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domingo, 7 de setembro de 2014

Black Cat ou Black Panter eis a questão…!!


Beach soccer, bad mington, blitz, Black e centenas de outras palavras como essas, são usadas por nossa democracia[i] que se utiliza da língua; que é a identidade de um povo; do opressor para se definir e se expressar falando, poetizando ou cantando a dor e a delícia (?) de ser o que não se é, e do que se poderia ser.

Desse modo, ou as palavras se tornam dúbias ou simplesmente deixam de existir, perdendo seu significado, num contexto explicitamente Orwellista[ii] que dá a forma a essa democracia dominante.

É dessa maneira que, a mulher negra ou o homem negro, imbricados nesse processo, se embranquecem; negando a si mesmo, sua cultura, sua história e suas possibilidades; cultivando a ilusão de sentir-se humano numa sociedade de mentalidade escravocrata, além de social e culturalmente colonizada, que delimita a cor da pele como determinante de humanidade.

É certo que, como diria o poeta popular, quem não tem dinheiro conta história, e quem tem, escreve a história. Mesmo sabendo que somente quem não lê acredita na TV, é necessário para tanto, ler de forma pragmática[iii]; pois verdades e mentiras são dois lados de uma mesma moeda.

Como forma de ilustrar essa assertiva, gostaria de citar um caso em que a nossa TV de cada dia, hoje nos apresenta, de novo, um homem negro; pobre, catador de lixo; como um perigoso terrorista com possibilidades de cometer crimes hediondos contra a humanidade; o puro, branco e sábio juiz Carlos Eduardo Roboreto, junto com a revisora Suimei Cavalieri e a vogal[iv] Mônica Tolledo da 3ª turma do tribunal de justiça do Rio de Janeiro, não teve dúvidas em condenar, em menos de 10min, esse homem negro; Rafael Braga; neste triste mês de Agosto. Todos os brancos, também presos no mesmo dia, com a mesma acusação, foram todos absolvidos sem exceção, em consequência de uma grande manifestação “popular branca” em prol desses presos também brancos; sobre a alegação de serem presos políticos; já que os mesmos foram presos por reivindicarem direitos como cidadãos de fato.

Rafael, catador, que passava pelas manifestações que acontecia em toda a cidade, catando suas latinhas em meio a toda aquela confusão, catou também um frasco de Punho Sol, um detergente de limpeza; dentre tantas coisas que vinha achando nesses dias ditosos de catador de lixo. Entre esses produtos, além de latinhas diversas, como as de grafites deixadas pelos euros manifestantes, até agua sanitária havia. Certamente Rafael deve ter pensado na surpresa que causaria na família chegando até com material de limpeza pro seu barraco e que certamente, seria um prazer maior receber os compadres em sua humilde caxanga, um barraco de madeira.

Mais quando se deparou com valorosos policiais; popularmente conhecidos como vermes; que protegem e defende cada cidadão, pagos pelo próprio cidadão, sabendo que deveria parecer inocente mesmo não sendo culpado, como sempre, fez de tudo para evitar o tão usado e abusado auto de resistência; normalmente usados para justificar assassinatos de negros; permanecendo dócil as costumeiras agressões próprias da abordagem quando se trata de um elemento padrão[v]. Como era de se esperar, ele foi preso e junto com ele, muitos euro cidadãos, também presos e acusados pelo mesmo crime, como já dito.

Foi incrível a mobilização midiática e social em torno dos manifestantes eurodescendentes. Como resultado obvio, os euros juízes sensibilizados, absolveram exatamente a todos. Afinal, foram cerca de três mil pessoas que saíram as ruas para protestar, exigindo a soltura dessas pessoas durante o processo; de fato, foram todos libertos. Mais no caso de Rafael Braga, um afrodescendente, denominado de macaco pelos eurodescendentes, teve não mais que 50 pessoas rogando por ele durante uma noite de vigília no tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Dessa maneira, esse iluminado triunvirato, essa tríplice aliança, em tempo recorde, mostrando toda a sua capacidade arrogante de abusar do poder a eles confiado, ao proibir a presença de quem quer que fosse nessa audiência pública, cumpriu sua missão social de condenar mais um negro por um crime que não cometeu.

Para qualquer rábula ou até mesmo para um leigo, fica obvio que a condenação de Rafael se deu no momento que a cor de sua pele se revelou para esses destemidos guardiões da família e dos bons costumes e seus asseclas. Rafael tinha a cor certa de qualquer condenado, e o resultado não poderia ser diferente: foi declarado culpado pela cor de sua pobreza e por sua ousadia em viver perto de pessoas tão puras como ele, sua revisora e sua vogal. Certamente, como é de praxe, este crime é um crime inafiançável e, portanto, sem direitos; pois dentre as milhares de pessoas que foram as ruas portando os mesmos materiais com Rafael foi detido, ele foi o único condenado por um crime Comissivo[vi].

