Ninguém
discute a respeito do saber, dos métodos, procedimentos e de como fazer, com os
profissionais que estudaram para ser um dentista, engenheiro ou médico; mas
todos irão discutir e debater com quem estudou para ser professor, questionando
a respeito do seu saber, de seus métodos e seus procedimentos; essa é a
primeira lição que um docente aprende no trabalhoso exercício do magistério.
Nesse
processo, ele vai constatar que, todos que o ouvem, tomam para si o discurso
estético conjuntural do contexto histórico humano como algo absolutamente
pessoal; já que a egolatria assim treinou o pseudo-ouvinte a pretenso aprendiz,
e ele, vendo o quadro branco a partir de seu próprio umbigo, para defender e alimentar
perpetuamente seu ego, se mantém girando na eterna roda da experiência humana
na condição de cobaia que cultiva a paralisia mental patológica em seu contínuo
movimento estático, a partir dessa simulação de intensa liberdade.
Para
ilustrar de forma bem contundente essa contradição, vou citar uma história
africana que narra a existência muitíssimo especial de um lugar retirado e de
difícil acesso, aonde todos que chegavam sentiam uma energia diferente, que
tornavam a todos também muito especiais. Na subida do morro que dava acesso ao
referido local, havia uma estalagem que era cuidada por um velho, com a ajuda
de seu neto, onde as pessoas paravam para se refazer da longa caminhada e
continuar viagem até o referido lugar.
Era comum o
neto do velho escutar as conversas dos viajantes com seu avô, elogiando o lugar
e sua condição tão especial, como aquele homem que chegou numa manhã, dizendo
ao velho que aquele lugar era tudo que ele imaginava; um lugar onde as casas
eram feitas de barro, onde os animais e as crianças se harmonizavam com a
natureza e tudo inspirava a paz, e que seria naquele lugar que ele traria a
família para habitar. O velho só balançava a cabeça e dizia: - “É verdade,
você tem razão”.
Até que um
dia, um homem desceu o morro bastante aborrecido, e parando na estalagem,
começou a reclamar com o velho, dizendo que nunca havia visto era um lugar bagunçado
e asqueroso, onde as crianças se misturavam com os bichos na rua e as casas não
tinha nenhum conforto, tudo era muito tedioso, parado e sem emoção. O velho,
como de costume, só dizia: - “É verdade, você tem razão”. O neto, vendo
que a reação do avô era sempre a mesma, perguntou:
- Vovô, por que você sempre responde a mesma
coisa, tanto para quem gosta, como para quem não gosta da cidade no cume do
morro...??
O velho
respondeu dizendo que, quem fazia o lugar se tornar especial ou abominável, era
a pessoa que trazia em si a luz ou de escuridão necessárias a fim de trilhar seu
próprio caminho. Essa fala do velho, me fez rememorar a fala de outro velho
chamado Paulo Freire, que comparava o amadurecimento de cada pessoa ao
amadurecer dos frutos de uma mesma árvore; onde cada um dos frutos teria seu
próprio tempo de amadurecimento, e cada tempo só poderia ser percebido no
amolengar de cada fruto.
Foi assim
que descobri, na sala de aula, o lugar especial onde reina o amor e o ódio em
toda a sua plenitude; ambos coexistindo como parte na intrínseca diversidade de
um pomar, com seus frutos, num processo de contínuo amadurecimento, aonde a luz
do sol adapta a vida, iluminando ou sombreando, a seu tempo, cada semente e
cada fruto, do jardim da infância da humanidade a maturidade da pessoa humana, nessa
escola da vida que não discute o sabor ou o dissabor dessa mesma vida; não se
discute o coração ou o umbigo do mundo; nem se discute quaisquer opiniões que desse
contexto venham a surgir.
Essa
história africana foi só para ilustrar, constatando que, cada um vê o meio-dia da porta de sua própria casa; já que; de
acordo com o pensamento
remodal, a verdade pode ser posta como uma convergência de percepção e da ação.
Dessa forma, constatamos que os seres humanos não são feitos pela verdade. Eles
são os criadores da verdade (“Viver a” e não “na” nem “pela”), já que ela, a
verdade, não é absoluta, é relativa, desde o momento em que ela é simultânea,
interativa e participativa, eis a práxis. É dessa forma que, em nosso mundo,
toda e quaisquer teorias só teriam validade no modus operandi dessa prática; viver na verdade.
Dessa maneira, o mestre é aquele que deve
olhar holisticamente para poder enxergar, ouvir para poder escutar, tocar para poder
sentir o outro na alma, percebendo cada passo de sua caminhada, tendo enfim, a
possibilidade de falar e dizer algo que faça sentido aos ouvidos neófitos desse
caminhante, durante esse sensível processo do amolengar da alma, desde o jardim
de infância da humanidade jacente, até o mar de luz e harmonia que desemboca na
humanidade de fato.
Este processo não contrapõe bem e
mal, o que é bom ou o que é ruim, o feio e o bonito, nem o lado de cá contra o
lado de lá; ele é; permanece; apenas é; compondo, somando e completando a si
mesmo em seu próprio círculo, permanentemente; permitindo que se individualize
e se personalize com seus pares, seus iguais e afins, durante o percurso desse
rio de vida que corre em direção ao mar do todo. Eis o mistério do Professor
Preto de Cor.

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