Outrora os negros eram escravizados, chicoteados, esquartejados, sangrados, emasculados, castrados, decapitados, estuprados, humilhados, acorrentados, seviciados, torturados cotidianamente, naturalmente, displicentemente, escandalosamente.
Suas feridas, embalsamadas por seus conhecimentos medicinais e por sua teimosia em prorrogar a vida sem banzo, sem suicídio, de cabeça erguida.
O pelourinho, testemunha da vida sofrida; o chicote, companheiro da lida; a dor, vestimenta da ferida encobrindo a melanina trucidada; estampada na face negra.
Cada dia, uma agonia; cada minuto, um insulto; para cada voz, um túmulo cavado por um algoz. Negro sem voz, calado: atroz. Negro sangrado, humilhado: com nós. Normal, banal; negro ao natural.
Se for negro, tem que ser humilhado. Se for negro, tem que ser animalizado. Se for negro tem que ser castrado.
A globalização democratizou a demonização a melanina, curando as feridas nas faces sofridas e esfolando a alma ensandecida, além de engatilhar o espírito maldito pintado no muro da vergonha, das lamentações, da agonia escrava na garganta.
Hoje o negro sofre a banalidade da discriminação, a naturalidade do preconceito, a normatização da humilhação.
Hoje, no lugar de correntes, sua alma é marcada por arames que comprimem sua honra.
No lugar do pelourinho, são as algemas que entorpece sua voz.
No lugar dos chicotes, os olhares encravados em seu corpo, de braços abertos, pendurado no calvário da inquisição.
Corpo negro, preconceito claro. Pele escura, igualdade obscura. Melanina, só na surdina.
Século 21 sem mistério algum, lei 171, ônibus 174; sem os 18 do forte, sem sorte nem norte; nem a candidez do almirante atravessando a ponte dos generais.
Era uma vez..., Cinderela...Era uma vez..., Camélia. Casas demolidas, negros desabrigados; desapropriados de dignidade e de respeito.
Camélia cheira cola, saindo da escola e vivendo de esmola.
Cinderela se esmera na penteadeira, sorrindo da lavadeira que canta besteira à luz da lareira.
Nosso folclore se colore, inflando o fole esfolado pelo som do chicote musicado no preconceito justificado, do eleitor endinheirado.
São essas as coisas mais lindas, mais cheias de graça; que vem e que passa pisando na raça algemada, cremada, a caminho do mar; do tumbeiro pra senzala.
Senzala high tech, senzala societ, soft e escroque.
Almas marcadas, cravadas, estropiadas, injuriada e humilhada.
Almas com marca registrada, apropriada, desapropriada; embriagada pela banalidade adquirida pela cultura da bestialidade ariana: a cor do cinismo, a cor da atrocidade, a cor do horror sem pudor.
A normatização do absurdo é regra social aceita, acolhida, assimilada e festejada nos dias 13 de Maio de todos os dias negros de todo negro.
Viva treze de Maio, viva princesa Isabel!!
Rompendo o silêncio histórico do povo melaninoso, protagonizando o outro ponto de vista de uma outra história que se evita ser contada, afrocentrizando o olhar paradigmático sobre a cultura oficialmente formatada, patenteada e legítimada como única.
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domingo, 18 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
NOITE FELIZ
Conheci um tal de Noel que sempre andava na telinha de minha TV, era idoso, barbudo, cabeludo, barrigudo e andava de pijama vermelho com alguns detalhes em branco. Tinha uma cara feliz, apesar de sempre subir nos telhados de casas alheias, nunca teve dificuldade com a polícia mineira. Sempre com o saco cheio de objetos de origem desconhecida, até hoje tem espaço na mídia por muito mais de quinze minutos; eu diria uns dois ou três meses no mínimo. Uma de suas músicas tema, falava que sempre vinha ao fim de cada ano e distribuía presentinhos para ricos e pobres; que sempre deixava tais presentes dentro dos sapatinhos. Eu acreditei... Deixei meu sapatinho, na janela do quintal... Quando tinha mais ou menos uns seis anos de idade. O tal sapatinho meio encardido, cor de burro quando foge, meio lusco-fusco, ansioso por ser completado com o objeto do desejo inconsciente.
O fato de imaginar que algo de bom estava para acontecer, algo que seria trazido para encher minha vida de alegria e de satisfação, criou em mim uma enorme expectativa. Como a da chegada de um ente querido, do ser amado, de um amigo, como uma gestante a espera de seu bebê. Lá estava o sapatinho sozinho numa noite escura, fria e lúgrume. Comemorando o aniversário da morte anunciada. Sapatinho amordaçado mudo de medo. Na imensidão escura ouvem-se apenas corujas, vira-latas e gatunos. Sapatinho abandonado, esperando desesperado pelo alvorecer da esperança. Mas a eternidade das horas escuras que emudece, amedronta e enlouquece, resiste, insiste e se impõe à promessa do bom velhinho, transformando-o num mero clown, enganador e ilusionista.
Hoje o sapatinho não cabe mais em meus pés, nem as promessas. Continuo a ouvir corujas, cães e gatos, esperando o alvorecer na estação da vida. Sem sapatinhos. O papai Noel este ano veio sujo, rasgado e sem dinheiro, além do saco cheio de ilusões. Na verdade seu nome nunca foi Noel, mas sim João, João ninguém da Silva; desdentado, desnutrido e desvairado. Vem largado sem verso, sem rima, sem rumo, sem lenço nem documento, pelas periferias malditas das cidades maravilhosas. Das ruas, dos Mc Donald, de bar em bar, vem catando latinhas de coca-cola, com cinco bocas, três cachorros, dois gatos e quatorze pombos para alimentar. Sua casa não tem paredes nem teto, não tem nada, nem onde se apoiar, somente um céu negro com estrelas coloridas. Papai Noel foi esquecido em cima de um banco sujo na Praça da Sé. Com fome e com frio em meio a uma milagrosa sobrevivência, ele tenta entender a brusca mudança de seu antigo mundo, para um mundo tão moderno. Perdidos em tais pensamentos ele adormece no gélido cimento cinza, sonhando com um céu colorido de estrelas negras. Agora ele não mais acredita em Deus nem em Diabo; desaprendeu a rezar. Conheceu Cristo ainda jovem, mas optou pelos caminhos de Buda. Só mais tarde caiu no mundo, na boemia, sambou descalço no chão de todos os santos, no terreiro da negra Ciata.
Quase canonizado pelo povo, nosso tão querido João Noel – filósofo, visionário, anarquista e alquimista, botou as barbas e as guias de molho e em fevereiro foi gastar sola de havaianas nas favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente nem com todos os guias, guizos e balangandães sua vida foi poupada, mas sua morte foi aplaudida de pé pelos miseráveis que gritavam aos berros:
- Senhor Noel, Noel de todos os santos, Noel dos Palmares, senhor do bem e do mal; é uma pena, mas... Aqui não tem natal!!!
