Ficar alegre quando se está alegre e mais alegre ainda quando se
está triste, é a deliciosa receita do poeta para se caminhar tranquilamente pelas
ruas tortas dessa urbe formatada por uma sociedade enviesada que prega a vida estoica[1] para os
outros e pratica o epicurismo[2] para si própria.
Para se permanecer alegre na alegria, é necessário
que a pessoa de pele preta primeiro faça um trato com seu próprio corpo, no
sentido de cuidarem um do outro, para que possa haver um equilíbrio entre o que
se almeja fazer, o que é precisa fazer e o que é necessário fazer, mesmo em
face de uma súmula 70[3],
de um excludente de ilicitude[4] ou
de um auto de resistência[5].
Essa cidade, formatada por cidadãos de bem que instituem
a sociedade enviesada por ideologias perversas e excludentes, precisa daquele
gestor que tenha percorrido a jornada do
herói[6], para
que possa auxiliar na retirada da Excalibur[7] fixada
no coração de pedra da pessoa desumana e da pessoa desumanizada, para que a luz
necessária surgida desse ato, possa adentrar no orifício aberto por essa mesma
espada, permitindo enfim, desencadear o processo de cura, ao dissipar a
escuridão reinante nesse universo interior, revelando então, que, tudo o que
está dentro também está fora, e tudo que está acima também está abaixo.
Nesse processo onde a pele veste e a verdade
despe, em nome da tradição e dos bons costumes, a mentira se sente envergonhada diante
dessa lúcida nudez, e acaba por se esconder nas vistosas e ornamentadas passarelas iluminadas pelas brancas
luzes da hipocrisia, se travestindo com as sedutoras vestes de uma beleza fugaz,
efêmera, reciclada e renovadas ad eternun
pelo carnaval do autoelogio. Fazendo-nos esquecer de que quando se elogia o outro,
elogia-se a si mesmo, mas quando se adota o autoelogia como norte, o cidadão de bem acaba por instaurar nesse
momento, o self de Sísifu[8], num permanente processo de Seppuku[9]
como pseudo política de seu bom viver.
Portando, as espadas homicidas que diuturnamente
são cravadas nos ventres de pretas e pretos alijados e exilados do urbe et orbe, torna-se xifópaga a espada cravada
no coração da rocha metonímica transfixada em seu peito; a diferença entre ambas é que a primeira espada se direciona ao ventre do outro, enquanto a segunda espada é cravada no
próprio corpo, que necessita reumanizar-se para curar a ferida aberta, nessa alma
colorida por mais de 70 tons de preto[10].
Porque assim é...!!
[1] Este pensamento filosófico foi criado por Zenão
de Cício, na cidade de Atenas, e defendia que todo o universo seria
governado por uma lei natural divina e racional. ... Para a filosofia estoica,
a paixão é considerada sempre má, e as emoções um vício da alma, seja o ódio, o
amor ou a piedade.
[2] Doutrina do
filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.) e seus epígonos, caracterizada por uma
concepção atomista e materialista da natureza, pela busca da indiferença diante
da morte e uma ética que identifica o bem aos prazeres comedidos e espirituais,
que, por passarem pelo crivo da reflexão, seriam impermeáveis ao sofrimento
incluído nas paixões humanas. Por extensão o modo de viver, de agir, de quem só
busca o prazer; sensualidade, luxúria
[3] Esta Lei isenta o agente público
(policial) de qualquer testemunha para efetuar a prisão de quaisquer suspeitos.
Sendo assim, na prática o policial torna-se juiz e executor, não cabendo
qualquer recurso a respeito; vide o caso Rafael Braga.
[4] O policial QUE MATAR EM SERVIÇO NÃO PODERÁ
SER INVESTIGADO. Ou seja, o Estado dá licença ao policial para matar. Na
prática, a polícia militar se oficializa como esquadrão da morte.
[5] Recorrendo a essa regra que isenta o
policial de quaisquer responsabilidades pelas mortes de quaisquer suspeitos;
pelo simples fato do mesmo afirmar que o suspeito foi morto por resistir a
abordagem; o Estado dá licença ao mesmo de nunca fazer prisioneiros; fato este
que não ocorre nem em estado de guerra.
[6] Referência ao conceito de monomito,
de Joseph Campbell.
[7] Referência a lendária espada do rei
Arthur.
[8] Vide
“o mito de Sísifo”.
[9] “Cortar
o ventre”; conhecido no ocidente como haraquiri. Ritual de suicídio reservado a
classe de guerreiros japoneses.
[10] Referência
ao Colorismo.

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