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terça-feira, 29 de março de 2016

Nos embaraços dos meus Dread’s, a política, a sociedade e a apologia ao demasiadamente humano...


Subi no morro para olhar as tábuas dos mandamentos na tela do meu novo Samsung de última geração, cheio de incremento, e tive a nítida visão da situação, antes mesmo de chegar ao 5º mandamento; onde reza que todos somos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; e do seu pronunciamento como artigo de luxo em meio a essa excelsa montanha de lixo de diversas empresas.

Minha visão se materializou a partir de uma sarça ardente, vindo através de canos de ferro que cuspiam fogo, exatamente no cume desse morro, local aonde havia me retirado para falar com o outro mundo, com o divino, com o intuito de solicitar socorro.

Eis que através dessa sarça ardente vejo uma cidade partida entre opressores e oprimidos, cada qual com sua cor, e classificados de maneira inversa como minorias e maiorias, com seus devidos privilégios e excelso terror. A maioria, os oprimidos, eram imobilizados em guetos e favelas, sem acesso ao serviço público a qual pagavam para ter a garantia desse ingresso: sem os serviços às quais eram cobrados para possuir, e sem a dignidade mínima de uma vida enquanto sujeito, e mais ainda, sem a dignidade enquanto SER HUMANO, demasiadamente humano.

Nos Guetos e Favelas, os bailes funk, uma de vertentes criativas desse povo de cor, fora proibido em seu próprio quintal, através de violência extrema e da dor; como todas as outras manifestações culturais da cor, ficou proibida, salvo se tutelado por um líder da cor certa, que estivesse realizando sua festa.

Por onde andar, a pessoa minoritária, assim como a de cor errada, são meticulosamente vigiadas por um aparato violento de contenção e imobilização. Ou seja, os indivíduos da cor certa comandam um pelotão bélico e militar próprios para intimidar a vasta minoria que somam cerca de 90% da população entristecida.

Todo o indivíduo da cor errada está passível a ser abordado, a qualquer hora, dia ou lugar, por essas forças especiais, sem aviso prévio ou justificativas potenciais; e mesmo sendo inocentes, é necessário, caso haja tempo, que provem essa inocência. Fica então, obrigatoriamente, a qualquer indivíduo inocente de cor, provar sua inocência e seu valor, mesmo que não haja quaisquer indícios de ilícitos; incorrendo em fato gravíssimo, o agravante de qualquer negativas ou resistências contrárias a essa bula sanitária. 

Os mandamentos da sarça ardente são precisos, conclusivos e decisivos, fazendo o neófito de cor acreditar definitivamente em sua culpabilidade elementar, mesmo na ausência de qualquer imbróglio ou afim, o martelo sempre foi batido pra mim. Desse modo, os apequenados seres da cor SERTA, intitulados divinamente como seres humanos, fazem a gestão da vida e da morte dos indivíduos da cor errada de toda a Pólis durante o ano. Sendo assim, a cor errada invariavelmente implica em submissão e austeridade infligidas, enquanto o indivíduo da cor certa vai remeter sempre à completa síndrome de autoridade adquirida. 

Assim, a maioria, classificada como minoria, sem meta, desenvolve um complexo processo de tolerância à subalternidade, adquirida através do complexo de inferioridade generosamente concedida pelos seres da cor certa.

Eu, como profetisa do Morro, em frente à sarça ardente, descolonizadamente, com visão privilegiada, por conta de ter tido a atitude distinta de não temer transformar um acidente geográfico em verbo, desci da favela com a completa visão da situação imposta a ela; mas, contendo a emoção, sem poder falar nada aos irmãos. Desde então, eu tenho um sonho; dominar o fogo, a sarça ardente religiosamente masculino e pagão. 

