Com minha bandeira a vista, tremulando ao vento; os ossos amarelados expostos ao tempo e meu esqueleto coberto por um longo e esfarrapado casaco negro de capuz costurado com muito lamento, vou carregando meu livro escrito com vidas passadas, futuras e presente, pelas almas que passaram, as que passam e as que ainda por mim passarão. Altivo, divisando o azimute cinza do grande calunga, chego ao mundo novo, caminhando entre os viventes e suas sacanas cenas insanas. Abro meu livro dos espíritos eternos em dado momento, para registrar os rastros ensandecidos da vil branquidade, em versos e rimas, ditados pelos provérbios do verbo ancestral.
Aqui, na Terra de são Sebastião, no ano de Nosso Senhor de Todos os lugares e Tempos, reza no rastro da arrogante indolência ariana, a presença de um pseudo livro, conhecido entre os viventes como Código Penal; cujos princípios, determinam que o ser denominado branco, meliante por natureza, escondido atrás da caneta de ouro da lei; caneta esta que faz jorrar sangue através da tortura, da humilhação e do genocídio; nunca será passível de quaisquer penalidades, desconfianças ou suspeição, tornando-se incólume, inimputável e imune aos mandos da justiça desta Terra Santa; visto estes mesmos meliantes se outorgarem maquiavelicamente o direito de estarem acima da lei, protegendo desse modo, a eles mesmos.
O mesmo famigerado Código Penal, recomenda e determina, com requintes humilhantes e inclementes de crueldades, as devidas punições aqueles, cujas mãos negras, da cor de noite, ousarem se apropriar do chicote ou fazer uso de quaisquer armas, a fim de se protegerem ou de fomentar quaisquer disposições e/ou cogitações em ter de volta, parte das riquezas que seus antepassados pretos criaram, construíram e ajuntaram para o bem estar da sociedade.
Dessa maneira, o preto previamente condenado e em permanente exílio, se recolhe voluntariamente a seus extensos e apequenados campos de concentração, popularmente conhecidos como FAVELAS; após domesticados pela escola, pela igreja e pela mídia a fim de criarem tolerância as opressões e humilhações constantes a que são expostos diuturnamente, naturalizando a sua condição submissa e subalterna, estigmatizando-o no seu lugar de escravizado eterno.
Os abridores de aguardentes não lhes abrem uma nova manhã nem os alimentos-lixo aos quais ironicamente são chamados de churrascos, lhes saciam a fome de libertação nem lhes abrem o apetite por liberdade; e assim, seus sonhos se suicidam, embriagando-se de mim. A fala que dá forma ao passado não os presenteia com a escuta, e nem a minha fala tem rascunhos; portanto, meu abridor de borboletas deixa livre todas as manhãs, nos finais de cada dia que recomeça.
Neste momento, cruzando oceanos, a bandeira negra está içada de desejos e sonhos, não daquele mórbido desejo de morte do branco para com o preto, que está inserido no código Penal que prega a paz branca só para brancos, produzindo e reproduzindo dessa maneira, sacanas cenas insanas de cismas e dogmas que desumanizam coisificando o Negro Ser; mas falo do sonho que se torna pesadelo; o pesado pesadelo dos privilegiados pelo sangue melanodérmico vertido nos escuros porões do infame capital, até a caneta vermelha que pinta a cor da pele negra de indizíveis dores, diante dos tribunais raciais contemporâneo, nesse cruel processo da inquisição do preto ser enquanto humano.
Navegar é preciso...

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