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terça-feira, 19 de abril de 2016

Era uma vez, um homem invisível acorrentado ao nada, com uma bola de ferro inexistente em sua extremidade...

Acredito que ficou marcado na memória de muita gente, aquele momento emocionante dos filmes policiais norte-americanos, em que o policial mocinho, o tira “robôtcop” fazia testes de tiros em silhuetas que simulavam pessoas, e em meio a perigosos meliantes, apareciam as figuras de velhinhas e criancinhas inocentes brincando com seus lindos e fofos cachorrinhos, e o feroz Robôtcop detinha o ímpeto de seu dedo nervoso no super gatilho calibrado somente para os acertados marginais seletivos. Era pura adrenalina aquele momento de emoção em que a gente torcia, sofrendo para que o mocinho gringo acertasse o alvo exato.

Pois é, lembro-me disso sempre quando leio as manchetes jornalísticas e ouço os noticiários dos programas sensacionalistas referentes às emocionantes aventuras de nossos fardados vermes. Digo, valentes policiais assassinos. Já que essa carga romantizada dos filmes gringos é bombasticamente transferida, a todo o momento, ininterruptamente, para o imaginário popular, fazendo parte de nosso inconsciente coletivo, na medida em que dissemina o senso comum fazendo acreditar que realmente exista um policial que haja desta maneira acertada.

Mesmo que aqui em nossa Belíndia[1], nosso Brasil brazilleiro, os assassinos fardados, falo dos capitães-do-mato contemporâneos, nunca são incomodados por apresentarem explicitamente suas mórbidas habilidades de abate humano, sem precisarem recorrer a treinamentos com silhuetas, já que isso é feito in locun, com alvos pretos vivos e em movimento, com o atenuante do Estado poder realocar as verbas que seriam gastas na confecção de silhuetas, para a cultura de massa, por exemplo. Fato que lhes rendem prêmios e brilhantes medalhas bonitinhas e coloridas.

Portanto, o tombamento de corpos de cútis preta nas esquinas das senzalas, palafitas e mocambos, tornou-se algo natural e culturalmente aceito pela sociedade e oficialmente estimulado pela elite através do expediente jurídico-político gerido pelo Estado.

Na Argentina, por exemplo, a presença do negro é uma presença física e politicamente invisível, já que os negros de outrora serviram como alvo a população branca, a elite e a sociedade hipócrita de plantão. A argentina se gentlificou, assim como o Brazil, que através da campanha do genocídio do povo Negro, está se brancoseando.

Da mesma maneira em que apagaram a história da cultura negra e impuseram um gringo saber universal e o rock passou a ser norte-ameribranco, o fado passou a ser português e o tango passou a ser argentino; sem mencionar que André Rebouças, Machado de Assis, Cleópatra, a rainha de Sabá, Mozart, Alexandre Duma e até Jesus Cristo não foram poupados da sanha do ensandecido embranquecimento, nossos próprios afrodescendentes contemporâneos, como Michael Jackson e afins, estão desejosos do branquejamento como forma de sobrevivência digna nessa democracia plutocrática e diatópica.

Portanto, a violência em nosso país politicamente correto e neo-feudal, merece uma análise minuciosa, já que as técnicas de genocídio se dão por todos os possíveis meios físicos, psicológicos, filosóficos e mentais. Nesse país composto de nacionalidades e não de Estados nacionais, já que somente uma nacionalidade detém o poder; no caso, aquela que oprime as outras nacionalidades, a saber: Indígena e a Negra. Nesse caso, constatamos a brutal inversão de valores onde a maioria é transformada em minoria através da violência extrema, da coerção e da coação.

Essa imensa maioria, classificada como minoria, foi e está sendo desterritorializada, humilhada e submetida a um entre-lugar; tendo a memória de sua história apagada, sua mente colonizada e adestrada através da cultura do medo, enquanto o país se transforma numa mega empresa com trabalhadores escravizados, geradores de riquezas para os parasitas que gerem o país através do Estado.

Os Estados do Brazil se transformaram em campos de concentração. Ou seja, hoje são setores dessa grande empresa aonde a promoção do empregado-escravo-de-ganho obedecem a rigorosos critérios de subalternidade, além da fidelidade incondicional ao Grande Irmão[2].

Portanto, quem se candidata a vagas ou quiçá cogitar em pleitear a quaisquer promoções de qualquer natureza, deve ter sua mente devidamente colonizada, e a aceitação explícita de seu lugar como segundo sempre, assimilando e olhando o mundo através do olhar do branco enquanto coisifica seus pares. Além de assumir a função terceirizada do exercício da violência extrema, recomendada pela elite pagadora de dignidades, aos alvos pré-estabelecidos e estigmatizados como tal.

Dessa maneira, acreditando que não somos detentores de poder, nem do poder, transferimos essa função aos gringos de plantão; e assim, desacreditando de nós mesmos, deixamos de saber quem somos, de onde viemos e sem nem ao menos saber que não sabemos. Desse modo, passivamente, aguardamos a ordem para o nosso progresso até a página dois da história contada pelo caçador.

Com nossa força ativa sequestrada, nossa força de vontade domesticada e acorrentados a ideologia hegemônica, seguimos os enunciados e representações como cordeirinhos rumo a degola, como alvo certo de qualquer brancoso incerto. Já que a pele negra é uma bandeira ambulante que denuncia os crimes do branco contra a humanidade; somos uma bandeira pirata nesse mar de indolência infame. Portanto, a presença do negro, por si só, já é uma afronta, uma ousadia desmedida. Afinal, os juízes são brancos, a justiça é branca e as leis são brancas; a nenhum negro é dado à liberdade de apontar ou acusar quaisquer brancosos que sejam; A um negro cabe somente a liberdade de contemplar a vida de uma cela.

Sendo o negro protagonista em todas as áreas, e em todos os movimentos na construção da história do Brasil, e sendo o branco o contador dessa história, fomos obviamente desapropriados de nossos feitos e promovidos à vilania, enquanto transformados em correntes que se embrulham numa auto-prisão. Desse modo, o próprio povo negro, negando-se, impede sua própria mobilidade rumo à liberdade, enquanto discursam palavras proferidas por Linchy [3]num estado de Estocolmo[4]...


[1] No Brazil temos bolsões de riqueza como existe na Bélgica  um mar de pobreza como existe na Índia; por isso a junção dos nomes.
[2] Referência ao livro “1984” de George Orwell.
[3] Referência ao proprietário de escravos Willian Linchy
[4] Referência a Síndrome de Estocolmo.

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