Por outro lado, me inquieta possuir o poder da sarça, visto a possibilidade de incorrer numa simples troca de doze por uma dúzia, e o pesadelo não ter fim. Mas também, passivamente assistir o fogo da inquisição fritar a carne dos irmãos, não seria a solução para essa bestial situação. Dessa maneira, diante dessa dicotomia maniqueísta e maquiavélica, coloquei meus óculos coloridos, trancei meus Dread’s e agora sigo caminhado e cantando, fazendo apologia contra as palavras entornadas pela sarça, com meu bálsamo instigador de vivências e convivências com as cores antagônicas nas miríades de seus 500 tons, em meio a implosões das divinas revelações dos mandamentos da cor certa.


Embaraço cada traço de minha escrita de rábula, sem mencionar Rapunzel ou quaisquer fábulas alisadas e amareladas nas páginas do tempo, onde tento, conter todo lamento do sofrimento sem noção, estampadas nas capas das revistas, jornais, e entrevistas de gente-atração, nas manchetes sobre escravização. 


sexta-feira, 25 de março de 2016

Kawo kabiecile okê arô...

Os Negros sempre carregaram o Brazil nas costas, foram e ainda são, o arrimo do país; mas os direitos dos construtores desse país se resume a um único direito: o de se calar; enquanto os nomes dos que comandarem o Estado brasileiro forem todos nomes de procedência estrangeira. Fato funesto, para corroborar as atrocidades cometidas, é o absurdo do negro brasileiro ser até mesmo proibido de registrar o seu próprio filho com o nome de sua família originária, já que este ato remete a sua memória, à sua ancestralidade e a sua história de luta. Ou seja, assim como a cor de sua pele, que infere em sua sentença, visto não ser possível arrancá-la de todo por falta de cemitérios e sepulcros públicos suficientes, o nome próprio é um discurso poderosíssimo que precisa ser coibido e apagado, proibido e esquecido. 

Nosso país está dividido em três nacionalidades: negra, indígena, branca. A nacionalidade que sempre governou, explorou, torturou, roubou e furtou, sabemos muito bem qual é; é que detém o poder com base na coação e coerção, e detém o monopólio total da maledicência e da corrupção enquanto os fracos sofrem o que é necessário, já que estes oprimidos não atinam para a sua condição de escravizado, criando por sua vez, um eficiente mecanismo de tolerância à violência e a subalternidade, ele transforma esse instituto de opressão algo natural, permanecendo enfim, na condição de servilidade completa, geral e irrestrita.


Se atinássemos para caminhar em direção a FORMAÇÃO da tão temida coletividade, o que faz com que branquinho tenham infinitas insônias, nos tornariam conscientes de que somos um povo descendente de Rainhas e de Reis. Parece que, lamentavelmente ainda temos que permanecer nos porões dos negreiros para nos lembrar do significado e da significância da palavra MALUNGO, que traz latente o poder da espiritualidade ancestral de nosso povo. Mesmo que esse ato de rebeldia, a formation da coletividade, signifique ingressar numa batalha desigual. Mas, como a verdade está sempre ao lado do oprimido, trilhemos o caminho do Ubuntu como a única via ainda não explorada neste novo mundo, aonde a humanidade se encontra coberta pelo manto da completa solidão. Desse modo, finalmente nosso país multiétnico se tornará PLURIÉTNICO, sendo enfim, um país de todas e todos, indo além da superfície do discurso propagandista da plutocracia fascista pós-moderna.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Mercado negro, lucro branco...Elementar, caro Zumbi, elementar...!!

Dia 21 de março, o dia em que fui parido do ventre de um navio negreiro, sobre uma fria tumba chamada Atlântico, tendo a imensidão do vazio, o gélido vento e os afiados dentes dos tubarões brancos como testemunhas, além do reconforto dos céus que cobria o frio de minha profunda solidão. O batuque das águas no tumbeiro foi o compasso que acompanhou o ritual de chegada ao mundo novo. Cheguei Sem família, sem irmão e sem amor; só com o horror do suplício de um recomeço num deserto cheio de nada: Foi a viagem mais longa do mundo. 

