No
terreno, aonde a escola em que trabalho foi erigida, uma comunidade de 830
autóctones foi trucidado por bandeirantes portugueses; bandeirantes esses,
descritos nos livros didáticos, como heróis nacional. Nesse mesmo local foi
fixada, em senzalas, quase a mesma quantidade de africanos sequestrados e
separados de suas famílias; filhos, filhas, esposas, pai e mãe.
Cada
indivíduo trazido e marcado a ferro e fogo, etiquetado com um número
específico, foi batizado por religiosos europeus com nomes de santos brancos e
sobrenome de mercadores de carne preta. Desde então, esses africanos
aprisionados, começaram a produzir riquezas para seus algozes, que obviamente,
não tinham a sua cor. Desse modo, uma cor passou a ser sinônimo de poder e a
outra de submissão.
Foi
quando os missionários religiosos europeus se outorgaram a divina missão de
domesticar e educar os submissos, dentro dos ditames da autoridade constituída
pela cor correta, a cor dominante, a
cor opressora. Para isso, o solo da escola em que trabalho foi irrigado com
muito sangue negro, e o ar que respiramos impregnado e plasmado com muitos
gritos de desespero, de dor e de ódio; Além dos longos gemidos silenciosos e
copiosos choros de intensos sofrimentos.
Os
donos desse atual estabelecimento, de sobrenome europeu, conhecidos como pessoas
de bem[1],
altruístas e solidários, eurodescendentes de mercadores de carne negra, são
regiamente compensados e constantemente homenageados por sua generosidade quase
divina, por construírem esse espaço de educação no município onde existe o
maior número de negros da América latina; São Gonçalo do Amarante; nome de
santo branco, já que a fabricação de santos Negros nunca foi uma demanda em
quaisquer ocasiões.
Dessa
maneira, os negros de hoje são educados dentro do saber universal instituído
pelo eurodescendente, onde o currículo mínimo e máximo, oculto e formal, fazem
a manutenção da hierarquia em todos os sentidos; mantendo a autonomia como
bicho estranho e incomum em meio ao corpo docente e discente.
Desse
modo, nossos heróis, os que não morreram de overdose[1], se tornaram brancos;
nossas princesas são brancas, nossos juízes são brancos, nossas leis são
brancas, nossos médicos são brancos, engenheiros, arquitetos, repórteres,
livros, revistas, TVs e tudo mais; até nossos valores são brancos. E é claro, a
educação também não poderia deixar de ser, já que o embranquecimento é a
principal especialidade do sistema...
Agora
que apagaram a nossa história, nossa cultura e nossos livros, e nos deram uma
nova história, uma nova cultura e escreveram novos livros; conseguiram fazer,
sem o uso do chicote de forma explícita; uma nova era de escravização.
Colonizaram as nossas mentes de forma tão eficaz, que a síndrome de Estocolmo
passou a ser uma doença comum e inerente às pessoas de cor, fazendo com que
muitos negros defendam aguerridamente as opiniões e posturas eurodescendentes
como opinião própria, depondo contra si, e contra toda uma comunidade, contra
uma nação; e mais ainda, contra todo um povo. Esse é o atual
cenário do sistema nacional de educação, desde que foi implantado pelos
jesuítas, com a chegada dos opressores da humanidade.
O
choque que se dá entre mim e os alunos, para que se tornem estudantes
autônomos, às vezes é extremamente traumático, e às vezes, imensamente memorável;
se tornando um processo fenomenológico incrivelmente incontestável. Trazer a
percepção e o reconhecimento de que nosso país se transformou numa imensa
empresa, onde além de empregados somos aqueles que produzem a riqueza e entrega
nas mãos dos gestores caras-pálidas, que só nos dão como prêmio, os espelhinhos
que mostra as imagens dessa riqueza, como se essa riqueza nos pertencessem ou
algum dia pudessem nos pertencer efetivamente.
