O sistema capitalista, com a
grotesca face que hoje possui, nasceu efetivamente no interior dos navios
negreiros; antes no empreendedorismo comercial não imperava a voracidade do predadorismo universal. Por isso o
capitalismo e o racismo tornaram-se irmãos siameses, fazendo com que atualmente
se confundam e identifiquemos somente um deles como causa das mazelas
sociais e o biocídio melanodérmico.
Desse modo ignoramos o racismo como
um problema real que grassa em nossa sociedade, na medida em que elegemos, de forma estupidamente
conveniente, a pobreza como a principal questão social que assola a humanidade: Enquanto ela, a pobreza, se resume ao ter que restringe as possibilidades do indivíduo no desempenho de suas funções como
cidadão, o racismo retira a humanidade da criatura de cor, coisificando-o
e o impedindo de ser sujeito de sua própria história.
Portanto, como em nossas fúnebres prisões,
o sistema capitalista e sua corte jurídica, tem cor: ele tem o delicado tom
da pombinha da paz (?) pairando sobre uma divina fronte, enquanto os
encarcerados por este sistema judicial capitalista possui o tom epidérmico de
um sinistro abutre ante repasto pós carnificina; um celebra a vida, enquanto o outro vive a
eterna morte em vida, e como aquele negro gato que morre sete vezes sete, todos
os sete dias da semana em que se levanta para viver seu anunciado funeral recomendado
com pompas e circunstâncias pelo sistema capital.
Desse modo, essa histórica cisão
entre preto e pobre, constatada e legitimada pela classe do conhecimento, que explicita
numa prosaica regra de três um resultado que confunde a pomposidade da
matemática como ciência exata ao mesmo tempo em que desafia a dicotômica lógica
filosófica, quando incute, através do senso comum reproduzido a partir do
discurso que justifica esse resultado que controla a subjetividade do indivíduo
como sujeito, sustentando dessa maneira, essa conjuntura capciosa que persiste
em impor-se como verdade única pré-fabricada e conceituada pelo
sistema.
Assim, o aval a desumanização é
validado, e sua falácia sustentada pelas instituições sociais alimentadas pelo
sistema capital, de modo que possa ser constantemente retroalimentada dentro
da voraz necessidade predadora formatadas no interior dos Tumbeiros; fabricando em série nesses tempos modernos, através da cultura de massa, uma
quantidade progressiva de pobres que disputam o não-lugar com os pretos, enquanto o capital vai muito bem, não por
acaso, de vento em popa, instalando indiscriminadamente a crise de identidade
entre afrodescendentes quase-preto ou quase-branco e preto-pobres, na medida em
que dissemina os valores europeizados da branquitude como únicos passíveis de sua aceitação como ser social.
Dessa maneira, o preto, que
normalmente é a maioria entre os pobres, naturalmente não se reconhece ou se
recusa a reconhecer-se como tal, no máximo se aceita temporariamente como pobre;
esvaziando e eliminando qualquer possibilidade de aniquilar aquilo que o mantém
atado as correntes da subjetividade no entre-lugar.
Enfim, o opressor tem relativo sucesso na manutenção dessa conjuntura
controlando a cultura, a história, e desse modo controlando as subjetividades desse povo, quando habilmente faz do oprimido seu aliado.
Um provérbio africano nos adverte,
com finíssima sutileza, sobre a inutilidade de semear-se em terreno alqueivado. Portanto, podemos inferir que, se
nossa educação se fundamenta no resultado dessa dicotomia capital que engrossa
as fileiras do senso comum, quando adota os disparates das falácias promulgadas
por esse ignóbil discurso, está naturalmente fadada a manter esse retumbante
fracasso escolar, que a muito ela própria critica nos incansáveis e inócuos debate
junto a seu corpo docente, sem nunca chegar, no entanto, a um denominador comum.
Enquanto mantivermos esse acordo de mentiras, como definia muito
bem o conceito de história o impetuosos general Bonaparte; enquanto adotarmos eventos da
historiologia significativos a branquitude e ao seu capital como sendo nossos,
quando nossa história não se focaliza nem se localiza nesses eventos; enquanto
aceitarmos a identidade outorgada a nossos pais e avós sequestrados, torturados
e mortos quando “trazidos” de seu lar original, permaneceremos alijados e
exilados socialmente.
Hoje comemoramos nossa condição de legítimos párias; retirantes
oficializados pelo sistema capital e suas instituições que desempenham com extrema
maestria suas funções de assediar, formatar e torturar, enquanto promovem
paralelamente assassinatos categóricos de afrodescendentes, sem os incômodos dos
questionamentos que porventura possam aflorar no seio dessa sociedade tão mal-educada e servil, como nunca se viu nesses vertiginosos tempos de relógio contemporâneo
dessa geração branca, imersa nas
facilidades da era digital e destituída de valores ancestrais e de valores adquiridos
pelas vivências; única forma que possibilitariam a oportunidade de possuir valores, além do “não” recebidos de pais protetores, carinhosos ou não, e paternalistas somente.