Hoje minha janela está vazia, nem ao menos um vaso de flores primaveris. Outrora ainda debruçava sobre o batente a espera de uma estrela cadente que me concedesse um pedido. Mas como o clown ela ria da minha pueril esperança, zombando de minhas lágrimas noturnas. Sapatos de clown, pantufas de bichinhos, tão engraçadas como um atropelamento coletivo de crianças sobre semáforos frente à escola da vida. Até hoje não sei qual tipo de veículo me mortificou, ninguém anotou a placa do dito cujo. Sobrevivi. Hoje presto atenção às placas. Palhaços não lêem placas, apenas brincam de pilotar caminhão, enquanto um senhor feliz, vestido de vermelho, sobe na antena da minha, da sua, da nossa TV. O Cristo que vela pela minha favela, reside na zona sul, é loiro e tem olho azul; cercado de antenas por todos os lados. Sou o magrelo que mora ao lado, que não foi tão esperto para chegar mais perto, como aquele francês de Lion, o inglês de Oxford ou os santos do Vaticano. Nós, crioulos às vezes até ingerimos pão francês, mas cientes de que não seremos freguês do campus de Oxford, apesar de um dia acreditar nas promessas dos santos romanos do Vaticano. Sei que as antenas que irradiam pensamentos, captados pelo bom cidadão, transmite formatações em forma de diversão. Antenas protegidas pelo divino redentor de pedra, que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados em ordem unida a espera de uma chance de igualdade desigual. O cristo, de costas para a periferia e de frente para os indecentes que escravizam vontades em seu nome, sempre observa impassível a crueza e o desvalor da vida vendida, iluminada pela negra sombra do redentor. Através das antenas podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores, anunciando a aproximação de novos tumbeiros que adentram a Baía de todos os santos da Guanabara. Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, que revelam sob as águas de Março o túmulo dos amores-próprios. Assim se revela a favela da cor da tia Ciata que arrebata Onze Praças de morro acima, e quando esbranquiçada é derrubada de seu Castelo morro abaixo.
Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado e maltratado pela estupidez racional do animal, que reside na inconsciência da besta humana.
O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada numa face crioula escancarada, desdentada e escachada; a foto do cartão postal do natal tropical: em pose fetal, um aborto social.
O fato de imaginar que algo de bom estava para acontecer, algo que seria trazido para encher minha vida de alegria e de satisfação, criou em mim uma enorme expectativa. Como a da chegada de um ente querido, do ser amado, de um amigo, como uma gestante a espera de seu bebê. Lá estava o sapatinho sozinho numa noite escura, fria e lúgrume. Comemorando o aniversário da morte anunciada. Sapatinho amordaçado mudo de medo. Na imensidão escura ouvem-se apenas corujas, vira-latas e gatunos. Sapatinho abandonado, esperando desesperado pelo alvorecer da esperança. Mas a eternidade das horas escuras que emudece, amedronta e enlouquece, resiste, insiste e se impõe à promessa do bom velhinho, transformando-o num mero clown, enganador e ilusionista.
Hoje o sapatinho não cabe mais em meus pés, nem as promessas. Continuo a ouvir corujas, cães e gatos, esperando o alvorecer na estação da vida. Sem sapatinhos. O papai Noel este ano veio sujo, rasgado e sem dinheiro, além do saco cheio de ilusões. Na verdade seu nome nunca foi Noel, mas sim João, João ninguém da Silva; desdentado, desnutrido e desvairado. Vem largado sem verso, sem rima, sem rumo, sem lenço nem documento, pelas periferias malditas das cidades maravilhosas. Das ruas, dos Mc Donald, de bar em bar, vem catando latinhas de coca-cola, com cinco bocas, três cachorros, dois gatos e quatorze pombos para alimentar. Sua casa não tem paredes nem teto, não tem nada, nem onde se apoiar, somente um céu negro com estrelas coloridas. Papai Noel foi esquecido em cima de um banco sujo na Praça da Sé. Com fome e com frio em meio a uma milagrosa sobrevivência, ele tenta entender a brusca mudança de seu antigo mundo, para um mundo tão moderno. Perdidos em tais pensamentos ele adormece no gélido cimento cinza, sonhando com um céu colorido de estrelas negras. Agora ele não mais acredita em Deus nem em Diabo; desaprendeu a rezar. Conheceu Cristo ainda jovem, mas optou pelos caminhos de Buda. Só mais tarde caiu no mundo, na boemia, sambou descalço no chão de todos os santos, no terreiro da negra Ciata.
Quase canonizado pelo povo, nosso tão querido João Noel – filósofo, visionário, anarquista e alquimista, botou as barbas e as guias de molho e em fevereiro foi gastar sola de havaianas nas favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente nem com todos os guias, guizos e balangandães sua vida foi poupada, mas sua morte foi aplaudida de pé pelos miseráveis que gritavam aos berros:
- Senhor Noel, Noel de todos os santos, Noel dos Palmares, senhor do bem e do mal; é uma pena, mas... Aqui não tem natal!!!
Hoje minha janela está vazia, nem ao menos um vaso de flores primaveris. Outrora ainda debruçava sobre o batente a espera de uma estrela cadente que me concedesse um pedido. Mas como o clown ela ria da minha pueril esperança, zombando de minhas lágrimas noturnas. Sapatos de clown, pantufas de bichinhos, tão engraçadas como um atropelamento coletivo de crianças sobre semáforos frente à escola da vida. Até hoje não sei qual tipo de veículo me mortificou, ninguém anotou a placa do dito cujo. Sobrevivi. Hoje presto atenção às placas. Palhaços não lêem placas, apenas brincam de pilotar caminhão, enquanto um senhor feliz, vestido de vermelho, sobe na antena da minha, da sua, da nossa TV. O Cristo que vela pela minha favela, reside na zona sul, é loiro e tem olho azul; cercado de antenas por todos os lados. Sou o magrelo que mora ao lado, que não foi tão esperto para chegar mais perto, como aquele francês de Lion, o inglês de Oxford ou os santos do Vaticano. Nós, crioulos às vezes até ingerimos pão francês, mas cientes de que não seremos freguês do campus de Oxford, apesar de um dia acreditar nas promessas dos santos romanos do Vaticano. Sei que as antenas que irradiam pensamentos, captados pelo bom cidadão, transmite formatações em forma de diversão. Antenas protegidas pelo divino redentor de pedra, que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados em ordem unida a espera de uma chance de igualdade desigual. O cristo, de costas para a periferia e de frente para os indecentes que escravizam vontades em seu nome, sempre observa impassível a crueza e o desvalor da vida vendida, iluminada pela negra sombra do redentor. Através das antenas podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores, anunciando a aproximação de novos tumbeiros que adentram a Baía de todos os santos da Guanabara. Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, que revelam sob as águas de Março o túmulo dos amores-próprios. Assim se revela a favela da cor da tia Ciata que arrebata Onze Praças de morro acima, e quando esbranquiçada é derrubada de seu Castelo morro abaixo.
Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado e maltratado pela estupidez racional do animal, que reside na inconsciência da besta humana.
O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada numa face crioula escancarada, desdentada e escachada; a foto do cartão postal do natal tropical: em pose fetal, um aborto social.
