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sábado, 2 de novembro de 2019

As Relações de Poder nas Disputas Meritocráticas no Jogo da Vida

Após o crime da colonização, a vida afrocêntrica estatizada, passou a ser vivida sobre a cela de um assombroso tabuleiro de xadrez, aonde as regras, na forma da lei, foram maquiavelicamente elaboradas com o auxílio de um Bispado e de um suposto rei sem um reino real. Após cobrir esse melaninoso corpo negro com tais regras, estatutos e leis que lhe constituíram enquanto ser, ditando seus caminhos e sua identidade de destino, foi usado para tal intento, a cor desse mesmo indivíduo como quesito que revestiu, como a armadura, a sua tez; definindo-o a partir das cores claras ou das cores escuras a qual os mesmos jogadores desse infame jogo, como partícipes, eram portadores, com o fim único de eleger as cobaias desse experimento racial desenvolvido sobre o sagrado solo de Urântia.

Dessa forma, o sujeito preto se viu repentinamente num campo de batalha onde a sua cor definia e estabelecia o time ao qual ele passaria a pertencer na condição de privilegiado ou de desprivilegiado, de acordo com as regras elaboradas para reger esse sinistro jogo; regras estas criadas pelo branco rei sombrio, enquanto o bantu Rei de ébano, se descobriu como preto ao aceitar, mesmo desconhecendo tais regras feneratícias e leoninas leis regentes .

Foi assim que a Rainha e o Rei Negro, sem que percebessem tal situação, se transformaram em Peão, já que desconheciam que as suas epidermes fossem a razão da presunção de culpa, sem jamais ser de inocência, ou algo similar a tal equânime valor, até que se provassem o inverso. Dessa forma, as consequências de cada jogada, estava condicionada exclusivamente a cor de cada jogador partícipe nesse labirinto de dor, mesmo que no caput das referidas regras meritocráticas, contraditoriamente rezassem o inverso, estabelecendo assim, uma imensurável distância entre a dissimulada prática vigente e o retórico discurso banalizado, gongórico e prolixo no cotidiano da urbe.


Dessa maneira, diante desse proposital e conveniente engano, esse arrepiante jogo da vida se transformou num perigoso jogo de morte justamente para aqueles a quem se tinham sido conferidas a cor errada, passando os mesmos então a caírem tragicamente diante daqueles que possuíam a cor aceita e o time certo.


Esse jogo emocionante de sucesso estrondoso foi transformado em rotineiros roteiros de filmes, novelas e comerciais, para que os jogadores, pudessem conferir e aferir melhor os seus lugares e as suas posições no tabuleiro preto e branco desse jogo da vida disputado a partir dessas referências publicamente ditadas e expostas como padrão oficial pelo generoso Dream Time da mídia europoide. 

Dessa maneira, de um lado temos um time de alta performance e totalmente profissional enfrentando um outro time que nem sabe que não sabe que faz parte desse espetacular jogo sujo, que é televisionado, filmado e exibido a cores como atração imperdível para os integrantes desse desavisado time que alegremente assiste de pé, nessa arquibancada bancada com muito pão e circo servidos durante os intervalos de cada cachoeira de sangue jorrado nessa animalesca arena, enquanto aguardam o sorteio desse mesmo jogador que, por hora se encontra a aplaudir, esperando a sua vez, ao mesmo tempo em que executa alegremente, e de forma profissional, aquela linda onda negra conhecida como Ôla.


Foi dessa forma que os integrantes da Campanha de Reparação aos Descendentes dos Povos Africanos Escravizados no Brasil, concretizando esse intrincado jogo de negociação com o Estado Nacional, se viu diante das complexas contradições posto na forma da Lei, com os jogadores chave dessa ação. A Lei 6613/2019 foi a primeira Lei aprovada no Brasil, no plenário da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, impulsionada por um vereador com a cor certa jogando pelo time errado; enquanto que os jogadores de cor errada imiscuídos no time certo, fizeram o possível para travar o referido processo, quando perceberam que os procedimentos iniciava a fase de efetiva de execução.

Olhando o caminho percorrido pela militância negra, percebemos que esse mesmo ardil foi usado pela elite dominante nos momentos cruciais desse jogo; como foi, por exemplo, o caso da criação e estruturação da Seppir, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, elaborada por José Dirceu, um jogador do time nórdico que, como de hábito, são sempre os mesmos jogadores que criam e protagonizam as regras para reger o time de ébano. Outro exemplo similar a este, foi o fato do relator do Estatuto da Igualdade Racial ter também sido o responsável pela aprovação do referido estatuto sendo ele outro jogador nórdico dessa equipe da cultura dominante adversária ao Time de ébano; estamos falando de Onyx Lorenzoni, na época então deputado e hoje ministro desse inominável governo.

A diferença entre os processos citados acima e a Campanha de Reparação aos Descendentes dos Povos Africanos Escravizados no Brasil, campanha movida pela OLPN, é bastante óbvia; podemos perceber que, ao contrário do caso da formação da Seppir e da criação do Estatuto da Igualdade Racial; estatuto esse que nenhum preto pobre tem quaisquer conhecimentos a respeito mesmo após terem se passado vários anos de sua aprovação; trata-se do sujeito protagonista do processo em ambos os casos; e esse é o detalhe que confere a complexidade paradoxal ao seu desenvolvimento rumo a sua efetivação de fato e de direito.

Portanto, no enredamento entre essas cores metamórficas, manipuladas por regras e estatutos, leis e tratados, discurso e práxis, temos um plenário partícipe rico em possibilidades, aguardando somente a coletividade negra dizer a que veio, desde o momento que esse coletivo negro se perceba  nessa atual conjuntura; mas isso só poderá ser modificado, após a sua definição e inserção como coletivo negro de fato; promovendo assim, uma coletividade sem as grotescas feridas contidas nesse inconsciente coletivo estruturado pelos  códigos jurídicos cultivados pelo time dominante que instituiu a colonização mental, física e epistemológica como forma de controle e poder absoluto.

Dessa forma, quando internalizaremos que todos somos um, após obviados pelo poder dominante, nossos Peões, estando a postos, inverterão suas posições numa jogada única onde se transformarão em soberanas peças desse tabuleiro vermelho-sangue que ornamenta a Grande e branca tela dessa mídia racista. Dessa maneira, a Rainha finalmente voltará a reinar, abrindo o canal da vida plena, sem os entraves meritocráticos e as hierarquias sufocantes que escravizam o ser, enquanto sujeito pleno de si mesmo. Dessa maneira, a escravização finalmente terá seu termo, como havia de ser, mesmo que já tenha passado da hora desse inevitável processo acontecer.


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