
A escola
ensina o aluno a ter medo das regras; a igreja ensina o fiel a ter medo do
inferno; a polícia ensina o cidadão de cor a ter medo do Estado; a lei ensina
os desamparados a ter medo da justiça; o Estado intimida o cidadão coagindo-o
com impostos aviltantes, em nome de uma pseudo segurança que jamais lhe
contemplou.
Enquanto
esse processo se desenvolve, nós pretos, passamos o tempo a nos atacar para
defender e disputar os descarnados ossos das cotas e das Ações
chamadas Afirmativas que nossos
colonizadores generosamente nos permitiram desenvolver, para nos dar a falsa
sensação de protagonismo, e acalmar as sinapses que acaso insistirem em se
formar fora da caixinha acadêmica, religiosa e científica, permitida pela
cultura dominante.
Vivemos a
cultura do medo que foi sendo progressivamente banalizada pelos atores que
aceitam o seu papel social, na medida em que assinavam esse contrato de medo
diante do terrorismo Estatal impetrado como lei.
Dessa forma,
a polícia se tornou a sombra da pessoa da cor de uma noite sem lua,
fazendo essa mesma pessoa melanodérmica temer sua própria sombra e banalizar
esse medo que alimenta a elite que o Estado representa. Aonde quer que a pessoa
preta vá, as forças de segurança estão ali para intimidar, humilhar, torturar e
assassinar, contando com o apoio de um Estado genocida, de política eugenista e
de uma sociedade hipócrita e marxista.
Dessa
forma, a pessoa de pele negra, aprendeu a ter medo, e também aprendeu a odiar o
preto e a ser preto como pessoa, gênero e raça, naturalizando, dessa maneira, a
violência contra seus próprios pares, aos quais ele não criou qualquer vínculo,
relação ou identificação étnica; ao contrário dos indígenas, dos judeus ou dos ciganos,
nós pretos nos desconhecemos como povo. Ou seja, somos a maioria diante de uma
população branca que somam 10% de indivíduos no planeta terra, mas ditam os
destinos macabros desse mesmo planeta.
Sendo assim,
nosso governo é o medo, pois dessa forma fomos treinados e adestrados,
transformados, de grande massa preta, em gado de tração, através da sedução da
religião e de uma lei que existe para impedir a equidade. Dessa maneira, as
instituições criadas a partir da colonização, estrutura a legitima a
neocolonização que fundamenta nossa modernidade escravagista.
Nesse
contexto pós moderno, onde, paradoxalmente, alguns apelam para que ninguém
solte a mão de ninguém olvidando que as mãos ainda nem foram dadas.
Portanto, enquanto vivermos as contradição do apartheid racial discursando apaixonadamente
sobre humanidade, não teremos a capacidade da digressão, da alteridade e da resiliência.
Apenas continuaremos a destilar nosso medo em forma de raiva, revoltas e fobias
permitidos pelos editorias diuturnos emitidos como folhetim por essa mídia que
sustenta a marca racial, da mesma forma que classificam as raças de canídeos legitimando-os
como vira-latas ou de pedigree.
Nossa
cultura, que deveria funcionar como anticorpos, foi sequestrada e manipulada a
fim de servir aos europoides, que a homogeneizou de acordo com seus caprichos e
interesses mais escusos. Daí observamos a necessidade dos hospícios, orfanatos
e asilos que grassam e acolhem essa modernidade esquizofrênica, nos
transformando em escravos e pacientes dessa sociedade sanatório a qual fomos
impelidos a ingressar, mediante aos sedutores contratos sociais assinados, que
instituem o medo como senhor absoluto de nossas ações.
Dessa
forma, nosso livre arbítrio torna-se inexistente e nossa liberdade fictícia,
enquanto vivemos nesse cativeiro onde as grades são feitas de sedução, anunciando
o canto da sereia Medusa, essa garota-propaganda Musa do capitalismo
antropofágico europoide. Dessa forma, esse espelho social, em vez de cidadãos
plenos, nos transformam em meros e esquecidos pacientes esquizofrênicos,
hipocondríacos e com a Síndrome de Münchhausen nesse grande sanatório social.
Anunciar e
denunciar esse mórbido contexto, já se tornou lugar comum na rotina dos rodapés
dos jornalecos, jornalões e programas de auditórios, além dos noticiários
diuturnos e das manchetes cotidianas, a partir desse lugar onde nos alimentamos
e fazemos de latrina, esquecendo da higiene matinal de todos os dias que se
repetem jorrando o sangue dos órgãos internos expostos pela espada da justiça
branca.
Essa espada
de dois gumes, que proporciona democraticamente a experiência do corte duplo,
individualizado pelo egoísmo e pela usura da filosofia de condomínio e de umbigos;
filosofia que faz desse umbigo o lugar aonde jaz a dor mais profunda, já este umbigo
é o umbigo do mundo. Este mesmo lugar onde nasceu e onde habita nosso cordão
umbilical, como ponto principal de nossa existência física e existencial. Nosso
lugar de fala, já que é a fala que faz o passado existir e formata o devir,
dando sentido ao presente que ainda está ausente.
Cuidar de
nossa fala, sem esquecer nosso umbigo, cuidando também do silêncio, é um
paradoxo necessário a maturidade de nossa existência. Essa é a terapia necessária
aquele que não procura a cura fora de si, já que essa cura não existe fora do
umbigo coletivo; somente semelhantes
curam semelhantes.
O paradoxo
da saúde que não surge da saúde, mais sim, da doença faz parte da lei natural
da via láctea. Eis uma dádiva que precisa ser reconhecida, a fim de que sejamos
alegres na alegria, e mais alegres ainda na tristeza. Pois nestas paragens, não
há cura se não existir a doença. O amargo e o doce fazem parte do cardápio da
vida plena, já que ela, a vida plena, não cabem mais em si, e vai além de si
mesma. Esta é a função do livre arbítrio que faz do planeta terra o único qualificado tal. Vivamos e façamos dele, o livre arbítrio, uma função
qualificada de fato.
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