Cotidiano
Agora a cidade dorme, e o sonho acorda o super-herói para dormir sua vida cansada de esperança; Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer..., Bem...zzz..Me...zzz...queezzz...zzzzzz...!!! Em Brasília 19 horas...!!! Plim,plim..!! Ordem e progresso..!!Brazil, zil, zil, zil...200 milhões em ação, pra frente Brazil, salve a seleção...!!Beba coca-cola!! É gooooooolll..!!! Lá em cima daquele morro passa boi passa boiada...Funk Brazzil..zzzil...zzzzil...zill..zzziillll..zzz...trararara...traa...trarara...Nosso herói já acordar se desviando de balas perdidas, vive azul de fome, sem dinheiro nem pr’um cafezinho, menos ainda para pagar a passagem de ônibus para chegar ao “trampo”. O infeliz, chega em casa e vê na TV a velha novidade de que outra vez, de novo, novamente os deputados, que só vão ao trabalho quando é para votar o próprio aumento salarial, como sempre aumentaram seus dividendos em modestos 500%. O “herói” assistindo a tal novidade fica vermelho de raiva; só ele paga impostos, só ele paga suas contas, só ele cumpre a famigerada responsabilidade fiscal e só ele sofre arrocho salarial. Nosso herói, quando liga a TV fica branco ante as notícias de reformas, reuniões do COPOM, atos secretos, decretos e reedição de medidas provisórias, que de provisória só tem o nome. Como se tudo isso não bastasse, na subida do morro sempre encontra com uns pêemes que lhe deixam roxo de pancadas, só para lembrar que ele não passa de um negro qualquer. Nessas horas o verde da esperança só se faz presente na bandeira brazilleira, pois nem na rezadeira nosso herói consegue deixar de sorrir amarelo. Para ele o tempo se faz sempre cinza-escuro. Quando não está meio lusco-fusco ou cor-de-burro-quando-foge. Mas, ele espera um dia espalhar as cinzas da desgraça, regatando o verde da esperança, trazendo de volta o vermelho fogo da paixão. Mesmo sendo preto, atingir o alvo “branco” da paz. Só assim vai ficar tudo azul, reluzindo o amarelo-ouro do fastio. No momento sua memória deu um branco e ele vive num permanente blecaute, pois o arco-íris esvaeceu-se à sua frente até o completo delir, junto à tempestade invernal. Tá tudo escuro, claro mesmo só o irracional e irascível racismo. O pote do amarelo-ouro, transforma-se em relógio-despertador, que berra alto em seus tímpanos anunciando a hora de ir trabalhar.
Tá na hora e nosso herói, um “escravo de Jó”, tem que “trampar”. A vida de pintor de placas de sinais de trânsito não é nada fácil. Mas não é qualquer sinal, semáforo, sinaleira ou farol que o impedirá de tocar seu “Show de realidade”. Na vida desse heroi cara-pintada (de palhaço), tudo acontece ao vivo e a cores, mesmo que seja em cores – mortas. Afinal, este boa-pinta é brasileiro..., Ele não “resiste” nunca, além do mais, sua pintura de guerra já não causa mais tanto frisson. Só lhe resta o vermelho da vergonha na face, que lhe desvanece o semblante, sangrando a existência na agonia da vida. Quanto a mim, um crioulo de cara preta, sigo a palo seco pela aridez do lotado deserto urbano, este nosso meio-ambiente morto e enterrado pelo egocentrismo antropofágico desumano dos humanos. Não é preciso estar no mundo da lua para notar que a terra azul se transformou num mar vermelho, sem trilha nem caminho de retorno para escapar do abismo de si mesmo. Nem as lágrimas de arrependimento misturadas as de crocodilos fazem cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de viver fora desse jardim de fosseis urbanos; esse Oásis de pensamentos jurássicos que a muito extinguiu a sana da chama terna da vida de cidade grande. Agora a aridez das emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados de Cupido, fazendo os yuppes saírem das cavernas pútridas da modernidade virtual para a crueldade do mundo real, desmascarados e completamente nus.
Peles negras, brancas, amarelas e vermelhas ressequidas de afetos, transformadas em fosseis, são mortas pela vida e ressuscitadas para a morte através do sangue azul e vermelho centrifugados pelo ranger de dentes, e solidificados pela palavra cuspida nas faces embrutecidas pela agonia egocêntrica, dando o tom cinzento do crepúsculo da zona sul a zona norte.
O sal do Sugar Loaf arde na boca do Redentor de pedra que num esforço supremo, como o abutre de Prometeu, se desgarra de seu pedestal lançando-se sobre os fósseis humanos no afã de abraçá-los uma última vez, arrancando-lhes seu sangue e quebrando os ossos, enquanto lhes trituram as carnes num sinal derradeiro de afago e afeto.
“Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar...” Assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de mão dupla transversal. Hiroshima é aqui, Nagasak é ali, quanto ao Hawai e o Haiti...Não sei, morri...Sentindo o baque d’uma bala nas costas, enquanto olhava um carro alegórico atravessando a Sapucaí!!! Enquanto eu me acabava, a guerra começava... booommm!!!
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça... É essa historinha escrita na pedra da praça, na lápide de mais um herói desconhecido, sobre o envelhecido monumento dos pracinhas!!! Foi assim que, finalmente um herói decidiu acordar para livrar-nos da opressão dos poderosos. Surge então o maior de todos os heróis: não é o super-Mam, menos ainda o chapolim colorado, nem mesmo Charlie Chaplin. Estamos falando de um herói que reúne a força de todas as crenças, verdades verdadeiras e falsas, além de todos os dogmas e paradigmas. Calculista como batmam, frio como o homem de gelo, nervos de aço como qualquer super, além de carregar as forças sagradas de sansão em seus longos dreads loaks. O mais importante de tudo isso, é o que faz dele um ser mais diferente que os diferentes: ele não tem medo do escuro; já que esteve no escuro e também é escuro. Ou melhor, ele é preto, é negão, um verdadeiro tição. Sim, é dele que estamos falando; do Superstição. O maior super-herói negro de todos os tempos; tão poderoso que consegue supera até mesmo a kliptonita branca, com seu super fashion dread loaks.
Ele não usa máscara, justamente para não ser reconhecido. A combinação da brancura de seus dentes com a escuridão de sua pele provocam reações inusitadas e controversas; quando esse ser entra numa loja de um shopping qualquer, todas as câmeras seguem seus passos; também pelas ruas, esquinas, avenidas, bancos, ônibus, e supermercados. Além de todos os vendedores, gerentes e até mesmos clientes lhes dispensarem especial atenção, enquanto seguram com firmeza suas bolsa e carteiras. Quando ele sai às ruas, os olhares de transeuntes, de seguranças e de policiais cravam em suas costas como lanças pontiagudas a penetrar-lhe as entranhas. É a mesma coisa em seu trabalho, com seus vizinhos e alguns poucos amigos. Mas seus Dread’s têm resistido bravamente, provando sua força e provocando outras forças. Todos os dias ele prova pra si e para o mundo sua competência e criatividade; todos os dias ele renasce do salário mínimo, todos os dias ele acorda para despertar seu sonho adormecido; todos os dias ele derrota seus pesadelos à luz do dia-a-dia. Os santos arianos católicos afirmam em suas bulas, que seres negros não têm alma, portando deus permite que os mesmos sejam escravos. Todo o mundo já aceitou e incorporou essa verdade, menos o Superstição, que continua sua luta inglória e solitária pra provar que existe e tem alma; Seja no Rio, No Brasil ou no Mundo, mesmo sendo um herói estrangeiro em sua própria casa, mesmo nascido do preto e do branco, mesmo sendo a síntese mestiça do mundo.
Pelo menos agora com todas as câmeras em seu encalço, ele tem a oportunidade de aparecer no paredão das lamentações da vida e não ser apenas mais um reles herói desconhecido. Como a macaquinha chita, coadjuvante de Tarzan junto à loira Jane, ele consegue ter seus quinze minutos de fama efêmera, justificando assim seu respeitável nome: Superstição.
Ele, um supersticioso incurável, acredita na vida, num mundo melhor, na liberdade, fraternidade e igualdade. Acredita até mesmo no direito à vida, a expressão e em poder ir e vir quando bem lhe convier. Um simplório e prosaico herói protagonista de uma cruel tragédia tupiniquim: Wall Street lhe ordena que corra, mas como um Saci ele só consegue capengar; Wall Street lhe promete saúde, mas como o Saci ele não larga seu cachimbo (de crak). Wall Street lhe cobra que pense, mas como o saci ele é apenas mais um traquina, sendo apenas mais uma mula sem cabeça.
