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segunda-feira, 29 de abril de 2019

...Boi, boi, boi, boi da Cara Preta...

No fundo do meu quintal, tem uma orquestra sinfônica, formada por grilos, sapos, pererecas e rãs, que pode ser ouvida logo assim que anoitece; e o seu som, vai de Vênus até Solara. Essa sinfônica é regida pela grande Mestra Gaia, que nunca exigiu um templo de adoração para devoção, nem mesmo para a evocação dessa maviosa audição; basta somente o silêncio da alma e o ritmo do coração para fazer parte dessa canção que a sua natureza entoa, a fim de celebrar, com sua luminosa matiz, o ninar de nossa alma no colo da noite feliz.

sábado, 27 de abril de 2019

Teoria da Não Localidade


Segundo a ciência oficial, todos os seres viventes sobre o planeta terra, possuem exatamente 24 cromossomos; com exceção do homem; eis que surge uma questão emergente, já que o corpo humano é formado por todos os elementos da tabela periódica. Ou seja, somos formados exatamente pela mesma matéria que compõe todo o universo, da mesma maneira que esses elementos químicos constituem todo o nosso planeta, compondo todos os seres que nele habita; e dessa maneira, fazemos parte dessa natureza, e somos também parte da terra; esse organismo que é tão vivo quanto qualquer um de nós.

Partindo do princípio que toda qualquer matéria é energia condensada, inferimos então que, o que a torna matéria mais, ou menos densa, é o seu estado vibratório. Nesse caso então, como tudo se define por seu estado vibracional, quaisquer elementos em estado químico, passam para o estado físico, assim como o vigésimo quarto par de cromossomos do homem ainda não detectados pela ciência oficial. Sendo assim, podemos observar que, o magnetismo e a gravidade combinados num determinado corpo que ocupa um lugar no espaço e no tempo, é o que compõem a matéria do conhecimento que hoje chamamos de física quântica, cuja atenção se debruça sobre a vastidão existente desde o ADN até a glândula Pineal. Afinal, o que está em cima, está em baixo; e o que está dentro, é também o que está fora; sem o condicionamento do espaço/tempo que comporte a ideia da linearidade.

Quando o Criador de Todas as Coisas construiu o conceito de tempo em forma de planilha, formatando dessa maneira, o que hoje definimos e chamamos vulgarmente de agenda; e logo em seguida, criou o relógio despertador, fazendo com que o nosso espírito conhecesse a linearidade, a nossa liberdade passou a ser medida pelo limite da nossa realidade; realidade esta, concebida e construída a partir de nossa capacidade de olhar, e de ver, o que há entre ou além desse espaço palpável, visível e invisível da realidade criada por esses mesmos limites formatado através das datas, dos dias e das horas que fatiaram esse tempo que nos fora dado como um presente inteiro, mas que, depois de  personificado através da planilha divina, foi dividido entre os senhores do Passado e Futuros, acondicionados nesses pares quânticos de DNA.

O relógio de nossa alma, que é a glândula Pineal; testemunha dessa divisão; faz a ligação entre os elementos de nossa fisicalidade com as dimensões de nosso espírito, que aparentemente ainda não tem a percepção nem a consciência de sua multidimensionalidade.

Sendo assim, somos seres multidimensionais, mesmo que no atual momento nos encontremos na condição de cegos e surdos. Nesse caso, estamos na condição de deficientes das galáxias que, através da egolatria, vem cultivando a ignorância das galáxias, sem saber o que realmente somos; já que atualmente somos portadores patológicos dessa deficiência sapiente adquirida através da arrogância e da prepotência egocêntrica inerente ao homo sapiens sapiens que cultiva a egolatria, fazendo com que se perca aquela criança interior, sem conceitos ou pré-conceitos, que existe em todos nós, ao definir, padronizar, classificar e hierarquizar as miríades da sensibilidade de ser do próprio ser.

Dessa maneira, sem as luzes da ribalta, a vida torna-se um palco, aonde está sendo encenada a divina tragicomédia humana, sobre a lúgrume direção da escuridão que traz o eterno inverno aos corações surdos e cegos, que mascaram e travestem os intrépidos e destemidos Super heróis que escravizaram, e escravizam, nosso subjetivo ao simular a falsa sensação de liberdade que provocam as emoções e sensações manufaturadas pelas indústrias dos tempos modernos que são negociadas pelo mercado infame[1] como capital humano.