Nessa
empresa em que o Brazil se transformou, com amplas e confortáveis lojas de
departamentos e variadíssimas opções de consumo, nos transformaram nas próprias
mercadorias ostentadas, classificadas e etiquetadas, fazendo parte de uma
planilha de lucros, com margem de perdas e de danos, além de estoques de
reposição. Nesse grande mercado em que somos expostos, olhamos um para o outro,
nos vendo e desconfiando de que somos mercadorias, com códigos de barras e
validade, sem, no entanto, perceber tal codificação em nós mesmos, em nossas
testas, nossa pele, em nosso ser. Só temos olhos para o reflexo dos mágicos
espelhinhos que nos enfeitiçam, e para as brilhantes miçangas que enfeitam
nossa fantasia de bobo da corte.
O
bombardeio de propagandas de ofertas e promoção nessa eterna temporada
permanente de Black Friday nos cega e nos acomodam agradavelmente em nossa zona
de conforto, nos fixando e imobilizando nas prateleiras desse infame mercado
branco. Quando criança, eu era aquele cara que entrava no mercado para roubar o
biscoito que me saciaria a fome e me permitiria sobreviver mais um dia nessa grande
empresa chamada Brazil. Agora, como escravo-empregado, sou o cara que faz apologia
a greve exigindo dignidade, instigando o corporativismo, cooperativismo e a
partilha compartilhada de vidas, nesse caminho em direção a uma comunidade de
produção solidária. Portanto, não sou e nunca fui funcionário padrão... Nunca
recebi prêmios por bom comportamento ou desempenho de função, nem sou cumpridor das missões dadas. Sou
e sempre serei um escravo rebelde, um agitador subversivo e transgressor...
Hoje,
96% da riqueza produzida se encontra nas mãos dessa gestão desumanizadora de pessoas
preta-pobre, quase-preta e quase-branca. As contas não batem, a lógica matemática
e filosófica foram maldosamente invertidas e as línguas nacionais, que chegam a
320 idiomas, subvertidas e individualizadas, se hierarquizaram monopolizando-se
em torno do poder do idioma do opressor.
Falar
a mesma língua, e seguir uma mínima lógica, fora do padrão monocultural,
tornou-se a principal batalha do lado negro da força, em meio a esse campo de
guerra em que se tornou o terreno delimitado pela escola em que leciono. Minha
batalha contra TVs, livros didáticos e jurisprudências, se tornou algo
inusitado, surpreendente e excitante. Muito mais emocionante que qualquer
aventura de 007; os perigos
enfrentados pelos Cem de Esparta não
chegam perto dos obstáculos sinistramente colocados através do gólgota dessa
viagem ao mundo da Dama das Camélias,
que tem em seu subsolo, a exemplo do esgoto londrino, a escatologia do florido
e prurido mundo de Alice; esse
inferno disfarçado de musa, a teia da viúva
branca.
O
chão de minha escola é chão de Dandara e de Zumbi, antes matrilíneo chão de
Acotirene. Respeito; é a palavra ancestral para aqueles que construíram essa
nação, essa antiga nova escola e esse caminho que, de uma maneira ou de outra,
haveremos de trilhar, para chegar ao reino de Wakanda[2] fechando as portas dessa infame empresa onde o sangue virou moeda
que compra privilégios, enquanto o bem mais precioso, a vida, transformou-se em
cédula sem valor...
[1]
O FBI e a CIA introduziram as drogas no gueto norte=americano com o intuito de
minar o movimento dos Panteras Negras após criminalizarem
o uso de drogas, tornando-as desse modo ilícitas, tendo finalmente um motivo
para deter e aprisionar qualquer negro que portasse tais substâncias; hoje os
brancos encontrados com a mesma são liberados, pois o estado os classificam
como usuários enquanto os negros são, com a mesma quantidade registrada,
taxados de traficantes. Essa é uma maneira de se mater a escravização e a
servilidade do povo negro que ousa se portar como branco; já que o direito de
um não deve se confundir com o privilégio do outro.
[2] Nome
do fictício reino africano, onde o Rei é o herói da história em quadrinhos,
chamado de Pantera Negra.

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