Quando pensa, ele só consegue imaginar como fazer para conseguir o próximo almoço, lanche ou jantar. Quando corre, é porque tem um bando de policiais e/ou salteadores e cobradores a lhe acossar. Sua figura esbelta e esguia se deve a ausência de nutrientes e aos constantes exercícios de fuga do poder “constituído”.
Sua casa é a mata Atlântica; cidade-favela mad in Rio. Sua cama é feita de asfalto, seu teto é de estrelas e seu toalete é o bueiro de qualquer esquina escura ou clara, feito às claras.
Do alto de sua luxuosa torre gêmea, Mister gringo o embaixador, classifica nosso herói de bárbaro, de rato de esgoto, uma figura escatológica que precisa ser banida da sociedade. Mesmo já estando banido de seu lar, sendo violentado e execrado em todos os sentidos, nosso herói ainda sorri ante as câmeras de segurança e de turistas; um sorriso negro, um sorriso amarelo, sorriso de clown frente a sorrisos de crocodilo ante repasto.
O Rio é puro sorriso, constituídos de gente boa, gente linda e que vive feliz, com balas perdidas, estupros, assaltos e morte ao vivo e a cores. Por isso viva o Rio, vamos nos divertir e aparecer nas próximas passeatas pela paz, contra a violência, pela vida, pelo meio-ambiente, etc, etc e etc. No Rio o bom de viver ao vivo é morrer on-line; é a modernidade contemporânea do século 21 chegando a selva urbana tupiniquim, através das moderníssimas câmaras de gás tecnológicas chamadas de máquinas globalizatórias; cortesia dos hitlerianos administradores do mundo pós-moderno. Afinal essas arcaicas figuras folclóricas, de tão ultrapassadas fizeram com que as superstições ficassem totalmente démodé; é a vida, é a evolução, é o progresso e contra a ordem e o progresso não há Superstição que resista! Será!!?? Preparem as câmeras, assistam o paredão e votem na onda que provocar o maior e mais engraçado caixote. Afinal, sem platéia não existe espetáculo e já que a vida é um palco...!!! Ser platéia ou protagonista é uma questão simples de escolhas complexas! De máscaras ou desnudo, de preto ou de branco, de tudo isso ou nada disso, sendo ou não sendo. Localize-se em seu espaço, descobrindo seu mundo, explorando sua geografia encefálica cinzenta e coronariana, fazendo sua trilha entre as delicadas minas explosivas no terreno da vida morta em que se tornou esta maravilhosa cidade-sepulcro; tumbeiro de heróis.
Resta agora um olhar perdido no horizonte a procura de algo desvairado no próprio ser: sua esperança. Esperança em algo abstrato, inexistente, que se revela metamorfoseada como os Jardins de Tântalo , do Edem, como Utopia, Nova Atlântida, Shangri-lá ou a terra do Nunca. Agora tais mundos se tornaram os principais orbes do nosso sistema planetário encefálico. Nele a lua cheia de mel, temperada com açúcar de fel, se tornou o centro.
Esses planetas são formados de matérias importadas, ancestrais, diferentes do material tácito e orgânico formador do seu núcleo. Portanto seu invólucro mascara sua real composição e essa mesma escaramuça denuncia a barreira virtual que envolve seu núcleo vital, quando aponta uma órbita circunscrita a si mesmo; caminho que leva ao eterno retorno. Enquanto o núcleo latente jaz adormecido - submerso em sonhos de vida, esses planetas anões estão completos de si por fora, sendo micro-gigantes por dentro.
São mundos excepcionais embotados por suas próprias sombras, acreditando numa Deusa chamada Esperança: Deusa que rege o futuro; protetora da vida como ela é: fria como o próprio espaço, distante como as galáxias, vazia como o vácuo e virtual como a própria Deusa.
São mundos de órbitas fixadas na mutação de devires pré-fixados por créditos, que são valorados de acordo com o pregão da vida.
A Deusa Esperança capitaneia a Nau Capitania , pirateando o espaço vital do coração dos Jardins de Tântalo. Deusa Esperança: protetora dos ladrões, suprindo-os com maestria durante suas fraudulentas vidas quando implanta no coração de suas vítimas um renovado porvir. A Deusa os cria e os alimenta num ciclo ad infinitum nos vastos campos planetários, fertilizados pelos insanos raios lunares. A sementeira da Esperança fornece suprimentos perpétuos para salteadores e vigaristas da pior espécie, ela é a Deusa irmã da loucura e prima do sono profundo, senhora dos fracos e dos oprimidos, dona do coração dos tolos. Subjuga os pais, os amantes, os sonhadores e todos aqueles que acreditam sem buscar. Como tarântula, Tântalo os envolve em sua teia, enquanto a Esperança assiste a primavera se definhar e suas forças se exaurirem encarcerando a razão. Assim ela festeja com Nigreton Hypnos sua vitoriosa supremacia junto a sua corte; os emotivos e os espectadores.
Das pedras do Arpoador se vislumbra lá no espaço, o pontinho luminoso da inalcançável Esperança, reflete nos olhos da platéia distante, noturnamente melancólica. O desenvolvimento humano, com toda sua evolução tecnológica, ainda não criou um meio de transportar o homem à terra firme, afim de finalmente fazer com que ponha os pés no chão. Assim ele continua como platéia – com cara de paisagem, assistindo o futuro passar ao largo, como folha de outono jogada ao léu pelo mesmo vento norte que acende as velas da razão.
Tá na hora e nosso herói, um “escravo de Jó”, tem que “trampar”. A vida de pintor de placas de sinais de trânsito não é nada fácil. Mas não é qualquer sinal, semáforo, sinaleira ou farol que o impedirá de tocar seu “Show de realidade”. Na vida desse heroi cara-pintada (de palhaço), tudo acontece ao vivo e a cores, mesmo que seja em cores – mortas. Afinal, este boa-pinta é brasileiro..., Ele não “resiste” nunca, além do mais, sua pintura de guerra já não causa mais tanto frisson. Só lhe resta o vermelho da vergonha na face, que lhe desvanece o semblante, sangrando a existência na agonia da vida. Quanto a mim, um crioulo de cara preta, sigo a palo seco pela aridez do lotado deserto urbano, este nosso meio-ambiente morto e enterrado pelo egocentrismo antropofágico desumano dos humanos. Não é preciso estar no mundo da lua para notar que a terra azul se transformou num mar vermelho, sem trilha nem caminho de retorno para escapar do abismo de si mesmo. Nem as lágrimas de arrependimento misturadas as de crocodilos fazem cessar o brotar de vidas secas, regadas pela sede de viver fora desse jardim de fosseis urbanos; esse Oásis de pensamentos jurássicos que a muito extinguiu a sana da chama terna da vida de cidade grande. Agora a aridez das emoções faz brotar espinhos nos músculos anabolizados de Cupido, fazendo os yuppes saírem das cavernas pútridas da modernidade virtual para a crueldade do mundo real, desmascarados e completamente nus.
Peles negras, brancas, amarelas e vermelhas ressequidas de afetos, transformadas em fosseis, são mortas pela vida e ressuscitadas para a morte através do sangue azul e vermelho centrifugados pelo ranger de dentes, e solidificados pela palavra cuspida nas faces embrutecidas pela agonia egocêntrica, dando o tom cinzento do crepúsculo da zona sul a zona norte.