É nesse instante que a contribuição de Marx se faz presente, através do materialismo histórico dialético[2], desde que esse método venha se primar pela arte de partejar,[3] de forma sabática, numa conversa antidialética consigo mesmo, inaugurando de forma diatópica, o seu método singular de Espiritualismo Histórico Dialético; e de maneira maiêutica, antidialética e diatópica, vamos nos desfixar da localidade a qual fomos acondicionados, deixando de ser objeto, para sermos sujeitos, extrapolando o próprio ser, nos tornando criador e criatura que encontra o Eu interior.



[1] Como era conhecido o tráfico negreiro transatlântico.
[2] Método supostamente criado por Aristóteles; explorado por Marx ao disputar com o alemão Hegel, com sua “Dialética do idealismo”, e Feuerbach com sua “Dialética materialista”.
[3] Referência a maiêutica socrática.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Mar Vermelho do Rio de Janeiro Desde as Brancas Águas de Noé às Negras Águas dos Tumbeiros.


As últimas chuvas de balas pluviométricas que inundaram o Estado do Rio de Janeiro, provocando afogamentos fatais, numa enchente histórica de água e sangue copiosamente jorrados dos morros até o asfalto, reconfirmou que, todas as instituições do Estado nacional governam através da violência do pelourinho simbólico, bordado, costurado e estampado como emblema nas fardas da PM carioca, onde se lê as iniciais GRP (Guarda Real Portuguesa); são esses militares que asseguram a presença do espírito escravagista presente em todas as instituições nacionais; principalmente no sistema educacional tupiniquim.

Esse fato, se fez notório quando o extermínio dos povos indígenas e o genocídio do Povo Negro no Brasil, foram definitivamente transformados em datas festivas; tanto no sistema de ensino particular como no ensino público; assim como transformou em comemoração, o assassinado, o aniversário e a ressureição do Cristo na terra; resignificando[1] o instrumento de sua tortura; a cruz do calvário; como instrumento de culto e adoração.

Hoje, olhamos para as efemérides, essas datas comemorativas promovidas pelo sistema educacional, essa instituição racista, machista e misógino em que o ensino se transformou, e percebemos a banalização do mal promovida pelo terrorismo estatal, quando legitimamos tais datas ao comemorá-las; são festividades com as quais os nossos colonizadores promovem a nossa robotização a cada dia, acoplada com a homilia do medo da vida em liberdade.

Nosso pelourinho de cada dia que nos dói hoje, é exaustivamente exposto e apresentado para além dos livros didáticos; exibidos também nos programas televisivos, jornais e propagandas; atualizando seu status a cada start. Dessa forma, para cada preto, se reserva 80 propagandas racistas, 80 assédios morais e 80 balas de fuzis; e cada 23 minutos do dia se transformam em 23 funerais a noite.

Tudo isso é registrado em B.O. policial, depois de ter sido registrado nos cadernos de ocorrência da escola e nos diários dos docentes das Unidades Educacionais existentes nas redes de ensino, a fim de atender ao famigerado Estado nacional; e finalmente então, tudo o que foi registrado nas páginas dos livros didáticos, e em cada propaganda comercial, atende momentaneamente a voracidade da sana insana do descontrolado desejo de controle total das senzalas contemporâneas e das plantations de shoppings instaladas em todas as urbes et orbi, que emprega neguin para servir a alucinada produção desses tempos modernos nada fraternos.

Tudo isso, escrito e reescrito no quadro branco da educação neocolonial instituída pelo Estado nacional, onde os estudantes e formandos são subalternizados, passiva e ativamente, e depois, escravizados como servos eternos.

As águas desse dilúvio sangrento, que provocam diuturnamente uma escaldante cachoeira, que jorra do morro até o asfalto a noite inteira, geram uma enxurrada que arrasta reptilianamente a ética, o respeito e o bom senso, junto com os paus e as pedras no fim do caminho; além dos tiros, porradas, bombas que vem junto com o gás lacrimogênio, proporcionando aos transeuntes, aos partícipes e ao público em geral, a monótona oportunidade de se verem na tela da TV, sendo exibidos nos noticiários diários que mostram as passeatas em prol da paz sem voz, ao vivo e em preto e branco, destacadas sobre o vermelho-sangue da bandeira brasileira ao fundo, enquanto ela é içada, ao som do hino nacional entoado em cada pátio, desde o jardim de infância até o ensino medieval, como atração única e principal, enquanto os diretores eleitos de cada Unidade Escolar lavam suas mãos; uns com água, outros com o sangue do próprio irmão.