Despido de tudo, só restou o barulho do compasso no balanço das ondas que batia no casco do escuro porão do navio negreiro: útero do novo mundo. Como todo recém-nascido que chega ao mundo: o choro. Minhas lágrimas de corpo presente em meu próprio funeral salgaram os oceanos do mundo, depois pude ver que eram lágrimas de milhões de milhares de olhos negros ajuntados no branco útero do umbigo da mãe de olhos azuis, do novo mundo novo, num pavoroso e forçado aborto em contramão. 

Desde então, me deram um novo nome, uma nova religião e uma etiqueta nova. Deslocaram-me numerosas vezes do zoológico para as vitrines e vice-versa; fotografaram-me, me classificaram e me deram um número de identificação. Fui devidamente catalogado como parte da fauna do novo mundo; reprogramaram-me e me enquadraram; cultivaram-me para produzir e reproduzir rendimentos e frutos aos proprietários de minha alma; minha força ativa foi devidamente sequestrada, legalizada e legitimada. 

Desde então, foi instituído um dia de comemoração, para que esse evento não fosse esquecido jamais; começamos a comemorar uma princesa branca, mantendo viva a memória de nossa dívida de vida a qual o ventre do navio negreiro nos legou. Agradecemos a vida nascida morta no compasso da queda d'água de nossos negros olhos que salgaram os oceanos do mundo, transformando as profundezas abissais numa imensa cova coletiva, na medida em que se instituía privilégios, alimentando a arrogância e a indolência da violência e do suplício fortuito, fazendo da morte, da tortura e da humilhação, um infame mercado legalizado gerador de regalias, frugalidades e frivolidades; em suma; um ganha-pão honesto que conferia status e poder ao homem de bens.

Hoje mergulhei nas águas do mar que banham os limites da cidade em que habito, após olhar indefinidamente para o infinito horizonte na linha do azimute, procurando enxergar ao longe algum sinal das cercanias do meu quintal ancestral. As lágrimas retornaram aos olhos, marejando as vistas cansadas de vida e comemorações. Então me banhei na água do mesmo sal que corroeu os ossos das peles negras de meus irmãos; sal que agora temperavam o banquete comemorativo de vida e morte no gourmet promovido pelo infame mercado da carne preta; quando lembrei que esse único dia do ano, foi generosamente concedido, e reservado internacionalmente para brindar a eliminação do racismo no novo mundo.

Mas também me lembrei de que se estávamos no mundo novo, era porque meu antigo mundo havia se perdido na via crúcis do trajeto transatlântico da pirataria legalizada. Desse modo, enquanto mergulhava os tubarões brancos do oceano me mostravam seus ameaçadores dentes afiados. Retornei célere sem conseguir ver meu antigo quintal, enquanto os tubarões brancos terrestres calorosamente me recepcionaram com um amplo sorriso de crocodilo. Imediatamente entendi os motivos dos dias de comemorações. Olhei saudosamente de soslaio para o além-mar, retornando de imediato o olhar para aquele caloroso sorriso; pensei, sem nada dizer: - Branquinho é FODA...!! Eliminação da discriminação racial ou eliminação da raça, naquela vasta faixa de areia ,naquele momento, era só um mero detalhe definido e decidido entre tubarões brancos...




sábado, 12 de março de 2016

BRANCOPIA

As desditas ditadas pelas queridas pessoas brancas, são fragilmente fundamentadas por extremas contradições, cunhando as hipóteses surreais que criam e cultivam emoções, permitindo o livre comércio de controle dessas mesmas emoções, com o intuito claro de conter e dominar o indivíduo, levando-o a cometer as ações mais estapafúrdias possíveis e inimagináveis, dentro desse processo de produção da cultura de massa que formata o inconsciente coletivo e conduz as histerias coletivas que desumaniza o sujeito, não enquanto indivíduo, mas enquanto ser humano.

Para ilustrar essa afirmativa, dentre os muitos exemplos em nossa história, vou recorrer ao exemplo de John Newton; este branco senhor inglês, que durante o século XVIII fez sua modesta fortuna através da prática do infame comércio[1], e que como capitão de navio negreiro, fez inúmeras viagens e incursões a costa africana sequestrando e vendendo pessoas cor de noite.