O sal do Sugar Loaf arde na boca do Redentor de pedra que num esforço supremo, como o abutre de Prometeu, se desgarra de seu pedestal lançando-se sobre os fósseis humanos no afã de abraçá-los uma última vez, arrancando-lhes seu sangue e quebrando os ossos, enquanto lhes trituram as carnes num sinal derradeiro de afago e afeto.
“Foi o Rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar...” Assim mais um cogumelo atômico é servido à Via Láctea, nossa Via de mão dupla transversal. Hiroshima é aqui, Nagasak é ali, quanto ao Hawai e o Haiti...Não sei, morri...Sentindo o baque d’uma bala nas costas, enquanto olhava um carro alegórico atravessando a Sapucaí!!! Enquanto eu me acabava, a guerra começava... booommm!!!
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça... É essa historinha escrita na pedra da praça, na lápide de mais um herói desconhecido, sobre o envelhecido monumento dos pracinhas!!! Foi assim que, finalmente um herói decidiu acordar para livrar-nos da opressão dos poderosos. Surge então o maior de todos os heróis: não é o super-Mam, menos ainda o chapolim colorado, nem mesmo Charlie Chaplin. Estamos falando de um herói que reúne a força de todas as crenças, verdades verdadeiras e falsas, além de todos os dogmas e paradigmas. Calculista como batmam, frio como o homem de gelo, nervos de aço como qualquer super, além de carregar as forças sagradas de sansão em seus longos dreads loaks. O mais importante de tudo isso, é o que faz dele um ser mais diferente que os diferentes: ele não tem medo do escuro; já que esteve no escuro e também é escuro. Ou melhor, ele é preto, é negão, um verdadeiro tição. Sim, é dele que estamos falando; do Superstição. O maior super-herói negro de todos os tempos; tão poderoso que consegue supera até mesmo a kliptonita branca, com seu super fashion dread loaks.
Ele não usa máscara, justamente para não ser reconhecido. A combinação da brancura de seus dentes com a escuridão de sua pele provocam reações inusitadas e controversas; quando esse ser entra numa loja de um shopping qualquer, todas as câmeras seguem seus passos; também pelas ruas, esquinas, avenidas, bancos, ônibus, e supermercados. Além de todos os vendedores, gerentes e até mesmos clientes lhes dispensarem especial atenção, enquanto seguram com firmeza suas bolsa e carteiras. Quando ele sai às ruas, os olhares de transeuntes, de seguranças e de policiais cravam em suas costas como lanças pontiagudas a penetrar-lhe as entranhas. É a mesma coisa em seu trabalho, com seus vizinhos e alguns poucos amigos. Mas seus Dread’s têm resistido bravamente, provando sua força e provocando outras forças. Todos os dias ele prova pra si e para o mundo sua competência e criatividade; todos os dias ele renasce do salário mínimo, todos os dias ele acorda para despertar seu sonho adormecido; todos os dias ele derrota seus pesadelos à luz do dia-a-dia. Os santos arianos católicos afirmam em suas bulas, que seres negros não têm alma, portando deus permite que os mesmos sejam escravos. Todo o mundo já aceitou e incorporou essa verdade, menos o Superstição, que continua sua luta inglória e solitária pra provar que existe e tem alma; Seja no Rio, No Brasil ou no Mundo, mesmo sendo um herói estrangeiro em sua própria casa, mesmo nascido do preto e do branco, mesmo sendo a síntese mestiça do mundo.
Pelo menos agora com todas as câmeras em seu encalço, ele tem a oportunidade de aparecer no paredão das lamentações da vida e não ser apenas mais um reles herói desconhecido. Como a macaquinha chita, coadjuvante de Tarzan junto à loira Jane, ele consegue ter seus quinze minutos de fama efêmera, justificando assim seu respeitável nome: Superstição.
Ele, um supersticioso incurável, acredita na vida, num mundo melhor, na liberdade, fraternidade e igualdade. Acredita até mesmo no direito à vida, a expressão e em poder ir e vir quando bem lhe convier. Um simplório e prosaico herói protagonista de uma cruel tragédia tupiniquim: Wall Street lhe ordena que corra, mas como um Saci ele só consegue capengar; Wall Street lhe promete saúde, mas como o Saci ele não larga seu cachimbo (de crak). Wall Street lhe cobra que pense, mas como o saci ele é apenas mais um traquina, sendo apenas mais uma mula sem cabeça.
Quando pensa, ele só consegue imaginar como fazer para conseguir o próximo almoço, lanche ou jantar. Quando corre, é porque tem um bando de policiais e/ou salteadores e cobradores a lhe acossar. Sua figura esbelta e esguia se deve a ausência de nutrientes e aos constantes exercícios de fuga do poder “constituído”.
Sua casa é a mata Atlântica; cidade-favela mad in Rio. Sua cama é feita de asfalto, seu teto é de estrelas e seu toalete é o bueiro de qualquer esquina escura ou clara, feito às claras.
Do alto de sua luxuosa torre gêmea, Mister gringo o embaixador, classifica nosso herói de bárbaro, de rato de esgoto, uma figura escatológica que precisa ser banida da sociedade. Mesmo já estando banido de seu lar, sendo violentado e execrado em todos os sentidos, nosso herói ainda sorri ante as câmeras de segurança e de turistas; um sorriso negro, um sorriso amarelo, sorriso de clown frente a sorrisos de crocodilo ante repasto.
O Rio é puro sorriso, constituídos de gente boa, gente linda e que vive feliz, com balas perdidas, estupros, assaltos e morte ao vivo e a cores. Por isso viva o Rio, vamos nos divertir e aparecer nas próximas passeatas pela paz, contra a violência, pela vida, pelo meio-ambiente, etc, etc e etc. No Rio o bom de viver ao vivo é morrer on-line; é a modernidade contemporânea do século 21 chegando a selva urbana tupiniquim, através das moderníssimas câmaras de gás tecnológicas chamadas de máquinas globalizatórias; cortesia dos hitlerianos administradores do mundo pós-moderno. Afinal essas arcaicas figuras folclóricas, de tão ultrapassadas fizeram com que as superstições ficassem totalmente démodé; é a vida, é a evolução, é o progresso e contra a ordem e o progresso não há Superstição que resista! Será!!?? Preparem as câmeras, assistam o paredão e votem na onda que provocar o maior e mais engraçado caixote. Afinal, sem platéia não existe espetáculo e já que a vida é um palco...!!! Ser platéia ou protagonista é uma questão simples de escolhas complexas! De máscaras ou desnudo, de preto ou de branco, de tudo isso ou nada disso, sendo ou não sendo. Localize-se em seu espaço, descobrindo seu mundo, explorando sua geografia encefálica cinzenta e coronariana, fazendo sua trilha entre as delicadas minas explosivas no terreno da vida morta em que se tornou esta maravilhosa cidade-sepulcro; tumbeiro de heróis.
Resta agora um olhar perdido no horizonte a procura de algo desvairado no próprio ser: sua esperança. Esperança em algo abstrato, inexistente, que se revela metamorfoseada como os Jardins de Tântalo , do Edem, como Utopia, Nova Atlântida, Shangri-lá ou a terra do Nunca. Agora tais mundos se tornaram os principais orbes do nosso sistema planetário encefálico. Nele a lua cheia de mel, temperada com açúcar de fel, se tornou o centro.
Esses planetas são formados de matérias importadas, ancestrais, diferentes do material tácito e orgânico formador do seu núcleo. Portanto seu invólucro mascara sua real composição e essa mesma escaramuça denuncia a barreira virtual que envolve seu núcleo vital, quando aponta uma órbita circunscrita a si mesmo; caminho que leva ao eterno retorno. Enquanto o núcleo latente jaz adormecido - submerso em sonhos de vida, esses planetas anões estão completos de si por fora, sendo micro-gigantes por dentro.
São mundos excepcionais embotados por suas próprias sombras, acreditando numa Deusa chamada Esperança: Deusa que rege o futuro; protetora da vida como ela é: fria como o próprio espaço, distante como as galáxias, vazia como o vácuo e virtual como a própria Deusa.
São mundos de órbitas fixadas na mutação de devires pré-fixados por créditos, que são valorados de acordo com o pregão da vida.
A Deusa Esperança capitaneia a Nau Capitania , pirateando o espaço vital do coração dos Jardins de Tântalo. Deusa Esperança: protetora dos ladrões, suprindo-os com maestria durante suas fraudulentas vidas quando implanta no coração de suas vítimas um renovado porvir. A Deusa os cria e os alimenta num ciclo ad infinitum nos vastos campos planetários, fertilizados pelos insanos raios lunares. A sementeira da Esperança fornece suprimentos perpétuos para salteadores e vigaristas da pior espécie, ela é a Deusa irmã da loucura e prima do sono profundo, senhora dos fracos e dos oprimidos, dona do coração dos tolos. Subjuga os pais, os amantes, os sonhadores e todos aqueles que acreditam sem buscar. Como tarântula, Tântalo os envolve em sua teia, enquanto a Esperança assiste a primavera se definhar e suas forças se exaurirem encarcerando a razão. Assim ela festeja com Nigreton Hypnos sua vitoriosa supremacia junto a sua corte; os emotivos e os espectadores.
Das pedras do Arpoador se vislumbra lá no espaço, o pontinho luminoso da inalcançável Esperança, reflete nos olhos da platéia distante, noturnamente melancólica. O desenvolvimento humano, com toda sua evolução tecnológica, ainda não criou um meio de transportar o homem à terra firme, afim de finalmente fazer com que ponha os pés no chão. Assim ele continua como platéia – com cara de paisagem, assistindo o futuro passar ao largo, como folha de outono jogada ao léu pelo mesmo vento norte que acende as velas da razão.
Travessia
Quantos kilômetros têm da garota de Ipanema à Menina do Subúrbio?
Quantos momentos, cartões de créditos e sentimentos?
Quantos shoppings ou loja de departamentos?
Quantos documentos?
Quantos insanos, insumos e insultos?
Quantas praias, Rios e valões?
Quantas vidas e depressões?
Choros..., Cem razões?
Formaturas e travessuras...
Táxi ou caminhão?
Strogonof com camarote? Ou farinha com feijão?
Qual é a coisa mais linda, mais cheia de graça?
A que leva tapa na cara, sem mágoa e sem mão?
Ou a que vai de bondinho, ao Redentor, ao dois irmãos?
Quantas vistas sinistras? Quantos turbilhões?
Quantas faces escuras? Quantas agruras?
Quantas flores de Camélia? Quantas Cinderelas?
Quantas princesas negras descendo o morro ou pedindo socorro e levando esporro?
Quantos cabelos esticados depois de aloirados, cheirando a fumaça de cigarro de motel após o despejo do quarto do desterro?
Quantos enterros depois da balada? Quantas noitadas, notícias e chegadas?
Modelos...Padrões...Apagões...Apelações...
Garota de Ipanema e Menina do Subúrbio...
Elevador social e de serviço...
Trabalho ou compromisso?
Uma sobe, outra desce;
Entre eterno Spa e interminável Stresse...
Uma sonha, a outra esquece...
A oposta aposta na ilusão, enquanto a outra deleta a emoção...
Do Subúrbio a zona sul...?
Muito chão...E céu azul...!!!
Quantos momentos, cartões de créditos e sentimentos?
Quantos shoppings ou loja de departamentos?
Quantos documentos?
Quantos insanos, insumos e insultos?
Quantas praias, Rios e valões?
Quantas vidas e depressões?
Choros..., Cem razões?
Formaturas e travessuras...
Táxi ou caminhão?
Strogonof com camarote? Ou farinha com feijão?
Qual é a coisa mais linda, mais cheia de graça?
A que leva tapa na cara, sem mágoa e sem mão?
Ou a que vai de bondinho, ao Redentor, ao dois irmãos?
Quantas vistas sinistras? Quantos turbilhões?
Quantas faces escuras? Quantas agruras?
Quantas flores de Camélia? Quantas Cinderelas?
Quantas princesas negras descendo o morro ou pedindo socorro e levando esporro?
Quantos cabelos esticados depois de aloirados, cheirando a fumaça de cigarro de motel após o despejo do quarto do desterro?
Quantos enterros depois da balada? Quantas noitadas, notícias e chegadas?
Modelos...Padrões...Apagões...Apelações...
Garota de Ipanema e Menina do Subúrbio...
Elevador social e de serviço...
Trabalho ou compromisso?
Uma sobe, outra desce;
Entre eterno Spa e interminável Stresse...
Uma sonha, a outra esquece...
A oposta aposta na ilusão, enquanto a outra deleta a emoção...
Do Subúrbio a zona sul...?
Muito chão...E céu azul...!!!
Da Lei 7.716/89 a lei 11645/08
Gesto nobre é digno de Rei e gesto pobre é coisa de preto. No plebiscito realizado no ano de 1993, para se escolher a forma de governo que os brasileiros desejavam para nosso país, mais de 60% votaram na monarquia. Votaram naqueles aristocratas que dilapidaram o país, que dizimaram um povo além de escravizar outro; transformando os sobreviventes desse genocídio em mortos-vivos.
Que filhos da pátria são esses que vêem na sua mãe (a mãe África) e no estupro de Lucy , genitora dos afro-brasileiros, uma vadia sem lar, reduzindo-a a uma caricatura de Geni . Porque o Brasil precisa decretar uma lei para adestrar uma consciência inexistente; a consciência da alforria, a consciência negra. Porque a vergonha de ser negro, imposta pela representação do preto-pobre-feio-burro-escravo, persiste para além dos livros didáticos, paradidáticos e midiáticos naturalizado pelo senso-comum.
Em nossa sociedade de príncipes e mendigos o preconceito não é crime, uma vez que não pode ser medido nem pesado. Nós, os assalariados, somos filhos dos escravos libertos largados pelas ruas, becos e vielas do Brasil pós-abolição. Incrivelmente tal abolição veio acompanhada, dois meses após especificamente, pela famigerada lei da terra, dando posse da mesma terra aos possuidores de rendas. Obviamente não houve nenhum crime de Racismo ou de Preconceito nessa lei, visto que em nenhum momento se mencionou alguma coisa sobre pessoas de cor; assim como a maioria esmagadora das leis brasileiras, confeccionadas especificamente para criação e manutenção de privilégios de quem já os possuem, além do achincalhamento dos despossuídos; tudo muito natural, aceitável, normal.
Por isso nós, os Negros, somos os marginas, os parias, a ameaça que caminha pelas ruas escuras dessa sociedade que se protege e se exime através do sentimento do preconceito, já que, convenientemente, tal sentimento não passível de criminalização. Portanto, conclui-se que no Brasil as leis venham especificamente para mudar o suficiente para que tudo possa continuar está. Se a mudança de paradigmas se encontra na Educação..., Que se desconfigure a educação. Afinal, é a Educação que muda a pessoa; e são as pessoas que mudam o mundo. Enquanto não se transforma essa escola-tijolo em escola-gente, continuamos a sermos humanos carentes e indecentes, afogados em normas regras, leis, bulas e fórmulas; prova de nosso estrondoso fracasso como seres humanos: Lucy Dingines com seu diploma de Hominídeo, mãe e mulher, que inspiram as Rosas Parker e Luizas Mahim, mostra o caminho do Tronco genealógico do respeito à vida, as diferenças e a si próprio como sujeito construtor da própria realidade. O tronco da mesma árvore em que o escravo circulava nove vezes para esquecer de si, de sua história como homem, passando a condição de coisa, de objeto pertencente a um infame caucasiano.
A educação pública outorgou para si o mesmo papel dessa árvore de outrora; educação eugenista, baseado no preconceito legal, normatizado e naturalizado pelo senso comum.
Luiza Mahim não foi uma princesa burguesa assim como princesa Isabel nunca foi Princesa guerreira para que pudesse libertar alguém de alguma coisa. Esse exemplo ilustra a tendenciosidade sacana da história contada pelos vencedores, donos de terras griladas, de mansões, donos do Brasil, da estatística e da opinião pública. Cuidadosamente esses “senhores” cuidaram para que fossem excluídos dessa mesma história, a participação dos verdadeiros construtores da nação: os negros e os indígenas. Assim como cuidam, através da educação e da religião, para que os mesmos continuem alijados do processo pleno de cidadania.
A Cleópatra hollywoodiana tornou-se branca de olhos azuis, além de cabelos intitulados de “bom”; a Rainha de Sabá assumiu seu branqueamento bíblico-ocidental, assim como Jesus de Nazaré; representado como um típico hippie americano, mesmo tendo nascido numa geografia de Hamas e Talibãns.
Falar de anjos loiros e rainhas brancas seria redundante numa sociedade movida pelo preconceito; afinal isso é tão natural. Somente o negro é antinatural nesse contexto canibal. A antropofagia do respeito é estado de direito, e direito adquirido não se discute, se acata. Nossa justiça se divide em estado de direito para uns, e estado de exceção para outros. O degradé melanínico aliado à condição social, tornou-se atualmente o único documento aceito como passaporte para a alforria.
Assim, quando a monarquia chegar, será possível a cada indivíduo, finalmente oficializar sua condição de Príncipe ou de Mendigo; saberemos então quem são os verdadeiros filhos da Pátria.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Ecologia da moral
Nas bancas de jornal, das esquinas e Avenidas urbanas cosmopolitas, pode-se comprar livros e revistas encadernados e encapados com mentiras inocentes.
Mentiras rosa, mentiras verdes e azuis; floridas, perfumadas e coloridas, a preço módico, com juros extorsivos, achacantes e escorchantes. Lindas mentiras grafadas com letras douradas, apresentadas com face límpida, por mentes brilhantes, no jornal das sete, das oito, das onze e meia e afim.
A maquiagem sorridente do repórter, transbordante de simpatia formatada, se torna verdade absoluta e incorruptível, nós fazendo esquecer totalmente do ônus sem bônus, do “patere legem quam ipse tulisti si” (sofre a lei que tu mesmo elaboraste). A mentira sozinha não assusta, nem causa sequer arranhadura na ética, ela não é nada. Mas a mentira revestida de inocência é quase imbatível, é gigante, é tudo. Tudo que você espera, tudo que você deseja, tudo que você quer, sem meias verdades; uma mentira inteira, sem medo de mostrar a cara. Ela se encontra nas primeiras páginas, estampada na cara do padre, do empresário, do vendedor, do presidente ao camelô. A pudicidade da lei nos impede de despi-la e a hipocrisia da justiça põe sobre as mesmas tarjas pretas, afim de esconder suas partes íntimas, como meio de ocultar sua própria vergonha de ser cega. Mentira encapada com papel de presente, encadernada com cetim e ofertada como premiação máxima aos vencedores de uma corrida com obstáculos virtuais; vencedores diplomados pela mentira constitucionalizada, televisionada, irradiada e impressa na latrina da vida proletária. Deste modo, todos encontram o sentido da vida, nessa inocente emoção que faz valer a pena viver com intensidade sofrida, de realidade torturante, torturada e desvairada. Segundo nossa constituição, não se pode condenar um inocente; isso significa que toda mentira será perdoada. Assim temos o direito de comprar nossa verdade de bolso, nosso dogma portátil, amparados pela grande mentira, pela mentira universal. Nossa verdadeira mentira, nossa moral, nossa certeza se encontra fortemente fundamentada por essa pueril mentira de verdade séria e sincera, que jamais poderá ser questionada.
Nossa verdadeira moral escrita nos pergaminhos da inocência nunca poderá ser destruída, rasgada, nem reciclada – a não ser por nós mesmos – menos ainda olvidada, por quem quer que seja. O antídoto contra o acreditar na inocência dessas verdades mentidas ou em mentiras verdadeiras, enfim, contra “todas as verdades absolutas” está no quaeritur (pergunta-se); assim será possível a reciclagem das capas de cada livro, de cada revista, de cada jornal, nas letras de penhorados jornalistas ou nos sorrisos marotos de hienas de repórteres.
As perguntas encurralam as respostas, caçando com astúcia predadora a virgem mentira, deflorando-a como a uma futura ex-noiva, tornando a revelação dos questionamentos - a verdade - um ato de prazer ou de dor.
Mentiras rosa, mentiras verdes e azuis; floridas, perfumadas e coloridas, a preço módico, com juros extorsivos, achacantes e escorchantes. Lindas mentiras grafadas com letras douradas, apresentadas com face límpida, por mentes brilhantes, no jornal das sete, das oito, das onze e meia e afim.
A maquiagem sorridente do repórter, transbordante de simpatia formatada, se torna verdade absoluta e incorruptível, nós fazendo esquecer totalmente do ônus sem bônus, do “patere legem quam ipse tulisti si” (sofre a lei que tu mesmo elaboraste). A mentira sozinha não assusta, nem causa sequer arranhadura na ética, ela não é nada. Mas a mentira revestida de inocência é quase imbatível, é gigante, é tudo. Tudo que você espera, tudo que você deseja, tudo que você quer, sem meias verdades; uma mentira inteira, sem medo de mostrar a cara. Ela se encontra nas primeiras páginas, estampada na cara do padre, do empresário, do vendedor, do presidente ao camelô. A pudicidade da lei nos impede de despi-la e a hipocrisia da justiça põe sobre as mesmas tarjas pretas, afim de esconder suas partes íntimas, como meio de ocultar sua própria vergonha de ser cega. Mentira encapada com papel de presente, encadernada com cetim e ofertada como premiação máxima aos vencedores de uma corrida com obstáculos virtuais; vencedores diplomados pela mentira constitucionalizada, televisionada, irradiada e impressa na latrina da vida proletária. Deste modo, todos encontram o sentido da vida, nessa inocente emoção que faz valer a pena viver com intensidade sofrida, de realidade torturante, torturada e desvairada. Segundo nossa constituição, não se pode condenar um inocente; isso significa que toda mentira será perdoada. Assim temos o direito de comprar nossa verdade de bolso, nosso dogma portátil, amparados pela grande mentira, pela mentira universal. Nossa verdadeira mentira, nossa moral, nossa certeza se encontra fortemente fundamentada por essa pueril mentira de verdade séria e sincera, que jamais poderá ser questionada.
Nossa verdadeira moral escrita nos pergaminhos da inocência nunca poderá ser destruída, rasgada, nem reciclada – a não ser por nós mesmos – menos ainda olvidada, por quem quer que seja. O antídoto contra o acreditar na inocência dessas verdades mentidas ou em mentiras verdadeiras, enfim, contra “todas as verdades absolutas” está no quaeritur (pergunta-se); assim será possível a reciclagem das capas de cada livro, de cada revista, de cada jornal, nas letras de penhorados jornalistas ou nos sorrisos marotos de hienas de repórteres.