Dessa forma, a fantasia folclórica grafada nos livros didáticos e dramatizada nas festas estudantis, encenando, desde o dilúvio, até a abolição da escravidão, que são confeccionadas por um escrivão sem melanina nem tesão, mostra o malandro moleque saci se livrando de um pau-de-arara, exibindo na página ao lado a inocente Alice branca, com seu lindo coelhinho branco, brincando catolicamente durante as emocionantes comemorações da páscoa, enquanto a arca de Noé afunda num Rio de sangue negro, sobre as águas de março, em pleno mês de Janeiro. É assim que termina a colação de grau e a formatura dos alunos que fizeram da memorização, a sua única lição, e depois foram servir ao exército e a nação, dando 80 tiros na cabeça do próprio irmão.

Mas os outros alunos pretos formados como o coração, sem a tal da memorização, sabem que não poderão carregar seu diploma no peito; como João, o aluno formado, premiado e eleito primeiro da classe; ele há se se cuidar, para não tomar tiro no peito ao cruzar a esquina da vida, depois de ter pedido emprego ao doutor Armando; aquele Sinhô, que assinou como engenheiro todos os desenhos feitos por João o ano inteiro, quando ele era só um simples técnico de edificação, mas empregado como padeiro, na confeitaria do sinhô Armando, fazendo e servindo degustação.

Até então, ele, João, só desenhava pé de feijão e era muito elogiado por seu pai, que hoje é só mais um negro fujão da justiça branca, depois de ter sido marcado, pela cor de sua tez, como freguês, para entrar no negreiro desse Estado mercador de carne preta, a carne mais barata do planeta.

Esse mesmo João, que pensava ser um escolhido por ter a mesma religião do patrão, e ter se formado pastor na igreja desse sinhô. Perdeu, João, perdeu. Hoje, João toma muita água-que-passarinho-não-bebe para lavar mente, e esquecer que seu sangue é bom para colorir o pelourinho público com mais de 80 tons de sua diversidade preta e quase-preta. Já que hoje não existe mais as chibatadas, só 80 tiros; nem existe mais a carta de alforria, só carteira assinada; desde que sua formatura e seu diploma possa lhe conceder a vez servil, sem voz.

Mas ele, como bicho preto que não pode entrar na arca, também não conseguiu rir do Rio de sangue negro, como riu Alice branca brincando de enlouquecer, após entrar na toca do felpudo coelho branco. Portanto, esse negro, que não sabe onde está, e nem sabe de onde veio, também não faz ideia para onde vai, depois de ter sido diplomado e formado pela academia neocolonial contemporânea através da pedagogia da infâmia.

Mas o importante é que ele tem um lindo e vistoso terço, e além de beber Coca-Cola e comer no Mc Donald, esse João Ninguém também vê novelas e noticiários; e imagina um dia poder passear pelo deserto do Saara, montado num dromedário, visitando pirâmides e cumprimentando faraós; tudo isso sem perder o horário de trabalho, e a chance de servir ao White empresário.



[1] Ressignificação aqui é diferente de recontextualização, já que o primeiro coloca um novo significado em um determinado conceito e o segundo transforma o conceito sem que ele perca o seu significado. Ou seja, você não esquece o significado real do dito conceito, mais coloca o mesmo num patamar diferenciado a que pertencia.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sobre o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro e o Movimento de Reparação aos Descendentes de Escravizados no Brasil

Após longa data, e inúmeras tentativas, onde o Movimento de Reparação no Brasil vem tentando se articular, confabulando junto ao MNU ao inquirir sobre sua postura, assunção e responsabilidade daquilo que foi objeto de apreciação no congresso do próprio MNU: Estamos falamos do processo de Reparação Histórica como uma resposta definitiva ao Crime Transatlântico do Tráfico Negreiro e ao Crime da Escravidão Contra os Povos Negros no Brasil e seus Descendentes. Crime esse que o Estado brasileiro foi levado a reconhecer em 2001, durante a Conferência de Durban, mas que ainda não teve a dignidade de assumir perante de seu próprio Povo.