John Newton, típico homem branco, esposo, pai de filhos, temente a Deus, e que, ao final de sua carreira de crimes contra as pessoas cor de noite, tornou-se pastor protestante, arrependendo-se de seus pecados para alcançar o reino dos céus. Era um fervoroso fiel, daqueles que não teria nenhum problema de, a exemplo de Jacó, cortar a garganta de seu filho, se dissessem a ele que esse insano ato era uma ordem divina. Pois, assim era John John[2], um sequestrador, torturador e assassino que usou sua vida para enriquecer a si e aos futuros capitalistas que inauguravam a era das atrocidades com nome próprio.

Este ilustre desconhecido capitão de navio negreiro passaria despercebido, se não fosse um dos mais famoso anônimos cor de noite a lhe conferir o sucesso que hoje seu nome possui nos anais da história.

O hábito de escrever diferenciava John Newton dos outros torturadores, já que não se atinha somente ao diário de bordo, mas também escrevia muitas cartas a sua família relatando o cotidiano de um capitão de navio negreiro, além de também escrever poesias.

Pois bem, este branco senhor, assassino e sequestrador, após virar pastor e se arrepender de causar tanta dor, entregando sua vida ao senhor, se aposentou de sua vida de torturador de pessoas de cor.
Mas, durante este processo, uma das letras de um de seus poemas chegou as mãos de um preto sacrificado por seu ardor de branco senhor; assim foi que essa letra se musicou, através da escala escrava[3], hoje conhecemos umas das mais belas músicas elaboradas por um dos componentes do povo cor de noite que conhecemos.

Estamos falando da prece de John, enquanto pastor, que se tornou uma canção; e como toda a prece na voz de quaisquer pessoas cor da noite de origem bantu se transforma em música; hoje entoamos o Amazing Grace.


Os norte-americanos que se bronzeiam enquanto exigem que as pessoas cor de noite embranqueçam, também cantam esta canção; os que se acham brancos e lutam pela paz matando até um incapaz, também entoam essa canção; os quase-brancos e quase-pretos também se emocionam ao ouvir, e tentar caminhar e cantar[4] seguindo a canção.

Enfim, o compositor é conhecido, mas o autor da música, sendo da cor de noite... Ou seja, um ser coletivo, seu nome é povo, é gente, é ser humano. Seu sucesso só pode ser creditado e completo se for de todos. Esse indivíduo é coletivo, contrário a branquidade que necessita hierarquizar, ordenar, classificar e rotular para poder sentir-se gente.

Entre a materialidade e a espiritualidade de um povo existe muito mais do que imagina a nossa vã filosofia. Existem os rituais e processos, que vão além das hipocrisias e manipulações que cimentam as ações que permeiam a construção de verdades únicas e alternativas. E são justamente essas miríades mescladas e sutilmente transformadas em fórmulas que hoje nos gentlifica[5], padronizando nossos comportamentos, além de guiar impiedosamente nossas ações de acordo com as conveniências escravizantes. 

Para o povo cor de noite, a palavra Zumbi era usada para se referir a uma pessoa recém-desencarnada; e hoje, a branquidade, que usa a zombaria para lidar com o desconhecido enquanto se recusa a sair de sua zona de conforto, simplificando e desqualificando o que lhe é desconhecido, fez desse instituto uma forma de aferir lucros ironizando a personificação desse fato da espiritualidade africana. Ou seja, a branquitude tem feito o impossível para se apropriar de tudo que ela diz ter ojeriza; faz de tudo para possuir, principalmente aquilo que mais lhe faz falta; a própria humanidade.

Assim como outrora o colonialismo era sustentado pela escravização, hoje o capitalismo não subsiste sem o racismo. Portanto, o comércio da produção de emoções, que hoje substitui o infame comércio, se tornou a base sólida desse sistema babilônico. As experiências midiáticas e virtuais substituem as vivências da realidade, e em vez do cara-a-cara temos o Face (book) a Face.

