Vamos outra vez observar,
relançando renovados olhares sobre as ostensivas imagens, intencionalmente
induzidas e naturalmente distorcidas, que criam com esmero e perfeccionismo, os
capciosos e lamentáveis pensamentos enviesados e generalistas que põe em dúvida
a humanidade da pessoa de cor; além de coloca-las num lugar não existente na
sociedade brazilleira; o entre-lugar;
ao mesmo tempo em nos transformam em párias, enquanto classificados de minoria,
mesmo somando quase o número total dos habitantes da população pluriétnica
desse solo varonil chamado de Brasil. E que em consequência dessa conjuntura
diatópica em plena distopia, somos transformados em imigrantes, estrangeiros em
eterno exílio, nesta terra com palmeiras
onde canta o sabiá; a Terra em que nascemos.
Vamos, só de mórbida curiosidade,
rever uma produção audiovisual nacional, assistindo como a personalidade da
mulher Negra é colocada e retratada; como na maioria das películas branco-tupiniquins;
na visão trazida pela Mídia Branquela.
Agora falando especificamente do filme que aborda a vida de Chica da Silva, que em resumo, essa
produção trás uma mulher tratada tal como qualquer outra mulher negra o é, e
sempre foi naturalmente retratada no Brazil por está MB de propriedade branca: de forma machista e racista; como a
mulher boa de cama, sensual, erótica, submissa e vulgar, como mulher que se
associa a um branco como forma de aferir vantagens, ser tutelada e legitimada
como alguém na sociedade branca; a sociedade
única.
Olhemos de novo para trajetória de
vida dessa mulher de personalidade forte que, antes de se juntar ao contratador
branco, já era possuidora de sua riqueza e de seus inúmeros empregados, fato
este esquecido pelo branco diretor desse filme branco da MB que costuma mostrar sua obtusa visão branca sobre a vida negra
de forma exótica, folclórica e fetichista.
Essa mulher que enviou duas de suas
filhas para serem educadas em faculdades europeias, antes de se ligar ao
contratador, e que foi retratada como uma ninguém,
foi ridicularizada pela branquitude ao pintar a si mesma e as suas empregadas de
branco, enquanto jocosamente seus detratores alegavam que ela queria ser branca
como eles.
Isso mostra o tamanho incomensurável
da ignorância voluntária dos
branquelos que, obviamente desconhecia os costumes das mulheres negras
africanas; falando mais especificamente das congolesas; que se juntam e se
pintam de branco quando saem às ruas em protestos de qualquer natureza. A MB e seu séquito nem por um instante
perceberam o ato político que esta incrível mulher estava a realizar, enviando
uma mensagem de resistência, de solidariedade e resiliência ao seu povo; o povo
negro. Este mesmo povo que teve sua história interrompida pelo escravismo, promovido
primeiramente pelos árabes, e culminando na estupidez do tráfico
transatlântico, com o mercado infame dos algozes europeus que se estende até a
presente data.
O ocaso do Povo Negro foi o devir dos
selvagens europeus, que desde sua descida (dos europeus) do Cáucaso, esse bárbaro
bando antropófago, que mais tarde se outorgou o título de humano, vem
promovendo a violência extrema como modus vivendi. Desde então, a memória do
ser de ébano foi extraída do Negro de forma estúpida e perversa pelos
caucasianos; enquanto seus descendentes (dos inumanos caucasianos) que hoje usufruem
das riquezas roubadas, vivendo graças à perda dessa memória; perda de memória esta
que cedeu lugar ao desenvolvimento da Síndrome
de Estocolmo no inconsciente
coletivo do povo Negro, dando vazão ao Alzheimer
social e a esquizofrenias identitária
advindas da estúpida doença branca denominada de racismo praticado por esse bando que roubou a história do povo negro, e
além da identidade, roubaram a própria humanidade africana, para que pudessem
possuir alguma coisa que os tornassem membros da vida no planeta como seres
humanos, pois até então, esses animais ainda não possuíam quaisquer traços que
os identificassem como tal.
Nesse xadrez inglês, os meninos
brancos de Liverpool brincam de rock roll para Ninar todas as netas e bisnetas das Simones que permanecem em
seu exílio infame; todas as Negras,
Negrícias e Neguíssimas que repousam eternamente nesse berço esplêndido, tendo
suas rebolativas imagens enegrecidas, pintadas de branco a bailar na vinheta
que brilha em cada vislumbrado olhar arregalado, ante o espelho mágico desse xadrez
de emoções, geradas e regradas pela branquidão, num processo arrogante e estúpido
dessa infâmia produzida na Televisão, e seguida pela cegueira dessa servil população.
Nosso gólgota não se esgota nas tristes
canções de notas azuis[i] compostas com escala escrava[ii],
nem nos modernos trajes contemporâneos das camisas de onze varas[iii],
tão pouco nas carteiras de trabalho ou na identidade para exibir como carta de
alforria ao insano capitão-do-mato na
subida do morro sem saneamento básico, para estar seguro de sua garantia de
sofrer todos os horrores sem perder-se de si mesmo, atestando desse modo sua liberdade
áurea, generosamente concedida em todos os treze dias de maio que instituiu seu
direito à prisão perpétua, nessa eterna distopia intrépida.
Não sou Chaplin, nem Michael (Jackson) nem sou Clown; a imagem de
minha máscara branca, que esconde a pele negra, se contorce, retorcendo-se, e
enquanto se distorce inverte minha imagem refletida na retina do espelho mágico
nessa mágica tela: sou Cláudia Ferreira, sou Nina Simone, Acotirene, Luiza
Mahin... Sou Francisca da Silva...!! Sou Preto da Silva, o polêmico “X[iv]”
que acompanha o suave “Y” dessa
incômoda questão, solta como seta nos cromossomos do negro carbono[v]
espalhado divinamente pela superfície melanodérmica desse generoso gênero
pintado de branco... É só olhar, para ver o que não é...!!
Que comecem os jogos, e que a sorte lhe acompanhe[vi]; mas se por acaso, na fogueira das vaidades e das emoções dessa midiática contenda,
a Rainha Preta se perder, o Rei também
estará passivamente fadado ao eterno limbo no tabuleiro dessa colorida Teletela[vii]
que transmite essa desumana disputa de Negras peles e brancas máscaras[viii],
online e em preto e branco, pelo direito apocalíptico à vida humana, nessa espinhosa senda de juventude perdida e humanidade transviada.
[i]
Referência ao Blues, à música negra
dos africanos escravizados na América do norte.
[ii] A
escala musical pentatônica (de cinco
notas) era conhecida como escala
escrava por ser utilizada nas composições musicais elaboradas pelos
escravizados africanos na América do norte.
[iii]
Uniformes usados pelos prisioneiros norte americanos.
[iv]
Referência a Malcom X.
[v] O carbono
é que dá origem a vida; ele compõe o ADN humano, sendo constituído de 6 elétrons,
6 prótons e 6 nêutrons. Desse modo, temos o número 666 é considerado o número que deu origem ao homem; o mesmo número
que a bíblia considera como o número da besta, já que o homem se originou no
continente africano, ele passa a ser demonizado pelo cristianismo.
[vi] Referência
ao livro intitulado “jogos vorazes” que deu origem ao filme.
[vii] Referência
ao livro de George Orwell que narra a distopia imaginada no ano 1984 (título do livro) onde uma superpotência governa o mundo mantendo o
controle total sobre seus cidadãos através da Teletela.
[viii]
Referência a Franz Fanon e seu livro
intitulado “Pele negra, Máscaras branca”.



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