Se sair a rua à noite só a morte encontra lá; nessa Terra tem
palmeiras onde um negro chorará...
Minha terra tem impostores qu’em Siriús n’entrará, se eu
sair à rua à noite mais cadáver encontra lá; nessa Terra tem palmeiras onde um
negro chorará...
Me permita Deus a morte, pra que eu não volte para lá; pra qu’eu
não veja esses horrores quand'Iemanjá me abraçar; pra qu’inda só aviste as
palmeiras sem um corpo (negro) pra velar.”
Pois é... Essa é minha terra; Terra que tem o ouro de Mallboro na
zona norte tem a via da morte e a zona sul, não é só mar azul. A zona oeste
inconteste; sempre um grande faroeste.
Na Linha Amarela o Comando é Vermelho, e na Linha Vermelha, tem
os amigos dos amigos. Enquanto a Linha verde é desmatada todas as
noites em que as luzes da favela se confundem com as estrelas no negrume
noturno do eclipse lunar e o piscar do giroflex do comando
azul que sobe o morro para preto assassinar.
São os reflexos das Balas encravadas nos muros e paredes de
barracos que produzem os diamantes cravejados nos anéis das madames e dos
brancos burgueses.
Rio sem brio, sem teto e com frio. Padre cacófato em cenas insanas
de cismas sinistros. Rio, de braços abertos na blitz bandida civil e militar.
Rio jagunço, que desarma o homem comum armando o burguês sem medo da punidade;
“penas, Pra que te quero!!!???..."
Rio, braços abertos para o amigo-urso. Rio branco, não da paz, mas
da raça racista. Rio, vermelho de raiva e do fogo dos canos dos revólveres; do
sangue que corre nas vicinais e principais.
Rio, negro, escravo de si mesmo. Morro palestino, asfalto TELa
VIVa; invasão ou ocupação!!!??? Preocupação com a ação da cidadania
virtual. Vivo Rio, morte carioca!! Viver sem vida, sem teto e com
brio é sina na cena do carioca sem gema, mas... Às claras. Pão...!!?? Nem com
açúcar... É pavê só na TV a mesa com fartura de espaço vazio;
vazio de vida, de respeito e dignidade.
Mas todos sorriem, pois estão sendo filmados pelo “grande irmão”;
por isso mostram seu sorriso vazio, contrastando com sua negra pele e
saltitantes olheiras, neste Rio sem rima nem ritmo, mas com muita bossa
burguesa e mulata à milanesa. Tá servido!!??
Rio que morre de raiva, a míngua enquanto a mata atlântica dança
atropelada na Avenida “Brazil” por caminhões de empreiteiros contratados a peso
de ouro pelo prefeito que constrói sua casa de campo na calada da noite, sobre
o cedro, casa do mico-leão-dourado.
Nossa casa é o chão de estrelas, chão ocupado pela cannabis
sativa, ativa e nativa que desarma o espírito e engatilha a doze na cara do
cara careta. Rio 40 graus, bonito, charmoso, bombado e suado, desfilando
pelo calçadão, subindo as escadarias do Christ e descendo a lapa de bondinho
até o teleférico do Sugar Loaf; e cheio de graça e beleza vai gingando pela
Avenida Atlântica, sobre olhares ávidos de espectadores dos big Brothers.
Viva... Rio! Não morra... Ainda!! Nem me mate! Pois Sou oriundo de
Angola, uma favela perto da faixa de Gaza, bem longe de Xerém, onde o som dos
tambores, cavaquinho, gonguês e agogôs se misturam com o som dos projeteis das
PTs, em contraponto aos cantos banto do samba de mesa.
Sou um mulato-pardo-bem-pretinho-quase-negro; enfim, um
empretecido, armado de violão pendurado nas costas, cavaquinho nas mãos e da
palavra cantada na garganta que viaja entre os fartos lábios; espaço geográfico
da antiga cantiga do capão; acompanhado de atabaque, pandeiro e berimbau.
Desvio-me do capitão-do-mato; aquele homem classificado pelo editorial do
jornal nacional como“embaixador da paz” sem voz; desse jeito, caminho, lutando em
busca da igualdade de ser gente, mesmo sendo de cor diferente.