Não somos mais seres humanos de carne e ossos, mas também não somos Zumbis; somos algarismos grafados no alto das estatísticas ornadoras de diretrizes automatizadas, nesta frenética distopia robotizada. Isto é, vivemos uma brancopia.


Portanto, é urgente a necessidade de se rever esse processo de mesclas entre o material e o espiritual, e dos rituais que completam essa interação pessoal e interpessoal, formal e informal entre o visível e o invisível, assim como entre a Utopia e a Brancopia; enfim, nos conscientizar de que não é possível permanecer na ilusão dessa sinistra situação nesse triste e abismal CAMPO DE CONCENTRAÇÃO; porque todo prisioneiro tem seu sagrado direito assegurado de tentar a fuga deste reino fantasmagorizado de figuras brancas, como aquele trem fantasma de um parque de diversão onde você paga para entrar e reza para sair. 

Nós, Povo cor de Noite, viemos de um reino da cor do ébano, onde a vida circulava através de todos os seres, fazendo vibrar, em harmonia com a natureza, toda a energia vital que move o universo. Mas fomos sequestrados e postos neste reino branco que cultiva a morte como símbolo de poder; cultiva a morte como mercado; cultiva a morte como negócio, cultivando a morte do ébano para sustentar contraditoriamente a vida; vida esta que na Brancopia atende pelo sinônimo de privilégio. Se não há privilégio, segundo as leis leucodérmicas, não há vida, e sem vida não há felicidade.  Deste modo, trouxeram o Povo cor de noite para serem cultivados e para cultivar a felicidade Brancopolitana, regando essa cultura com muito sangue e tortura.


Mas a canção está sendo entoada e o canto banto sendo ouvido; a escala escrava faz de novo ressoar as cordas sonoras da vida que circula no cosmo, vibrando na alma negra despida de si: A canção da alma está sendo cantada como hino de liberdade, enquanto o paletó e a gravata atirados ao acaso vão construindo a Formation[1] desse espetáculo num majestoso streap tease negro, onde nos despimos e nos despedimos do brancopolitanismo vida remida, numa grande Formação, em busca da Redemption[2] ao som do Amazing grace



[1] Alusão ao polêmico clipe musical da cantora negra afro-americana Beyonce.
[2] Título de uma canção de Bob Marley.



[1] Alusão ao polêmico clipe musical da cantora negra afro-americana Beyonce.
[2] Título de uma canção de Bob Marley.



[1] Assim era conhecido o tráfico de escravizados africanos.
[2] Referência ao imperialismo estadunidense; John John era o apelido carinhoso dado a John Kenedy pelos norte-americanos.
[3] A escala pentatônica, de apenas cinco notas, era usada pelos africanos em suas canções.
[4] Referência a música de Geraldo Vandré que foi um hino contra a ditadura militar no brazil.
[5] Vem do termo inglês gentleman.




sexta-feira, 4 de março de 2016

Sobre nosso exílio sem retorno...

A diáspora africana através do Grande Calunga, como épico exílio histórico vem aportar com seu majestoso féretro na pós-modernidade, corroborando nosso exílio num caminho sem volta nesse fantástico mundo contemporâneo. Esse branco monstro, mostra que suas correntes, agora mentais, são mais fortes e resistentes que quaisquer metais existentes (menos o vil metal latente), com sua incomparável habilidade de invisibilizar suas marcas profundamente infligidas a seus prisioneiros e a toda a gente de melanina saliente, de forma cruelmente deformadora, transformando-se num eficiente e desejável instrumento de fetiche do dominatrix, tanto da vítima, quanto do racista inclemente. Hoje, como ontem, um crime sem réu, nem juiz, só valendo o que o racista diz.

