Subi no morro para olhar as tábuas dos mandamentos na tela do meu novo Samsung
de última geração, cheio de incremento, e tive a nítida visão da situação, antes mesmo de
chegar ao 5º mandamento; onde reza
que todos
somos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; e do seu
pronunciamento como artigo de luxo em meio a essa excelsa montanha de lixo de diversas empresas.
Minha visão se materializou a partir de uma
sarça ardente, vindo através de canos de ferro que cuspiam fogo, exatamente no
cume desse morro, local aonde havia me retirado para falar com o outro mundo,
com o divino, com o intuito de solicitar socorro.
Eis que através dessa sarça ardente vejo
uma cidade partida entre opressores e oprimidos, cada qual com sua cor, e
classificados de maneira inversa como minorias e maiorias, com seus devidos privilégios e excelso terror. A maioria, os oprimidos,
eram imobilizados em guetos e favelas, sem acesso ao serviço público a qual
pagavam para ter a garantia desse ingresso: sem os serviços às quais eram
cobrados para possuir, e sem a dignidade mínima de uma vida enquanto sujeito, e
mais ainda, sem a dignidade enquanto SER HUMANO, demasiadamente humano.
Nos Guetos e Favelas, os bailes funk, uma
de vertentes criativas desse povo de cor, fora proibido em seu próprio quintal, através de violência
extrema e da dor; como todas as outras manifestações culturais
da cor, ficou proibida, salvo se tutelado por um líder da cor certa, que estivesse realizando sua festa.
Por onde andar, a pessoa minoritária,
assim como a de cor errada, são meticulosamente vigiadas por um aparato
violento de contenção e imobilização. Ou seja, os indivíduos da cor certa
comandam um pelotão bélico e militar próprios para intimidar a vasta minoria
que somam cerca de 90% da população entristecida.
Todo o indivíduo da cor errada está
passível a ser abordado, a qualquer hora, dia ou lugar, por essas forças
especiais, sem aviso prévio ou justificativas potenciais; e mesmo sendo inocentes,
é necessário, caso haja tempo, que provem essa inocência. Fica então, obrigatoriamente, a qualquer
indivíduo inocente de cor, provar sua inocência e seu valor, mesmo que não haja quaisquer
indícios de ilícitos; incorrendo em fato gravíssimo, o agravante de qualquer
negativas ou resistências contrárias a essa bula sanitária.
Os mandamentos da sarça ardente são precisos, conclusivos e decisivos, fazendo o neófito de cor acreditar definitivamente
em sua culpabilidade elementar, mesmo na ausência de qualquer imbróglio ou afim, o martelo sempre foi batido pra mim. Desse
modo, os apequenados seres da cor SERTA, intitulados divinamente como seres humanos, fazem a gestão
da vida e da morte dos indivíduos da cor errada de toda a Pólis durante o ano. Sendo assim, a cor errada invariavelmente
implica em submissão e austeridade infligidas, enquanto o indivíduo da cor certa vai remeter sempre à
completa síndrome de autoridade adquirida.
Assim, a maioria, classificada como
minoria, sem meta, desenvolve um complexo processo de tolerância à subalternidade,
adquirida através do complexo de inferioridade generosamente concedida pelos
seres da cor certa.
Eu, como profetisa do Morro, em frente à
sarça ardente, descolonizadamente, com visão privilegiada, por conta de ter tido a atitude distinta de não
temer transformar um acidente geográfico em verbo, desci da favela com a
completa visão da situação imposta a ela; mas, contendo a emoção, sem poder falar nada aos irmãos. Desde então, eu tenho um sonho; dominar o
fogo, a sarça ardente religiosamente masculino e pagão.
Por outro lado, me inquieta possuir o
poder da sarça, visto a possibilidade de incorrer numa simples troca de doze
por uma dúzia, e o pesadelo não ter fim. Mas também, passivamente assistir o
fogo da inquisição fritar a carne dos irmãos, não seria a solução para essa bestial
situação. Dessa maneira, diante dessa dicotomia maniqueísta e maquiavélica,
coloquei meus óculos coloridos, trancei meus Dread’s e agora sigo caminhado e cantando, fazendo
apologia contra as palavras entornadas pela sarça, com meu bálsamo instigador de
vivências e convivências com as cores antagônicas nas miríades de seus 500 tons, em meio a implosões das divinas
revelações dos mandamentos da cor certa.
Embaraço cada traço de
minha escrita de rábula, sem mencionar Rapunzel ou quaisquer fábulas
alisadas e amareladas nas páginas do tempo, onde tento, conter todo lamento do
sofrimento sem noção, estampadas nas capas das revistas, jornais, e entrevistas
de gente-atração, nas manchetes sobre
escravização.