As linhas que delimitam mapas, separando países e mundo, uso para
montar meu instrumento e cantar idiomas arcanos e profanos dos arcanjos
africanos, no Rio ou em Belém, em Casa Blanca ou em Dresden.
Quanto a mim, crioulo de cara preta, sigo a palo seco pela aridez
desse lotado deserto urbano; este meio-ambiente morto e enterrado pelo
etnocentrismo antropofágico desumano dos que se consideram seres humanos.
Não preciso estar no mundo da lua para perceber que a terra azul
se transformou num mar vermelho, sem trilha, sem rumo, nem retorno para escapar
do abismo interior.
Nem as lágrimas dos arrependimentos misturadas às lágrimas dos
crocodilos conseguem fazer cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de
viver fora desse jardim de fosseis urbanos.
Nesse Oásis de pensamentos jurássicos, extinguiu toda a sana da
chama terna da vida coletiva da pequenez da cidade grande. Agora a aridez das
emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados de Cupido ariano, fazendo
os yuppies saírem das cavernas pútridas da modernidade virtual para a crueldade
do mundo real, desmascarados e completamente nus.
“Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou
levar...” E assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de
mão dupla transversal.
Hiroshima é aqui, Nagasaki é ali, quanto ao Haiti... Não sei,
morri... Sentindo o baque d’uma bala perdida na geografia de minhas costas, enquanto olhava um carro
alegórico atravessando a Sapucaí!!! Eu me acabava e a
guerra começava... booommm!!!
Descobri tarde demais que, as antenas das Tvs irradiam pensamentos
que são captados pelo bom cidadão, transmitidos em
forma de risos de plásticos e diversão, eram antenas protegidas pelo mesmo divino
redentor de pedra que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas
perfilados, em ordem unida, a espera de uma chance de igualdade desigual.
O cristo de pedra com coração de lava incandescente, de costas para a periferia, e de frente para os
indecentes, que escraviza nossas vontades com seu nome, sempre observara,
impassível, a crueza e o desvalor da vida vendida e iluminada por sua negra
sombra de redentor.
Através das ditas antenas, podem-se ouvir o soar dos sinos e o
rufar dos tambores anunciando a aproximação de novos tumbeiros que continuamente adentram a
Baía de todos os santos da Guanabara.
Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de
Fevereiro, revelando sob as águas de Março, os submersos túmulos dos
amores-próprios. Assim se revela a favela da cor da tia Ciata, que
arrebata Onze Praças morro acima, e depois de gentrificada, é
derrubada de seu Castelo morro abaixo.
Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado, e
maltratado pela estupidez racional do animal que reside na inconsciência da
besta humana.
O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias,
medindo de mãos abertas, a bofetada pesada explodida na face crioula
escancarada, desdentada e escachada; aparecendo na foto do cartão postal, o
natal tropical numa pose fetal, ilustrando a campanha a favor do
preto aborto social.
Assim, a liberdade negra é condenada à prisão preventiva sem
perdão presidencial, enquanto a felicidade preta é apreendida no corredor da
morte; ambas, a liberdade e a felicidade, agonizam na fila de espera aguardando
a esperança ariana vestida de branco, enfrentar o anjo negro da morte, a fim de
transformar noites de pranto em dias de santo...
Tudo isso aconteceu num 21 de março, o dia de todos os dias em que
fui parido do ventre de um navio negreiro, sobre uma fria e úmida tumba chamada
Atlântico, tendo a imensidão do vazio e o gélido vento, além dos afiados dentes
dos tubarões brancos como testemunhas, sob o reconfortar dos céus que cobria o
frio de minha profunda solidão.
O compasso do batuque das águas nas paredes sólidas do tumbeiro,
foi o ritmo que acompanhou meu ritual de chegada ao mundo novo. Aportei, Sem
família, sem irmão e sem amor; só com a carícia do toque gélido do horror de um
interminável suplício de um recomeço num deserto repleto de infinito vazio: Foi
à viagem mais longa do mundo.
Despido de tudo, principalmente de minha dignidade, só restou o
barulho do compasso no balanço das ondas que batia no casco do escuro porão do
navio negreiro: útero branco do novo mundo.
Como qualquer recém-nascido: o choro. Minhas lágrimas de corpo
presente em meu próprio funeral, que salgaram os oceanos do mundo.
