Total de visualizações de página

Pesquisar estehttp://umbrasildecor.wordpress.com/2013/05/29/jornal-cobre-lancamento-de-escrito blog

sexta-feira, 21 de março de 2014

Pedagogia da destruição



O sistema capitalista, com a grotesca face que hoje possui, nasceu efetivamente no interior dos navios negreiros; antes no empreendedorismo comercial não imperava a voracidade do predadorismo universal. Por isso o capitalismo e o racismo tornaram-se irmãos siameses, fazendo com que atualmente se confundam e identifiquemos somente um deles como causa das mazelas sociais e o biocídio melanodérmico.

Desse modo ignoramos o racismo como um problema real que grassa em nossa sociedade, na medida em que elegemos, de forma estupidamente conveniente, a pobreza como a principal questão social que assola a humanidade: Enquanto ela, a pobreza, se resume ao ter que restringe as possibilidades do indivíduo no desempenho de suas funções como cidadão, o racismo retira a humanidade da criatura de cor, coisificando-o e o impedindo de ser sujeito de sua própria história.

Portanto, como em nossas fúnebres prisões, o sistema capitalista e sua corte jurídica, tem cor: ele tem o delicado tom da pombinha da paz (?) pairando sobre uma divina fronte, enquanto os encarcerados por este sistema judicial capitalista possui o tom epidérmico de um sinistro abutre ante repasto pós carnificina; um celebra a vida, enquanto o outro vive a eterna morte em vida, e como aquele negro gato que morre sete vezes sete, todos os sete dias da semana em que se levanta para viver seu anunciado funeral recomendado com pompas e circunstâncias pelo sistema capital.

Desse modo, essa histórica cisão entre preto e pobre, constatada e legitimada pela classe do conhecimento, que explicita numa prosaica regra de três um resultado que confunde a pomposidade da matemática como ciência exata ao mesmo tempo em que desafia a dicotômica lógica filosófica, quando incute, através do senso comum reproduzido a partir do discurso que justifica esse resultado que controla a subjetividade do indivíduo como sujeito, sustentando dessa maneira, essa conjuntura capciosa que persiste em impor-se como verdade única pré-fabricada e conceituada pelo sistema.

Assim, o aval a desumanização é validado, e sua falácia sustentada pelas instituições sociais alimentadas pelo sistema capital, de modo que possa ser constantemente retroalimentada dentro da voraz necessidade predadora formatadas no interior dos Tumbeiros; fabricando em série nesses tempos modernos, através da cultura de massa, uma quantidade progressiva de pobres que disputam o não-lugar com os pretos, enquanto o capital vai muito bem, não por acaso, de vento em popa, instalando indiscriminadamente a crise de identidade entre afrodescendentes quase-preto ou quase-branco e preto-pobres, na medida em que dissemina os valores europeizados da branquitude como únicos passíveis de sua aceitação como ser social.

Dessa maneira, o preto, que normalmente é a maioria entre os pobres, naturalmente não se reconhece ou se recusa a reconhecer-se como tal, no máximo se aceita temporariamente como pobre; esvaziando e eliminando qualquer possibilidade de aniquilar aquilo que o mantém atado as correntes da subjetividade no entre-lugar. Enfim, o opressor tem relativo sucesso na manutenção dessa conjuntura controlando a cultura, a história, e desse modo controlando as subjetividades desse povo, quando habilmente faz do oprimido seu aliado.

Um provérbio africano nos adverte, com finíssima sutileza, sobre a inutilidade de semear-se em terreno alqueivado. Portanto, podemos inferir que, se nossa educação se fundamenta no resultado dessa dicotomia capital que engrossa as fileiras do senso comum, quando adota os disparates das falácias promulgadas por esse ignóbil discurso, está naturalmente fadada a manter esse retumbante fracasso escolar, que a muito ela própria critica nos incansáveis e inócuos debate junto a seu corpo docente, sem nunca chegar, no entanto, a um denominador comum.

Enquanto mantivermos esse acordo de mentiras, como definia muito bem o conceito de história o impetuosos general Bonaparte; enquanto adotarmos eventos da historiologia significativos a branquitude e ao seu capital como sendo nossos, quando nossa história não se focaliza nem se localiza nesses eventos; enquanto aceitarmos a identidade outorgada a nossos pais e avós sequestrados, torturados e mortos quando “trazidos” de seu lar original, permaneceremos alijados e exilados socialmente.

Hoje comemoramos nossa condição de legítimos párias; retirantes oficializados pelo sistema capital e suas instituições que desempenham com extrema maestria suas funções de assediar, formatar e torturar, enquanto promovem paralelamente assassinatos categóricos de afrodescendentes, sem os incômodos dos questionamentos que porventura possam aflorar no seio dessa sociedade tão mal-educada e servil, como nunca se viu nesses vertiginosos tempos de relógio contemporâneo dessa geração branca, imersa nas facilidades da era digital e destituída de valores ancestrais e de valores adquiridos pelas vivências; única forma que possibilitariam a oportunidade de possuir valores, além do “não” recebidos de pais protetores, carinhosos ou não, e paternalistas somente.