Sendo assim, a vivência da
realidade se choca abruptamente com sua realidade virtual, já que não possuí, como
seus pais possuíam, instrumentos possíveis para administrar o massacre
oligárquico a qual são submetidos cotidianamente como preto, como pobre e ambos. Dessa maneira não conseguem
lidar com essa morte social que os blindam na realidade nua e crua, a todo
instante em que apertam a tecla “Enter”, preferindo viver on-line, como forma
de fugir momentaneamente do massacrante instante real ao mesmo tempo em que
assimila o complexo de culpa enquanto assume, como voluntário fiel, a cadeira
de réu a ele conferido pelo sistema capital como troféu: é a idiotia recompensada
preconizada por Pavlov.
Sem uma pedagogia que se comprometa
a desconstruir essa Matrix, a fim de destruírem essas correntes forjadas unicamente
para manter a escravização mental do povo melanodérmico, a sociedade não
conhecerá o verdadeiro senso de coletivismo e cooperatividade; valores
africanos esquecidos nos escaninhos acadêmicos pela classe do conhecimento, nessa vaidosa senda de disputas para possuir
os rótulos e as medalhas do pseudo poder, concedidos como honrarias pelo sistema
capital, a fim de manter a fidelidade dos oprimidos a seu perverso programa de
opressão encoberto pelo vistoso papel do presente
grego oferecido durante as comemorações de todos os vintes de novembros negros,
onzes de outubros e domingos sangrentos em honra a massacres oficiais de pretos e pobres.
Só o educador que prezar pela pedagogia da Destruição como condição si ne qua non, poderá criar condições
para programar a pedagogia das Ausências.
Desse modo, finalmente poderá ser viabilizado o caminho preconizado por Paulo
Freire e sua contemporânea Pedagogia do
Oprimido, visto ser a maneira possível pela qual se prepara um terreno certo
para a certa semente.
Essa é a regra de três que foge do
princípio retórico e sofista que promove a dicotomia capital, atendendo a máxima
daquele filósofo egípcio que instruía a seus neófitos a necessidade de se emprestar seu barco para aqueles que não o
possuíam, a fim de atravessarem o rio, alertando aos que possuem o
conhecimento para que auxiliassem aos despossuídos do mesmo na travessia da
vida, fazendo alusão dessa mesma vida como sendo o trajeto entre as margens do
referido rio.
A pedagogia da destruição propõe a
aniquilação do barco do neófito, visto que ele foi construído propositalmente com
o intuito de resistir somente aos plácidos riachos Ypirangas das pseudos-independências, e nunca resistir aos oceanos
singrados pelos sinistros tumbeiros do capital. Portanto, é necessária a
decisão do educador para comprometerem-se nesse embarque, antes das voltas dadas
ao redor da árvore do esquecimento,
para que sejam voltas de recontextualização, e não da ressignificação comprometida
com os caprichos oligárquicos, para possibilitar uma nova realidade de vida desse neófito como sujeito pleno de si; sendo mais um louco assumido aos olhos do sistema.
A Pedagogia da Destruição, divergindo da engenhosa reengenharia da Pedagogia das Associações proposta por
Bruno Lattour, prepara a estreita e difícil passagem para a Pedagogia das Ausências, proposta por
Boaventura Santos Silva, efetivando o ciclo iniciado pela Pedagogia dos Oprimidos
proposta por Paulo Freire, visto que sem a destruição dos conceitos representativos
plantados nesse terreno fértil que é a mente do indivíduo, o caminho arborizado
e bem pavimentado pelo sistema capital ainda é via preferencial pelas
facilidades oferecidas nas divinas promessas de aceitação proposta a partir da assunção
da euro-identidade de fachada imposta em nome da democrática racial, propagada com
sucesso na falácia da cordialidade do racismo voluntário. Ou seja, de acordo
com o caldeirão do multiculturalismo capital, para atingir a igualdade são necessária
às diferenças; produzindo um paradoxo na medida em que essas mesmas diferenças são
os principais motivos que justificam e sustentam as desigualdades sociais e raciais.
Dessa maneira a pobreza simultaneamente encobre e
justifica o suplício melanodérmico, na medida em que a
cisão dos elementos preto/pobre dá lugar à esterilidade das ações que visão
promover o equilíbrio e a uma possível equidade social e racial; deixando longe
as eficácias dessas ações profiláticas que anulam os efeitos da imbecilização do
indivíduo causando e fundamentando a pandêmica doença do racismo que dizimam as
possibilidades efetivas de todo homem, preto ou branco, de tornar-se humano.
A Pedagogia da Destruição é rito de
passagem do animal conhecido como homo
eligens, aquele que elege, escolhendo a senda estreita como a águia que dolorosamente
decide pelas possibilidades de ampliar seu tempo de vida, para o homo humanus, como aquele que abandona
seu casulo a fim de encarar a realidade com a visão da águia e a liberdade da
borboleta, na primavera da escrita de um futuro pleno.


Nenhum comentário:
Postar um comentário