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sexta-feira, 1 de abril de 2016

Em terra de branco, quem é preto, é Rei...


No terreno, aonde a escola em que trabalho foi erigida, uma comunidade de 830 autóctones foi trucidado por bandeirantes portugueses; bandeirantes esses, descritos nos livros didáticos, como heróis nacional. Nesse mesmo local foi fixada, em senzalas, quase a mesma quantidade de africanos sequestrados e separados de suas famílias; filhos, filhas, esposas, pai e mãe. 

Cada indivíduo trazido e marcado a ferro e fogo, etiquetado com um número específico, foi batizado por religiosos europeus com nomes de santos brancos e sobrenome de mercadores de carne preta. Desde então, esses africanos aprisionados, começaram a produzir riquezas para seus algozes, que obviamente, não tinham a sua cor. Desse modo, uma cor passou a ser sinônimo de poder e a outra de submissão.

Foi quando os missionários religiosos europeus se outorgaram a divina missão de domesticar e educar os submissos, dentro dos ditames da autoridade constituída pela cor correta, a cor dominante, a cor opressora. Para isso, o solo da escola em que trabalho foi irrigado com muito sangue negro, e o ar que respiramos impregnado e plasmado com muitos gritos de desespero, de dor e de ódio; Além dos longos gemidos silenciosos e copiosos choros de intensos sofrimentos. 

Os donos desse atual estabelecimento, de sobrenome europeu, conhecidos como pessoas de bem[1], altruístas e solidários, eurodescendentes de mercadores de carne negra, são regiamente compensados e constantemente homenageados por sua generosidade quase divina, por construírem esse espaço de educação no município onde existe o maior número de negros da América latina; São Gonçalo do Amarante; nome de santo branco, já que a fabricação de santos Negros nunca foi uma demanda em quaisquer ocasiões.

Dessa maneira, os negros de hoje são educados dentro do saber universal instituído pelo eurodescendente, onde o currículo mínimo e máximo, oculto e formal, fazem a manutenção da hierarquia em todos os sentidos; mantendo a autonomia como bicho estranho e incomum em meio ao corpo docente e discente.

Desse modo, nossos heróis, os que não morreram de overdose[1], se tornaram brancos; nossas princesas são brancas, nossos juízes são brancos, nossas leis são brancas, nossos médicos são brancos, engenheiros, arquitetos, repórteres, livros, revistas, TVs e tudo mais; até nossos valores são brancos. E é claro, a educação também não poderia deixar de ser, já que o embranquecimento é a principal especialidade do sistema...

Agora que apagaram a nossa história, nossa cultura e nossos livros, e nos deram uma nova história, uma nova cultura e escreveram novos livros; conseguiram fazer, sem o uso do chicote de forma explícita; uma nova era de escravização. Colonizaram as nossas mentes de forma tão eficaz, que a síndrome de Estocolmo passou a ser uma doença comum e inerente às pessoas de cor, fazendo com que muitos negros defendam aguerridamente as opiniões e posturas eurodescendentes como opinião própria, depondo contra si, e contra toda uma comunidade, contra uma nação; e mais ainda, contra todo um povo. Esse é o atual cenário do sistema nacional de educação, desde que foi implantado pelos jesuítas, com a chegada dos opressores da humanidade.

O choque que se dá entre mim e os alunos, para que se tornem estudantes autônomos, às vezes é extremamente traumático, e às vezes, imensamente memorável; se tornando um processo fenomenológico incrivelmente incontestável. Trazer a percepção e o reconhecimento de que nosso país se transformou numa imensa empresa, onde além de empregados somos aqueles que produzem a riqueza e entrega nas mãos dos gestores caras-pálidas, que só nos dão como prêmio, os espelhinhos que mostra as imagens dessa riqueza, como se essa riqueza nos pertencessem ou algum dia pudessem nos pertencer efetivamente.

Nessa empresa em que o Brazil se transformou, com amplas e confortáveis lojas de departamentos e variadíssimas opções de consumo, nos transformaram nas próprias mercadorias ostentadas, classificadas e etiquetadas, fazendo parte de uma planilha de lucros, com margem de perdas e de danos, além de estoques de reposição. Nesse grande mercado em que somos expostos, olhamos um para o outro, nos vendo e desconfiando de que somos mercadorias, com códigos de barras e validade, sem, no entanto, perceber tal codificação em nós mesmos, em nossas testas, nossa pele, em nosso ser. Só temos olhos para o reflexo dos mágicos espelhinhos que nos enfeitiçam, e para as brilhantes miçangas que enfeitam nossa fantasia de bobo da corte.