Sendo assim, a vivência da realidade se choca abruptamente com sua realidade virtual, já que não possuí, como seus pais possuíam, instrumentos possíveis para administrar o massacre oligárquico a qual são submetidos cotidianamente como preto, como pobre e ambos. Dessa maneira não conseguem lidar com essa morte social que os blindam na realidade nua e crua, a todo instante em que apertam a tecla “Enter”, preferindo viver on-line, como forma de fugir momentaneamente do massacrante instante real ao mesmo tempo em que assimila o complexo de culpa enquanto assume, como voluntário fiel, a cadeira de réu a ele conferido pelo sistema capital como troféu: é a idiotia recompensada preconizada por Pavlov.  

Sem uma pedagogia que se comprometa a desconstruir essa Matrix, a fim de destruírem essas correntes forjadas unicamente para manter a escravização mental do povo melanodérmico, a sociedade não conhecerá o verdadeiro senso de coletivismo e cooperatividade; valores africanos esquecidos nos escaninhos acadêmicos pela classe do conhecimento, nessa vaidosa senda de disputas para possuir os rótulos e as medalhas do pseudo poder, concedidos como honrarias pelo sistema capital, a fim de manter a fidelidade dos oprimidos a seu perverso programa de opressão encoberto pelo vistoso papel do presente grego oferecido durante as comemorações de todos os vintes de novembros negros, onzes de outubros e domingos sangrentos em honra a massacres oficiais de pretos e pobres.

Só o educador que prezar pela pedagogia da Destruição como condição si ne qua non, poderá criar condições para programar a pedagogia das Ausências. Desse modo, finalmente poderá ser viabilizado o caminho preconizado por Paulo Freire e sua contemporânea Pedagogia do Oprimido, visto ser a maneira possível pela qual se prepara um terreno certo para a certa semente.

Essa é a regra de três que foge do princípio retórico e sofista que promove a dicotomia capital, atendendo a máxima daquele filósofo egípcio que instruía a seus neófitos a necessidade de se emprestar seu barco para aqueles que não o possuíam, a fim de atravessarem o rio, alertando aos que possuem o conhecimento para que auxiliassem aos despossuídos do mesmo na travessia da vida, fazendo alusão dessa mesma vida como sendo o trajeto entre as margens do referido rio.

A pedagogia da destruição propõe a aniquilação do barco do neófito, visto que ele foi construído propositalmente com o intuito de resistir somente aos plácidos riachos Ypirangas das pseudos-independências, e nunca resistir aos oceanos singrados pelos sinistros tumbeiros do capital. Portanto, é necessária a decisão do educador para comprometerem-se nesse embarque, antes das voltas dadas ao redor da árvore do esquecimento, para que sejam voltas de recontextualização, e não da ressignificação comprometida com os caprichos oligárquicos, para possibilitar uma nova realidade de vida desse neófito como sujeito pleno de si; sendo mais um louco assumido aos olhos do sistema.

A Pedagogia da Destruição, divergindo da engenhosa reengenharia da Pedagogia das Associações proposta por Bruno Lattour, prepara a estreita e difícil passagem para a Pedagogia das Ausências, proposta por Boaventura Santos Silva, efetivando o ciclo iniciado pela Pedagogia dos Oprimidos proposta por Paulo Freire, visto que sem a destruição dos conceitos representativos plantados nesse terreno fértil que é a mente do indivíduo, o caminho arborizado e bem pavimentado pelo sistema capital ainda é via preferencial pelas facilidades oferecidas nas divinas promessas de aceitação proposta a partir da assunção da euro-identidade de fachada imposta em nome da democrática racial, propagada com sucesso na falácia da cordialidade do racismo voluntário. Ou seja, de acordo com o caldeirão do multiculturalismo capital, para atingir a igualdade são necessária às diferenças; produzindo um paradoxo na medida em que essas mesmas diferenças são os principais motivos que justificam e sustentam as desigualdades sociais e raciais.


Dessa maneira a pobreza simultaneamente encobre e justifica o suplício melanodérmico, na medida em que a cisão dos elementos preto/pobre dá lugar à esterilidade das ações que visão promover o equilíbrio e a uma possível equidade social e racial; deixando longe as eficácias dessas ações profiláticas que anulam os efeitos da imbecilização do indivíduo causando e fundamentando a pandêmica doença do racismo que dizimam as possibilidades efetivas de todo homem, preto ou branco, de tornar-se humano. 

A Pedagogia da Destruição é rito de passagem do animal conhecido como homo eligens, aquele que elege, escolhendo a senda estreita como a águia que dolorosamente decide pelas possibilidades de ampliar seu tempo de vida, para o homo humanus, como aquele que abandona seu casulo a fim de encarar a realidade com a visão da águia e a liberdade da borboleta, na primavera da escrita de um futuro pleno.

Nenhum comentário: