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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

NOITE FELIZ

Conheci um tal de Noel que sempre andava na telinha de minha TV, era idoso, barbudo, cabeludo, barrigudo e andava de pijama vermelho com alguns detalhes em branco. Tinha uma cara feliz, apesar de sempre subir nos telhados de casas alheias, nunca teve dificuldade com a polícia mineira. Sempre com o saco cheio de objetos de origem desconhecida, até hoje tem espaço na mídia por muito mais de quinze minutos; eu diria uns dois ou três meses no mínimo. Uma de suas músicas tema, falava que sempre vinha ao fim de cada ano e distribuía presentinhos para ricos e pobres; que sempre deixava tais presentes dentro dos sapatinhos. Eu acreditei... Deixei meu sapatinho, na janela do quintal... Quando tinha mais ou menos uns seis anos de idade. O tal sapatinho meio encardido, cor de burro quando foge, meio lusco-fusco, ansioso por ser completado com o objeto do desejo inconsciente.
O fato de imaginar que algo de bom estava para acontecer, algo que seria trazido para encher minha vida de alegria e de satisfação, criou em mim uma enorme expectativa. Como a da chegada de um ente querido, do ser amado, de um amigo, como uma gestante a espera de seu bebê. Lá estava o sapatinho sozinho numa noite escura, fria e lúgrume. Comemorando o aniversário da morte anunciada. Sapatinho amordaçado mudo de medo. Na imensidão escura ouvem-se apenas corujas, vira-latas e gatunos. Sapatinho abandonado, esperando desesperado pelo alvorecer da esperança. Mas a eternidade das horas escuras que emudece, amedronta e enlouquece, resiste, insiste e se impõe à promessa do bom velhinho, transformando-o num mero clown, enganador e ilusionista.
Hoje o sapatinho não cabe mais em meus pés, nem as promessas. Continuo a ouvir corujas, cães e gatos, esperando o alvorecer na estação da vida. Sem sapatinhos. O papai Noel este ano veio sujo, rasgado e sem dinheiro, além do saco cheio de ilusões. Na verdade seu nome nunca foi Noel, mas sim João, João ninguém da Silva; desdentado, desnutrido e desvairado. Vem largado sem verso, sem rima, sem rumo, sem lenço nem documento, pelas periferias malditas das cidades maravilhosas. Das ruas, dos Mc Donald, de bar em bar, vem catando latinhas de coca-cola, com cinco bocas, três cachorros, dois gatos e quatorze pombos para alimentar. Sua casa não tem paredes nem teto, não tem nada, nem onde se apoiar, somente um céu negro com estrelas coloridas. Papai Noel foi esquecido em cima de um banco sujo na Praça da Sé. Com fome e com frio em meio a uma milagrosa sobrevivência, ele tenta entender a brusca mudança de seu antigo mundo, para um mundo tão moderno. Perdidos em tais pensamentos ele adormece no gélido cimento cinza, sonhando com um céu colorido de estrelas negras. Agora ele não mais acredita em Deus nem em Diabo; desaprendeu a rezar. Conheceu Cristo ainda jovem, mas optou pelos caminhos de Buda. Só mais tarde caiu no mundo, na boemia, sambou descalço no chão de todos os santos, no terreiro da negra Ciata.
Quase canonizado pelo povo, nosso tão querido João Noel – filósofo, visionário, anarquista e alquimista, botou as barbas e as guias de molho e em fevereiro foi gastar sola de havaianas nas favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente nem com todos os guias, guizos e balangandães sua vida foi poupada, mas sua morte foi aplaudida de pé pelos miseráveis que gritavam aos berros:
- Senhor Noel, Noel de todos os santos, Noel dos Palmares, senhor do bem e do mal; é uma pena, mas... Aqui não tem natal!!!
Hoje minha janela está vazia, nem ao menos um vaso de flores primaveris. Outrora ainda debruçava sobre o batente a espera de uma estrela cadente que me concedesse um pedido. Mas como o clown ela ria da minha pueril esperança, zombando de minhas lágrimas noturnas. Sapatos de clown, pantufas de bichinhos, tão engraçadas como um atropelamento coletivo de crianças sobre semáforos frente à escola da vida. Até hoje não sei qual tipo de veículo me mortificou, ninguém anotou a placa do dito cujo. Sobrevivi. Hoje presto atenção às placas. Palhaços não lêem placas, apenas brincam de pilotar caminhão, enquanto um senhor feliz, vestido de vermelho, sobe na antena da minha, da sua, da nossa TV. O Cristo que vela pela minha favela, reside na zona sul, é loiro e tem olho azul; cercado de antenas por todos os lados. Sou o magrelo que mora ao lado, que não foi tão esperto para chegar mais perto, como aquele francês de Lion, o inglês de Oxford ou os santos do Vaticano. Nós, crioulos às vezes até ingerimos pão francês, mas cientes de que não seremos freguês do campus de Oxford, apesar de um dia acreditar nas promessas dos santos romanos do Vaticano. Sei que as antenas que irradiam pensamentos, captados pelo bom cidadão, transmite formatações em forma de diversão. Antenas protegidas pelo divino redentor de pedra, que abençoa as infindáveis filas de crioulos e crioulas perfilados em ordem unida a espera de uma chance de igualdade desigual. O cristo, de costas para a periferia e de frente para os indecentes que escravizam vontades em seu nome, sempre observa impassível a crueza e o desvalor da vida vendida, iluminada pela negra sombra do redentor. Através das antenas podem-se ouvir o soar dos sinos e o rufar dos tambores, anunciando a aproximação de novos tumbeiros que adentram a Baía de todos os santos da Guanabara. Antenas que choram lágrimas de crocodilos extintos do Rio de Fevereiro, que revelam sob as águas de Março o túmulo dos amores-próprios. Assim se revela a favela da cor da tia Ciata que arrebata Onze Praças de morro acima, e quando esbranquiçada é derrubada de seu Castelo morro abaixo.
Morro alto que vira asfalto negro, com cabelos de piche, pisado e maltratado pela estupidez racional do animal, que reside na inconsciência da besta humana.
O cristo incrustado na pedra comemora o natal de todos os dias, medindo de mãos abertas, a bofetada pesada numa face crioula escancarada, desdentada e escachada; a foto do cartão postal do natal tropical: em pose fetal, um aborto social.

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