Depois, pude perceber que eram lágrimas de milhões de milhares de
olhos negros, ajuntados e misturados no branco útero do umbigo da madrasta de
olhos azuis do novo mundo novo, em seu processo pavoroso do forçado aborto na
contramão da vida rendida.
Desde então, após me numerarem, me marcando como gado, me deram um
novo nome, uma nova religião explícito num rótulo ardente na pele da testa e do
peito.
Deslocaram-me numerosas vezes, de zoológicos para vitrines, de
vitrines para zoológicos e vice-versa, antes de chegar ao meu túmulo final em
meio ao canavial; fotografaram-me; me classificaram e me deram um número de
identificação. Enfim, fui devidamente catalogado como parte da fauna do novo
mundo; reprogramaram-me e me enquadraram; cultivaram-me para produzir e
reproduzir rendimentos e frutos aos proprietários de minha alma; agora donos da
minha força ativa que fora devidamente sequestrada, legalizada e legitimada.
Desde então, foi instituído um dia de comemoração, para que esse
episódio servisse de representação e referência da minha história como objeto
que anda e que fala, para que não esquecêssemos jamais o que nos tornaram e o
que nos tornamos; desse modo, começamos a comemorar essa princesa branca,
mantendo viva a memória de nossa morte, a dívida da vida a qual o ventre do
navio negreiro nos legou.
Como cristãos novos agradecemos essa nova vida nascida morta no
compasso da queda d'água de nossos negros olhos que salgaram os oceanos do
mundo, transformando as profundezas abissais numa imensa cova coletiva, na
medida em que se instituíam privilégios, que alimentava a arrogância e a
indolência da violência e do suplício fortuito, fazendo da morte, da tortura e
da humilhação, a base do infame mercado legalizado gerador de regalias, de
frugalidades e de frivolidades da supremacia branca estabelecida; em suma; o
ganha-pão honesto que conferia status e poder ao homem
de bens.
Foi com essa reflexão que hoje cedo mergulhei nas águas do mar que
banham os limites da cidade em que habito, após olhar indefinidamente para o
infinito, no azimute, procurando enxergar ao longe algum sinal das cercanias do
meu quintal ancestral.
As lágrimas retornaram aos olhos, marejando as vistas cansadas de
vida e das citadas comemorações. Então me banhei na água do mesmo sal que
corroeu os ossos das peles negras de meus irmãos; sal que agora temperavam o
banquete comemorativo de vida e morte no gourmet promovido pelo infame mercado
da carne preta nesse eterno Black Friday; foi quando lembrei que esse único dia
do ano, nos foi generosamente concedido e reservado
internacionalmente, para brindar a eliminação do racismo no novo mundo...
Nesse momento, me dei conta de que estávamos no mundo novo e que
meu antigo mundo havia se perdido na via crucies do trajeto transatlântico da
branca pirataria legalizada. Desse modo; enquanto mergulhava; os tubarões
brancos do oceano do mundo me mostravam seus ameaçadores dentes afiados.
Retornei célere, sem conseguir vislumbrar um tico do
meu antigo quintal, enquanto os tubarões brancos terrestres calorosamente me
recepcionaram com um amplo sorriso de crocodilo. Imediatamente entendi os
motivos dos dias de comemorações contra essa tal da discriminação.
Olhei saudosamente de soslaio para o além-mar, retornando de
imediato o olhar para aquele caloroso sorriso; sem nada dizer, apenas pensei: -
Branquinho é FODA...!! Ele comemora o dia da eliminação da discriminação racial
ou eliminação da raça...!? Me perguntei enquanto caminhava naquela
vasta faixa de areia em direção ao pelourinho de cada dia que nos dói hoje.
Naquele momento, aquela questão era só um mero detalhe de uma questão a ser
definida e decidida entre os tubarões brancos ocidentais...
Hoje, que morri matando o branco homicida que habitava em
minha mente ensandecida, tenho a certeza de que o cinismo hipócrita da
arrogante branquitude, que é exposto diuturnamente nas ações genocidas do
Estado, já está em plena sucumbência, e suas promissórias vencidas devem ser
resgatadas; agora que adquiri a consciência de que sou porque somos,
derreto as grades desse cativeiro no estrangeiro dessa minha terra
estranha...
Minha Terra tem palmeiras, onde eu canto ao Orixá...Requiem
aeternam dona eis, Domine