A princípio, esperávamos que fossem desfeitos os equivocados conceitos veiculados pelo senso comum a respeito do que venha a ser a Reparação Histórica, e sua primordial diferença com o que se define como políticas de Ações Afirmativas; fatos estes que foram exaustivamente explicitados, analisados e pesados, a fim de que finalmente, pudéssemos avançar na luta, vencendo essa dicotomia que tem paralisado nossas ações efetivas relativas a essa ação que se iniciou no ano de 1993 e que se arrasta até os dias de hoje. Mas, lamentavelmente, nesse processo, o MNU/RJ se revelou como um hábil agente sabotador em relação aos procedimentos viabilizadores da Reparação aos Descendentes dos Escravizados no Brasil.

Como de Professor negro e não como palestrante e integrante do Movimento de Reparação Negra no Brasil, presente aos seminários; que foram oito no total; expus o meu olhar também na qualidade de jornalista negro e cidadão de cor.  Nessas diversas ocasiões, pude constatar e reconfirmar o que já sabia ao longo de todo esse processo: que novamente os paladinos das políticas de Ações Afirmativas não apresentariam absolutamente nenhuma tática ou estratégia, a fim de possibilitar a construção do Projeto Político do Povo Negro para a Nação brasileira; já que este foi o intuito de todos os Seminários realizados até então.

Infelizmente, o que vimos outra vez, foi aquela velha e elaborada técnica de parlatório sindical sendo usada para construir aquele já tão manjado e requintado labirinto de discursos retóricos, que confundem os neófitos, deixando os ouvintes circulando em volta da questão suscitada, como um cão circulando em torno de si mesmo atrás do rabo; técnica esta que foi bastante usada durante esse processo, a fim de demostrar um possível domínio sobre o tema, tentando desesperadamente demostrar sua pseudo inteligência em relação ao assunto abordado.

Foi assim no último encontro entre o MNU/RJ e o Movimento da Campanha de Reparação, na sede do Agbara Dudu, em Osvaldo Cruz, no dia 07 de abril, onde realizamos um encontro com os estudantes negros da UNE: União Nacional dos Estudantes; que organizaram o 6º ENUNE; Encontro Nacional de Estudantes Negros da UNIÃO Nacional dos Estudantes, na Universidade Federal Fluminense, sediada na cidade de Niterói; encontro que acontecerá no final do corrente mês de abril.

Nessa reunião, com os mesmos estudantes, após a longa exposição e aguerrida defesa do MNU relativas as Ações Afirmativas; como de costume, trouxemos o Conceito e comentários sobre o Projeto de Reparação, apontando as diferenças basilares entre os processos expostos. Ou seja, apontamos os contrastes, as causas e as consequências entre as Ações Afirmativas e a Reparação Histórica como uma possível tática e como estratégia de Ação a fim de possibilitar a construção de um efetivo Projeto de Nação.

Após nossa explanação, os dirigentes do MNU/RJ afirmaram que “o Movimento de Reparação no Brasil está cagando e andando para as Ações afirmativas” e que este mesmo Movimento “é um Movimento machista porque só fala em Povo e não fala em mulheres”.  

Felizmente, daquela roda de conversa formada por estudantes, levantou-se uma maviosa voz feminina de lucidez plena, que trouxe a razão, e também o silêncio, de volta aos “rebatedores” em questão, que; como de costume, se retiraram do círculo de conversa enquanto as respostas às suas indagações eram proferidas; essa técnica já foi exaustivamente usada para que eles pudessem retornar sempre com as mesmas indagações nas reuniões seguintes e nas seguintes as seguintes, até que o processo finalmente pudesse ser minado pela insistência.

Mas, com já havia afirmado antes, no decorrer deste exaustivo processo; a palavra Reparação já ressoou como Tobal[5] pelos quatro cantos através de todos aqueles que aqui vieram somar; apesar de todas as tentativas de sabotagem para que ela fosse silenciada no Brasil.

Continuo afirmando que esse é um caminho sem volta; visto que acabamos de atingir mortalmente o tecido da hipocrisia, e a palavra “Reparação” ressoa, espalhando-se como uma música de libertação; é a nossa canção de redenção que ecoa até mesmo nos ouvidos moucos, se espalhando sendo lavada pelo vento sul, enquanto vai se alastrando como incêndio na Casagrande num dia quente de verão.