Desse modo é mantida a ordem e o progresso em nossa colônia chamada Brazill, que manda qualquer negro para a pátria que os pariu, com o prestimoso auxílio da mídia que humilha, desclassifica e desumaniza colocando o negro em seu lugar; nas prisões, nos porões e hospitais psiquiátricos, desde que se uniram ao Estado e suas instituições para praticar essas ações usando como símbolo a destruição de Rafael Braga como cidadão de Cor; cor negra, a cor da dor.

Em nossos Bantustão, que são as favelas, a baixada fluminense e a região metropolitana do Rio de Janeiro, os agentes do poder público; Ou seja, os vermes, quando entram em conflito com as forças locais, normalmente são os moradores que são punidos, visto que, diferente da facção Estatal, assim como a facção local os moradores não usam uniformes. Dessa maneira, qualquer morador torna-se um perigoso bandido aos olhos dos vermes. Digo, policiais; independente de idade ou gênero. É assim que as atrocidades promovidas por esses vermes. Digo, policiais, tornaram-se lugar comum, portanto, perfeitamente toleráveis. Dessa maneira os massacres cotidianos promovem uma série de Amarildos, Claudias, Mateus, Felipes e tantos outros, de maneira progressiva e impune.

Todo o verm... policial, que trabalha nas ruas, com raríssimas exceções, muito rara mesmo, não possuem ficha limpa. A conta das inúmeras atrocidades gratuitas, promovida em nome da segurança dos eurodescendentes, é motivo de diversão e de disputa entre os... policiais.

Esses vermes. Digo, policiais, são dedicados pais de família, tementes a Deus, que se transformam em monstros sanguinários diante do outro, se comprazendo nos requintes de crueldades com que exercem seus ofícios, já que acreditam sinceramente na missão genocida lhes conferida pelo Estado.

Portanto nós da FEGPN devemos emitir mandados dando voz de prisão a esses gentis genocidas, em nome do povo negro, além de interditar todos os Tribunais de Justiça tupiniquim que não cumpram sua função social. Assim como a Secretaria de Justiça e seus asseclas.

É certo que, para legitimar esses mandados é necessário que o povo negro acorde e possa se ver como negros de fato. Visto que nossos maiores entraves, se não o maior, é o fato dos opressores poder contar com a ajuda de alguns oprimidos em sua sanha criminosa. Falo dos afromodistas; esses que fazem o conveniente e vil papel de aliados do opressor. É fácil reconhecer um, pois sempre usam seu currículo de militante para se justificarem e como forma de autopromoção.

Quando nós, afrodescendentes, percebermos nossa cor, nos vendo como um povo e, a exemplo dos eurodescendentes, nos unirmos; ai sim, seria possível nos curar dessas profundas feridas abertas pelo vergalho eurocêntrico em nossa carne, atingindo profundamente a alma e o espírito da Igualdade, da Fraternidade e da Liberdade. Desse modo, seria possível cuidarmos uns dos outros, ser um povo de fato. Por hora, somos párias, macacos, mercadorias exóticas expostas nas vitrines eurocêntricas.

Quem não tem dinheiro que conte sua história, enquanto quem tem a escreve. Somos livres para ler e livres para acreditar, ver, ouvir, falar, cantar poetizar... Para cuidar de nós mesmos, falando a nossa língua, nos entendendo enquanto irmãos; sou porque somos... nenhum passo atrás...






[i] Na Grécia, berço da democracia ocidental, só era permitido à participação política aos nascidos na Polis. Nesse caso, os estrangeiros e seus descendentes eram excluídos do processo, assim como as mulheres (1.000.000), crianças e escravos (2.00.000), além dos menores de 21 anos (500.000), sendo uma população de 500.000 habitantes.
[ii] George Orwell em seu livro descreve a história de uma superpotência que controla as ações e consciências das pessoas criando a Newspeak (nova forma de expressão), falando de uma linguagem com expressão modificada, ambivalente e contraditória. Nela as palavras são substituídas ou deixam de existir; “democracia” e “justiça” somem e “livre” ganha outra conotação: “Livre de piolhos” pode, e “livre” expressão não.


[iii] Leitura onde se procura conhecer o contexto da época em que foi escrita, quem escreveu, em que momento se deu, etc. Além do conteúdo do texto em si.


[iv] Nome dado a um juiz classista, representante da classe dos empregados, atua nas juntas de conciliação e julgamento. A Emenda Constitucional nº 24, de 9-12-1999, com a reforma da justiça do trabalho ter extinguido esses juízes.


[v] Bordão policial utilizado para se referir a quaisquer cidadãos de cor.


[vi] Aquele que tem por característica uma ação. Ou seja, uma participação positiva do autor.

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