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sábado, 15 de dezembro de 2018

A Patologia e as Consequências Dialógicas do Racismo Sistêmico


A escola ensina o aluno a ter medo das regras; a igreja ensina o fiel a ter medo do inferno; a polícia ensina o cidadão de cor a ter medo do Estado; a lei ensina os desamparados a ter medo da justiça; o Estado intimida o cidadão coagindo-o com impostos aviltantes, em nome de uma pseudo segurança que jamais lhe contemplou.

Vivemos a cultura do medo que foi sendo progressivamente banalizada pelos atores que aceitam o seu papel social, na medida em que assinavam esse contrato de medo diante do terrorismo Estatal impetrado como lei.

Dessa forma, a polícia se tornou a sombra da pessoa da cor de uma noite sem lua, fazendo essa mesma pessoa melanodérmica temer sua própria sombra e banalizar esse medo que alimenta a elite que o Estado representa. Aonde quer que a pessoa preta vá, as forças de segurança estão ali para intimidar, humilhar, torturar e assassinar, contando com o apoio de um Estado genocida, de política eugenista e de uma sociedade hipócrita e marxista.

Dessa forma, a pessoa de pele negra, aprendeu a ter medo, e também aprendeu a odiar o preto e a ser preto como pessoa, gênero e raça, naturalizando, dessa maneira, a violência contra seus próprios pares, aos quais ele não criou qualquer vínculo, relação ou identificação étnica; ao contrário dos indígenas, dos judeus ou dos ciganos, nós pretos nos desconhecemos como povo. Ou seja, somos a maioria diante de uma população branca que somam 10% de indivíduos no planeta terra, mas ditam os destinos macabros desse mesmo planeta.

Sendo assim, nosso governo é o medo, pois dessa forma fomos treinados e adestrados, transformados, de grande massa preta, em gado de tração, através da sedução da religião e de uma lei que existe para impedir a equidade. Dessa maneira, as instituições criadas a partir da colonização, estrutura a legitima a neocolonização que fundamenta nossa modernidade escravagista.

Nesse contexto pós moderno, onde, paradoxalmente, alguns apelam para que ninguém solte a mão de ninguém olvidando que as mãos ainda nem foram dadas. Portanto, enquanto vivermos as contradição do apartheid racial discursando apaixonadamente sobre humanidade, não teremos a capacidade da digressão, da alteridade e da resiliência. Apenas continuaremos a destilar nosso medo em forma de raiva, revoltas e fobias permitidos pelos editorias diuturnos emitidos como folhetim por essa mídia que sustenta a marca racial, da mesma forma que classificam as raças de canídeos legitimando-os como vira-latas ou de pedigree. 

Enquanto esse processo se desenvolve, nós pretos, passamos o tempo a nos atacar para defender e disputar os descarnados ossos das cotas e das Ações chamadas Afirmativas que nossos colonizadores generosamente nos permitiram desenvolver, para nos dar a falsa sensação de protagonismo, e acalmar as sinapses que acaso insistirem em se formar fora da caixinha acadêmica, religiosa e científica, permitida pela cultura dominante.

Nossa cultura, que deveria funcionar como anticorpos, foi sequestrada e manipulada a fim de servir aos europoides, que a homogeneizou de acordo com seus caprichos e interesses mais escusos. Daí observamos a necessidade dos hospícios, orfanatos e asilos que grassam e acolhem essa modernidade esquizofrênica, nos transformando em escravos e pacientes dessa sociedade sanatório a qual fomos impelidos a ingressar, mediante aos sedutores contratos sociais assinados, que instituem o medo como senhor absoluto de nossas ações.

Dessa forma, nosso livre arbítrio torna-se inexistente e nossa liberdade fictícia, enquanto vivemos nesse cativeiro onde as grades são feitas de sedução, anunciando o canto da sereia Medusa, essa garota-propaganda Musa do capitalismo antropofágico europoide. Dessa forma, esse espelho social, em vez de cidadãos plenos, nos transformam em meros e esquecidos pacientes esquizofrênicos, hipocondríacos e com a Síndrome de Münchhausen nesse grande sanatório social.

Anunciar e denunciar esse mórbido contexto, já se tornou lugar comum na rotina dos rodapés dos jornalecos, jornalões e programas de auditórios, além dos noticiários diuturnos e das manchetes cotidianas, a partir desse lugar onde nos alimentamos e fazemos de latrina, esquecendo da higiene matinal de todos os dias que se repetem jorrando o sangue dos órgãos internos expostos pela espada da justiça branca.

Essa espada de dois gumes, que proporciona democraticamente a experiência do corte duplo, individualizado pelo egoísmo e pela usura da filosofia de condomínio e de umbigos; filosofia que faz desse umbigo o lugar aonde jaz a dor mais profunda, já este umbigo é o umbigo do mundo. Este mesmo lugar onde nasceu e onde habita nosso cordão umbilical, como ponto principal de nossa existência física e existencial. Nosso lugar de fala, já que é a fala que faz o passado existir e formata o devir, dando sentido ao presente que ainda está ausente.

Cuidar de nossa fala, sem esquecer nosso umbigo, cuidando também do silêncio, é um paradoxo necessário a maturidade de nossa existência. Essa é a terapia necessária aquele que não procura a cura fora de si, já que essa cura não existe fora do umbigo coletivo; somente semelhantes curam semelhantes.

O paradoxo da saúde que não surge da saúde, mais sim, da doença faz parte da lei natural da via láctea. Eis uma dádiva que precisa ser reconhecida, a fim de que sejamos alegres na alegria, e mais alegres ainda na tristeza. Pois nestas paragens, não há cura se não existir a doença. O amargo e o doce fazem parte do cardápio da vida plena, já que ela, a vida plena, não cabem mais em si, e vai além de si mesma. Esta é a função do livre arbítrio que faz do planeta terra o único qualificado tal. Vivamos e façamos dele, o livre arbítrio, uma função qualificada de fato.

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