Após o crime da colonização, a vida
afrocêntrica estatizada, passou a ser vivida sobre a cela de um assombroso
tabuleiro de xadrez, aonde as regras, na forma da lei, foram maquiavelicamente elaboradas com o auxílio de um Bispado e de um suposto rei sem
um reino real. Após cobrir esse melaninoso corpo negro com tais regras, estatutos e leis que lhe constituíram enquanto ser, ditando seus caminhos e sua identidade de destino, foi usado para tal intento, a cor desse mesmo indivíduo como
quesito que revestiu, como a armadura, a sua tez; definindo-o a partir das cores claras ou das cores
escuras a qual os mesmos jogadores desse infame jogo, como partícipes, eram portadores, com o fim único de eleger as cobaias desse
experimento racial desenvolvido sobre o sagrado solo de Urântia.
Dessa forma, o sujeito preto se viu
repentinamente num campo de batalha onde a sua cor definia e estabelecia o time ao qual ele passaria a pertencer na condição de privilegiado ou de desprivilegiado, de
acordo com as regras elaboradas para reger esse sinistro jogo; regras estas criadas
pelo branco rei sombrio, enquanto o bantu Rei de ébano, se descobriu
como preto ao aceitar, mesmo desconhecendo tais regras feneratícias e leoninas leis regentes .
Foi assim que a Rainha e o Rei Negro, sem que
percebessem tal situação, se transformaram em Peão, já que desconheciam que as suas epidermes fossem a razão da presunção de culpa,
sem jamais ser de inocência, ou algo similar a tal equânime valor, até que se
provassem o inverso. Dessa forma, as consequências de cada jogada, estava
condicionada exclusivamente a cor de cada jogador partícipe nesse labirinto de
dor, mesmo que no caput das referidas regras meritocráticas,
contraditoriamente rezassem o inverso, estabelecendo assim, uma imensurável distância entre a dissimulada prática vigente e o retórico
discurso banalizado, gongórico e prolixo no cotidiano da urbe.
Dessa maneira, diante desse proposital e conveniente
engano, esse arrepiante jogo da vida se transformou num perigoso jogo de morte
justamente para aqueles a quem se tinham sido conferidas a cor errada, passando
os mesmos então a caírem tragicamente diante daqueles que possuíam a cor aceita e o
time certo.
Esse jogo emocionante de sucesso estrondoso
foi transformado em rotineiros roteiros de filmes, novelas e comerciais, para
que os jogadores, pudessem conferir e aferir melhor os seus lugares e as suas posições
no tabuleiro preto e branco desse jogo da vida disputado a partir dessas
referências publicamente ditadas e expostas como padrão oficial pelo generoso Dream Time da mídia
europoide.
Dessa maneira, de um lado temos um time de
alta performance e totalmente profissional enfrentando um outro time que nem
sabe que não sabe que faz parte desse espetacular jogo sujo, que é televisionado,
filmado e exibido a cores como atração imperdível para os integrantes desse
desavisado time que alegremente assiste de pé, nessa arquibancada bancada com
muito pão e circo servidos durante os intervalos de cada cachoeira de sangue
jorrado nessa animalesca arena, enquanto aguardam o sorteio desse mesmo jogador que, por
hora se encontra a aplaudir, esperando a sua vez, ao mesmo tempo em que executa alegremente, e de forma profissional, aquela linda onda negra conhecida
como Ôla.
Foi dessa
forma que os integrantes da Campanha de Reparação aos Descendentes dos Povos
Africanos Escravizados no Brasil, concretizando esse intrincado jogo de
negociação com o Estado Nacional, se viu diante das complexas contradições posto
na forma da Lei, com os jogadores chave dessa ação. A Lei 6613/2019 foi a primeira Lei aprovada no
Brasil, no plenário da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro, impulsionada por um vereador com a cor certa jogando pelo time errado; enquanto
que os jogadores de cor errada imiscuídos no time certo, fizeram o possível para travar o referido processo, quando perceberam que os procedimentos iniciava a fase de efetiva de execução.
Olhando o
caminho percorrido pela militância negra, percebemos que esse mesmo ardil foi
usado pela elite dominante nos momentos cruciais desse jogo; como foi, por
exemplo, o caso da criação e estruturação da Seppir, a Secretaria de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial, elaborada por José Dirceu, um jogador do time nórdico que, como de hábito, são sempre os mesmos jogadores que criam e protagonizam as regras para reger o time de ébano. Outro exemplo similar a este, foi o fato do relator do Estatuto da Igualdade Racial ter também sido o responsável
pela aprovação do referido estatuto sendo ele outro jogador nórdico dessa equipe da cultura dominante adversária ao
Time de ébano; estamos falando de Onyx
Lorenzoni, na época então deputado e hoje ministro
desse inominável governo.
A diferença
entre os processos citados acima e a Campanha de Reparação aos Descendentes dos Povos Africanos Escravizados no Brasil, campanha movida pela OLPN, é bastante óbvia; podemos perceber que, ao contrário do caso da formação da Seppir e da criação
do Estatuto da Igualdade Racial; estatuto esse que nenhum preto pobre tem
quaisquer conhecimentos a respeito mesmo após terem se passado vários anos de sua
aprovação; trata-se do sujeito protagonista do processo em ambos os casos; e esse é o detalhe que confere
a complexidade paradoxal ao seu desenvolvimento rumo a sua efetivação de fato e de direito.
Portanto, no enredamento entre essas cores metamórficas, manipuladas por regras e
estatutos, leis e tratados, discurso e práxis, temos um plenário partícipe rico em possibilidades, aguardando somente a coletividade negra dizer a que veio, desde
o momento que esse coletivo negro se perceba nessa atual conjuntura; mas isso só poderá ser modificado,
após a sua definição e inserção como coletivo negro de fato; promovendo assim, uma coletividade sem as grotescas feridas contidas nesse inconsciente coletivo estruturado
pelos códigos jurídicos cultivados pelo time dominante que instituiu a
colonização mental, física e epistemológica como forma de controle e poder absoluto.
Dessa forma, quando internalizaremos que todos somos um, após obviados pelo poder dominante, nossos Peões, estando a postos, inverterão suas posições numa jogada única onde se
transformarão em soberanas peças desse tabuleiro vermelho-sangue que ornamenta a Grande e branca
tela dessa mídia racista. Dessa maneira, a Rainha finalmente voltará a reinar,
abrindo o canal da vida plena, sem os entraves meritocráticos e as hierarquias
sufocantes que escravizam o ser, enquanto sujeito pleno de si mesmo. Dessa maneira, a escravização finalmente terá
seu termo, como havia de ser, mesmo que já tenha passado da hora desse inevitável
processo acontecer.
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