As perguntas encurralam as respostas, caçando com astúcia predadora a virgem mentira, deflorando-a como a uma futura ex-noiva, tornando a revelação dos questionamentos - a verdade - um ato de prazer ou de dor.
1808, o ano que não terminou!!
Diário de bordo da Nau Capitania: um rei indolente e uma rainha louca se põe numa desesperada fuga, arrastando um séqüito de Arlequins e Colombinas, rumo a uma insignificante Colônia sob a linha do equador. Eles foram postos diante de um grande dilema, titubeando num entrevero entre o poder de dois poderosos. Entre a decisão e acomodação, abandonaram a nação e dessa fuga infame e desonrosa, surgia uma encenação: a homenagem por bravura e honra ao mérito pela brochura, como tributo irracional de um povo colonial. Qualquer feito real vira cena emocional p’rum indivíduo funcional, que do fundo da platéia d’uma multidão plebéia, aplaude a vinda da família como uma missão divina.
Assim inaugurou-se a corrupção oficial, extra-oficial e similar à pirataria de além-mar, neste país abençoado por Deus, Alá e Oxalá e pela hipocrisia, pelo cinismo e analfabetismo. Nosso Reino Unido e fudido recebendo sua propina do Porto de Belém, escravizado ao cabresto feudal do capataz real.
Nosso Brasil varonil, nossa pátria que nos pariu, comemora essa falcatrua clara e nua, numa festa bem servil, reforçando a senzala de presente diplomata pro sinhozinho de Brasília e família S.A. 500 anos de Brazill, 200 anos de viramundo, de senzala favelada. A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra; carne moída, sofrida, esfolada e triturada, servida ferida na feira tropical, em meio a festa de Momo e Komo. Viva el Rei!!! Rei desterrado, aterrado, terrificado, amedrontado e acovardado; exemplo e origem do jeitinho brasileiro; patrono do cinismo, fisiologismo e corporativismo de nosso Brasil estrangeiro.
A orquestra do último baile continua viva e ativa, movimentando mais de mil palhaços no salão, provocando tantos risos e tantas alegrias, nessa maravilha de cenário de bundas e peitos mil; viva o Brazill! Viva D. João!! Viva a sacanagem!!!
Nossa família é Real, nosso dinheiro é real, nossa miséria é coisa séria, nossa ética é ilusória, mas nosso castigo é solução. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, para que possamos comprar com nosso cartão corporativo, um metro de liberté, um gole de fraternité e o troco de egalité; sambando na Avenida Central ao som daquele enredo nacional: “liberta quae sera tamem”.
Assim inaugurou-se a corrupção oficial, extra-oficial e similar à pirataria de além-mar, neste país abençoado por Deus, Alá e Oxalá e pela hipocrisia, pelo cinismo e analfabetismo. Nosso Reino Unido e fudido recebendo sua propina do Porto de Belém, escravizado ao cabresto feudal do capataz real.
Nosso Brasil varonil, nossa pátria que nos pariu, comemora essa falcatrua clara e nua, numa festa bem servil, reforçando a senzala de presente diplomata pro sinhozinho de Brasília e família S.A. 500 anos de Brazill, 200 anos de viramundo, de senzala favelada. A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra; carne moída, sofrida, esfolada e triturada, servida ferida na feira tropical, em meio a festa de Momo e Komo. Viva el Rei!!! Rei desterrado, aterrado, terrificado, amedrontado e acovardado; exemplo e origem do jeitinho brasileiro; patrono do cinismo, fisiologismo e corporativismo de nosso Brasil estrangeiro.
A orquestra do último baile continua viva e ativa, movimentando mais de mil palhaços no salão, provocando tantos risos e tantas alegrias, nessa maravilha de cenário de bundas e peitos mil; viva o Brazill! Viva D. João!! Viva a sacanagem!!!
Nossa família é Real, nosso dinheiro é real, nossa miséria é coisa séria, nossa ética é ilusória, mas nosso castigo é solução. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, para que possamos comprar com nosso cartão corporativo, um metro de liberté, um gole de fraternité e o troco de egalité; sambando na Avenida Central ao som daquele enredo nacional: “liberta quae sera tamem”.
Prometeu e capataz
Um ser capaz e eficaz era Capataz, empresário empreendedor, desbravador, explorador; perfeito pai patrão. Prometeu, um mulato exonero, proletário empobrecido e em eterna fase probatória. Marcando continuamente o chão da fábrica com pegadas apressadas num infinito circulo eterno.
Pregos, parafusos, martelos e alicates decoram seus suaves movimentos, acelerados pelo lapidar da ponta do chicote. Vergalhões transpassam fígados e rins alcoolizados, enquanto sua anatomia e empalada pela estupidez diligente do capataz. Cara a cara, Prometeu, de pele ressequida, mãos caloginosas, face enrugada, cabelos desgrenhados e corpo suado, com respiração profunda e ofegante, é obrigado a oferecer a outra face diuturnamente, prostrado perante a poltrona real do papa dos operários, enquanto aguarda seu salário pagando todos os dias por um futuro passado em seu eterno presente. Ele faz, desfaz e refaz, construindo, destruindo e reconstruindo, para poder recomeçar do começo o trabalho terminado. Enquanto Capataz se distrai testando obsessivamente, com desmedida avidez, seus instrumentos de tortura; ele se delicia medindo-os, calculando ângulos e estratégias de uso, vigiando ressentidamente a labuta Prometéica, tendo o vento norte que se projeta entre as pás do moinho, como testemunha de sua vingança. Prometeu se automatiza a cada apito da fábrica, do trem ou do guarda. Já muito cansado, ele esquece seu sonho de ser Narciso quando crescer, para um dia poder descansar nas profundezas do mar, nos braços de Iemanjá; mas ele nasceu do barro negro, das lamas do pântano escuro, e Narciso é anjo loiro. Enquanto sua responsabilidade sem fim é cumprida, Narciso descansa em seu repouso eterno, Visto que seu contrato de trabalho jaz escrito sob sua negra cútis, assinada com o sorriso de seu algoz. Prometeu agora prima pelas premissas; princípio que fundamenta o sabatismo de todos os Janeiros a Dezembros. Mesmo que sua matéria-prima constituinte almeje desesperadamente retornar ao pó original, seu suor sangrado misturado ao líquido lacrimejado, insiste em modelar seu corpo cansado e castrado pelo castigo; posto na prensa da imprensa com moldura em pass par tout. Exposto a gosto refinado d’uma arte pós-contemporânea dramatizada, politicalizada e jurisprudênciada pela força da lei humanizante da besta-fera, que domestica o sujeito adestrando o indivíduo.
Assim o círculo fechado do castigo, resgata o nada imposto ao tudo, alimentando Capataz de coação e de redenção servidas pelo humanismo antropofágico.
No raiar de um novo século, Prometeu virou Zumbi eterno e Capataz um próspero coveiro pós-moderno. Vida longa ao Rei do jazigo de Palmares, que não mata nem morre. Seu canto bantu se mistura ao apito da fábrica e ao toque do berimbau, anunciando um novo dia, após longa noite de trevas. A chuva insiste em resistir ao alvorecer, acinzentando o arco-íris algemado por correntes de promessas. Prometeu de Palmares vaga, conciso de si, vergando compromissos tirados de Narciso, entre labirintos de lápides terminais.
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