Reparação já...!!

sábado, 6 de abril de 2019

Pedagogia do Silêncio


Exercendo meu ofício de Professor no magistério público, diariamente escrevo longos textos sobre a quadro branco, extrapolando todas e quaisquer informações que poderia conter numa caneta pilot ao expor o conteúdo da disciplina lecionada; e a cada parágrafo, há uma média de oito livros como referências que fundamentam os conteúdos expostos. Sendo assim, a falação que se segue, como homilia, se estende longamente, seguida de gestos, sobre o erepitar dos braços diante do draconiano quadro branco escolar. 

Dessa maneira, tudo o que foi escrito, e tudo mais que foi falado, somam somente 20% de toda informação, do conhecimento e da lição exposta. Ou seja, a princípio não é o que é escrito, mas sim, é o que foi dito; mas na verdade, não foi realmente nem o que foi dito, mas sim, o que se encontrava contido nas entrelinhas da lição entoada por esse discurso. Mas especificamente, foi aquilo que não foi dito na suavidade do hiato entre aquele olhar, seguido da leveza dos gestos alimentadores desse estrondoso silêncio, somado a tudo mais que simultaneamente foi ensinado e aprendido dialogicamente; todo o resto, é anátema.

Esse estrondoso silêncio contido naquele grito calado na garganta no interlúdio de tantas frases feitas, tantos refrões e chavões contidos nos discursos que sustentam os currículos mínimos alimentadores do status social oficial e imagético de todos os dias, alimentando a voracidade da máquina de moer pretos e quase-pretos, existe um silêncio repousado nas entrelinhas dessas frases meticulosamente construídas e academicamente legitimadas, oficializadas e limitadas no interior das caixinhas confeccionadas pela ciência e pela religião castradora de gente de cor.

Este silêncio, que faz parte explícita dos valores da oralidade como principal linguagem da espécie humana, é o único meio que dá conta daquilo que não pode ser dito através das palavras, já que ele, o silêncio, usa o idioma singular proferido pelo formidável vernáculo do coração. Portanto, este silêncio sempre falará mais alto do que quaisquer palavras que venham a ser proferidas em seu tom maior. O silêncio pode até parecer mudo aos ouvidos moucos, mas ele nunca será surdo para os que são chamados pelos xamãs em meio a esse infame mercado[1] de peixe[2] capital.

É necessário permanecer em silêncio, similar ao processo onde semelhante cura semelhante, para ser possível escutar, e poder ouvir, a voz desse silêncio que tudo sabe e a tudo responde; já que esse silêncio está fora da linearidade do tempo e do espaço desse relógio capital que acorrenta o neófito atemporal, aprisionando-o ao tempo comercial das vicissitudes[3] do trabalho escravo contemporâneo.

Sendo assim, o silêncio jamais poderá ser escrito ou proferido, antes de ser silenciado pelo mais puro do sentimento que acalma e acalanta, calando o turbilhão de emoções suscitadas pelo mundo exterior, trazida à alma que vela por si. De todas as frases ditas e reditas, as que foram silenciadas, se calando para poder ouvir a si própria, foram ouvidas (e respondidas) por todo o universo conhecido e ainda por se conhecer. Dessa forma, silenciosamente o universo entoa sua graciosa melodia para aqueles que têm ouvidos para ouvir sua canção de redenção nesse sentencioso silencio repousado.

Essa é uma canção mágica, composta por milagrosas notas alquímicas, entoadas especialmente para curar o corpo e a alma, a mente e o coração da patologia do esquecimento do ancestral e da ancestralidade, fazendo vibrar o espírito universal do saber adormecido que faz do conteúdo das disciplinas da Biologia e da Física, da Filosofia e da Matemática, da Arte e da História, apenas um adorno que dá sentido à palavra falada. Quando o estudante consegue ouvir a canção do silêncio, ele enfim, tem um encontro maiêutico e diatópico consigo mesmo. Eis aqui a tão falada Pedagogia do Silêncio.



[1] Mercado infame é uma Referência ao mercado de tráfico negreiro.
[2] Mercado de peixe se refere a um lugar de balbúrdia, bagunça, de confusão.
[3] Referência a banalidade do mal trazido pela violência da escravidão como padrão racial que fundamenta nossa modernidade.