O bombardeio de propagandas de ofertas e promoção nessa eterna temporada permanente de Black Friday nos cega e nos acomodam agradavelmente em nossa zona de conforto, nos fixando e imobilizando nas prateleiras desse infame mercado branco. Quando criança, eu era aquele cara que entrava no mercado para roubar o biscoito que me saciaria a fome e me permitiria sobreviver mais um dia nessa grande empresa chamada Brazil. Agora, como escravo-empregado, sou o cara que faz apologia a greve exigindo dignidade, instigando o corporativismo, cooperativismo e a partilha compartilhada de vidas, nesse caminho em direção a uma comunidade de produção solidária. Portanto, não sou e nunca fui funcionário padrão... Nunca recebi prêmios por bom comportamento ou desempenho de função, nem sou cumpridor das missões dadas. Sou e sempre serei um escravo rebelde, um agitador subversivo e transgressor...

Hoje, 96% da riqueza produzida se encontra nas mãos dessa gestão desumanizadora de pessoas preta-pobre, quase-preta e quase-branca. As contas não batem, a lógica matemática e filosófica foram maldosamente invertidas e as línguas nacionais, que chegam a 320 idiomas, subvertidas e individualizadas, se hierarquizaram monopolizando-se em torno do poder do idioma do opressor.

Falar a mesma língua, e seguir uma mínima lógica, fora do padrão monocultural, tornou-se a principal batalha do lado negro da força, em meio a esse campo de guerra em que se tornou o terreno delimitado pela escola em que leciono. Minha batalha contra TVs, livros didáticos e jurisprudências, se tornou algo inusitado, surpreendente e excitante. Muito mais emocionante que qualquer aventura de 007; os perigos enfrentados pelos Cem de Esparta não chegam perto dos obstáculos sinistramente colocados através do gólgota dessa viagem ao mundo da Dama das Camélias, que tem em seu subsolo, a exemplo do esgoto londrino, a escatologia do florido e prurido mundo de Alice; esse inferno disfarçado de musa, a teia da viúva branca.


O chão de minha escola é chão de Dandara e de Zumbi, antes matrilíneo chão de Acotirene. Respeito; é a palavra ancestral para aqueles que construíram essa nação, essa antiga nova escola e esse caminho que, de uma maneira ou de outra, haveremos de trilhar, para chegar ao reino de Wakanda[2] fechando as portas dessa infame empresa onde o sangue virou moeda que compra privilégios, enquanto o bem mais precioso, a vida, transformou-se em cédula sem valor...

Sociedade brasileira: um complexo de muros, apinhado de escolas, cercada por celas e mercados; O Centro de excelência onde aonde professores, mercadores e animadores de festas fúnebres fazem desse labirinto a caminho do cadafalso, um divertido palco de maldosos jogos, entretenimentos e atrações inquisitórias. Nessa eterna festa de Baco, onde sinistros abutres de toga e virginais  princesas bailam adornando as cândidas páginas dos livros didáticos, encenando a valsa das debutantes ante um iminente e indecente final sepulcral, enquanto os discentes abrindo finalmente os portões da escola, vejam enfim, o mar de sangue e lama, e o tamanho da insanidade que tomou conta da humanidade esquecida de si mesma quando atraída pelo fogo-fátuo da superficial beleza desprovida de grandeza; da grandeza do caráter em ser gente, enquanto outros terrenos eram terraplanados com sangue indígena, e outras escolas construídas com os negros tijolos plasmados com dores e ódios foram erigidas. Agora só nos resta reconstruir nossa escola-quilombo, sobre a base das regras do riso preto e dos abraços negros, circulando esse negro quadro branco, transformando-o no reino de Ubuntu...


[1] O FBI e a CIA introduziram as drogas no gueto norte=americano com o intuito de minar o movimento dos Panteras Negras após criminalizarem o uso de drogas, tornando-as desse modo ilícitas, tendo finalmente um motivo para deter e aprisionar qualquer negro que portasse tais substâncias; hoje os brancos encontrados com a mesma são liberados, pois o estado os classificam como usuários enquanto os negros são, com a mesma quantidade registrada, taxados de traficantes. Essa é uma maneira de se mater a escravização e a servilidade do povo negro que ousa se portar como branco; já que o direito de um não deve se confundir com o privilégio do outro.
[2] Nome do fictício reino africano, onde o Rei é o herói da história em quadrinhos, chamado de Pantera Negra.

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