime que tem sua legalidade estabelecida pelas Ciências Sociais e pelo vocabulário jurídico.

Desse modo, a banalidade do mal[1] se faz presente através da fala que encontra seu eco na razão estabelecida por esta hierarquia vertical produzida pela indústria que sustenta e patrocina o capitalismo cognitivo, destinado àqueles que se encontram na condição servil quando nos referimos a questão de classe social, e os racialmente escravizados que se encontrando na condição de párias, nesta sociedade que se divide em mundos opostos, e ambos os mundos são dominados por este seleto grupo de Necrófagos europoides.

Esse grupo maquiavelicamente faz uso do estado e da religião para manter a Ordem e o Progresso de seus ideais antropofágicos legitimados pela falsa civilidade digna de um Mordomo da Casa branca[2], usando o livro sacralizado por divindades por eles repaginadas e as ciências por eles estabelecidas como bula, a fim de dominar uma Maioria que foi classificada como minoria e transformada numa massa negra. Desse modo, usando, de forma misógina, a palavra homem para ser referir ao Ser chamado de humano, determinado por uma filosofia que, sendo feminina, só contempla o gênero masculino como senhores de uma verdade padronizada como saber universal.

Dessa maneira, criando o patriarcalismo e o matriarcado, olvidando o sistema matrilinear dos povos melanodérmicos; povos estes que foram classificados como escravos em seus livros didáticos, a fim de ocultar o crime histórico da infame escravização desses mesmos povos; além de transformarem as Comunidades dos povos autóctones, em Tribos, enquanto esses mesmos indígenas eram rotulados como índios para confrontar uma falsa ideia de civilidade de um, e uma suposta selvageria do outro.

Enfim, inventaram o outro, colocando a competição no lugar da competitividade, estabelecendo assim, um processo seletivo de ódios para que as classes sociais ficassem ocupadas, com seu foco catártico direcionado aos racializados eleitos como sendo o outro. Ou seja, este outro passou a ser aquele que representa, colore e anima os meios de comunicação que o coloca como o inimigo a ser combatido. Esta campanha racial sistemática, é dominada e administrada por este sistema eugênico e gentrificante que transforma pessoas em objetos, a partir do momento que as desumaniza e as transformam em dígitos, com tarja de validade, e com o direito de vida e de morte ditado e editado pelo Estado, que representa essa elite formada por europoides necrófagos que se alimentam do medo e da morte melanodérmica.

O discurso narrativo racial corrente, recorrente e sacralizado que perpassa a história reeditada através da religião e da política, e assimilada pela cultura de massa, foi formatado por essas palavras que estruturam o desejo de morte àqueles que foram transformados no outro; criando assim, um inimigo imaginário a ser combatido e vencido impreterivelmente.

Destarte, foi criado um vocabulário paralelo para ser usado contra aquele que se encontra do mesmo lado nesse campo de batalha e que tem a percepção do contexto dessa anomalia necrofágica brancopófaga; é a ideia do fogo amigo estabelecida como um conceito no processo de eliminação da contra-narrativa em sua senda inevitável de equidade.

Com o fogo disparado por esse vocabulário matamos o espírito com os discursos formatados, e depois da alma negra supliciada, esse corpo negro é esquartejado publicamente, enquanto suas partes se transformam em atração principal desse Espetáculo das Raças iluminado por holofotes e flashes em diferentes ângulos e sensuais posições, num indecente movimento porno erótico grafados pelos editorias que propõe o debate pseudo intelectual sobre classe em detrimento da raça.

Dessa forma, a morte trazida na fala é saboreada pela língua enquanto é engolida, degustada e deglutida pela boca, enfeitando o olhar público que assiste pela TV os zumbis dançando sobre as lápides sociais que colorem os corredores dos Shopping Center da zona Sul a Zona norte, nos comerciais e propagandas do consumo capital, formatando o cemitério social que comemoram o holocausto do povo negro no calendário das santas datas festivas. É dessa forma que os locutores, artistas  e atrizes constroem emoções que controlam a pessoa emocionada, enquanto historiadores, mestres e doutores são os engenheiros da razão que molda o olhar que fala a morte enunciada nos editorias, livros didáticos e comerciais fazendo a morte lhes cair bem.

E assim, a história grafada pelas bibliotecas europoides, escrita com muito sangue, suor e sofrimento infindos, são expostos diuturnamente nos editorias dos jornais matinais tupiniquins em cada palavra e sentença anunciada por este lacrimoso dicionário de morte enunciada.



[1] Hannah Arendt
[2] Referência ao filme com o mesmo nome.