Enquanto os pretos, pobres e sem teto, são retirados sangrando dos espaços públicos e postos ao relento por policiais marrentos, sobre os aplausos efusivos de um público demente, os inimputáveis juízes de plantão votam pra si, nesta mesma ocasião, seus indecentes privilégios, tais como auxílios moradias, bolsas de estudos, como se fossem carentes, numa única seção de tédio, sem os ruídos das batidas de panelas em nenhum prédio; seguidos de deputados e vereadores que corrigem seus salários em 150% sem que haja nenhum grito ou lamento.

Cada preto com patrão branco deve ser considerado, e se considerar, um escravo de ganho; caso não quebre ao menos um dos elos da corrente que coloniza sua mente, deixando de ser incrédulo de si mesmo como preto forro, sem ferros. Desse modo, ele vai descobrir que entre a Autodefesa e o auto de resistência será sempre a cor da cútis que revela a sentença.

Tolo, e de pensar estreito, é aquele preto que procura pelo juiz branco pra suplicar por direitos. Sua educação branca o coloca de joelhos em frente a qualquer euro-fedelho sem relho. Mais tolo ainda  é o preto juiz que advoga sob o chicote e as rédeas das brancas leis, evocando sua autoridade através do autoritarismo racista da plutocracia fascista; sua sentença será produto da crença encravada em sua mente colonizada.

O exílio de si mesmo, se faz com os alvos elos fetichistas forjados pelo querer embranquecer, para humano poder voltar a ser, sem fenecer. Ser de verdade, de carne; e a carne preta é feita de cercas por todos os lados, sem humanidade. Somos fantasmas, ironicamente, da mesma cor que temos em mente: a cor do branco indecente.  

Dessa gaiola dos loucos, que não é para poucos, discutimos com ardor as notícias lidas de soslaio no jornal falado do branco sinhô sentado ao lado, classificando e elegendo fugitivos, terroristas e umbandistas; enquanto somos na real, tétricos turistas desse navio fantasma a atração principal nesse funesto paraíso tropical, atados ao pau-de-arara estatal, olhando o sol nascer quadrado, enquanto somos humilhados nesse palco iluminado.

O autoexílio, refletidos nas meninas (dos olhos) que nunca se despem, não poderia se despedir de si no pelourinho dourado e iluminado como Vênus, que adentra de forma violenta em seu ânus, fazendo de seu estupro uma oktoberfest para diversão de qualquer pedestre; se tentar voltar-se agilmente, retornando como uma pantera (negra) potente, e defender-se dessa cegueira numa potente visão certeira, enquanto a TV mostra a morte do povo Bantu como fator de grande sorte para o povo brancú, não existirá bandeira pirata que evite a indolente postura branco-primata QUE MATA.

Nossa morte social, posta como fator normal; como nosso epistemicídio, seguido desse cruel genocídio, mostrando que até o próprio preto, brancamente representativo, vira as costas para uma preta morta, arrastada como nada pelas ruas amarguradas dessa cidade-túmulo; quando até a própria morte lamenta por essa isenção, em forma de ausência da indignação, dessa preta e dormente nação, cor de branco-excludente; agindo como os fanáticos crentes de todas as casas grandes dessa sociedade carente de vida inteligente, que  fazem tilintar suas correntes a cada fala na tela da TV de qualquer demente, sobre os espantosos índices da criminalidade nessa cidade inclemente.

Essa cidade-exílio, banhada por esse gigante além-mar-túmulo de tentáculos de cor azul-molhado, que envolvem pegajosamente os corpos melaninosos, durante o ressequido caminho ao Gólgota da preta cútis acorrentada em sangue ao mastro do desejo; desejo de ser humano sem engano nessa favela-negreiro, nessa solitária cela senzala social de um Estado de exceção permanente; onde as peles pretas são postas, fixadas e transpassadas pelas coloniais correntes em seu lugar-tenente, estampando a frente, o verso e os lados desse negreiro, o caricato  sorriso grin  do prestativo preto decente, como a carranca escancarada  do tumbeiro fantasma que sobe as águas do Velho Chico (Rio São Francisco); nossas águas batismais nunca serão as mesmas mais ...