Era uma vez
uma pedra, que fora jogada de muito longe; muito longe mesmo. Atravessando,
como um poderoso raio, o espaço tempo de éons, e partindo-se em mil pedaços no impacto
contra o solo Gaiano.
Essa pedra;
que era na verdade, um diamante bruto; foi transformada em mil seixos de
carbono no baque virado do solo aquecido pelo sol maior. Aonde caiu, ficou; estagnada
num movimento estático recorrente, vivenciando o looping da eterna continuação
de sua chegada, com repetidas e incontáveis pedradas desnecessárias contra o
generoso colo de Gaia; nessa detenção paradoxal, além de ficar completamente submersa
pelo limo, criou em baixo de si, uma escuridão inarredável, que se estendeu
para dentro do seu endurecido ser.
Dessa maneira,
no espaço ao seu torno, o Tempo circundou fora de si; e ambos; Tempo e Espaço;
ramificando-se, como os galhos de um milenar Baobá, fez dormir a consciência ao
acordar o pensamento como sua primeira forma de autodefesa autocentrada.
Dessa
forma, cada pedra, ao relacionar-se com os seus próprios Espaços/Tempo, progressivamente
foram sofrendo mutações que as fizeram transmutar-se, ao serem submetidas a
lapidação pelos elementos das estações de cada sítio em que permaneceram; até
que viessem as tempestades, que lhes retiravam todo limo, trocando-as de
espaços, aparando as suas arestas e potencializando essa lapidação através dos
Tempos.
Durante esse
pedregoso processo, muitas dessas pedras, fizeram de lustrosos e requintados sapatos,
o seu confortável casulo; enquanto outras pedras preferiram ser acariciadas pelas
mãos daqueles que possuíam os pés descalços e se antagonizavam com as diversas
outras belicosas pedras transformadas em surpreendentes armas; outras ainda, decidiram
ornamentar com alegrias incontidas todos os portais de Gaia, compondo harmonicamente
as runas do tempo, demarcadoras do caminho de volta para casa; transformando-se
assim, em diamantes plenamente lapidados pelo Tempo circundante nesse espaço
intenso de Tempo real.
Quando cada
pedra, a seu turno, descobrir que, a sua opacidade é somente um aspecto da sua
própria luz interior, trajada pela escuridão exterior, percebendo finalmente, a
importância de a luz ter que, antes de brilhar, se vestir de escuridão; compreenderá
que, mesmo na condição de pedra opaca, ela é a própria Luz abstrusa em si mesma.
Ou seja, é ela quem é a doadora, e também a recebedora do presente oferecido.
Sendo assim, é no momento do agora, em nosso hoje, que recebemos a pedrada por
nós desferida ontem.
Essa preciosa
percepção só pode ser alcançada na experiência de se viver cada agora de nosso hoje, quando então, o
pensamento se torna um complemento, e não mais o ator principal, protagonizando
e conduzindo o Tempo e o espaço em torno de si mesmo; visto que,
quem possuí o tempo é dono do pensamento, sem se deixar levar ou ser domado por
esse assassino da realidade em que se tornou o pensamento, tornando-se assim,
um senciente autoconsciente.
Portanto,
podemos inferir que, a pedra, como uma metáfora de peso, igual a uma criança,
ela é integralmente neutra, isenta do maniqueísmo, dualidade ou dicotomia, já
que é o espaço e o Tempo que a transforma, na qualidade de criadora e criatura,
em sua própria artesã. Esse princípio, só pode ser cognizado, a partir e
através da autoconsciência. Ou seja, sem as justificativas e defesas
estabelecidas pelo ego, que depende desses artifícios, para sobreviver de forma
apolínea.
Por certo,
o ego é o principal gestor de nossa escuridão, que jaz por debaixo e por dentro
da nossa pedra coronária em estado bruto, exposta na vitrine da joalheria
universal. O tempo e o vento, que move a tempestade desse inverno que burila a
alma do Homem-Pedra, trazem consigo os Cavaleiros
da Revelação com os quais pelejamos, nessa épica jornada do herói.
Enquanto as
pedras continuarem a serem lançadas sobre pretextos e justificativas germinadas
e cultivadas pelo ego, continuaremos a ser apedrejados hoje, pelas mesmas
pedras que arremessamos ontem; já que somos a causa de, absolutamente, todas as
consequências vividas em cada momento da nossa existência.
Que a
partir desse Agora, não atire mais a primeira pedra quem jamais apedrejou; ou talvez
sim.... Já que, somente dessa forma, descobriremos que as pedras nunca foram
jogadas; elas é que se atiram, tendo a si mesma como alvo, nesse sítio
multidimensional que é o Tempo quântico, simultaneamente absoluto e relativo
quando o observado é o próprio observador. Dessa maneira, perceberemos que, a
despeito das formas e cores diversas, somos tod@s pedras preciosas; somos um somente; e é justamente nessa
percepção única, que passamos a compor essa imensurável joia universal, de
inestimável valor, que brilha no firmamento ancestral, nas escuras noites da
nossa existência, fulgurando na fronte da inominável Fonte Criativa.

